Meia Lua
4 Aqueles que perdem, aqueles que encontram
Notas iniciais
Longe das magias de Mauro, Cássio começou a perceber como se sentia mal na cidade. Tantas pessoas. Tanto barulho. A qualquer momento ouviria os gritos de quando as criaturas começaram a chegar, o coração galopando no peito, tentando frenético descobrir o quanto tinham calculado mal. E se já estivesse começando, e fossem viver tudo aquilo de novo?
Começou a reconhecer os rostos e teve certeza: Chegaram no dia errado. Estava começando, e estava ali exposto, desarmado, sozinho, no meio de uma multidão que iria esmagá-lo. Tinha que sair dali. Tinha que sair dali agora! O laboratório estava longe demais! Porque eles se hospedaram do outro lado do bairro? Maldita arrogância, onde diabos iria se refugiar agora? Nos edifícios? Não, muita gente! Começou a correr, fugir pra algum prédio público... Não, foi pra onde todo mundo fugiu! Tinha tanta gente assim na cidade? Droga, tinha tanta gente assim no mundo? Uma loja! Isso! Uma loja de comida, de artigos pra acampamento, de ferragens? Todos nessa droga de lugar vivem só de papel?
Olhava pra todo lado, agoniado. “Inferno”, pensava, “não vai dar tempo! Eles estão vindo! Tenho que correr mais, merda!”
Já não sabia onde estava, só que tinha que correr pra longe de tantas pessoas, que iriam entrar em pânico e pisoteá-lo. Será que daria pra voltar pra casa, tentar salvar alguém? Onde estava o Mauro? Ele tinha sido pego, só podia ser, não conseguia lembrar. Lembrava do amigo caído no laboratório, cinzento, rígido naquela posição antinatural. Ele tinha matado o Mauro? Tinha sido mordido? Nada fazia sentido. Correu para um beco, começou a se apalpar freneticamente, procurando algum ferimento, alguma...
Sangue. Sua mão estava coberta de sangue. Sentia um cheiro ácido de podridão inconfundível.
Era um dos infectados.
— Cássio, acorde!
Mauro viu o outro abrir os olhos, sem ver. Céus, estava assim tão ruim? Cássio começou a mostrar os dentes, grunhindo perdido em si mesmo. Mauro deixou sua metade lobo assumir. Não havia emoção no seu rosto quando Cássio o atacou enlouquecido. Desviou apenas o necessário, a outra mão sufocando o ciborgue contra a parede até ele não se mexer mais. Então o jogou desmaiado sobre o ombro, ignorando o cheiro de lixo e os olhares dos curiosos e levou Cássio de volta pro hotel barato em que estavam.
O recepcionista, um homem franzino e nervoso, correu até ele. — Senhor, o que aconteceu? Quer que eu chame ajuda para o seu amigo?
— Agradeço, senhor. Ele só exagerou na bebida. Um banho quente e uma noite de sono, e estará ótimo pela manhã.
A cordialidade nas palavras não alcançou os olhos amarelos do jovem, e o recepcionista não insistiu. Recuou um passo sem perceber, olhando-o carregar o homem fantasiado até o elevador de serviço, com a desenvoltura de quem está habituado àquilo. O mal-estar passou, e ficou apenas tristeza. Um homem tão jovem, caído bêbado na rua. Correu pra chamar a equipe de limpeza, pra tirar aquele cheiro horrível do hall.
***
— Está...chovendo? Droga, como eu vim parar aqui? Porque tô no chuveiro vestido?
— Não somos seu enfermeiro, Cássio. Tome banho, você está cheirando a morto. Pedimos comida.
“Nós”. O lobo — Aquela parte da personalidade que Mauro separou de si mesmo, e fazia a maior parte do trabalho sujo. Só aquele bicho falava assim. Se ele estava no comando, Cássio tinha feito algo bem ruim.
— Espera. Saio assim que terminar. — A água quente ajudou de algum modo. Lembrou de parte da discussão, lembrou da vergonha que sentiu, mas o resto estava tão delirante que custou a acreditar. Pendurou as roupas encharcadas e vestiu as outras deixadas no banheiro. Sentiu-se bem por dois segundos inteiros, até notar os olhos ambarinos fixos nele.
— O que eu fiz?
— Você está doente. Mentalmente, quero dizer. Não sabíamos a extensão do problema porque o nosso poder vem aumentando, e disfarçou a gravidade bem demais. Mauro está habituado a fazer magia protetora o tempo todo. Quando você saiu do alcance, enlouqueceu.
— Não foi um pesadelo, então? — Perguntou num fio de voz.
— Não. Provavelmente estresse pós-traumático, somado aos efeitos da viagem e a abstinência de magia. Não somos especialistas. — Os olhos amarelos escureceram aos poucos, e voltaram ao castanho habitual de Mauro. — Cas, como você tá?
