Meet the Huntar'z
7 M E R L I N
M E R L I N
deusa magia
Novamente, não estou me sentindo na melhor das minhas formas.
Uma vez ao mês, a vontade de tocar fogo em absolutamente tudo, arruinando tudo o que Destruidora aponta como possível alvo, fica um pouco mais incontrolável, já que o processo de expelir sangue do meu útero deixa absolutamente todos os meus nervos à flor da pele.
E, novamente, se Destruidora não quisesse fazer shows de pirotecnia, Criadora queria se enrolar em cobertores, e se enfiar em um poço de tristeza sem fim, o que parecia conflitar e, ao mesmo tempo, casar muito bem com a irritação da primeira.
Ainda me é surpreendente como tudo parece completo com a presença desses dois lados dentro de mim; como as coisas, mesmo quando estão ruins, parecem fazer muito mais sentido, no fim das contas. Quase me dou um abraço ao me dar conta desse sentimento; quase entrelaço meus braços por meu próprio corpo para sentir meu próprio amor, meu próprio calor. Internamente, o faço.
Dentro de meu próprio quarto, vou me preparando mentalmente para controlar esses sentimentos negativos, tentando me impedir de atrapalhar o processo de entrevistar a próxima filha com a minha tensão.
Quando finalmente acho que pensar nas entrevistas vai me ajudar a melhorar meu humor, puxo a gaveta invisível do ar como se não fosse nada. Criar e recriar essa gaveta acabara se tornando uma banalidade; no começo, exigia um amontoado gigantesco de concentração e uma quantidade certa de energia. De dentro dela, tiro o caderno e a caneta com pompom cor-de-rosa.
Abro um sorrisinho enquanto passo os dedos pelo pompom, sentindo ele se balançar abaixo deles, lembrando-me da conversa que tivera com Azbenjir no dia anterior. Fora nesse papo que ele sugerira um nome para a caneta, que parecia cada diz mais criar consciência própria, como se pudesse representar a sensação do meu sucesso durante as entrevistas, representar minha melhora.
Ele escolhera Pinky.
Sendo o mestre das referências culturais terrestres, sejam elas populares ou simplesmente pop (o pop não é do povo, mas da indústria, e essa é a diferença), Pinky viera do jogo eletrônico Pac-Man, em que esse era o nome do fantasminha. Lucith provavelmente adoraria; Luksifer, aprovaria. Eu, no entanto, como não sei muito sobre jogos, principalmente os eletrônicos, só escolhi manter o nome porque fora precisamente escolhido por Azbenjir.
Ele prestar atenção nesse tipo de coisa sempre aquecia meu coração. Pensar nele prestando atenção nisso me faz sorrir agora, apagando um pouco do mau-humor que me atingia desde cedo.
Foi exatamente com a intenção de pensar melhor sobre os assuntos tratados durante esse diálogo que peguei esse caderno; eu queria repensar em alguns dos meus conceitos. Abri na página das perguntas, passando o pompom pela folha, parando em cima da pergunta “gênero”.
Ao perceber o desconforto e irritação de Escanor em responder essa pergunta, veio me dizer que talvez fosse melhor eu começar a tratar pelos pronomes de tratamento, e não pela classificação em si, ou tentar nomear uma coisa que talvez, nos conceitos de ser deles, não coubesse nomeação.
No meio da minha conformidade com o título de gênero que me colocaram quando nasci, cresci com certos tipos de ideias que faziam esse tipo de coisa parecer banal, quando, para algumas pessoas, não era. Eu ainda estou aprendendo a lidar com esse tipo de assunto, tentando compreender qual a maneira mais respeitosa de tratar desses tópicos, sem ser invasiva, sem gerar desconforto.
Escrevo “pronomes” na frente de “gênero”, esperando que Merlin pudesse me ajudar com isso depois, me dando uma opinião ou me iluminando um pouco mais sobre a questão. Fecho o caderno com certa força, tentando analisar agora como as coisas podem ser tão diferentes (e piores) apenas pelo fato de aceitar ou não um título; viver ou não se conformando com o que disseram que você deveria ser.
Parece-me absurdo que alguém tenha que passar por isso, mesmo que eu realmente não entenda como é vivenciar algo assim. O mínimo que eu poderia fazer era… me educar sobre, melhorar, perguntar.
Suspiro pesadamente, abrindo e fechando a gaveta rapidamente, apenas colocando o caderno e Pinky ali dentro, sem muito jeito. Um baque contra a madeira pode ser ouvido, mesmo que não tivesse nada para ser visto ali.
Eu preferia esperar que o mau-humor passasse antes de ir até Merlin para mais uma entrevista, embora já imaginasse que apenas o fato de entrevistá-la seria o suficiente para melhorar meu astral. Não queria que minha irritação fácil fosse empecilho para nossa conversa.
Sendo assim, eu aguardo mais um pouco, na esperança que o restante do dia me fosse um presente gostoso o suficiente para ser tomado com prazer.
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Estava com Luksifer quando meu humor melhorou.
De alguma forma, com ele, o meu humor sempre melhorava; mesmo que só um pouquinho, mesmo dentre todas as dificuldades que já vivemos ou viveremos, mesmo dentre toda a intensidade e velocidade de informações e acontecimentos.
Ter alguém que, como eu, está intrinsecamente envolvido com todos os possíveis âmbitos dessa vida mágica, multidimensional, que vivemos, sempre fez com que a intensidade dos ocorridos se tornasse um pouco menor; dava perspectiva ao que, sem ele, poderia parecer apenas uma doce esquizofrenia.
No confortável silêncio entre um assunto e outro em um diálogo que sempre parecia ter algo a acrescentar, solto um suspiro resignado. Estou pronta.
— Amor. — chamo. — Agora eu acho que poderia ir lá. Estou mais tranquila, acho. — anuncio, já me levantando da cama, ajeitando as roupas que, de alguma forma misteriosa, haviam continuado no meu corpo durante aquele tempinho.
Merlin havia solicitado, um pouco antes da data marcada para nossa conversa, que Andynne entregasse a mim o equipamento de segurança necessário para entrar no espaço privativo da primeira, já que era um laboratório. Veio tudo organizado num saquinho. Aparentemente, ela iria deixar os objetos na frente do laboratório, para eu me vestir assim que chegasse lá. Talvez por me conhecer e entender a dificuldade que eu teria para encontrar todos esses objetos por aí, ela me mandou um kit completo de presente, e nossa mensageira-mestre fez o serviço de me entregar.
No pacote, jaleco, óculos, máscara, touca, luvas e botas. Basicamente o equipamento de proteção básico para um laboratório químico, alquímico e mágico da extensão do de Merlin.
— Claro. Fique à vontade. — não como se ele tivesse que me deixar ir, ou qualquer coisa assim, mas apenas um “faça com tranquilidade o que você quiser fazer”, o que é sempre admirável e de um quentinho estranho. Eu já me encaminhava para o local onde havia colocado o equipamento, quando ele diz: — Não esqueça a roupa. — novamente, não como se eu fosse esquecer, ou algo assim, mas porque se preocupa.
— Tem que colocar a roupa. — eu falo quase ao mesmo tempo que ele. — É. Eu sei. — termino, abrindo um sorrisinho singelo, enquanto abro o pacote e tiro os itens de dentro um a um, vestido as botas primeiro, aproveitando meus pés já descalços. Talvez eu devesse colocar meias, mas se eu fosse me sentar novamente para calçá-las, eu provavelmente perderia a coragem e o ânimo, então vai assim mesmo.
