Meet the Huntar'z

8 A R T H U R I A


Notas iniciais
TRIGGER WARNING (aviso de gatilho): crise depressiva da personagem principal descrita com grandiosidade de detalhes.

A R T H U R I A

deusa espada / deusa metal

Não deu certo.

Havia passado o dia inteiro tentando fugir desse pensamento, embora soubesse que alguma hora eu teria de lidar com ele; que eu teria de olhar para a minha falha de frente e enfrentá-la; que eu teria que me lembrar que ainda há falhas.

Eu não preciso entrar no mérito do que não deu certo, porque qualquer coisa que não desse certo durante meu estado mental atual não seria muito bem digerida, nem mesmo se eu estivesse totalmente preparada para essa possibilidade. Porque, nesses momentos, minha mente, já treinada na busca pela perfeição inalcançável, simplesmente não consegue lidar com os erros, com a mera culpa de ter errado, com o mísero pensamento de vir a errar.

Não preciso dizer o que não deu certo, porque qualquer coisa que não desse certo me deixaria naquele estado: fraca, deprimida, odiando cada partezinha de mim, do meu ser, da minha aparência, da minha personalidade, da minha capacidade. Ainda é impressionante como qualquer pequena frustração pode me deixar assim, enquanto nem todos os elogios do mundo podem me fazer acreditar que eu sou parte do incrível, muito mais do que o suficiente.

Em minha alma treinada para ser a Rainha Perfeita, qualquer erro simplesmente me mostrava que eu não era o suficiente; que eu nunca seria o suficiente; que nem usando de todas as minhas forças, eu poderia ser ao menos próxima do que esperavam que eu fosse. Poderia ser um texto escrito e não aclamado, ou uma fala no tom errado; qualquer coisa que me mostrasse falha já seria gatilho para uma intensa enxurrada de palavras e xingamentos autodepreciativos.

E o pior de tudo nem é me sentir assim.

O pior é saber reconhecer exatamente quando esse sentimento vem e tentar me esconder dele, tentar evitá-lo, ter medo de revidá-lo internamente, por ainda ter medo do dono da voz que me ensinou tudo isso, seguidas vezes. É saber que estou presa em traumas e memórias dos quais, mesmo tentando muito, querendo muito, eu não consigo me desvencilhar.

Havia passado o dia inteiro me odiando, por tentar evitar pensar em como me odeio, por ainda não conseguir ser o que eu queria ser, o que esperavam que eu fosse, o que me ensinaram que eu deveria ser. Tentando me dizer que é só uma falha e que eu não precisava estar tendo todas aquelas reações físicas a esse acontecimento, explicando para meu corpo que ele poderia funcionar normalmente, sem tremer ou se travar, sem parecer que não havia fluido vital para se movimentar. Fazendo todos os esforços para me convencer de que eu poderia errar; que poderia não dar certo; que não era o fim do mundo, embora meu corpo parecesse estar respondendo a isso.

Até o ponto em que eu cansei.

Quando sinto que não há mais lágrimas a serem choradas, e que meu cérebro não vai responder normalmente à quaisquer esforços que Luksi ou Luci poderiam fazer por mim com seus amores, volto-me para uma das atividades atuais que verdadeiramente vêm aquecendo meu coração.

Ouvindo um conselho que Luksifer havia anteriormente dado, resolvo que é hora de mais uma entrevista. Pergunto a ele sobre a localização de Arthuria, a próxima filha na lista da genealogia, e, quando responde que ela está em seu quarto, não demoro muito até que saia do quarto, o meu casulo, para ir atrás de algo que eu sabia que poderia aumentar meus níveis tão baixos de serotonina.

Os meus passos subindo as escadas, atravessando os corredores, são lentos e pesados. Sinto cada esforço de cada movimento em meu corpo, cansada só de ter que pensar em caminhar até lá; cansada só de pensar. Os feixes dourados seguem cada vez mais finos, numerosos e esparsos, e eu até daria atenção ao seu brilho crescente se eu não estivesse tão entorpecida pelo peso de minha depressão. Sou guiada por sua energia, pela única luz que meus olhos cegos poderiam captar, mas não presto a mínima atenção para onde estou indo.

Só sei quando parar quando os feixes se reúnem novamente, tomando a forma de uma simples porta de madeira. Posto-me de frente a ela e hesito.

Pergunto-me se deveria mesmo fazer isso. Talvez eu devesse voltar outro dia, pois, se tinha uma coisa que eu sentia que faria nesta entrevista, era errar. Eu não poderia lidar com isso agora; não conseguiria lidar com outra falha, ainda mais uma que poderia ofender minha própria filha (e os meus potenciais leitores, não tão importantes nessa parte). Na minha falta de conhecimento sobre ela e o mundo, num geral, eu poderia errar tão seriamente a ponto de me perder completamente nisso.

Com o cérebro debilitado, sensação de estar carregando uma enorme esponja molhada dentro de minha cabeça, minha insuficiência como um dedo apertando-a incessantemente, eu reúno toda a minha coragem no esforço de levantar o punho.

Se eu errasse, depois eu lidaria com isso. No presente, ainda não há nada. Primeiro, devo bater na porta. Então bato.

— Toc toc? — digo, em dúvida, tom melancólico e fraco, enquanto o som se repete quando meus dedos batem no vão da porta duas vezes.

— Pode entrar, mãe. — responde a voz lá de dentro, em um tom sereno e levemente metálico, como o resíduo de um timbre robótico.

Entro no quarto, fazendo o máximo para controlar a minha expressão de tristeza, mas sabendo que falhei miseravelmente antes mesmo de sentir que ela olha para mim.

