Meine Shuld

11 Capítulo 11 - Pesadelo 11 - A Minha Confidente.


As vezes precisamos ouvir coisas que nos machucam, para aprendermos uma valiosa lição.

Arrependimento.

(...)

— Você não se cansa de comer? — perguntou Asuka, recusando mais uma vez um pedaço de uma fatia de pão que Mari havia lhe oferecido, ela já estava ali há quase uma hora e ela ainda não havia parado de comer, ela já tinha acabado com quatro pratos. — Eu já lhe disse que eu não estou com fome.

— Então pare de falar sobre o que eu estou comendo, pois eu estou com fome princesa. — ela lhe deu outro sorriso de migalha de pão, ela estava diferente, sem os óculos, e os cabelos soltos pelos ombros, parecia uma mulher totalmente diferente, mais bonita. — O que temos nesse olhar princesa? Finalmente reconhecendo minhas qualidades?

— Sim, você parece mais bonita do que antigamente. — respondeu, ignorando a careta levemente surpresa de Mari por ela ter admitido isso tão facilmente. — Você fica melhor de cabelo solto, mas eu acho que os óculos são sua marca registrada, podemos pegar um pra você mais tarde.

Ergueu os braços e as pernas para se espreguiçar, elas não trocaram tantas palavras, Mari havia ficado quase um ano dentro daquele mar, como Shinji havia decretado, todos podiam voltar, mas eram eles mesmos que tinham que decidir voltar. Ele pensou em tudo na verdade, não adiantaria a humanidade voltar para cometer os mesmos erros...

Mas Shinji nunca contou que ela cometeria a mesma coisa, e dezenas de vezes pior, Asuka não notou, mas ela estava fazendo uma expressão rancorosa, com ela mesma, e mesmo que Mari estivesse comendo como se tivesse ido para Somália, ela estava presentando atenção em tudo nela, Asuka parecia diferente, mas parecia incomodada, e do que conhecia da princesa, somente uma pessoa poderia fazer isso com ela.

— O que aconteceu no tempo em que eu estive fora? — perguntou Mari, parando de comer repentina. Asuka com certeza estava com alguma coisa entalada na garganta, e parecia querer falar com ela, ela iria chamar pelo seu nome novamente, mas ela ficou surpresa com o que viu.

Linhas finas de lágrimas escorreram pelas orbes da mais nova. Asuka estava olhando pra ela. Ela parecia suplicar por ajuda com os olhos. Ela ofereceu um espaço em sua própria cama, e quando fez isso, Asuka pareceu ter voado para os braços dela.

Ela nunca... Tinha visto Asuka demonstrar qualquer tipo de fraqueza, o que havia acontecido? O que ela havia perdido?

— Asuka... — ela ergueu o queixo da mais nova. — Me conte, o que aconteceu com você no tempo que eu estive fora?

Em algum lugar da mente de Mari, ela sabia que não deveria ter feito essa pergunta, ela sabia, pelo rosto odioso e arrependido, amargurado de Asuka, ela sabia que ela deveria ter esperado por saber o que havia acontecido, mas na hora, vendo-a daquele jeito, pareceu ser a coisa mais gentil a se fazer, fazê-la falar.

— Eu não sou digna de pedir ajuda pra ninguém. — Asuka dizia nos braços de Mari, ela podia sentir os dedos dela passando pelos seus cabelos. — Mas eu preciso conversar com alguém, eu preciso, eu preciso desabafar, eu não aguento mais manter isso dentro de mim... Eu preciso me expor, preciso dizer o que eu sinto.

Mari a olhou confusa, o que havia acontecido? Essa Asuka não era a Asuka que ela conhecia. Asuka jamais pediria ajuda, e com certeza jamais seria tão honesta quanto o que estava sentindo, mesmo que fosse muito óbvio.

— Tudo bem Asuka, eu estou surpresa por você estar desse jeito, mas com certeza deve ter um bom motivo pra você estar assim. — ela olhou seu rosto. — Deus, você parece estar doente, me diga, o que aconteceu? O que te fez ficar assim?

Asuka fungou por alguns momentos. — Eu fiz uma coisa horrível, uma coisa que está me consumindo, está devorando-me por dentro, em culpa e arrependimento, eu fiz uma coisa que eu não consigo suportar, não importa o quanto eu tente...

— Isso te algo a ver com o filhote? — perguntou Mari, sentindo todo o corpo de Asuka tremer por um momento apenas pela menção de Shinji, ela já podia imaginar que algo havia acontecido entre os dois, e parecia que foi algo muito sério. — Eu não vou te julgar, se é esse o seu medo.