E então visto muito rapidamente o jaleco e as luvas, ouvindo o barulho do material esticando enquanto eu ajeitava cada dedo nos buracos certos.
— Não esquece o óculos! — eu não esqueceria, mas ele avisa mesmo assim. Parte de mim se irrita levemente, parte de mim acha fofo. — De segurança… — ele continua, rapidamente, como se estivesse se lembrando que aquilo poderia ter outro sentido, em outro contexto, em que eu realmente teria outro óculos para esquecer.
— Muitas medidas de segurança. — comento, enquanto termino de arrumar os últimos fios teimosos do meu longo cabelo castanho-arruivado dentro da touca.
Passo a mão pelos lados da cabeça para tentar sentir se ainda havia algum para fora; não há nenhum, então volto-me em direção à voz do meu amado, um olhar meio condolente nos meus olhos brancos.
— Do lado de cá não poderia ter outro óculos. Não faz diferença. — se na Terra vidro arranjado em certos graus poderia me fazer enxergar melhor, aqui, nem mesmo a melhor cirurgia médica poderia ensinar meus olhos a ver como os outros veem. Se não fosse a Criação e a energia dela correndo por meu espírito, eu provavelmente continuaria para sempre assistindo apenas ao escuro. — Mas não vou esquecer.
— Posso ajudar? — ele pergunta, vendo-me terminar de colocar a máscara, ainda sem vesti-la a frente da minha boca, em si, e então tatear a cômoda para encontrar o óculos. Ele quer sempre ajudar; seu maior desejo sempre foi ser útil.
Coloco o óculos e o respondo:
— Não. Tá tudo bem. — abro um sorrisinho pensando no assunto, porque talvez ele seja um dos únicos a querer ajudar a vestir e não somente a despir, tão ávido por auxiliar que só ele seria. — Eu vou indo. — aviso, me aproximando dele apenas para dar um selinho muito rápido em seus lábios e virar-me para sair do quarto.
E enquanto caminho até a saída, eu consigo sentir o seu sorriso apaixonado.
Mesmo depois de todas essas vidas, todos esses trilhões de anos, todos esses filhos, e histórias, e sofrimentos, e conquistas, e alegrias, e perdas, ele ainda se dava o direito de se apaixonar e re-apaixonar todos os dias. Ele ainda abria aquele sorriso apaixonado toda vez que eu demonstrava o mínimo do carinho, o mais simples ato de representação do meu amor por ele.
Não consigo evitar abrir um também.
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Ao sair do quarto, visto a máscara em meu rosto e saio arrastando meus dedos pela parede mais próxima (a da direita). Assim que toco na parede, os feixes aparecem. Brilhantes, dourados, finíssimos, cada vez mais numerosos, parecem dançar em meus olhos, indo cada vez mais longe nos corredores, avisando com cada vez mais antecedência onde eu deveria virar, quais escadas eu deveria subir.
Imagino por um instante que a quantidade de feixes e a forma que eles agem têm a ver com meu avanço diante meu próprio poder, diante minha própria personalidade, minha própria depressão. Meu coração se enche um segundo com o orgulho do mundo, a sensação de que, pela primeira vez na vida, eu poderia sentir e ver a minha melhora.
Não leva muito tempo até que os feixes se reúnam em uma porta de correr para os dois lados, desejando seu tamanho à minha frente. Paro por um segundo para pensar onde eu já havia visto algo assim; parece algo tirado de filme de ficção científica, mas feita com magia.
Não me preocupo demasiadamente com o material da porta quando bato, duas vezes, acompanhando o som com a minha própria voz, como sempre:
— Toc toc?
A porta abre-se quase instantaneamente, nenhuma resposta vinda de dentro.
Bem, pelo menos nenhuma resposta direta a mim, lá dentro, mas consigo ouvir a voz de minha filha, conversando com alguém lá dentro:
— Agora, pega seu suquinho, dá um abraço na sua avó e vá brincar. — chuto que há uma criança lá dentro e que, por eu ser a avó indicada, talvez seja um de seus filhos. — Depois podemos fazer outro. — mas não faz sentido que suas crianças tenham de tomar sucos feitos em uma laboratório químico; elas não tinham nenhuma necessidade específica de alimentação, assim.
— Suquinho? — a pergunta vem baixinho em minha voz, mais para mim mesma do que para qualquer outro. Era para ser inaudível, mas quem ouvisse poderia entender que eu estava entre a curiosidade e a confusão.
— Tá bom! — a criança diz, e eu entendo na hora que não é um de seus bebês, mas um de sua irmã. Ela se vira para mim segurando um frasco com veneno. — Babá! Oí! — diz para mim, tom contente e pouco infantil para a sua idade. — É a Poson… Po-I-Son! — se corrige. — Poison! — diz certo, após as duas tentativas erradas.
Poison é uma dos sêxtuplos de Annie; essa é a bebê roxinha, que se alimenta apenas de veneno, assim como a Lightning, rosinha, se alimenta apenas de energia, e a Flare, vermelhinha, apenas de fogo. Aparentemente, só de estar sozinha em um laboratório com Merlin, pegando de seu próprio alimento e andando por aí corrigindo sua própria forma de falar, ela é a que está mais avançada dos seis.
— Oi, meu bem!!! — eu digo, toda a animação de poder vê-la, tão fofa e confiante. — Que coisa mais linda! Falou seu nome certinho dessa vez. — elogio, para incentivá-la a continuar. — Parabéns. Toda lindinha.
— Ela está aprendendo rápido. Com a influência correta, logo falará perfeitamente. — comenta Merlin, toda séria, mas com uma pontada visível de orgulho na voz, como se soubesse que apenas a presença dela em qualquer lugar significaria uma influência certa.
— Eba! — exclama a pequena, animada, logo abrindo os braços para mim. — A-bra-ço! — separa as sílabas como se estivesse se lembrando como falar certo, uma palavra recentemente aprendida.
— Fofa. — digo, abaixando-me pouco para abraçá-la com carinho, suspendendo-a no ar rapidamente só para beijar seu rostinho, colocando-a no chão logo em seguida. E enquanto ela ainda está no ar, pouco depois de beijar-lhe o rosto, ela grita, debatendo todo o corpinho ao ser erguida contra a própria vontade:
— AAAAAAAAAAAAAA.
— Aaaaaaaaaaaaaaaaah. — eu repito, sem gritar, apenas um som longo. A reação me assusta um pouco, porque não era o esperado, mas eu verdadeiramente deveria ter perguntado, então o susto é substituído por uma leve sensação de culpa. — Desculpa, meu bem. Foi só pra um beijinho. — era para ser rapidinho, não achei que ela se incomodaria tanto; achei errado. — Já foi. Já foi. — o meu tom é o mais calmante possível, apenas para tirar a agonia de ouvi-la gritando e senti-la se debatendo por não querer ser pega no colo.
Ela parece não se importar mais depois que já está no chão.
— Amo Babá! — ela fala muito rápido, como se estivesse mais treinada a falar isso do falando de verdade; no fundo, deve ser verdade, talvez seja só impressão minha. — Tchau! — ainda mais rápido. E então sai correndo, abrindo a porta com pressa, indo pelo corredor antes que eu pudesse falar mais alguma coisa.
— Ela odeia que tirem ela do chão. Ela gosta de fazer as coisas sozinha… — explica a Merlin, naquele seu tom que sempre pareceria um pouco professoral.