— Oi, meu bem. Boa tarde. — esforço-me para trazer meu tom normal de volta, levar meu ânimo de estar com ela à flor da pele, conseguir mostrar para ela como sou grata por poder dizer a ela essas simples frases, mas não dou conta. — Tudo bem contigo? — não dou conta, porque a melancolia dança em minha voz, mudando a entonação de minhas falas.

— Eu estou bem, mãe. — responde, parecendo muito ocupada para voltar-se o olhar para mim agora. — Senta aqui comigo. Estou dando de mamar. Cuidado com a lancinha, tá? — diz, e eu automaticamente entendo porque ainda não senti o calor de seus olhos; eles estão virados para sua filha, recém-nascida.

Aproximo-me devagar, passos ainda pesados como chumbo ou minha mente, pensando da lancinha de sua bebê. A lança onde está sua alma, a lança que ela simplesmente é. Instintivamente, imagino a dor que ela teria sentido em seu corpo enquanto grávida, carregando uma lança dentro de si, e ressinto a dor de carregar Arthuria em meu útero, a espada que ela também simplesmente é, a sua alma e forma verdadeiras. Pisco rapidamente para mudar o pensamento e já estou do lado delas.

Não conseguindo enxergar nenhum de seus móveis, utilizo da sensação delas para me localizar, energia das duas tremendo em cores quase idênticas. Antes de me sentar, tateio a cama levemente em busca de uma lança. Quando não a encontro, percebendo que não há risco de me sentar em sua filha, me acomodo.

Embora Arthuria seja a estrela desse ato, meus olhos estão na energia vibrante da criança. Eu simplesmente não consigo evitar. Há uma aura em todas as crianças existentes que faz com que eu queira dar a elas toda a minha atenção. É um sentimento tão quente que costuma afastar boa parte da sensação constante e estranhamente morna de estar deprimida.

— Ela tem um corpinho dela? Tipo... Fora da lancinha? — eu racionalmente sei essa resposta. Mas, quando a única energia que consigo sentir vem da lança, e não do corpo nos braços de Artie, e eu estou entorpecida e hipnotizada pelo potencial vivaz de uma criança recém-nascida, eu não consigo pensar racionalmente. — Como você tinha o seu? Que tinha que ficar carregando a espada por aí contigo? — pergunto, com o tom mostrando perfeitamente o meu torpor.

— Sim. — responde e ajeita a bebê no colo, levemente. — O problema era a ponta pegar na senhora, já que é muito afiada. A Lancinha tá meio que grudada na palma dela. — agora eu consigo imaginar um corpinho pequeno e bem vestidinho ligado à energia que posso enxergar: as perninhas e os bracinhos gordinhos, a cabecinha careca, a mão esquerda eternamente carregando uma arma.

— Ah, sim... — solto e hesito por um momento. — Qual o nome dela mesmo? — questiono, sem olhar para Arthuria, com vergonha de não ter lembrado, incapaz de compreender todas as informações da família no meio de tantos pensamentos novos e memórias recuperadas. — Eu tô... perdidíssima esses dias. — continuo, com a intenção de me explicar. Artie não parece se importar.

— Vasquez. Ela se chama Vasquez. — o jeito que ela fala o nome aquece uma pontinha de meu coração. — E a senhora me desculpe, mas ela é a criança mais linda dessa casa. — sua voz de tons metálicos se enche de orgulho e eu consigo abrir um sorriso fraco. — Espero que ela não tenha essa voz de metal batendo que nem a minha... — ela comenta um pouco mais baixo, mas ainda assim com um orgulho voltado para a bebê que é palpável. Não posso olhar em seus olhos, mas sei que estão voltados para sua filha, fruto de muito amor e batalha, e brilhando.

Eu rio baixinho, muito orgulhosa com o orgulho dela, mas ainda assim soa melancólico e frouxo em comparação ao que sei que pode ser.

— Acho que não vai ter, não. — digo, tentando acalmá-la de uma preocupação que, em minha cabeça é boba, mas na dela é importante. Levo a mão até a bebê, pegando em seu pézinho, sentindo-o descalço e muito macio. — Se esse for o corpo certo pra ela, não acho que teremos esse problema. — comento, lembrando vagamente de como a voz mais robotizada de Artie havia vindo junto com a sua transição para o seu primeiro corpo físico, depois que Merlin construíra sua primeira nova forma, para substituir a etérea, que Yahweh havia lhe dado ao seu nascimento, dependente da proximidade com a espada que era ela.

— Eu sempre tive, mãe... Isso é algo ruim. — ela comenta, o tom ainda igual, mas com uma leve frequência mais tristonha. A minha única resposta é abaixar os olhos, instantaneamente arrasada por não ter nenhuma lembrança de sua voz travando e quebrando no seu corpo de nascença, mais uma vez triste por não ter percebido, por não ter podido estar ali para perceber.

— É... Eu não percebi isso antes. — digo, visível e audivelmente amuada. — Acho que só percebi depois que... — me travo. Quero falar da sua transição para o seu primeiro corpo ovariado, do pesado protótipo ciborgue que Merlin havia feito para ela, mas não tenho coragem. Faz muito tempo que conversamos e não sei como ela se sente sobre isso. Tenho medo de ser invasiva, tenho medo de errar com minha filha, tenho medo de errar.

— Depois que...? — ela pergunta, querendo saber o resto da fala.

A pergunta é suficiente para que eu me desmanche. Ainda não choro, mas sinto que vou chorar. Uma onda de eletricidade passa por meu corpo e eu sinto ele inteiro entrar em um difícil torpor. É difícil respirar ou controlar a sensação de que tudo o que eu faço é uma enorme falha. Outra onda de eletricidade, energizada em sensações ruins, perpassa por mim e as lágrimas finalmente vêm.

