Meia Lua

3 Aqueles que esperam a noite.


— Cara, é loucura, mas tem chance de dar certo.

— Você os chamou porque sabia que eu não iria matar aquele doutorzinho genocida na frente deles, né?

— Também, e não estou arrependido. Com todos eles, existe uma chance. E se ainda tem um coração naquele canalha, ele pode nos ajudar a encontrar uma solução.

— Se não tiver, eu mesmo vou amarra-lo e jogá-lo fora do laboratório. Mauro, quanto tempo dura esse sossega-leão mágico que você pôs em mim?

— Mais algumas horas. Tenta dormir, Cas. Só teremos esse quarto de hotel mais duas noites.

— Não consigo fechar os olhos sem vê-los, Mauro. Hoje tava pior. Estava sentindo o cheiro, aquele cheiro podre que acho que vai grudar no nariz pra sempre. Você tem sorte, tem esse bicho mágico sociopata que absorve o pior por você.

Suspirou, olhando a parede. — Quando eu olhei pra Maria hoje, junto com a Marina e a Isa, preocupada comigo...Mauro, foi o inferno. Eu sei que eu vou sonhar com o dia em que a gente encontrou o corpo dela. Ou com os olhos do Cebola me encarando. Nem a pau eu vou dormir essa noite.

— Mas falar com o Cascão te ajudou um bocado, deu pra ver.

— Eu entendi tua alegria. Eu pude pedir perdão a ele. Isso ajudou mesmo. Você ficou meio doido lá, Mau. O que foi aquilo?

— Nem lembro a última vez que eu ri daquele jeito. Eu tinha brigado com DC no dia em que ele morreu, Cas. Ele tava confuso sobre a Mônica, sem entender porque ela estava fria com ele. Ele não gostou de ouvir o que eu pensava, que sua namorada queria mesmo o Cebola, mesmo que isso não fizesse bem a ela. DC me xingou de frouxo, porque eu sabia que Ramona gostava de mim e não tinha coragem de se aproximar.

— Mas você é mesmo, ué.

— Cala a boca e escuta. Estávamos quase gritando um com o outro quando ouvimos os gritos dos nossos pais. O DC, com aquele jeito torto, sempre entendeu as coisas mais rápido que eu. Eu queria correr e tentar salva-los, meu irmão se jogou contra a porta e a segurou com o corpo. Ele me mandou pegar sua mochila de viagem (que sempre deixava pronta, sei lá a razão) e vazar dali pro Fred. Nem o Mandrako faz magia sem se concentrar. Eu ouvia todo o barulho lá embaixo e não consegui. Eu o ajudei a arrastar a cama pra bloquear a porta. DC correu pra janela também e vimos o desastre lá fora, aquelas coisas entrando na casa.

Mauro baixou a cabeça, a vergonha tão intensa quanto no primeiro dia.

— Travei. Eu só pensava “Nós vamos morrer! Eles vão comer a gente vivo, merda!”. Eu me mijei de tanto medo, e nem reparei.

— Foi verdade? Pensei que era piada do Luca.

— Aquele lá dança um samba antes de aprender a contar piadas. Aconteceu, fazer o que? A próxima coisa que lembro são dos tapas do DC na minha cara, rosnando “Acorda, cacete! A gente tem que sair daqui agora!”. Meu irmão jogou as roupas de motociclista dele em mim, jogou o capacete e me mandou vestir, enquanto ele pegava uma jaqueta de couro e outra calça.

— Mas o DC não tinha uma motocicleta, tinha?

— Não ainda. Ele tinha começado as aulas, comprou toda a roupa antes. É o DC, vai saber. Vesti aquilo como deu, ele tirou uma porcaria de lança das coisas de ninja, enfiou um monte de armas na mochila e jogou em mim. Nem sabia que ele tinha uma lança! Pra que diabos ele tinha uma arma daquelas?

Cássio virou-se pra ele, solidário. A voz de Mauro estava repleta de amargura.

— Antes de sairmos, DC cochichou: Eu vou abrir caminho como der. Você me protege como conseguir. Use a mochila como escudo. A gente sai daqui e corre pra casa do Franja. Não vai parar por nada nem ninguém. Nem pela Mônica. Entendeu, Mauro?