Não sei se sempre foi assim, sério, informativo, e eu nunca percebera, ou se havia mudado alguma coisa, mas eu só começara a perceber esse tom em sua fala, quando direcionada a mim, depois de ter começado a treinar meus poderes mágicos com ela, ela me ensinando o básico da magia, me mostrando, me fazendo ver, que o que eu fazia era uma poderosa forma de magia.
— Também te amo!!! — grito para fora da sala, direcionando à menina roxinha que simplesmente saíra correndo, e volto para Merlin, apenas para certificá-la de que havia ouvido o que ela tinha dito; de alguma forma, isso me parece uma ação importante sempre. — Entendi… Bem… Bom saber.
Aproveito a deixa para abrir a gaveta invisível e tirar o caderno com Pinky de dentro. Faço um carinho no pompom da caneta para acordá-la e todos os pelinhos se balançam levemente, num movimento aparentemente contente.
— A entrevista, não é? — ela pergunta, olhando para o espaço ao redor, procurando por um lugar onde pudéssemos nos acomodar. — Deixe-me só organizar a minha bancada. — arrumo a máscara na minha boca, meio incomodada com o fato de ter que conversar com ela assim.
Como não posso vê-la, não sei se ela está usando todas as peças do equipamento de segurança, mas sua voz não parece muito abafada. Aproveito esse pensamento para fitá-la, como se conseguisse enxergá-la, observando o grosso feixe de luz roxa que era lançado por seu contorno. Merlin Huntar’z é uma figura magra, de pele negra, cabelos castanho-escuros, crespos e bem definidos. Medindo 1,68m e tendo o corpo com proporções pequenas, ninguém imaginaria que ela poderia ter tanta fome; fome de comida, fome de saber, fome de conhecimento. Seus olhos castanho-escuros estão sempre na procura de algo novo sobre o mundo, com uma sede insaciável por descobrir, entender, estudar.
Eu não poderia dizer isso com minhas próprias palavras, mas eu já ouvira que, depois de Katerina, que nascera com o corpo nas medidas certas exatamente para ser a figura mais atraente de todas, por conta de seu Pecado, Merlin era a filha mais bonita da família. Muitos a achavam simplesmente a mais bonita; se uma pessoa tem poderes que fazem com que imediatamente você seja a figura mais sexy do ambiente, a competição fica meio injusta, excluindo seu nome da lista. Todos me diziam que ela era parecida com a Lucith. Nesse caso, eu já a colocava lá no topo da lista, simplesmente por se parecer com a mulher mais linda de todas, sem exceções.
Nos segundos que minha mente leva para vagar, Merlin estala os dedos e toda a bagunça que exista em sua bancada simplesmente some.
— Certo. — então começa. Toda vez que ela fala, eu me sinto na obrigação de ouvi-la, como se fosse a melhor professora do mundo, como se soubesse tudo; eu quero saber tudo assim como ela. — Há um banco que poderá alcançar após cinco passos. Ele tem um encosto que pode pedir ao banco para que ele apareça com magia. — ela me instrui e, novamente, sinto que a minha mera presença perto dela faz com que isso seja parte do meu treinamento.
Conhecer sobre ela era conhecer sobre magia e parecia que eu estava sendo chamada a aprender mais sobre a minha magia toda vez que eu estava perto dela. Talvez essa sensação seja apenas minha, por ser uma de suas pupilas, que começou depois de ter aceitado treinar com ela; talvez essa seja a impressão que ela passa para todos, só por sua aura.
— Sente-se, por favor. Vamos começar? — e eu engulo seco com as novas instruções, que vieram seguidas das outras, porque o meu nervosismo sempre ataca um pouco quando pareço estar sendo magicamente desafiada.
— Sim… Hm… — digo lentamente, com hesitação na voz. E então caminho os passos, contando cinco deles, e estico a mão direita até o local indicado, tateando a cadeira até encontrar o lugar certinho de sentar. Sento-me nela, imaginando qual tipo de magia seria necessária para fazer funcionar, me lembrando que isso também era parte de um teste muito bem observado por Merlin.
Em minha mente, peço por um encosto na cadeira, e entreabro os lábios apenas para deixar a palavra inaudível sair; como um sopro. E funciona.
Abro um sorrisinho mais confiante, recostando-me na cadeira, muito mais confortável. Coloco o caderno na bancada, Pinky acima dele.
— Okay. Acho que sim. — não há mais hesitação em minha voz, embora eu ainda pareça um pouco tensa; eu não sei o que é um teste quando estou com ela, o que ela está estudando sobre meu comportamento para usar durantes nossos treinos depois. Imagino que ela tenha percebido isso; não tem como esconder muito dela. — Acho que você sabe como funciona. É bem simpleszinho. — abro o caderno numa página nova, pegando Pinky apenas para escrever seu primeiro nome do topo da página. — Primeiro… Nome. Títulos.
A expressão no rosto de Merlin é um pouco curiosa, um pouco confusa.
— Tudo bem. Não quer que eu fale do lugar antes?
Nas últimas entrevistas, eles haviam descrito o local sem que eu pedisse, então eu verdadeiramente esqueci de pedir. Nem me lembrava que isso fazia parte do processo; fiquei tão tensa que nem me lembrei que eu poderia, depois, querer saber como era esse lugar em que havia entrado; como era esse quarto-laboratório em que uma de minhas filhas estava o tempo todo.
— Ah. Sim. Eu tô meio… avoada hoje. — comento, me lembrando que talvez ela nem estivesse me estudando tão a sério assim naquele momento. Ela só está me ajudando com meu projeto, me ensinando sobre ela, sobre o espaço dela. Nada mais. — Você me fez pensar demais sobre essa cadeira, sem nem perceber. — eu digo, mas também sei que ela percebeu. — Mas okay. Me descreva o lugar. — peço, por fim.
— Está tudo bem, Oka. — me acalma ela. Merlin puxa o ar pelo nariz com um pouco mais de força que o normal, inspirando profundamente, e explica — Este é meu laboratório. — e eu começo a tentar visualizar em meu cérebro. — Eu escolhi que ele tivesse toda uma aparência em madeira escura, do chão ao teto. — sei que ela olha para os objetos enquanto os descreve. — Ele possui seis prateleiras, onde mantenho os principais ingredientes das poções que faço. Tenho duas bancadas aqui. Esta que estamos utilizando e que, normalmente, utilizo para preparar os materiais que preciso e a que está do outro lado do laboratório, que uso para mexer com fogo. No centro possui uma mesa, que é onde leio, escrevo e preparo todos os feitiços. Tem algumas cadeiras espalhadas, dois Arquivos que guardo os documentos das pesquisas mais recentes e uma caminha do lado contrário da bancada. — então, quando não há mais para onde olhar, ela finaliza — Acho que consegui expressar tudo. Tem minha biblioteca também, mas ela não faz parte do laboratório, diretamente.
— Mas ela tá aqui nesse mesmo cômodo? Ou tem uma portinha pra ela por aqui? — se ela parou de descrever quando não tinha mais para onde olhar, imagino que a biblioteca não esteja exatamente aqui. A magia do Castelo, senciente, disposto a se modificar sempre para as necessidades das crianças, ainda me surpreende, então não acharia estranho se ela me falasse que poderia ter uma passagem secreta por ali, em algum lugar.
— Ela está em outra dimensão, — então não tem a ver com a magia do Castelo — mas ocupando o mesmo espaço. — Tem a ver com a magia dela. Instigante.
— Como em outra dimensão? — questiono, curiosidade na voz.