— Eu não sei fazer isso. — internamente, não sei se isso vem do meu problema anterior, das falas repetitivas, tão antigas, do meu abusador em meu cérebro, da minha falta de conhecimento sobre transgeneridade ou do meu medo real de ofendê-la caso eu erre ao perguntá-la sobre isso. Só sei que choro tentando controlar o chorar, tentando silenciar os soluços que querem tão fortemente sair de mim. — Eu tô muito triste hoje. Talvez a gente devesse tentar outro dia. — digo, fazendo leve menção de me levantar, sentindo meu interior me implorando para sair dali, para me poupar da humilhação, para a poupar da minha presença.

— Bem... — ela diz, com o tom calmo, parecendo-me levemente indiferente ao que estava me acontecendo. — É a entrevista? Vai ser legal. — me incentiva, e o mal-estar que eu sentia vindo dela se desmancha como a paranoia que é. — A senhora quer pegar a Vasquez no colo? Ouvi dizer que sua caneta mágica escreve sozinha.

Oferecer um bebê para mim enquanto estou mal é como me oferecer qualquer coisa fofa enquanto estou mal: um remédio para a alma. Eu poderia passar a entrevista com a bebê no colo e, quando a tristeza batesse, mesmo que de leve, eu poderia apertá-la suavemente em meus braços para me lembrar que ainda há potencial em ser feliz no mundo. Quase todo mundo nesta casa sabe que, de alguma forma, estar com meus filhos e netos é meu maior remédio.

— Ela adoraria, não é, Vas? — Artie pergunta, sorrindo para a filha, fazendo um som parecido com o de metal caindo enquanto o faz. Suspiro pesadamente, limpando uma lágrima teimosa, tentando voltar a respirar normalmente. Quero ao menos não estar chorando quando pegar a criança.

— É. Ela escreve sozinha. — comento, voltando para a caneta. Então abro a gaveta invisível, agindo como se não fosse nada, sem nem realmente prestar atenção no movimento, e puxo o caderno e a caneta cor de rosa com pompom de dentro. — O nome dela é Pinky. — mostro a caneta para ela, fazendo um suave carinho no pompom, praticamente acordando-a. A caneta se move levemente em minha mão, pelinhos do pompom balançando, e então foge de mim, ficando em pé sozinha. — Eu vou... — abro o caderno numa página em branco, puxando Pinky de volta apenas para desenhar o nome de Arthuria no topo da folha, soltando-a novamente.

— Olá. Pinky. — diz, muito pausadamente, claramente cansada por ter falado corretamente durante todo aquele período. Geralmente, para além do tom metálico, ela também fala de forma quebrada, pausando o discurso em locais que geralmente não teriam pausas.

Mal presto atenção nela cumprimentando a caneta senciente enquanto coloco o caderno aberto na cama e continuo de onde tinha parado a fala:

— Deixar o caderno aqui em cima da cama. A caneta escreve sozinha. — finalizo, levantando o olhar e vendo Pinky (que consigo verdadeiramente ver, por ser um objeto e ter sido eu quem a criou por completo) se balançar para a menina em resposta.

Espero um pouco, olhando do caderno para Arthuria, criando coragem para finalmente começar a entrevista. Preciso desesperadamente de algo que me aqueça o coração para ter forças para continuar sem achar que estou errando a cada pergunta.

— Pode me dar a bebê? — sussurro, estendendo os braços, quase uma súplica.

Artie então me entrega Vasquez, ajeitando o cabo de sua lança para não me acertar, e eu me acalmo quase instantaneamente com a bebê no colo. Seguro para não soltar um suspiro de alívio, mas a sensação se espalha por mim, aquecendo parte do meu ser. Faço carinho no rosto macio de Vas, por um doloroso instante desejando muito poder enxergá-la de verdade, vê-la para além das descrições que conhecia pela voz de outrem.

Pensar em como às vezes tudo o que eu queria era enxergar não ia ajudar nesse momento. Não quando, na voz dele, eu só conseguia escutar que essa seria a minha falha fatal. A falha que eu havia cometido no momento que nasci e que atrapalharia para sempre todo o resto. Mesmo que eu me esforçasse muito, por esse e outros motivos, nunca seria o suficiente. Nem se realmente eu tivesse agido da forma mais perfeita; só por não enxergar já seria falho o bastante.

Aperto Vasquez contra meu peito só um pouquinho, tentando manter o calor de sua presença e não o frio pensamento de como nunca irei vê-la. Não é como se eu já não tivesse verdadeiramente me acostumado com aquilo naqueles trilhões de anos.

— Você realmente já tinha a voz craquelada de metal antes? — pergunto, tom melancólico, preocupada por ter perdido coisa demais sobre ela enquanto estava fora, cumprindo minha missão. Não olho para Artie, fugindo da energia do seu olhar em mim; fito o rostinho da bebê, ainda me perguntando como seria a sensação de poder enxergá-lo de verdade.

— Desde que. Minha lâmina. Se tornou. Metálica. — leva um tempo para ela completar a frase, pausas mais longas em lugares que usualmente não se fariam. É difícil para ela entoar a frase completa direto, mas sua fala é ainda muito tranquila e com tom aparente de quem não tem nada a se preocupar na vida. — Ela era óssea. Quando eu era. Muito pequena. Diz a mamãe. Zinha. — ela separa a palavra "mamãezinha" e eu me acalmo mais um pouco, lembrando-me de como Lucith adorava dormir com Artie quando menor (atualmente também). Pensar em memórias boas com a Luci também é sempre uma onda de calmaria.