“Concordei. Nós tentamos correr, mas tinha muitas daquelas coisas no caminho. Nós dois ficamos cobertos de gosma, sangue e sei lá mais o que. Me puxaram pela mochila uma porção de vezes, me encolhi atrás dela e corri. Os nossos pais já estavam mortos quando a gente desceu.

Por algum milagre, nós saímos e tinha bem menos infectados aqui fora. Foi quando eu tive a ideia. Caminhamos como eles, devagarinho. Havia gritos por todo lado, mas não olhei. Tentei fazer quase todas as magias de sumiço que conhecia, mas nenhuma funcionou bem.”

— Caralho, Mau. Mas como vocês...

— Eles nos deixaram em paz. O cheiro, acho. O DC andava cada vez mais devagar, cambaleando. Quando pareceu que estávamos seguros e virei pra ele, o pescoço tava coberto de sangue.

Cássio quis interromper. Lembrava com clareza do DC em pé, segurando uma lança, um buraco enegrecido no ombro, parado na frente do laboratório. Então foi aquilo que aconteceu?

Mauro nem percebeu o movimento.

— Um daqueles merdas o tinha mordido no pescoço, outro na mão. Ele pressionava a ferida, mas parecia uma torneira aberta. Tentei ajuda-lo, ele me empurrou. Jogou a lança em mim. Nós dois sabíamos como acontecia nos filmes de zumbi. O que eu tinha que fazer.

— Mau, você...

— Me deixa terminar, droga. A cara do DC quando entendeu que eu não iria mata-lo... Ele ficou indignado, certeza que me bateria se pudesse mas já não tinha força pra ficar em pé. “Por que?”, ficou lá perguntando enquanto eu fugia. Como eu fiz aquilo com o meu irmão, Cas? Como eu deixei o DC virar um monstro como os que mataram nossos pais?

Cássio queria tanto ter uma resposta, alguma coisa pra aliviar a dor. Mauro inspirou fundo e voltou a falar.

— Do Contra morreu com ódio de mim, Cássio. Poder abraça-lo, agradecer e dar um jeito de pelo menos uma versão dele nunca saber o covarde de merda que eu sou de verdade...Cara, eu daria minha vida por isso. Ouvi-lo dizer que tá feliz que eu tenha sobrevivido não tem preço. Mesmo que não seja verdade.

— Você e eu sabemos o que ele tava fazendo lá na frente do laboratório. Teu irmão estava lá guardando a porra da entrada, protegendo você, e ele não faria isso depois de infectado se te odiasse. Só o DC e a Mônica não atacaram a gente. Você sabe disso.

— Eu sei o que vi nos olhos dele, Cássio. Eu deixei o DC virar um Obsessivo. Deixei o meu irmão pra trás. Ele salvou minha vida de merda, e eu o larguei como uma latinha vazia. Sou um covarde egoísta do caralho. Até eu me desprezo. Como ele não me odiaria pelo que fiz?

— Você nunca me contou. —Tentou mudar de assunto, com o tom mais conciliador que conseguiu. Era errado vê-lo disparar tanto ódio contra si mesmo. — Por que tá me dizendo isso hoje?

— Amanhã ou depois vamos sumir com o Doutor, e pode ser que nosso mundo acabe nunca existindo. Que a viagem dê errado e a gente desapareça. Eu morra aqui, sei lá. Eu queria que você soubesse.

E para de se chamar de monstro, psicopata, assassino. Você é um cara feito meu irmão: sabe o que precisa ser feito e faz. Você não é o monstro aqui.

— Você não é covarde, Mauro. Não mesmo. Você é o que me impede de enlouquecer. Eu não sou um monstro porque quem eu amava morreu. Foi uma merda, e ainda sinto cada um deles como se fosse hoje.

Sou um maldito sociopata porque passei a gostar da hora em que a gente sai do laboratório e se arrisca por um saco de ração ou umas latas de sardinha. Senti prazer em mandar de volta pro inferno aqueles mascarados que nos caçaram e roubaram. Sinto orgulho de termos matado todos e nenhum ter dado um pio. É por isso que eu sou um monstro.

Quando eu olhei pro Cascão e vi o que sou agora, não deu pra aguentar.