Estava mais do que óbvio que esse era o principal temor, estava escrito no rosto da ruiva. Mari também não sabia o que ela iria ouvir, então ela só disse isso para encorajar a outra a falar. Asuka se afastou um pouco dela e ficou sentada na cama, olhando para parede, para ela, e para os lençóis, até dar um suspiro muito pesado. Ela agora tomou os olhos pra amiga, ou companheira, não sabia.

— Eu machuquei Shinji. — disse Asuka com uma voz dolorida, se lembrando das atrocidades que havia feito, não importava se ela tivesse tido uma conversa muito boa com Shinji, seu coração ainda não havia lhe perdoado e nem sua consciência. — De uma maneira que eu nunca tive coragem, de uma maneira que eu nunca vou esquecer, e que eu nunca vou perdoar.

Mari franziu o cenho com isso, o que ela estava falando? — Eu não estou entendo Asuka, você sempre deu alguns tapas e socos nele, mesmo que isso seja infantil, ele não está acostumado a isso?

Porém o olhar desgostoso que ela lhe deu, a fez repensar no que Asuka lhe disse.

— Asuka, você realmente machucou ele? — Mari perguntou numa voz temerosa, Asuka era mais forte do que Shinji, se ela voltasse sua atenção para feri-lo, Shinji não saberia se defender, Asuka foi treinada em combate desde pequena em uma escola militar, Shinji era um garoto que tocava música. — Deus Asuka, você fez alguma coisa ruim?

— EU FIZ! EU SOU UM MONSTRO! E MESMO ASSIM, ELE NÃO ME ODEIA! — Mari recuou seu corpo para trás com a súbita explosão de Asuka, ela tinha um olhar doído em suas feições, Mari não conseguia entender nada até agora. — EU NÃO PODIA ME CONTROLAR, EU ESTAVA TOMADA PELA MINHA RAIVA, CEGAMENTE INDO EM DIREÇÃO AO MEU RANCOR E A MINHA PRÓPRIA MESQUISSE! SHINJI ESTÁ NESSE HOSPITAL, E A CULPA É MINHA...

Quando ela lhe disse que a culpa era dela, era como se ela tendo falado isso, uma faca passasse sobre seu coração, como se a verdade fosse dolorosa e ela tivesse que engolir isso garganta a baixo. Mari não sabia o que fazer, ela nunca tinha passado por essa situação antes.

— Princesa, eu não sei o que você fez pra ele, mas pelo jeito que você está me contando, parece que você ultrapassou todos os limites... Então, eu quero que você pare de se culpar por um momento, me deixe a par da situação... Você consegue fazer isso?

Mari esperou a ruiva colocar seus pensamentos em ordem, ela parecia muito diferente do que estava acostumada.

— Eu quebrei o braço dele. — ela começou a contar o que havia feito, ela sentia sua garganta queimar, mas ela não tinha mais ninguém pra conversar sobre o que havia feito, ela não sentia-se bem em se abrir para Misato, não se sentia á vontade, e ela não procuraria Shinji pra empurrar os problemas dela pra ele, sendo que ela que os começou. — Eu chutei ele... Nas costelas, ele quebrou as costelas... Eu... Eu torturei ele depois que fomos encontrados pelo pessoal da NERV...

Mari tinha os olhos arregalados, e a surpresa estava escrita em seu rosto, mas ela não tomaria nenhuma ação agora, deixaria ela terminar.

— Eu não aprendi nada com a instrumentalidade, eu continuei sendo o mesmo lixo, o mesmo monstro... — ela apertou suas unhas sobre suas coxas, tirando filetes de sangue, Mari tomou suas mãos para ela parar. — E ele me salvou de mim mesma... Ele poderia ter fugido, e me deixado pra morrer, mas não... Shinji é bom demais pra fazer algo assim... Durante meses, ele cuidou de mim, e eu descontei todo o meu ódio nele... Eu abusei dele... De todas as maneiras que eu podia, enquanto tudo o que ele fazia era cuidar de mim Mari... Abusei psicologicamente, fisicamente... E também...

Mari sentiu o seu ar falhar por um momento quando ela se deu conta do que Asuka iria se referir.

— Sexualmente também... — ela podia ver a vergonha desgarrada no rosto de Asuka. — E o pior de tudo, que eu continuei fazendo isso, durante quase um ano... Foram meses repetindo isso... Eu não fui nada além de um monstro para ele, o coloquei nesse hospital em uma ala de perigo, e mesmo assim... Ele consegue ficar perto de mim... Eu não sei como eu devo agir... As vezes eu penso que se eu fugisse, seria muito melhor pra ambos, mas eu estaria sendo uma covarde, eu prometi que não fugiria e que o ajudaria a passar pelo inferno que eu o coloquei... Eu não sei o que eu devo fazer Mari... Me diga, o que eu faço?