— Sim. Ela era óssea. — não sei como poderia ser diferente, tendo saído de mim. — E beeeem mais fininha e pontuda. Nem sei como isso saiu de mim. — lembro-me da dor da gestação, as pontadas e o desconforto como nem mesmo as fracas noites com Escanor conseguiam dar. — Nem sei como sobrevivi a uma espada dessas no meu útero. — a magia faz coisas estranhas, fora a conclusão que eu chegara na época.

Faço uma pausa e uma dúvida crescente aparece em meu cérebro. Hesito um momento por estar com medo de estar errada novamente. Há tanto que não sei...

— Mas ela não virou metal depois da transição pra esse corpo de metal? Ou foi antes? Eu não consigo me lembrar. — questiono, deixando a dúvida finalmente sair, o sentimento ruim já voltando a me apossar só por não ter certeza.

Com algumas das crianças, era fácil me lembrar exatamente o que havia ocorrido, podendo dar detalhes sem nem ao menos pensar muito. Com outros, como é com Arthuria, minhas lembranças são meio apagadas, meio manchadas, apenas as partes mais iniciais vindo de boa memória.

Em momentos assim, em que nada do que faço parece certo, o simples fato de não ter podido viver com meus filhos, conhecê-los perfeitamente, lembrar de seus detalhes, faz com que doa. Eu não quero ter dúvidas sobre eles, eu quero saber. Eu quero saber todo o tipo de informação que meu cérebro conseguir aguentar, mas ele não parece aguentar muita. A frustração é maior do que tudo.

— A mãe. zinha me. contou. — ela para, incomodada com a própria fala, as pausas junto com o tom mecânico. Respira fundo, se concentrando, e continua. — Que foi quando eu tinha cinco anos... Minha espadinha começou a criar uma casquinha metálica e ficou assim. — dá para sentir o quanto ela está se esforçando verdadeiramente para isso, e eu deveria sentir orgulho, porque é a sensação mais lógica para uma mãe babona como eu, mas cada uma de suas palavras é como um soco no meio estômago.

Eu deveria saber melhor, eu deveria saber mais.

— Meu corpo atual é de carne e osso, que a senhora arrumou co-om a Merlin, lembra? — mas nada se iguala a sensação de saber que ela estava certa e que, no fundo de mim, eu sabia que eu tinha feito o que ela disse, porém não conseguir lembrar disso acontecendo.

Novamente, meu corpo não reagiria assim se eu não estivesse já em um estado depressivo deplorável, mas é como se alguém tivesse me dado um verdadeiro soco invisível na boca do estômago. Sinto meus órgãos se contraírem em vergonha. Tento não deixar isso muito explícito, mas meus olhos já queimam com a emoção transbordante de falha, de erro, de incapacidade.

Artie parece não perceber, porque continua, já demonstrando cansaço, embora sua voz tenha um quê de orgulho de si mesma:

— O Jay fala que... Eu tenho um vício linguístico. — ela para, ficando ofegante por um momento. — Mas que vou aprender... Logo.

Eu não presto muita atenção nessa última parte, porque tento controlar a quantidade de ar que entra em meus pulmões, cada vez mais pressionados pela sensação de se apertarem em angústia.

— Me desculpa, filha... Eu não tô legal... — digo, olhos brancos ardendo com lágrimas que não caíam, respiração ofegante simbolizando mais uma crise vindo. — Não consigo lembrar de nada. — nego com a cabeça, meio desesperada, tentando me lembrar com exatidão do momento em que Merlin finalmente conseguira fazer um corpo humano, mas com algumas falhas adaptáveis.

É intensamente frustrante não conseguir chamar uma memória que eu tenho tanta certeza de ter. Parece tão errado. Há com certeza algo de errado no meu cérebro.

— Talvez a gente realmente devesse fazer isso outro dia. — é um aviso de que vou explodir. Trago a bebê para ainda mais perto de meu peito, fazendo o máximo para não apertá-la demais, ainda conseguindo segurar as lágrimas. — Eu vou fazer isso tudo errado, se continuarmos.

— Eu acredito na senhora. — ela fala, o tom verdadeiramente confiante. — Vai conseguir! — e eu travo completamente, porque é como se sua confiança se infiltrasse em minha mente e tomasse forma, para batalhar contra a forma-pensamento que já é dona de minha mente há trilhões de anos.

— Não consigo, Artie... — digo, quase num sussurro, sem muita força para pensar, conseguindo ouvir as espadas das duas formas em meu cérebro, sentindo as faíscas que soltavam com a intensidade e velocidade do combate.

Em segundos, milhões de pensamentos depressivos passam por minha cabeça, deploráveis memórias de abusos passados, miseráveis momentos de dor e sofrimento, aparecendo apenas para lutar contra a ponta de confiança crescente que a aura de Arthuria lança em mim. Nessa batalha, Depressão é mais rápida e mais familiarizada com o espaço do que Confiança. Nem com as melhores técnicas e espada a segunda teria uma chance.

Acredito que eu tenha começado a tremer em algum ponto, porque Arthuria se levanta rapidamente e dá um beijo em minha testa, todo o carinho e a firmeza se mostrando ainda mais fortes.

— A senhora é a... Melhor. Eu. Acredito.

Uma onda de esperança passa pelo meu corpo, logo extinguida pela eletricidade de mais um amontoado de lembranças sobre minhas falhas mais bobas, provas de que, por mais que tentasse, de nada sabia, nunca compreenderia, nunca bastaria. Eu não posso sentir confiança, eu não posso confiar em mim, eu faço tudo errado, não tem como eu acertar, eu mereço sofrer, eu mereço.

Não há como lutar contra esses pensamentos. Eles ardem em mim, voz de Sammael, figura essencial do meu estado mental, muito mais alta do que qualquer fé que qualquer um poderia ter em mim.