A risada de Mauro não tinha humor — Eu pensei que era o disfuncional aqui. Obrigado por saber o pior de mim e não querer me matar.

— Eu tentei. – Murmurou, quase pra si mesmo.

— Como é?

— Teve uma vez em que você passou toda aquela nojeira nas roupas e adoeceu de verdade, Mauro. Não sei se aquilo respingou na boca, mas você ficou muito mal. Eu ainda estava com a minha antiga perna ruim, lembra? Você estava ardendo em febre, não dizendo coisa com coisa. Quando começou a ficar cinzento, tremendo e espumando feito um cachorro raivoso, eu me tranquei contigo na sala de ferramentas e fiquei com um martelo e uma chave de fenda na mão, enquanto Luca e Fred gritavam que eu não fosse maluco, que abrisse a porta.

— Puta merda, fiquei tão mal assim?

— Pior. Luca xingou cada um dos meus ancestrais com uns nomes tão criativos que depois me pediu desculpas pelo que disse da minha mãe. Fred tentava arrombar a porta da sala de qualquer jeito, mas era reforçada demais. Eu gritei pros dois que parassem de chilique, que você só sairia dali melhor ou morto. Fred estava tão furioso comigo que respondeu que se eu saísse sem você ele me acertaria com um cortador laser na cara.

— Há, há, há! Fred nunca me contou essa parte. Sério, “chilique”? Quem é você? Minha avó?

— Ele estava mesmo com o cortador laser apontado pra porta quando saímos. Ele iria derreter minha cara se você morresse. — Ele parecia quase rir — Mesmo que gastasse a energia do laboratório inteiro. Foi a pior noite da minha vida, e isso contando com aquela da padaria.

— Ah, naquela noite tentaram nos matar o tempo todo. Não pode ter sido pior que aquilo.

— Foi. Vendo você respirar estranho, cinzento, eu tinha tanta certeza que você estava virando um deles. Minha única chance era se eu acertasse você antes de se levantar. Não iria lutar com um pé quebrado contra um Obsessivo recente. Eu teria enfiado aquela chave de fenda na sua cabeça com o quanto você piorou aquela noite. Mas ter Fred e Luca me ameaçando de morte e coisas piores lá fora me fizeram esperar até o último minuto.

“Aguentei umas trinta horas, de tão apavorado. Eu não lembro de ter dormido, mas Luca me disse que quando você melhorou eu roncava do seu lado. Nunca mais me acorde daquele jeito, seu filho da pu-“

— Xingue minha mãe e ciborgue ou não, te encho de porrada.

— Você me acorda com uma mordida, seu fresco duma figa? Agora é engraçado, mas quase me matou de susto!

Riu tanto que demorou pra ver Mauro o encarando com raiva, os dedos enfiados no colchão.

— Você não iria me esperar virar um Obsessivo. Você ia me matar porque achava que eu tava virando um.

Cássio olhou pra ele pálido. Num segundo o choque virou raiva.

— Peraí, você acha que eu gostei? Ficar trancado numa salinha, maluco de tanto medo, esperando você levantar de repente e mastigar minha cara? Nem ferrando você ia matar todo mundo porque eu tava com pena de você!

— Primeiro você espera seu amigo virar um canibal insano, depois você enfia uma chave de fenda na cara dele! Nessa ordem! Você. Não. Pula. Etapa. Seu. Porra! Eu não fui mordido, animal! Pensei que você tava me esperando me transformar, não que iria fazer isso antes! Eu confiei em você, caralho!

— Desculpa, tá legal? Eu quase pirei de remorso quando vi que você ficou bem de novo! Não queria você morto também! Você acha que eu ia conseguir sobreviver sem você, ô idiota?

Mauro não respondeu, perplexo. Cássio olhou pra ele, o rosto parado numa careta atordoada. Vestiu uma calça e ainda enfiava o casaco quando saiu voando pela porta, o som do pé metálico ecoando no corredor.

Mauro ficou olhando a porta fechada um bom tempo antes de deixar o rosto cair entre as mãos.

— Ah, merda, o que aconteceu aqui?

Notas finais
Obrigada por acompanharem até aqui, e até o próximo capítulo.