O desespero na voz da mais nova era muito evidente, ela parecia a ponto de colapsar. Mari tentou dar um sorriso reconfortante, mas ela não poderia fazer isso, os sentimentos dela estavam mistos, uma voz em sua cabeça dizia que ela deveria se afastar de Asuka agora, e fazer Shinji ficar longe dela para sempre, mas outra lhe dizia que se afastasse os dois, só iria piorar cada situação.

— Eu não sei o que devo te dizer Asuka. — Mari lhe respondeu. — Em toda minha vida, eu nunca pensei que isso aconteceria, mas parece que você agiu mesmo como um monstro, e minha pergunta pra você é, você já falou com ele?

Asuka fungou novamente. — Sim... — ela lhe respondeu numa voz pidona. — Eu me desculpei verdadeiramente com ele, ele chorou quando eu dizia isso, acho que ele nunca esperava isso de mim... Estamos em termos melhores, mas eu não estou em um termo bom comigo mesma... Acho que nunca vou conseguir.

Mari suspirou cansada com isso, ela já tinha acabado de voltar, e parece que o mundo já tinha desabado sobre seus ombros novamente. Eram notícias demais pra lidar, e sua preocupação era com Shinji no momento, mas Asuka estava lhe pedindo ajuda, e ela nunca pediu isso antes. Ela estava em um beco sem saída, é em momentos como esse que você percebe que não importa a idade, você sempre será colocada em situações de risco.

— Em toda as situações que nós estivemos com Shinji, eu nunca vi ele ter ódio por alguém, nem pelo pai e a mãe dele ele tem rancor no coração, mas eu lhe digo uma coisa Asuka, a mágoa transborda pelos poros dele. — ela agarrou o rosto, demonstrando seriedade. — Eu quero te espancar, pelo o que você me diz que fez, você abusou de um garoto que não fazia nada além de salvar a sua vida e a de todos nós. Ele pode ter aceitado as suas desculpas Asuka, ou seja lá o que você fez quando conversaram, mas isso não significa que isso vai melhorar as coisas...

Asuka assentiu com o que ela lhe disse, ela também sabia disso, ela teria que fazer um esforço muito real pra fazer as coisas voltarem a normal, e ela teria que manter isso funcionando.

— Eu não quero mais fazer nada de ruim pra ele, Mari. — ela disse honestamente. — Eu me cansei de fazer de vitima pelo passado, Shinji precisa de mim, mas eu tenho que me entender primeiro, eu não sei como viver comigo mesma, toda vez que eu não estou perto dele, quando eu fecho os olhos, os monstros que me assolam vem a minha mente... E eu vejo Shinji, pendurado no teto, com uma corda no pescoço, eu acordo suada, e corro pra cá... Pra ficar perto dele... Ficar perto da pessoa que eu quase matei.

Um silêncio se instalou naquele quarto. Tudo o que dava para ouvir era os fungos da ruiva. Mari estava perdida nisso também.

— Asuka, eu sinto que eu não posso fazer nada pra mudar, ou pra te fazer melhor com você mesma. — começou Mari, olhando para a janela por um momento. — Mas se isso te ajuda, eu teria atitudes diferentes com o filhote por agora, ele precisa voltar a confiar em você novamente, ele deve estar assustado com você...

Asuka assentiu com isso, ela ainda podia ver o temor passar como um flash pelos olhos dele, o medo e a desconfiança ainda pairavam nos olhos dele, ela nunca se esqueceria disso, o medo que ela o fez sentir só de estar perto dele.

— O que eu devo fazer? — perguntou Asuka, buscando uma forma de entender o que estava acontecendo dentro dela mesma. — Como eu devo agir? O que eu posso fazer pra ajudá-lo? Como eu posso fazer ele confiar em mim?

— Merecendo isso, Asuka! — ela exclamou pra ela. — Se você ficar com auto piedade e afundada em arrependimento, como você poderá ajudá-lo? Não adianta nada você ter conversas e conversas com ele, se você está se arrastando no próprio desgosto, ele não quer ver você desse jeito, eu garanto, Shinji tem um coração bom, e ele nunca iria conseguir guardar rancor de alguém, e você também não é exceção Asuka, então para de se culpar a todo momento, e seja presente na vida dele, porra. Se você quer fazer o papel de auto piedade, venha até mim, meus ouvidos são seus, mas quando você sair por aquela porta, seja um porto seguro pra ele agora, faça ele confiar em você, com suas ações Asuka, não com suas desculpas e lamentações.