— Não consigo... — sussurro, ainda mais baixo, agora sem conseguir segurar as lágrimas. Ela não muda de expressão nem por um segundo, não desenha preocupação no rosto. Apenas sorri largamente, calor de seus olhos queimando em plena confiança em mim. Seu sorriso é como um soco.

Porque eu sinto o impacto de ter alguém acreditando em mim quando a única coisa em minha cabeça é a sensação de que nunca, ninguém, deveria esperar qualquer coisa da minha pessoa que não fosse a pura quebra de expectativas. Eu nunca alcançaria às expectativas Dele, então não alcançaria as minhas. Na certeza de que nunca alcançaria nada, de que adianta ter alguém confiando em mim, sendo que sei, tão instintivamente, que vou falhar?

Eu sempre vou falhar. Eu sou falha. Eu sou a falha.

A energia que Arthuria emana parece ficar mais forte a cada segundo, numa batalha cada vez mais árdua contra meus pensamentos depressivos, mas sei que não tem como ela ganhar. Eu sou a depressão.

Começo a chorar com muita força, soluços e faltas de ar, ao perceber que não conseguiria lidar com aquele tipo de confiança agora, com aquela sensação constante de que todo mundo esperava e confiava que um dia eu ficaria bem, mesmo que pareça tão claro para mim que eu nunca vou ficar bem.

Eu nunca vou ficar bem.

Não consigo respirar.

— Obrigada. Por ser. Minha. Mamãe. — ela diz, em algum ponto, e me abraça, tomando cuidado para não se machucar com a lança da filha em meus braços. Dá para sentir uma pequena mudança em sua energia, não sendo apenas uma intensa crença em minha capacidade, mas também orgulho e comoção.

Não tenho forças para abraçá-la de volta, mas aperto Vasquez ainda mais contra mim, tentando me lembrar que eu havia prometido que não ia chorar com a criança no colo, que ela não precisava entrar em contato com minha doença, que esse bebê não precisava estar ali tremendo enquanto tremo.

Não consigo parar de chorar.

Eu quero respirar, mas é difícil puxar o ar sem parecer que estou me afogando em minhas próprias lágrimas, sem soluçar.

— Deixa sair, mãe. Logo vai ficar bem. — passa as mãos nas minhas costas levemente, soltando-se do abraço. — Afinal, a senhora é a mamãe. É a que todo mundo. Se espelha. — se o sorriso dela fora um soco, essa fala foi um chute.

Por que minha cabeça não consegue compreender que ela está tentando me deixar bem? Por que parece tão errado que ela não me veja como o monstro que eu me vejo dentro da minha mente? Como aquela falha elétrica?

Naquela batalha entre a crescente sensação da energia de confiança dela crescendo dentro de mim contra a Depressão, tão dona de cada célula no meu corpo, só existiria um vencedor, mas aquela que vencia já estava meio irritada de ter que lutar.

Consigo sentir uma raiva gratuita borbulhar dentro de mim, querendo gritar aos sete ventos que era um absurdo qualquer pessoa querer se espelhar em um amontoado de lixo.

— Eu estou. Aprendendo a ser. Humana... Com a senhoroa. — ela se embola para falar, mas dá para sentir o amor e a sinceridade em cada palavra.

Odeio o fato de que minha visão distorcida queira balançá-la para a realidade perversa da minha mente, mesmo quando tudo o que eu precisava era abraçá-la forte e agradecê-la. Tudo o que eu precisava era deixar a onda de esperança perpassar por meu corpo inteiro, e mantê-la.

Mas só consigo sentir o borbulhar irritante da doída aversão a mim mesma.

É a raiva que faz com que o choro e os tremores diminuam, permitindo que eu fale, tão rápido quanto consigo entre as lágrimas, a fúria palpável direcionada a qualquer mínimo detalhe relacionado a mim:

— Não deveriam. Não deveriam se espelhar em mim. Eu sou ignorante e não sei sentir, nem ver, nem lembrar de nada. — nego com a cabeça, veementemente. — Eu deveria lembrar... — sussurro, depois de um tempo. — Eu não consigo lembrar... — dá para sentir a frustração dentro de mim, a ira direcionada a minha incapacidade, aos meus empecilhos, a minha fraqueza.

— Se acalme. — e a voz dela é calma ao dizer isso. Outra onda de sentimentos passa por mim, mas essa não briga ou batalha dentro da minha cabeça; só me relaxa. — A senhora sabe mais do que... Esse sentimento ruim... A deixa ver.

— Não. Não sei. — a resposta vem rápida, negando-a. Tento reviver a onda de calmaria respirando fundo, me esforçando para parar de tremer, mas ainda tiritando um pouco enquanto expiro o ar pesadamente. — Eu... — hesito, escolhendo cada palavra, sopesando cada letrinha, porque tenho vergonha de admitir em voz alta que tudo isso é por medo de errar, de me envergonhar. — Não sei... E tenho tanta vergonha... De perguntar, às vezes. Principalmente quando eu estou assim...

Tem tanta coisa que eu não sei que, por ter medo de errar ou invadir enquanto pergunto, tenho vergonha de questionar. Se eu não sei imediatamente sobre coisas que parecem obrigatórias para a minha posição saber – como, por exemplo, saber exatamente os processos para a transição de minha filha, conhecimento básico que eu teria de ter como mãe –, meu cérebro entorpecido se trava na dúvida, incapaz de expressá-la em voz alta, pela humilhação de entender que não fiz meu papel direito.

A calmaria me atinge como um raio novamente, sensação vindo diretamente de Arthuria, adentrando meu sangue como a Confiança nunca poderia.