— Muito ruim. Esse lugar tá mexendo com a minha cabeça. Eu não sou o mesmo desde que pisamos aqui. O que foi que eu fiz?
— Nada demais. Correu até os limites da cidade, assustou alguns pedestres, machucou o cotovelo e caiu no lixo. Cheguei a tempo. Você não matou ninguém, isso teria sido complicado de esconder. Provavelmente acharam que você estava louco na droga e só.
— Eu realmente falei que-
— Iria me matar com uma chave de fenda e um martelo? Sim. Logo depois de dizer que passou a gostar de matar? Claro.
— Eu falei mesmo aquela merda sentimentalóide de “Sem você não sei viver”?
Mauro olhou pra ele sério. Normalmente entraria naquele jogo, mas não hoje. Cássio pareceu murchar.
— Você tava sofrendo tanto. Eu não sabia mais o que fazer. Me desculpa.
***
Levou um tempo pra perceberem que o outro também não dormia. Com um suspiro resignado, Cássio o chamou com um gesto. Mauro desamarrou a mordaça e a estendeu.
— Desculpa, Cássio. Eu confio em você, com a minha vida. Tava de cabeça quente.
Entendendo, Cássio desamarrou a sua também e a estendeu. Em silêncio, Mauro recebeu e o amordaçou. Depois Cássio levantou e fez o mesmo com Mauro. Apoiaram as costas um no outro e sentiram o sono chegar. Cássio lutou, cabeceando. Sabia que hoje os sonhos seriam mais cruéis. Rezando pra encontrar pelo menos um pouco de descanso, segurou a mão de Mauro e balbuciou orações até apagar.
Era o pouco de conforto necessário sentir outro ser humano vivo, quente, junto de si e se importando, mesmo que fosse só ajeitando um pedaço de pano. Era importante quando os dias se passavam entre a monotonia e a podridão. As noites ainda eram péssimas, mas já acordavam e gritavam menos (por isso as mordaças), e percebiam se o outro se mexia. Barulhos não atraíam a atenção dos obsessivos, mas voz humana sim. Então eles se comunicavam com pequenos toques, num código cada vez mais elaborado. Toda a emoção passava através das mãos, e até aquela semana, nenhum dos dois tinha falado tanto desde que a epidemia começou.
Pela manhã, revisaram a rotina, conversaram com o Franja, tentaram mandar mensagens para o Luca do futuro (sem sucesso) e acertaram o ponto de encontro. Arrumaram os uniformes para seus personagens e tinham algumas horas antes do encontro com Mônica e os outros.
— Cássio.
— Diz.
— Você tem algum tipo de atração por mim?
— Não.
— Então, aquilo que você disse ontem...
Cássio fez esforço pra falar, de tão constrangido. — Se você morrer antes de mim nessa merda, não vai ter mais ninguém que saiba como é lá fora. Como aquele barbudo e a bola de vôlei dele no filme. Eu não vou durar sozinho.
— Então eu sou a bola? Que bonitinho! — Mauro estendeu as mãos teatralmente — Você também é uma bola de vôlei pra mim, Cássio Araújo!
— Panaca. — Grunhiu, tentando conter um sorriso. Estava de costas quando ouviu bem baixinho: “Por isso você não foi embora”
— O quê?
— Você tinha certeza que eu estava virando um monstro, um Obsessivo. Estava exausto. Podia ter saído, esperado alguns dias e me acertado com facilidade. Por que ficou?
— Está na hora de encontrar a Mônica e o pessoal. Pronto?
Mauro aceitou a mudança de assunto tranquilo. — Pronto.
Encontraram-se todos no parque do bairro, Cebola e Franja com esquemas em largos papéis e plantas baixas. Discutiram prós e contras, e soluções de problemas por horas.
— Acho que cobrimos o plano principal e temos três planos alternativos bons pra tirar o alvo do ponto A pro B. Cascão, DC combinou com o Nimbus um show de mágica na escola. Certifique-se de ser visto por todo mundo. Se ficar algum vestígio, quero trinta testemunhas que nenhum dos dois saiu da escola. Quanto ao vírus...Que zumbido é esse?
Todos começaram a procurar, e Cássio achou o pequeno comunicador no bolso do disfarce. Nem lembrava de ter trazido aquela porcaria consigo do hotel.
— Isso não deveria funcionar aqui. — Olharam curiosos a pequena tela quadrada. Uma silhueta pulava no meio dos chuviscos e agitava os braços.
— Por favor, me deixe ver. — pediu Franja, com um interesse mal disfarçado — Talvez eu possa ajudar.