Isso foi como um forte estrondo em todo o corpo de Asuka, Mari tinha razão, ela não melhoraria nada afundada na lama, e o pior, é que no fundo ela sabia que Shinji não desejaria o mal pra ela, ele era simplesmente bom demais pra querer o mal do próximo. Mesmo que ela tivesse que viver com esse erro grotesco, Shinji precisava dela, e precisava dela agora.

— Eu vou tentar Mari. — disse para a mais velha. — Amanhã, ele vai receber alta do hospital, e vai ter que tomar muitas medicações, eu ofereci pra ele uma pequena recepção, algo que ele gostasse de comer, mas ele me disse que queria manter as coisas normais... Eu não sei seu consigo fazer isso. Eu sinto como se ele fosse de vidro, um toque ele quebraria em mil pedaços.

Mari franziu o cenho com a analogia que ela fez. — Se você acha que ele vai se machucar, então faça o papel de guarda-costas pra ele, você precisa ser presente com ele, e deixá-lo somente com pessoas que você confia, no caso eu poderia tomar conta dele se você precisasse, você sabe que o máximo de maldade que eu posso fazer pra ele é provocá-lo sobre mulheres. — Mari lhe entregou um sorrisinho malicioso, tentando amenizar o clima tenso que havia sido posto ali.

— Eu não me sinto mais tão bem longe dele, pena que eu tive que quase perdê-lo pra admitir e entender isso. — disse Asuka, não captando o sorriso da mais velha. — Não precisa jogar na minha cara que eu pareço uma menina apaixonada, eu sei que estou igual a uma.

— Então você admite que o amava? — perguntou Mari curiosa, desde sempre ela teve suas suspeitas e as vezes certezas sobre os sentimentos dela para com o filhote, Asuka estava sempre perto dele, tentando chamar sua atenção. — Isso é bem impressionante, você não costumava ser tão direta quanto os seus sentimentos.

— Foi por causa do Shinji que eu fiquei desse jeito. — respondeu Asuka, se sentando na cadeira. — Quando eu tive uma conversa séria com ele, eu fui totalmente honesta sobre como eu me sentia, e ele gostou disso, então eu pretendo ser mais... Sincera e deixar meu orgulho de lado, quando eu estiver com ele, e com meus amigos.

— Isso é uma evolução da sua parte Asuka. — comentou se deitando na cama. — Enfim, já é quase três da tarde, eu estou com sono, vou dormir até amanhã... E eu tenho uma pergunta, onde eu vou morar depois que eu sair daqui?

Asuka a olhou confusa por um momento. — No mesmo apartamento que todos os pilotos estão morando, no prédio da Misato, ela mandou fazer reforma. — ela viu o sorriso crescer no rosto de Mari. — Tem duas pilotas novas por aqui, e uma é uma antiga colega minha. — Mari observou as feições dela se torcerem.

— Deixa eu adivinhar. — ponderou Mari. — Você não gosta dela porque ela é interessada no seu filhote? — Asuka apenas assentiu e continuou.

— Não apenas isso. — ela comentou. — Ela era uma amiga do Shinji, da época que ele morava com seus tios, ou seja lá o que aqueles malditos fossem... E ela demonstra interesse demais nele, e eu não confio nela, não por ciúmes, mas porque uma vez quando eu fui de sorrateira no quarto dele, ela estava lá, provavelmente muito mais tempo do que eu posso imaginar...

— Bom, se eu morar perto de vocês como você está dizendo, eu posso te ajudar a controlar as pessoas perto dele, mas eu não vou intervir se Shinji quiser passar um tempo com outras pessoas, você concorda?

— Bom o suficiente. — deu a conversa por encerrada. — Obrigado por me ouvir e por me ajudar Mari, eu não saberia o que fazer sem você. — agradeceu para a mais velha e saiu do quarto, ela iria para casa agora. — Quando você estiver melhor, Misato vai te ajudar com a sua mudança, e teremos que passar em lojas ainda, pra mobília, enfim, qualquer coisa que você precisar fale com a Misato. — fechou a porta.

Mari observou ela passar pelos vidros até sumir da sua visão, ela suspirou cansada com o que havia ouvido. — O que diabos aconteceu... — ela resolveu tentar tirar a cabeça disso, mas não conseguia, provavelmente não iria dormir bem essa noite com o que ouviu. Ela do mesmo jeito se virou e tentou dormir, estava podre.

E nessa situação, ela não conseguiu ver o deslumbre de uma garota loira passar pelo seu quarto, uma garota loira com uma camiseta escura usando bonitas, os olhos verdes parecendo destemida e a feição, uma máscara de polidez.

Ela pegou o elevador e foi para um quarto especifico, quarto 177, quarto da pessoa que ela precisava falar. O quarto do garoto que ela havia sentido a falta durante anos.

Estava na hora de se apresentar pra Shinji, mais uma vez.