— Entenda como um mapa. — esforço-me um pouco para me localizar no mapa imaginário. — Se eu te der as coordenadas dela, vai dar aqui, mas ele está em uma dimensão especial, feita pela minha magia. Isso me permite ter dois cômodos aqui.
— Tem a ver com o Cubo? — Merlin, por muito tempo, foi conhecida por sua magia do Cubo Perfeito; eu, em meu pouco conhecimento sobre cada um deles, devido a distância espaço-temporal, constantemente tento me lembrar dessas partes, quase sempre ligando uma coisa a outra. — O lugar se transmuta? Ou você muda de dimensão? — indago, ainda curiosa para saber como funcionaria.
— Não. Esta é outra magia.
— Tipo… um quarto vira outro?
— Eu só mantenho a dimensão separada com Albion. — fala, com a voz factual, professoral, séria, o tom dizendo que não era nada complicado para ela fazer isso, como se fosse uma mera banalidade. — Se eu tiro a magia que fiz, destruo tanto meu laboratório quanto a Biblioteca, pois dois corpos não podem ter a mesma coordenada.
Regra básica do Espaço, tanto nos planetas carbonados, quanto nos outros: não tem como dois objetos ocuparem o mesmo lugar ao mesmo tempo. Isso faz muito sentido. E eu já tinha entendido que esse seria o princípio básico de se querer ter uma outra dimensão no mesmo lugar; só não tinha entendido como.
— Albion?
— Sim. Chegaremos lá na sessão de Armas. — e vendo a dúvida ainda presente em meus olhos, ela propõe: — Quer que eu tente colocar da forma simplificada ou da mais técnica?
— Não sei? Uma que seja técnica, mas que seja simplificada? — o simples seria pouco, o técnico talvez fosse muito, embora eu pudesse entender com um pouco de tempo. — Tem como?
— Tem. — responde, tranquila, mas dá para perceber que ela está raciocinando muito, esforçando-se para conseguir achar uma boa explicação, porque ela joga a cabeça para o lado, como se estivesse em dúvida sobre algo ali no meio. — Bem… — hesita um pouco, e então explica. — Temos o mapa. Vendo as dimensões como um lugar em si e as coordenadas como passos... Se eu te falar que a cadeira no laboratório está há cinco passos da porta, saberá onde ela está, certo? — aceno positivamente. — Mas e se eu te falar que tem uma estante na biblioteca com a mesma distância que percorreu? Isso só seria possível em outro lugar, certo? Cada dimensão é única. O Velho — lê-se aqui o Luksi — pode usar técnicas de se mover para outras dimensões. O Salão do Tempo é uma outra dimensão. A minha biblioteca fica numa pequena dimensão que criei e mantenho com magia. — novamente aquele tom, como se não fosse nada; como se a mera existência da magia fosse a coisa mais natural para ela, como se fluísse inevitavelmente por ela.
— Entendi. — comento. — É uma magia espacial. É no mesmo espaço, porque são as mesmas coordenadas, mas não é no mesmo espaço, porque duas coisas não ocupam o mesmo lugar, então são em dimensões diferentes. — acho que eu já tinha entendido isso antes da explicação dela, mas era bom ouvi-la falar sobre o que ela conhece e o que ela faz. — É isso, certo? — peço pela confirmação, porque estou sempre pedindo por confirmações.
— Exatamente.
— Okay. Nesse caso, entendido isso, voltemos para: Nome. Títulos.
Pinky se coloca a postos, quase como se as perguntas determinadas para a entrevista a mantivessem viva, acordada, feliz. E espera, enquanto é a vez da Merlin perguntar:
— Uma dúvida: quer que eu pronuncie meu nome da forma que os humanos escutam ou o escreva na língua Mao como o Melo fez?
— Os dois? — há um pouco de curiosidade, abertura e surpresa na fala. Fora isso que ele fizera? Eu nem havia percebido.
— Certo. — ela diz e, assim que continua as próximas falas, a caneta se põe a transcrever no papel, logo abaixo do nome que havia desenhado no topo.
Merlin (Marin) Avalon Huntar’z.
Pecado da Gula. Deusa da Magia. Deusa do Conhecimento. Matrona dos Magos e, por fim, (esse é meu favorito) Dama do Lago. Este último é meu favorito porque os Mortais sempre se referem a mim assim, no planeta de Carbono…
Eu até pediria a Pinky, mentalmente, para não transcrever essa última parte no caderno, mas parece algo verdadeiramente relevante, então deixo que ela escreve, animada em continuar acompanhando as falas de Merlin, escrevendo com a minha letra cada palavrinha.
— Dama do Lago? — eu provavelmente tenho poucas referências históricas para compreender isso, mas deve ter alguma história mitológica sobre isso, sim, não duvido. — No planeta de Carbono você diz a Terra? — questiono, tentando buscar algo do tipo em todo o meu pequeno repertório cultural sobre meu planeta-prisão-missão.
— Só odeio o fato deles acharem que eu sou um omi. Mas okay.
Eu não duvido que odeie. Até porque eu também odeio a perspectiva de meus filhos um dia terem pisado na Terra e os humanos terem, com o tempo e as distorções, pego o poder de uma pessoa negra e feminina e transformado no poder de um homem branco e velho, como fizeram com Merlin. Compreendo de onde vem o sentimento. Assinto positivamente, para mostrar apoio.
— Ah, mas essa história eu quero muito ouvir. — sinto meu corpo tremer um pouco com a antecipação. — Me conta sobre ela na parte das particularidades.
— Exatamente. Me chamavam assim por eu ter saído de um lago quando um mortal me viu. Eu tinha caído no lago… — muita ênfase no caído; novamente como se não tivesse sido muita coisa, mas as pessoas que viram e sentiram sua aura, saíram por aí contando que havia uma criatura mítica por ali. — Acharam que era algo único. — mas não é tão difícil que os humanos achem que algo é único; eles ainda se acham os únicos no Universo, mesmo isso sendo patético.
— Ah, não. Espera. — peço para que pause, porque ainda há muito a ser tratado e eu tenho muitas dúvidas sobre esse ocorrido. — Vamos chegar lá. Eu quero saber disso com detalhes. — esclareço. — Mas primeiro, vamos tratar das outras coisas.
— Sem problemas. Tudo de acordo com o cronograma.
Sorrio rapidamente para ela antes de me virar para o caderno, passando o dedo rapidamente no pompom da caneta que ainda estava em pé, flutuando no ar, a postos para a próxima pergunta, a próxima resposta, a próxima entrevista.
— Eu conversei com o Azben ontem sobre essa parte. Ainda não sei o que é melhor. — eu deveria só aceitar o que ele acha que é melhor, no final das contas, mas eu ainda sei pouco e quero aprender; então pergunto para outra pessoa, porque aí talvez meu cérebro funcione melhor. — Talvez você possa me ajudar.
— Claro.
— As próximas perguntas seriam gênero, sexualidade, status de relacionamento. — olho para o caderno, folheando até a página de perguntas, tocando com o dedo nas palavras. — Só que isso de gênero deu uma puta discussão. — é um assunto delicado, deve ser tratado com debate e delicadeza. No que cabe a mim, na minha falta de conhecimento, é melhor que eu simplesmente pergunte. — E ele disse que ficaria mais fácil se eu só perguntasse os pronomes. — levo o indicador até onde eu havia escrito pronomes anteriormente. — Eu, no auge da minha cisgeneridade, ainda não sei se isso seria o suficiente. O que você acha?
