Quando a reunião terminou, todos arrumaram suas coisas e, pela cordialidade e educação da diplomacia, os dignatários se cumprimentaram. Nesse tempo, Pedro e Domitila se sentiram igualmente deslocados, o que foi a oportunidade perfeita para procurarem um ao outro.

—Posso saber o que uma moça tão bonita como você está fazendo no meio de todos esses... senhores? — Pedro até pensou em dizer velhos, mas não queria ofender ninguém e cair em maus lençóis com o pai.

—Nossa, não tem nem um oi ou outro tipo de coisa? — ela respondeu quase no mesmo tom de atrevimento — e por que eu não estaria ali? Acha que eu não deveria estar ali porque exatamente?

—Ah por nada, é que eu mesmo já estava um tanto entediado e você também não tava prestando atenção — ele apontou.

—Pra saber que eu tava distraída você também não tava prestando atenção, aliás, estava prestando atenção em mim — Domitila apontou, sem hesitar.

—É claro, como eu disse, você é uma moça bonita e isso não se passa despercebido — Pedro tentou de novo, o que arrancou uma risada dela.

—Qual seu nome mesmo? — ela se interessou no rapaz.

—Pedro, Pedro Bragança, mas você pode me chamar de Pedrinho se quiser — ele lhe deu uma piscadela travessa.

—Vou ficar só com Pedro mesmo, eu sou Domitila de Castro, acho que é um prazer te conhecer — ela foi sincera, meio desconfiada, mas se encantando por ele.

—Acha? Pelos seus sorrisos e risadas achei que era um prazer de verdade me conhecer — ele devolveu, um tanto indignado.

—Bom, é que eu estou rindo do seu jeito mesmo, você pode ser meio irritante, mas interessante, confesso — ela confessou.

—Se eu sou realmente interessante, aceita sair comigo, agora? — Pedro não perdeu tempo.

—Agora? Bom, agora não estou disponível, ainda tenho que acompanhar meu irmão com algumas coisas, mas quem sabe mais tarde? — ela sugeriu — me liga de volta.

Pedro não precisou que ela repetisse para entender o que ela estava fazendo. Domitila lhe deu seu número e os dois combinaram de se ver mais tarde naquele mesmo dia.

Antes que a hora do encontro chegasse, João notou o filho mais ansioso que de costume.

—Aconteceu alguma coisa, Pedro? Você parece... agitado — comentou o pai.

—Achei que o senhor diria outra palavra — o jovem cruzou os braços — mas não é nada não.

—Tomou seus remédios hoje? — João ainda não estava muito confiante do estado do filho.

—Claro que sim, eu sei que não posso esquecer — Pedro afirmou, um tanto ofendido.

Seus remédios para controlar a epilepsia faziam parte de sua vida desde que era um menino. Era algo bem ruim de se lidar, ainda mais quando ele era criança, mas como tudo na vida, teve que se adaptar ao seu estado. Hoje em dia, ele era grato por manter sua condição controlada. Logo ele entendeu que seu pai tinha imaginado que sua agitação se devia ao início de algum ataque. Não se tratava de nada disso.

—Quer mesmo saber o que tá havendo? — o jovem sugeriu.

—Sim, eu adoraria saber, você é meu filho e me interesso por sua vida — João respondeu com boa vontade.

—Certo, certo, é que eu combinei de sair com aquela moça que estava na reunião — o filho confessou, muito animado.

—Ah Pedro, eu deveria imaginar... — João ficou um pouco decepcionado — bom, pelo visto você não prestou muita atenção na reunião, não é? Era isso que eu queria te perguntar.

—Não, não, não, o senhor se enganou comigo mais uma vez, eu entendi algumas coisas sim sobre a reunião, mas não deixei de notar a Domitila, até porque eu não sou cego e ela estava bem ali — se justificou o jovem.

—Está bem, eu entendi — o pai suspirou — pode sair com ela contanto que lembre das suas responsabilidades.

—Claro que eu vou — Pedro garantiu mais uma vez.

Seu pai se esforçou para acreditar nele.

Assim, o tempo passou e Pedro foi direto para onde ele e Domitila tinham combinado de se encontrar. Ela conhecia relativamente bem a cidade, pouco mais que ele, por isso ele deixou que ela escolhesse o lugar, sem risco de se perderem.

—E aí está você! É muito bom te ver de novo, Pedro Bragança — a voz dela, com certo tom de deboche, soou aos ouvidos dele, que a reconheceu imediatamente.

Pedro a viu sentada à bancada do restaurante, de um modo muito casual.

—Eu disse que viria e aqui estou — ele sorriu, ignorando o jeito sarcástico dela e indo sentar-se ao seu lado — como é que você passou esse tempo sem mim?

—Muito bem, obrigada, mas confesso que estava ansiosa por esse encontro — ela afirmou com um pouquinho de verdade.

—Por que exatamente? — ele se curvou para mais perto dela, se apoiando no seu braço sobre o balcão.

—Eu não conheço muitos cariocas, e você é carioca — Domitila desdenhou, mas estava claro que ela estava se encantando pelo rapaz.

—Ah aí que você se engana, meu sotaque até pode ser carioca, ou qualquer outra coisa que você imagine — ele sabia que seu jeito de falar era uma mistura peculiar de sotaques, um pouco do Rio, um pouco de Lisboa — mas eu não sou totalmente do Rio, quer dizer, sou de lá, mas de outros lugares também.

—Então de onde afinal você veio? — ela pôs uma mão debaixo do queixo, curiosa.

—Isso é uma longa história, que eu terei todo prazer em te contar — Pedro deixou o mistério no ar.

—Eu não estou com pressa — respondeu Domitila, interessada.

Assim, a conversa foi para a história de Pedro como um imigrante português e sua trajetória no Brasil. Domitila prestava atenção e comentava o que achava de tudo aquilo, convencida de que estava totalmente interessada em Pedro.