Consigo pensar novamente, de forma racional.

Respiro fundo novamente, chacoalhando a cabeça negativamente, sentindo-me uma boba por ter todos esses pensamentos ridículos.

— Desculpa. — solto. — Eu... deixa pra lá. — não saberia explicar isso tudo, colocar todos esses sentimentos em palavras. Não adiantaria tentar, eu apenas me sentiria mais medíocre do que já me sinto, percebendo e colocando para fora minha linha de pensamento complexa e autodestrutiva.

— Mãe... A senhora. Não precisa ter. Isso... — Artie começa, cada pausa no lugarzinho errado mostrando ainda mais de seu carinho e de sua preocupação. — Nós amamos. E entendemos. A senhora... Não tem de. Ser incrível. E perfeita. O tempo todo... — seguro-me para não rebater isso, porque, na minha cabeça, eu preciso ser perfeita o tempo todo, ou não será suficiente. Passar trilhões de anos sendo cobrada da perfeição por meios violentos e não-convencionais tem seus custos. — A senhora pode. Confiar. Na gente? Isso a faz. Incrível. A senhora é. Humana...

Às vezes, odeio ser humana. Às vezes, odeio ser cega, fraca, incapaz, menos. Às vezes, sinto que tudo isso me faz inferior a todos ali. E eu só queria ser ao menos equivalente. Eu nunca seria perfeita, portanto, nunca o suficiente, mas conseguiria ao menos estar no mesmo nível, me entender como igual.

— Eu sou humana num lugar onde todo mundo não é. — explico, com calma e seriedade na voz, sem nem ao menos tremer ou sentir remorso na fala. Não há dor, apenas os fatos distorcidos por minha mente doente. — Eu tenho que ser incrível e perfeita pra chegar ao menos nos pés de vocês. Mas nunca é o suficiente. — termino em um tom mais baixo, certa de cada uma de minhas palavras.

Há uma pequena pausa. Forço-me a fazê-la, para quebrar o assunto.

— Mas, como eu disse, deixa pra lá. — finalizo e mudo o tópico, voltando para a fonte do meu erro. Com a energia ressonante de calmaria, consigo recomeçar de onde tive medo, perguntar o que eu queria sem me sentir ansiosa e falhando apenas pelo ensejo de questionar. — Você não tinha um corpo de metal? Eu arrumei um novo pra você com a Merlin? Eu não lembro disso.

Na verdade, consigo lembrar vagamente, mas não compreendo a ordem dos acontecimentos. Não faz muito sentido.

— Ela fez. Metálicos. Pra eu trocar. — lembro disso: corpos com partes robóticas diferentes, com funções diferentes de acordo com a arma. — Quando fiz. A transição. Ela fez um de carne. Mas imperfeito. — os corpos metálicos eram difíceis de carregar ou de estar dentro. Quando Arthuria percebeu que era ela de verdade, já milhares de vezes mais confortável em seu corpo novo, aquele protótipo experimental em comparação ao seu corpo etéreo anterior, um que não lhe desse disforias, pediu por um corpo de verdade. — A senhora arrumou. Tudo. E é perfeito. Agora.

A memória finalmente me vem.

Artie primeiramente chegando para mim em um corpo metálico feminino e eu estranhando um pouco, mas apenas deixando que acontecesse depois que ela disse que se sentia melhor assim. E depois, chegando em um corpo novo, de carne, osso e alma, tendo problemas em conectar a espada que ela era ao corpo que carregava.

— Sua espada ainda está no seu peito? Ela ainda troca? — havíamos colocado o espaço para a espada no peito, mas um corpo de carne não aceita espaços para metais, então fizemos de forma mágica.

— Do jeito que. Vocês fizeram. — ela abre o roupão, exibindo a tatuagem de espada que vai da parte baixa de seus seios até abaixo de seu queixo, punho em seu pescoço. A imagem brilha em meus olhos, reluzindo uma forte magia.

Uma que eu consigo reconhecer de cara, pelo menos em partes. Porque a energia contém um típico tom de rosa escuro que ao menos circula tudo o que toco e construo. Eu sorriria de orgulho de perceber que construí algo para a perfeição, como Artie coloca, mas estou entorpecida demais para isso. Embora calma, ainda estou com o cérebro parecendo uma esponja, agora como se simplesmente tivessem apertado uma até sair cada gotinha de líquido.

— Mas você ainda consegue trocar os corpos e as espadas como quando o corpo era de metal? — indago, na curiosidade e, quando percebo que talvez esteja perguntando demais, paro novamente, voltando a hesitar. — Desculpa fazer tantas perguntas... Isso... Parece invasivo, eu acho.

— Não é. Fique calma. — ela me tranquiliza e todos os meus pequenos indícios de ansiedade me deixam. Na calmaria que ela me passa, não é preciso tantas dúvidas. — Sim. — então responde. — Mas agora eu não preciso segurar a espada num corpo vazio. — imagino-a tirando a espada do peito toda vez que desejasse mudar de forma, colocando-a em outro corpo vazio. — Posso tocar a tatuagem. E trocar. — já havia presenciado ela fazendo isso antes: tocando a espada tatuada entre os seios e mudando completamente de forma. — Ou pegar a espada. Se eu estiver lutando.

Acho que o torpor de meu cérebro deprimido me impossibilita de compreender a grandiosidade disso tudo, então, mesmo sentindo que não entendi corretamente cada uma dessas partes, digo:

— Okay... — dá para sentir minha dúvida no ar. — Nesse caso, hm, a gente fala sobre isso nas peculiaridades. — se ela explicasse detalhadamente, talvez fosse mais fácil de compreender; teríamos uma parte para isso mais a frente, já planejada na entrevista em si. — Vamos por... partes.