E então, ela simplesmente me responde as questões; nem Pinky estava preparada para transcrever sua resposta. Talvez, como minha mente estava um pouco afastada na discussão mental que meu cérebro entrava toda vez que eu tinha uma nova informação sobre algo que não fazia parte da minha experiência de mundo, estivesse distraída demais para responder ao comando de escrita de imediato quando Merlin fala:
— Eu sou uma Demônio Superior Hermafrodita, respondo por pronomes femininos e estou num trisal com a Katerina e a Georgine. Os humanos vão estranhar essa nova informação, mas é recente. — parece suave de ser respondido; mas, novamente, meu cérebro entra em tilt. — Acredito que assim é melhor. — então tira minha dúvida, como se sua própria explicação, sem hesitações ou irritações (como fora com os demais), sobre si mesma já fosse o suficiente para terminar a questão.
Pisco, voltando ao estado normal de meus pensamentos, e Pinky então acorda, transcrevendo as partes importantes no papel, deixando instintivamente um espaço em branco para alguma questão não respondida:
Demônio Superior Hermafrodita (intersexo?)
Pronomes femininos (ela/dela)
Trisal com Katerina e Georgine Huntar’z
Observo a página por um instante, prestando atenção na palavrinha que usou para se descrever. Imagino que tenha sido isto a causa do meu tilt. Então a indago:
— Hermafrodita não seria incorreto na Terra? — minha expressão é de pura dúvida, uma ponta de curiosidade, outra de preocupação. — Me desculpa, é que eu sou curiosa e eu realmente não sei. O termo melhor não seria intersexo? — dou uma ênfase na pergunta, porque essa fora a palavra que eu sempre usara para defini-la, desde que saíra de dentro de mim com o que chamam de hermafroditismo verdadeiro.
Olho para folha novamente, prestando atenção no espaço em branco e percebendo qual a resposta que faltava ali no meio.
— Qual a sua sexualidade?
— Estou falando de uma questão puramente biológica, então não é incorreto. — ela aponta, tom professoral, nenhum incômodo em me responder qualquer coisa assim. — Eu sou bissexual. — fala, como se estivesse apontando sobre uma coisa totalmente diferente, em uma categoria diferente. No espaço em branco, a caneta semi-consciente escreve:
Bissexual
— Entendi… Entendi. — solto, acenando positivamente com a cabeça, com as roldanas mentais ainda girando para compreender. Ela parece perceber que ainda há uma ponta de confusão em minha mente, porque continua:
— Se eu estivesse falando de uma questão social, seria evidente meu erro. Entretanto, como estamos falando de mim e, particularmente, eu trato minha condição como clínica, utilizo o termo que me sinto mais confortável para utilizar. Isso é errado? — agora ela parece em dúvida, uma indignada.
— Não. — concluo, depois de pensar um pouco. — Não é errado. Eu só quero entender, mesmo. — se estivesse falando socialmente de pessoas na mesma condição que ela, intersexo; se estivesse falando de Merlin, e exclusivamente dela, hermafrodita. — Eu não conheço muito disso. Eu só sei que você nasceu assim e pronto. — havíamos escolhido um nome que nos parecia neutro exatamente por saber que talvez incubissem algo neutro a ela, por suas genitálias. — Mas não sei os nomes que você usaria. Eu realmente sou muito leiga nisso tudo. Estou tentando aprender.
Às vezes, tudo que é necessário é se dispor a ouvir e empatizar; não é preciso entender tudo na realidade, se você está disposto a aprender sobre o outro sem julgamento. Teriam coisas que eu nunca verdadeiramente entenderia da realidade de outros, mas, para respeitá-los, era só preciso escutar.
— Desculpa as perguntas. Imagino que elas possam ser invasivas. — sussurro, um pouco preocupada com aquele sentimento de indignação e a sensação de que eu havia causado algo assim nela; com certeza não é essa minha intenção.
— Não são. — me acalma. — E, se pareci hostil, peço perdão pela seriedade que trato isso. — seu tom fica menos professoral e mais com uma ponta de melancolia, como se estivesse a pensar sobre uma outra esfera de sua realidade. Quando volta a falar, soa-me mais como um pedido de indicação materna do que uma explicação explícita sobre sua melancolia. — É normal ter de explicar mais séria para que não fiquem te perturbando sobre algo que acabou de explicar? É que eu passo por isso diariamente… — há mágoa em sua voz.
Eu murcho um pouco. Eu já havia escutado isso em algum lugar.
Na Luci, que dizia que ninguém a levava a sério, nem mesmo quando se portava como tal, ou quando largava todas as suas brincadeiras, ou quando gritava para que a escutassem. No Luksi, que dizia que frequentemente tinha de se portar de forma mais fria e calculada para que levassem seu conhecimento a sério. E agora, em Merlin, que sempre se portava da forma mais professoral possível, rápida e certeira, para que não a questionassem sobre seu conhecimento e capacidade.
A semelhança entre todos eles: são todos negros.
É de entristecer o pensamento de que, mesmo fora das estruturas sociais da Terra, ainda utilizavam de espécie, raça ou cor de pele¹ para definir qualquer coisa em qualquer sociedade. É de revoltar a ideia que, mesmo esses três sendo alguns dos seres mais poderosos da história do Universo, ainda passem por esse tipo de violência simbólica e (nada) sutil.
— Não. Não pareceu hostil. Tá tudo bem. Eu realmente só queria entender. — agora parece que eu devo acalmá-la. — E não, filha. Não é muito normal. — hesito um pouco. — Pelo menos… não pra mim. — penso um pouco antes de falar, tentando imaginar como era estar sob sua pele, fazendo um exercício de empatia. — Mas eu sou uma mulher cis branca com poderes de Voz. Não sei se os meus conceitos de vivência se conectariam com os seus. — com certeza não se conectariam.
Quando eu falo, as pessoas costumam me ouvir. Não preciso gritar ou me portar como raivosa para que entendam o meu ponto. Bem, não na maioria das vezes; não com outras pessoas que não fossem homens cis brancos. Em minha experiência pessoal, não sei como deve ser se sentir na obrigação de estar entre o hostil e o calmo para ser escutado, mas ainda não ofender.
— Quem faz isso com você? — questiono, como se eu já não soubesse.
— Passo por isso sempre que vou cuidar da minha pasta no Instituto ou vou fazer pesquisa de campo. — explica. — Eles não sabem, então não me estresso. Queria, entretanto, não precisar falar como se estivesse com raiva para evitar perguntas nesse ponto. — não sei se esse ponto abrange sua condição de nascimento, seu conhecimento, sua pele, seu aporte científico e mágico ou todos eles ao mesmo tempo; tenho por mim que pode facilmente ser qualquer um deles. — De tanto o fazer, acabo tendo esta postura sem perceber.
Hesito um pouco, sentindo a melancolia da situação. Pela primeira vez, não faço ideia do que eu poderia dizer para fazê-la se sentir confortável.
— Eu… Sinto muito, filha. Eu… — hesito de novo, com cautela. — Realmente não sei o que dizer. — mais um momento de silêncio, e minha mente me diz que talvez fosse melhor só prosseguir com a entrevista de uma vez, tirando um pouco da tristeza para dar lugar a minha aguçada curiosidade sobre a vida deles. — Você tem uma pasta sobre magia no Instituto? Faz pesquisas de campo sobre o quê?