Sacou uma pequena ferramenta que girava, e logo o chiado virou palavras. A imagem era colorida e sem definição, como de um celular antigo. Mas as frases ficaram mais claras. Sem dúvida, aquele homem pulando com olhos esbugalhados era Fred, o Franja do futuro.
— ...VIVA! Ela tá viva, porra! Vocês tão me ouvindo? Marina tá viva, caralho! Eu sabia! Não sei como, os zumbis não pegaram ela, nem quero saber, porra! ELA TÁ VIVA!
— Para com isso, seu boca suja! Tô no meio das crianças aqui, animal!
— Tô nem aí! Matem o filho da puta, tragam ele, façam um tapete, não me importo, mas corram! Venham logo pra me ajudar a salvar minha mulher!
— Saí daí, Fred! Chama o Luca, seu maníaco! — A imagem tremeu e focou num ponto mais baixo. Luca tinha um sorriso abobado também, mas não parecia prestes a ter uma overdose de cafeína. — Chefe, qual é a situação? Como isso é possível?
Luca e Franja disseram ao mesmo tempo: O lápis mágico. Luca olhou a câmera, acenou de leve pro monte de pessoas curiosas atrás de Cássio e Mauro.
— Oi, pessoal. Saudades. Mauro, a câmera térmica do drone pegou uma pessoa viva dentro da casa dela. Pode ser a Marina ou não. Não sei de outra coisa que não o lápis mágico pra manter uma pessoa viva lá fora por tanto tempo. — Tossiu um pouco, uma tosse irritada que terminou numa série de pigarros — Dá pra voltar amanhã?
— Não, Odin. A falha na segurança é depois de amanhã, nada menos. Consegue segurar esse maluco aí até lá?
— Nem que eu o algeme na minha cadeira, Fred vai esperar. Também não consegui convencê-lo de que pode não ser ela. Ele tem tanta certeza! Mas vai ter que ficar até vocês voltarem. Eu não alcanço todos os comandos da máquina do tempo. Conseguiram tudo por aí?
— Sim. Você ainda gosta de comida chinesa?
— Obrigado, caras. Ei — sussurrou perto do microfone. — Sei que isso vai nos zerar, e achar dinheiro inteiro foi difícil, mas tragam um par de alianças. Sei que peço pra vocês pegarem essas coisas o tempo todo, mas vai animar o Fred e é melhor se não tiver sido arrancada de um morto.
— Você é o melhor de todos, Luca. Vê se cuida dessa tosse aí.
— Tô cuidando. Voltem vivos, os dois.
— Sim, senhor. Nos aguardem em 52 horas. Em 60 horas-
— Sei — interrompeu. — Protocolo Valquíria. Que eu não vou usar porque vocês dois estarão aqui em cinquenta e duas horas, e isso é uma ordem. Se não estiverem vou até aí chutar a bunda morta dos dois.
— Sim, senhor. Até daqui a 52 horas.
— Desligo. — A tela escureceu. Os dois se olharam, atônitos, e viraram pro Franja, que permanecia de queixo caído como os outros, encarando a pequena tela na mão de Mauro. Começaram a falar todos ao mesmo tempo:
— Aquele mendigo com cara de serial killer é o Franja?
— A Marina tá viva. Meu Deus! Terminamos aqui? Preciso ajeitar a máquina do tempo, começar os testes, acumular energia! Cássio, venha hoje à tarde! Tenho que checar seus automails! — Segurou nas mãos de Cássio. — Salvem ela, pelo amor de Deus! Preciso ir!
— Nós vamos, Fred. Nós vamos. — Ele já corria pelo parque.
— Peraí, a gente pode planejar um sequestro, mas não pode ouvir palavrão?
— Zumbis. Ele falou zumbis! A gente vai evitar o apocalipse zumbi? Irado, véi!
— Eu vou virar um zumbi igual a todo mundo? Que droga!
— Sério, Cascão? Sério, DC? Qual o problema de vocês?
— Vocês tão chamando Luca de Odin? Ele é o chefe?
A voz de Magali era tão baixa, os olhos tão tristes. Cássio sentiu que ela entendeu antes mesmo de ouvir as palavras. Apertou de leve a mão de Mauro, e ele também olhou. Aos poucos, todos olharam pra menina no meio do grupo.
— Então o motivo que deixou vocês tão tristes de nos verem aqui não foi porque nós morremos, não é? Foi porque vocês... — Pôs a mão na boca, incapaz de continuar.
Mauro o olhou preocupado. “Não conta”, pedia com os olhos “Não faz isso.”
— Eles merecem saber.
— Não assim. Não agora.
— A razão pela qual eu não consigo ficar perto de vocês sóbrio é porque vocês viraram Obsessivos. E eu matei vocês.
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