E então, finalmente, depois de todo meu show depressivo, eu estou me encaminhando para o que verdadeiramente vim fazer aqui. A quantidade de tempo que gasto tendo crises é avassaladora.

— Atualmente. Uso a forma Excalibur. — anuncia, antes que eu pergunte qualquer coisa a ela. — Ela é melhor. Pra amamentar. Cabe mais leite. Que nem a senhora. — seu comentário vem num tom extremamente inocente, mas fico vermelha imediatamente, sabendo que ela está citando o tamanho de meus seios. Se está comparando os seus aos meus, talvez os de Excalibur fossem os maiores entre os de suas diferentes formas.

Arthuria Huntar'z tem três formas diferentes. A similaridade de todas elas é sua pele negra média, mais escura ou mais clara em algumas, e o tom castanho acinzentado de seus cabelos. A que ela está agora, Excalibur, é, como ela mesma disse, a mais parecida comigo. Nessa forma, ela é gorda pequena, menos acinturada que eu e também com peitos menores, tendo os cabelos alisados e os olhos azuis brilhantes. Quando muda de forma, seus olhos tomam um tom de dourado, brilhando toda vez que utiliza de seus poderes. Das três, Excalibur é a que tem o tom de voz mais grosso e é a que mais vejo utilizando, não apenas nessa época de amamentação.

Marcada entre seus seios está a tatuagem muitíssimo detalhada de uma espada de lâmina de espessura mediana, integridade dela indo por todo seu tronco, pomo em formato de cruz logo abaixo do queixo, ponta um pouco acima do umbigo.

— Entendi... — solto, envergonhada, sentindo as bochechas queimarem por uma fala que, em outros dias, não seria nada demais. — Mas... Hm... — hesito um pouco, aproveitando a leveza que a sensação de calma que ela me passa, tentando perder cada ponta de vergonha. — Poderia, antes de tudo, me descrever onde a gente está? — eu já havia chorado o branco dos meus olhos fora e ainda não sabia onde estava.

— Acho que a melhor analogia pro meu quarto é um quarto de Motel. — ela responde, e eu rio baixinho da analogia. — Eu tenho uma cama redonda, tuma balheira com chuveiro e um vaso separado. Só não tenho espelhos até no teto. — não a corrijo, mas sei que ela quis dizer "uma banheira"; ela está se esforçando muito para soltar frases completas sem travar no meio delas. — O berço de Vas é redondo também.

— É. É uma boa analogia. — comento, sorriso travesso no rosto, resquício da risada anterior. — Bem... É isso? Mais algo para descrever? — questiono, se ajeitando na cama, vendo Pinky se levantar com ânimo da caminha que fizera para si no caderno enquanto eu chorava toda a minha imperfeição para fora. — Porque se for isso, vamos começar.

— É só isso. Meu quarto é um dos mais... simples.

O pompom cor de rosa treme agitado e também sinto uma pontada daquela agitação. Agora que já tinha limpado a mente na torrente de lágrimas, eu poderia continuar o que tinha planejado.

— Entendi. — assinto positivamente. — Bem... Nesse caso... Nome. Títulos. — olho para a folha do caderno rapidamente, checando se tudo estava certo. Faço carinho no rosto de Vasquez para me manter sã e calma, evitando os pensamentos ruins com a pele macia de um bebê novinho.

Ela não demora a me responder. Pinky copia cada colocação no caderno.

Arthuria Sunshine Huntar'z

Deusa da Lâmina. Deusa protetora dos Guerreiros.

— Sunshine? De onde veio esse Sunshine? — minha expressão é de curiosidade, testa franzida em uma pequena confusão. Não me lembro de ter colocado esse nome em nenhum deles. Será que é novamente algo que não me lembro de ter feito?

— Do meu marido. Mãe. — responde, como se fosse meio óbvio, mas ainda com calmaria no tom, uma fala despreocupada.

— Ah. — rio de mim mesma, porque realmente deveria ser óbvio. Quem mais na família teria um sobrenome assim senão alguém intrinsecamente conectado com Gaiden? — Faz sentido. — meneio positivamente. — Bem... É... Agora... — olho para a folha novamente, tentando me lembrar a ordem exata das perguntas; meu cérebro fundido de tanto pensar demora um segundo para processar. — Gênero. Sexualidade. Pronomes. Status de relacionamento.

— Eu acho que sou humana. Mulher trans. Hétero. Casada com o Jay. — diz, pausadamente, e a caneta transcreve as informações que ela considerara mais importantes no papel, adicionando a resposta que ela não havia dado no final.

Humana.

Mulher trans. (ela/dela)

Heterossexual.

Casada com Jay.

— Você é humana. — declaro, diante sua dúvida expressa na sua falta de certeza sobre sua espécie. — Seu corpo é humano. — tinha que ser, se eu havia feito parte determinante do processo de criação dele. — Eu não sei fazer, hm, com meus poderes, muito mais do que um corpo humano com algumas alterações. — eu sei fazer outros tipos de corpos, mas isso passa pela gestação e não é só comigo, preciso de ume parceire. — Se eu fiz seu corpo, você é humana.

— Humana. — ela repete, abrindo um largo sorriso, bastante feliz por ter sua confirmação. Repreendo a parte de mim mesma que quer dizer a ela que não há nada bom em ser humano, mas ela parece tão feliz com a constatação que apenas sorrio de volta, levemente, ainda tentando tirar a melancolia de dentro de mim.

— Pode dizer quem é Jay?

— Gaiden Sunshine Huntar'z. Deus da Medicina e. De umas outras coisas. Que não lembro. — responde, e eu mantenho o sorriso no meu rosto.