— Sim. Eu dou aulas de princípios de magia lá. — o tom dela melhora, agora não tão mais sério ou professoral, tampouco melancólico; parece orgulhosa de seu conhecimento e de transmiti-lo para outros, interessados em ouvi-la. — E as pesquisas de campo são sobre eventos mágicos, desenvolvimento da magia pela cultura e outras centenas de teses nas quais trabalho.
No andar subterrâneo do Castelo, onde fica meu quarto particular, assim como o de Luksifer e o de Lucith, há uma enorme biblioteca. Várias das estantes são de diários meus durante as diversas existências; ainda mais delas são de livros que Merlin escreveu e publicou, indo de teses e ensaios a livros didáticos e ilustrados.
— Entendi. — aceno. — Eu queria muito que você não tivesse de falar com raiva para ser levada a sério. — confesso, tão orgulhosa dela quanto ela parece estar sempre que fala sobre seu desenvolvimento científico (porque há um método) na área mágica. — Porque você é, literalmente, a mulher mais inteligente que eu já conheci. Quando eu crescer, eu quero ser como você. — elogio-a; o tom é de brincadeira, mas há um grande fundo de verdade.
Aspiro o tempo todo a ser como ela, a pesquisar como ela, a conhecer como ela. Se eu tivesse a eternidade apenas para estudar e analisar os povos de diferentes culturas, eu provavelmente mergulharia sem pensar duas vezes nessa experiência, sede de conhecimento e entendimento sobre política, sociedade e cultura falando mais alto na grande maioria das vezes.
— Mãe… — ela diz, como se eu estivesse de alguma forma delirando em uma onda autodepreciativa ao elogiá-la assim; como se me avisasse que tem algo de errado no meu pensamento. — Você é a adulta em quem me inspiro, agora pare com isso.
— Se for pra se inspirar em mim, vai começar a chorar nos cantos e parar de pesquisar. — antes, não fora algo para me depreciar; agora foi e eu tenho plena consciência disso.
Mas, tirando as obrigatoriedades na vida, nunca existiu um projeto que eu terminara sem ser pela mera pressão de fazê-lo, sem me encolher no canto e pensar em desistir constantemente, por compreender que eu nunca poderia ser assim tão boa, ser suficiente. Se ela fosse se inspirar em mim, nunca terminaria nada. Suspiro pesadamente, tentando expulsar esse pensamento junto com o ar de meus pulmões.
— Não se inspire em mim. Se inspire em você mesma. — digo, não dando muita brecha para que ela comente mais sobre isso, para que não comente sobre a forma que me vejo. — Mas é sério. Eu te admiro muito. — volto ao elogio, porque é muito mais produtivo. — Você é realmente a mulher mais inteligente que eu conheço. — lanço o olhar para ela, vendo as bordinhas roxas de sua aura, e sorrio para ela.
Deixo um pequeno silêncio se formar. E então, querendo muito mesmo que ela não rebatesse meu elogio a ela com um elogio a mim, digo:
— Enfim!
E minha tentativa não dá muito certo, porque ela logo se volta para mim, tom mais sério do que antes, verdadeiramente não me dando nem uma pequena abertura para discordar de sua fala:
— Mãe. — forte, pausado. — A senhora é a mulher mais forte, inteligente, empática e bondosa que poderia existir. Sem argumentos para tentar contrapor a verdade. — nem uma minúscula brecha.
Mas, mesmo assim, eu arrebento a porta de sua opinião elogiosa com uma fala autodepreciativa, uma dúvida crescente, um sentimento de insuficiência que não poderia nunca ser compatível com todas essas qualidades citadas.
— Será que vão me achar narcisista se imaginarem que eu estou escrevendo sozinha todos esses elogios a mim mesma? É de se pensar. — é meu nome no livro; todos os personagens da minha suposta fantasia parecem me elogiar invariavelmente; talvez eu seja narcisista e não saiba, debaixo das minhas camadas e mais camadas de depressão e cegueira (sim, é um trocadilho) emocional. — Mas obrigada. — digo, apenas porque é mais fácil agradecer do que continuar toda aquela discussão. — Eu não concordo muito. Mas obrigada.
Silêncio por cinco segundos.
— Enfim! Continuando. — faço um carinho no pompom de Pinky, pedindo levemente para se preparar para continuarmos.
— Eles que pensem. Quando morrerem, verão que é verdade. — dá de ombros, como se falasse obviedades; então pede: — Continue, por favor. — e não demoro nada para fazê-lo mesmo.
— Qual é a sua–… — antes de perguntá-la sobre sua arma, me vem em mente que ela havia me dito que era do Pecado da Gula, mas não tinha exatamente uma lista com todos os pecados como eu havia feito com os Mandamentos. Travo-me no meio da pergunta. — Pera aí. Eu preciso de uma lista de pecados. Eu não sei exatamente quais são. Pode me ajudar? — antes que responda, já folheio as páginas até as últimas do caderno, achando a lista dos Mandamentos e, logo abaixo, colocando as dos Pecados.
— Luxúria, Orgulho, Gula, Inveja, Ganância, Ira e Preguiça. — ela responde, e Pinky copia as palavras em ordem sem muita dificuldade. Pego a caneta para adicionar as informações certas com os nomes dos representantes.
PECADOS CAPITAIS
1. Luxúria (Katerina)
2. Orgulho (Escanor)
3. Gula (Merlin)
4. Inveja
5. Ganância
6. Ira
7. Preguiça
Ao terminar de listar, bem rapidamente, apenas para manter um controle melhor, volto para as páginas de sua entrevista.
— Okay. Obrigada. Muito obrigada. — sentindo-me bem mais calma pelo simples fato de ter organizado as informações mais importantes em uma lista, continuo: — Agora… Qual é a sua arma mágica?
Albion. Ela é como uma esfera de vidro duas vezes maior que a sua mão aberta, que é orbitada por outras três menores que possuem um terço do tamanho da maior. Ela tem a capacidade de ressoar minha magia. Serve tanto para eu armazenar feitiços que quero utilizar, quanto para selamentos. Ela permite que eu possa usar todo meu potencial estratégico em magia numa velocidade muito maior, já que posso fazer vários movimentos, no âmbito da magia, ao mesmo tempo.
Todas as palavras no caderninho, escritas com maestria por Pinky. Elogio-a mentalmente por uma rapidez. O pompom se mexe levemente, numa semi-felicidade. Para além da transcrição, fascino-me pelas palavras ditas pela própria Merlin, por sua arma, por seu poder. Não há nada que eles falem que não me deixe fascinada.
— Não era um cubo? — novamente eu perguntando sobre o Cubo; até esqueço-me de que já havia perguntado sobre ele anteriormente. Ele, realmente, foi muito característico dela por muito tempo. — Ou o Cubo é um tipo de magia?
— O Cubo é uma magia.
— Entendi. Quer falar sobre isso ou não? — se ela quisesse falar, eu queria ter isso anotado, para que eu sempre me lembrasse da diferença de sua arma Albion para o Cubo Perfeito que havia construído como um local de perfeito isolamento.
Ela fala e, como em minha eu já tinha dito que queria essa informação escrita em páginas que eu poderia rever no futuro, a caneta copia:
O Cubo Perfeito foi a primeira magia que eu criei. É uma espécie de selamento e de barreira que deveria ser inquebrável. Como, com o aumento dos poderes de todos, passou a quebrar com certa frequência, eu evoluí a magia com muito estudo para um Octaedro Perfeito. Agora ela suporta até o impacto de um confronto entre Melo, Escanor e Lightning contra o Velho.
