Por sua mente cansada, Leopoldina adormeceu logo, mas seus últimos pensamentos antes de cair no sono foram sobre Pedro e admitir a si mesma que gostava do rapaz.

Pedro também estava descansando, já que no dia seguinte, estava esperando receber um convite especial de seu pai. Pela manhã, o Dr. João organizou muitas questões da embaixada, mas sua tarde estava reservada para uma viagem de cortesia a São Paulo. Outros dignatários de países diferentes viriam ao Brasil, desembarcando na maior cidade do país. Mesmo morando há muito tempo no Rio de Janeiro, o Dr. João sabia exatamente como era ser um representante internacional, um estrangeiro naquela terra tão distante da Europa e do resto do outro lado do Atlântico, por isso, ele seria uma espécie de guia para os visitantes.

Aproveitando toda essa articulação, ele achou que fosse bom para Pedro observar tudo isso e aprender alguma coisa, mesmo com a grande possibilidade de ele não ser um embaixador um dia. O jovem se aprontou, depois de mais uma manhã de estudos com Leopoldina, se despedindo dela, quase deixando sua casa.

—Espero que faça uma boa viagem — ela disse com um sorrisinho sem graça, típico de menina apaixonada.

—Muito obrigado, Leo — ele disse, quase percebendo isso, ponderando se seria seguro lhe dar uma piscadela, mesmo assim, ele piscou.

Ela disfarçou o suspiro involuntário que surgiu. Não restava dúvidas, ela estava apaixonada por Pedro Bragança, a ponto de agir como uma adolescente boba.

—Quem sabe um dia desses a gente poderia ir pra São Paulo também — ele ofereceu, tentando-a tirar de seu transe.

—Eu adoraria, continuar conhecendo o Brasil — ela afirmou, com outro sorriso meigo.

Sem mais palavras, Pedro lhe deu um último aceno, ela o observou sair da casa, claramente animado. Num breve momento, o Dr. João também percebeu o olhar de Leopoldina sobre eles e acenou para a jovem, que o respondeu da mesma maneira. Ela esperava que a sua viagem fosse muito produtiva e que se possível, eles pudessem voltar rápido, para que ela voltasse a passar mais tempo com Pedro.

A capital do estado vizinho do Rio de Janeiro mantinha-se corrida e movimentada, com seus engarrafamentos e contratempos no trânsito, que não deram trégua nem mesmo aos Bragança. Mesmo com um pouco de impaciência, o humor de Pedro melhorou quando ele e o pai chegaram ao seu destino final em São Paulo.

Antes de irem à Secretaria de Relações Internacionais, repousaram um pouco no hotel. João teria uma longa reunião pela frente e também queria que o filho o acompanhasse como seu ajudante pessoal, para isso, os dois teriam que estar bem descansados e dispostos.

Mesmo assim, Pedro sendo o enérgico de sempre, cochilou por uma hora e resolveu sair, explorando a cidade que não conhecia tão bem quanto o Rio por conta própria.

Andou por várias ruas agitadas e compridas, numa caminhada a pé, cumprimentando quem o encontrasse, mesmo que as pessoas estranhassem isso. O rapaz era naturalmente simpático e se dava bem com as pessoas, e além disso, gostava de conhecer pessoas novas, especialmente fazer amigas novas. Antes que se distraísse demais, ele se lembrou dos compromissos com seu pai, voltando à Secretaria pouco antes da reunião começar.

—Ah que bom que está aqui, já achei que você se atrasaria — comentou João ao encontrá-lo.

—Sua falta de fé em mim me magoa muito, pai — o jovem fez uma careta — mas enfim, eu prometi que ia me comportar nessa viagem, e de qualquer jeito, eu já tô aqui mesmo.

João apenas deu um sorrisinho, compreendendo o jeito do filho mais uma vez.

Dignatários presentes vieram cumprimentar os Bragança e eles tomaram seu lugar. Bem ao lado deles, havia outra dupla que eles não conheciam.

Francisco de Castro e sua irmã, Domitila, estavam ali pelos mesmos motivos de João e Pedro. Francisco, um homem já em seus 30 e poucos anos, tinha acabado de ser nomeado secretário, representante de uma das cidades do interior de São Paulo. Meio intimidado por aquela ser sua primeira reunião, ele pensou em chamar a irmã para acompanhá-lo. Pouquíssimas coisas eram capazes de amedrontar Domitila e um bando de políticos e secretários não se encaixava nessa lista, por isso, por mais que ela entendesse a seriedade da situação e se comportasse como tal, ela estava se sentindo relaxada e à vontade.

Pedro a notou imediatamente, trocando um rápido olhar com Domitila e aquele breve gesto, já fez o rapaz pensar nas possibilidades que poderiam vir se ele tivesse a oportunidade de conversar com a jovem a sós. Para ele, ela era linda, tinha uma pele rosada impecável, os longos cabelos escuros caíam por seus ombros, seus olhos tinham um tom esverdeado escuro, uma coisa rara que Pedro nunca tinha visto. Ele parou de observá-la quando a reunião começou, por mais que estivesse interessado naquela desconhecida, também sabia das responsabilidades e expectativas que seu pai tinha para com ele.

Domitila e Pedro ouviram os dignatários, ele anotou o que achou interessante, chegando até a entender o que eles estavam dizendo e explicando, graças às suas aulas particulares com Leopoldina. Lembrar da austríaca fez Pedro dar um sorrisinho, sua amiga estudiosa amaria estar no lugar dele, ele fez uma nota mental de contar o que pudesse sobre a reunião a ela, assim que voltasse para o Rio.

Quando a reunião se encerrou, Pedro foi rápido, alcançando Domitila antes que ela fosse embora. A moça por sua vez, percebendo o belo rapaz em seu encalço, não hesitou em se virar de frente pra ele e ouvir o que ele tinha a dizer.