Se eu soubesse assobiar, teria assobiado, tão forte aquela magia era só por aguentar um embate entre o ser mais tecnicamente poderoso do Universo (Luksifer) com outros quase tão fortes quanto, como Meliriodas, Escanor e Lightning (mesmo essa última sendo apenas uma criança).
— Olha só. — solto, surpresa. — Que chic. Isso é… forte. — imensamente forte.
— Essa é a magia de barreira mais forte da existência. Só uma Magia da Destruição pode a quebrar. No caso, a senhora e o Tio Septimus são os únicos que podem a quebrar. — é quase imediata a reação das minhas bochechas gordinhas e brancas em ficarem vermelhas com uma vergonha que não deveria existir.
— Você fala como se eu fosse forte. Quando eu não sou. — rio baixinho, o tom do riso mostrando desespero e desconforto. Apenas a ideia de eu realmente ter poderes ainda me é nova; a ideia de ser realmente forte com meus poderes, a ponto de ser única a conseguir fazer alguma coisa assim, é quase incompreensível. — Mas okay.
— Pode não se ver assim, mas possui a Magia mais poderosa. — ela rebate, novamente como se estivesse me falando obviedades.
— Não vou discutir sobre isso. — afirmo, séria, já partindo para próxima pergunta para que ela não comente mais sobre isso. Não estou num dia bom, o sentimento da minha tristeza e da minha depressão está muito presente; não há nada que ela possa me falar que faça com que eu realmente acredite que sou poderosa, nesse momento. Talvez, outro dia, poderíamos falar sobre isso; mas não agora. — Qual a sua relação com seus poderes e peculiaridades?
— Discutir sobre magia com a Deusa da Magia não é a coisa mais inteligente do mundo.
— É exatamente por isso que não vou discutir. Vou continuar discordando e não vai levar a nada. — concluo, porque sei que é assim que minha mente que me odeia funciona. Tenho tempos certos para aceitar elogios, verdadeiramente compreendê-los; hoje, em um dos auges da minha tristeza e irritação, não é um dos melhores momentos.
Hesito novamente, de novo tentando tirar a sensação de dentro de mim antes de continuar. É uma vigília constante, tentar não me deixar levar pelo que a depressão diz sobre mim; um exercício constante, tentar acreditar no que dizem de bom sobre mim.
— Esse não é o ponto. Conversamos sobre isso no nosso próximo treino. Talvez, se você me mostrar como ela é, eu acredite em você. — ela estava me mostrando meu poder, cada vez mais, mostrando meu potencial ao me treinar quase todos os dias, passando-me exercícios para que treinasse o Criar, o Criar Para Destruir, e o Destruir.
E, com isso, finalizo esse tópico. Ela parece satisfeita de eu ter dado uma abertura para ela me mostrar do que está falando, não simplesmente negando tudo como constantemente fazia antes.
— Hm… Poderes? Peculiaridades? — prossigo, voltando para a pergunta que havia feito antes de começarmos a debater sobre minha potencialidade mágica. — Agora entra a história do lago, lá. — cruzo as pernas, me acomodando melhor na cadeira, muito curiosa para ouvi-la falar sobre cada um de seus títulos. Pinky treme de uma agitação que parece igualmente animada, e então começa a escrever assim que ela fala, eu ouvindo-a muito atentamente durante todo o tempo.
Meu poder é o Infinito/Ksizuhir.
Ele faz com que eu perca o maior problema que eu teria sem ele: eu não tenho estoque de magia suficiente para fazer uma colher flutuar. Graças ao meu poder, consigo executar qualquer magia com um custo quase que zero e por tempo indeterminado. Se eu fizer uma chama, alimentada pela minha magia, com meu poder, ela queima até ser apagada por outra magia ou não ter o que queimar.
Minhas peculiaridades... Bem. Eu tenho uma Gula muito grande. Seja por conhecimento ou por comida. Estou sempre comendo e tenho alguns surtos alimentares que eu perco o controle e... É deselegante.
Quando diz isso, verdadeiramente envergonhada, deve estar se lembrando dos momentos em que, por estar desestabilizada emocionalmente, chega a comer os talheres, os pratos, as mesas, os forros, ou qualquer coisa que veja pela frente, apenas para aquietar seu nervosismo. Como ela se mantém magra com costumes alimentares assim ainda me é um segredo; se eu comesse um décimo do que ela come, engordaria descontroladamente.
Não comento nada disso, para não interrompê-la, e ela continua:
Além disso, tenho um sonho muito específico e que me instiga a sempre continuar a estudar que é catalogar todo o conhecimento do mundo.
Sobre o Lago... Foi bem estranho, porque eu era bem mais nova e a Arthuria ainda era uma lâmina. Ela tinha caído num lago do Planeta de Carbono junto comigo e não conseguia sair de lá. Eu fui tentar pegar, mas percebi da pior forma que o lugar é muito denso e afundei no lago. Quando eu saí, tinham dois mortais me olhando carregar a espada. Eu coloquei de volta na mão da Artie, os dois mortais ficaram doidos ao ouvir eu falar o nome antigo dela e começaram a dizer que “a Dama do Lago entregou a Excalibur a Arthur pois esse seria o Rei", e eu fiquei bem confusa. Continuei acompanhando Artie enquanto tentava entender tudo aquilo e ninguém se tocou que a "Dama do Lago" era eu, que estava só entregando a espada.
Depois de um bom tempo aqui (na Terra, imagino), consegui fazer a magia pra voltar pra casa. Muitos anos infernais depois descobri que tudo isso foi culpa do Velho ter criado uma espécie de instabilidade temporal que jogou alguns de nós no passado, em períodos diferentes da história do Planeta de Carbono... Por conta dos nossos poderes, viramos lendas... Isso é muito louco até pra mim... E me deixa bem assustada, mas gosto de tentar entender tudo.
Levo um tempinho para mastigar todas as informações.
Desvios espaço-temporais trouxeram meus filhos à Terra, anos antes, criando mitos que são carregados até hoje pela cultura popular de vários países. Rei Arthur e Merlin, com sua Excalibur, e a Dama do Lago… Tudo isso ocorrera porque Luksifer, de alguma forma, perdera o controle por um minuto, o suficiente para mandá-los para um planeta denso e carbonado, totalmente diferente do ambiente em que viviam.
— Desculpa, isso tudo é muito fascinante. Mas o seu pai é, com certeza, o mais fascinante de todos. — quando se é o Tempo, o Espaço, a Morte, o Carrasco, o Rei, qualquer detalhezinho fora de controle poderia gerar histórias fantásticas como essa. — Acho que um dos meus objetivos é tentar entendê-lo por completo. — paro por um tempo, pensando em cada momento que ele tivera de passar, em cada coisa pequena que parecia ter seu dedinho em ação. Será que em algum momento eu deixaria de me admirar por seu poder, sua pessoa?
A minha resposta imediata é não. E eu gosto muito que seja assim. É uma desculpa muito boa para eu continuar me apaixonando por ele todos os dias, sempre um pouco mais, enquanto evoluímos juntos.
— Que doidera, então. O mito de Merlin e o Rei Arthur é culpa sua e da Arthuria, então? Na verdade, culpa do seu pai, mas vocês envolvidas? — o que mais poderia ser fruto deles, da ação direta dos Huntar’z no planeta Terra? Coloco um lembrete mental no fundo de meu consciente para que sempre me pergunte em até que nível eles estavam ali, vivendo no planeta de carbono comigo, também.
— Já ouviu falar do mito do gigante Escanor que foi derrotado após seu poder decair? Então… — ela comenta, apenas me contando outra história, me mostrando que ainda havia muito que eu não sabia. Fico ainda mais fascinada, ainda mais curiosa. Como poderiam eles ser assim tão incríveis? Tão intrinsecamente ligados com tudo ao meu redor? — O mais bizarro é o da Andy, mas isso ela pode me contar.
— Ah, certeza que ela vai me contar. — porque eu com certeza iria perguntar. — Mas enfim. Doidera. Muito legal. — sorrio abertamente, muito animada com tudo aquilo, muito mais agitada para continuar entrevistando, sabendo sobre eles, do que antes. — Próxima. Como são seus treinos?
— Eu não treino. — ela afirma, certeira, rápida. Pinky demora um pouco para entender que essa é realmente a resposta.
— Mas você treina outras pessoas. — aponto, e Pinky então se lembra de funcionar, escrevendo a frase anterior e o restante de sua fala na página.
Eu não treino. Isso pode soar estranho, mas tudo o que faço é ler e fazer o que li ou teorizei.
— A inveja que eu estou da velocidade de pensamento dessa mulher… — digo, um sussurro em tom brincalhão, citando um meme que havia visto na semana anterior na minha vivência na Terra, no tempo de memes e Internet. Ela não para de dizer, agora comentando sobre o que eu havia dito antes, sobre treinar outros. Pinky continua escrevendo suas palavras na folha.
Sim! Eu vejo isso como uma aula. Eu sei a teoria e a prática de boa parte das coisas. Tudo o que faço é dar os caminhos para que, quem treino, possa seguir seu próprio meio de utilizar magia. Sabendo os fundamentos e tendo potencial, até uma simples palavra pode ser o suficiente para acabar com um combate mágico.
Ela então pisca sutilmente para mim, deixando um sorriso orgulhoso escapar. Tudo o que envolve a Voz ou a Palavra é um indicativo para meu poder, tanto no campo da Criação, quanto da Destruição. Quando ela diz que uma simples palavra poderia ser suficiente para acabar com um combate, ela fala exclusivamente do meu poder, embora com certeza tenha uma magia na manga que pode repetir meus feitos.
A minha única reação é corar fortemente.
— Eu não… Não é… Uma simples palavra… — parece tão simples quando é colocado assim, mas a quantidade de treino, controle, auto-confiança que eu tinha de exercer apenas para soltar essa palavra… — Queria que fosse… simples… — todas as outras magias parecem facilmente feitas por todos os outros; sei que não é assim tão fácil, mas queria estar no nível de treino para dizer que soltar palavras é simples. Um dia chegarei lá, se eu não me sabotar no meio do caminho. — Mas… obrigada. — digo, meio orgulhosa de mim, meio sem jeito, porque o brilho do orgulho dela (ou de qualquer um dos meus filhos) por meu orgulho é sempre um quentinho, que me deixa sem muita reação que não derreter.
Espero um pouco, tentando não derreter de fato com o calor desse momento.
— Eu… Ahn… — lentamente, tento me recuperar da vergonha, para poder terminar com a entrevista, que já está no seu finzinho. Olho para o caderno, tentando manter os sentimentos dentro de mim, sem transbordar. — Acho que tem só mais uma pergunta. Uma memória base, que você acha que é essencial e formativa para o que é hoje.
Merlin não demora quase nada para começar a responder. Seu discurso é transcrito imediatamente:
Vou resumir. Teve um dia que eu saí com a Katerina em tour. Estávamos sentadas no palco, observando o lugar e ela estava toda contente, falando sobre como todo aquele lugar estaria cheio de gente. Foi uma conversa bem breve, pois logo ela quis ensaiar, mas isso me marcou muito. Mesmo sem a tocar naquele dia, foi um momento que me senti profundamente conectada com ela. Me senti profundamente feliz e me senti como se nenhuma crise de Gula ou de Luxúria pudesse nos separar. Como se nosso amor fosse tão perfeito que nada mudaria isso... E foi a primeira vez que tudo o que eu queria era sentar e conversar. Isso é muito profundo pra mim, pois é raro eu querer conversar ou ter tempo pra isso... Era como se não tivesse tempo ou espaço, e o mundo fosse só nosso. E eu queria muito ter sempre esses momentos com ela, e agora com a Ginny, mas sei que somos adultas e temos sonhos a seguir. Tenho muito orgulho da Katerina e tenho tido cada vez mais orgulho da Ginny. Eu as amo demais...
Ela termina e suspira, visivelmente apaixonada.
— Iti malia, que coisinha mais linda. — digo, algumas lágrimas em meus olhos, tão feliz que estou por elas, pelo amor delas, por poderem se amar livremente e sem medo. — Sério. Que coisinha mais linda. Eu tô toda nhonhonhonho. — abro um sorriso enorme, toda derretida pelo sentimento delas, sabendo que haviam passado por muito para chegar ali, sabendo que ainda passariam por muito mais, mas que estariam juntas, mesmo assim. — Mais alguma coisa a declarar, filha?
É a vez dela de corar.
— Não… É só isso… — diz, meio envergonhada, provavelmente lembrando-se da sensação de amar e ser amada tão fortemente, do calor que traz para o corpo e a alma.
— Então eu acho que é isso, filha. — finalizo a entrevista, sorrindo o mais brilhante dos sorrisos. Todo fim de entrevista é uma sensação incrível, um calor intenso de orgulho no coração. Ainda me questiono todos os dias como criaturinhas tão intensamente incríveis poderiam ter saído de mim. — Muito obrigada por participar do meu projetinho. Significa muito pra mim. — fecho o caderno e já vou me levantando, arrumando a calça que vestia, batendo levemente nas minhas pernas.
— Eu quem agradeço por todo seu esforço. Isso me orgulha muito, sabia? — dá para sentir o calor de seu amor e orgulho em sua fala; não teria como dizer que não é verdadeira quando diz isso.
— É…? — então coro de novo, agora sentindo mais orgulho que vergonha, ainda sem saber como lidar com esse sentimento, que ainda parece tão novo, mesmo com todos os esforços. Sentir orgulho de mim mesma ainda é uma coisa que tenho de me acostumar a fazer. — Bem… Eu também me orgulho muito de você, filha.
— Você é a melhor, mãe. — diz, e eu sorrio, aproximando-me para lhe dar um beijo no rosto e um abraço apertado.
— Obrigada, meu benzinho. Espero que dê tudo certo. — digo, me referindo à vida, à entrevista, ao processo de colocá-la no mundo. — Eu vou indo, tá bom? Eu amo você. — já vou me afastando, ainda virada para ela, para fingir que consigo ver seu rosto negro brilhando em orgulho de ser minha filha, de me ter como mãe. O calor disso é indescritivelmente bom.
— Eu também amo você, mamãe. — ela fala, e eu consigo perceber que está toda derretida, quase tão derretida quanto eu. — Bom trabalho.
— Obrigada. — falo, me afastando de verdade agora, virando-me para ir até a porta. — Tchauzinho, baby. — aceno rapidamente. Ela acena de volta, tão distraída que nem ao menos percebe que seus pés, tão acostumados a estarem flutuando, estão tocando o chão.
Saio do laboratório sorrindo abertamente, já começando a tirar o equipamento de segurança do rosto e do cabelo, caderno e Pinky no braço esquerdo, voltando para o quarto sentindo-me incrivelmente mais leve.
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