— Ah. Só precisava do nome. — meu tom é suave e o pompom escreve o nome completo dele ao lado de seu apelido, completando a parte como:

Casada com Jay (Gaiden Sunshine Huntar'z)

— Depois eu entrevisto ele também. — adiciono, levando o olhar rapidamente para o que Pinky escreve, depois voltando a fitar cegamente minha filha. — Vou entrevistar todos. Menos os netos. Porque aí seria demais. — declaro.

Se eu fosse entrevistar cada um dos Huntar'z, dos irmãos, aos filhos, aos netos, eu teria que entrevistar quase uma centena de pessoas. Se entrevistar, transcrever e descrever as dos filhos já é um trabalho puxado, imagine a de todos os demais.

— Entendi. — afirma ela, daquele mesmo jeito leve.

— Hmmm... — folheio o caderno, indo até a página de perguntas para me certificar novamente de qual seria a próxima. — Qual a sua arma mágica? — com a mesma tranquilidade que ela exalava desde que eu cheguei, ela responde:

Se'Ken Excalibur. Ela tem a. Habilidade de. Cortar. Qualquer coisa... Menos outras. Armas Sagradas.

— E como funciona? — questiono, me curvando um pouco para frente, curiosa. — Porque a espada é você. Está em você. Você tira ela de seu peito, onde tá a tatuagem?

— Entre meus seios. — indica, fazendo um movimento leve com a mão indicando o comprimento da tatuagem em seu peito. — A guarda fica acima dos seios. O cabo pega quase todo meu pescoço. A ponta da lâmina chega no topo de meu umbigo.

— Aí você simplesmente a puxa, ou tem um método específico?

— Eu toco e ela aparece na minha frente. Aí eu. Pego. — explica, e eu consigo visualizar ela fazendo isso no meio de uma batalha.

— Entendi. — solto, porque não há mais nada para dizer.

Talvez, se eu estivesse com um outro estado mental, eu a enchesse de diferentes tipos de perguntas, mas, depois de soltar isso, demoro um pouco para processar tudo. Não porque ela tinha me dito muita informação, mas porque a sensação ainda estava dentro de mim, o torpor que me subia novamente cada vez que eu pensava que a calma dentro de meu peito parecia fabricada externamente, algo que não fosse meu.

Como eu demoro um pouco para continuar, ela questiona, curiosa e num tom invariavelmente doce:

— O que vem... Agora? — pisco uma vez, sendo trazida de volta ao mundo, para fora de minha mente perturbada, por sua voz.

Qual a sua relação com seus poderes e peculiaridades? — não me prolongo.

Ela também não. Porque respira fundo, puxando o ar com tudo, na intenção do que parecia ser controlar sua fala para não errar tanto durante seu discurso.

E então solta, como eu nunca vi ela soltar antes, fazendo Pinky ter certa dificuldade para acompanhar, tantas informações ditas com tanta pressa, tentando não gastar muito fôlego:

Bem... Meu poder é a Resoluteness. Tudo o que posso fazer com esse poder, por si só, é aumentar a Determinação ou Firmeza dos outros e a minha baseada na minha fé naquilo. Por exemplo. Se eu tenho fé que a minha mãe é uma pessoa incrível, meu poder gera uma aura em que todos ao redor se sentem incríveis.

Não a corto, mas penso em como tudo faz sentido agora. Como aquela onda de confiança havia me preenchido e me quebrado, naquela batalha contra a depressão. Como essa onda constante de calmaria ainda permanece dentro de mim, mesmo meu próprio interior percebendo que é uma força que vem de fora. Ela continua, ainda parecendo estar utilizando do mesmo fôlego.

Com a Excalibur, isso faz com que o poder de corte seja diretamente ligado ao meu poder. Posso até cortar vfários planetas ao mesmo tempo se eu tiver fé o bastante de que sou capaz disso. E isso tira a limitação dela de só poder cortar objetos físicos. Eu consigo cortar magia, também. Menos o novo cubo da Merlin. Aquela merda é incortável.

Ela dá especial ênfase ao "incortável". Dá para sentir a raiva em sua voz ao apontar isso. Há uma sensação presente de que essa é uma das suas maiores mágoas, não poder cortar absolutamente tudo, ter encontrado algo que a impedisse de o fazer.

Minha peculiaridade está na variedade de formas que tenho. Eu tinha quatro corpos vazios, com características diferentes, para usar na minha vida, para experimentar. Quando fui transmutada, Merlin sintetizou os efeitos através de formas. Vasquez se fez a partir de uma delas e o poder foi dividido entre as três formas e ela. Merlin previu que isso ocorreria e fez um mecanismo que dividia o poder consumido em quatro partes. Ou quantas fossem necessárias.

Penso em como devia ser difícil para ela ter de retirar a espada no corpo todas as vezes, para transportá-la para um outro, dividindo-se em corpos vazios e mais ou menos humanos, antes de ter um corpo único, perfeito para ela e todas as suas formas. Deixo-me sorrir um pouco, orgulhosa de todo o processo que ela vivenciou, muitíssimo orgulhosa dela.

Mais orgulhosa ainda porque, mesmo que tenha errado a palavra "vários" no meio do discurso, ainda assim conseguiu concatenar as ideias de forma contínua até agora. Mesmo nessa enorme fala, que continua:

Agora sobre os poderes. Eu dei um nome pra cada forma. Excalibur é meu corpo principal, original. Ele é balanceado em todos os atributos de combate, mas não se destaca em nenhum. Chastiefol se destaca em agilidade e precisão, mas tem uma resistência e defesa baixíssimas. Rhita tem uma resistência e defesa gigantesca, mas ataque e agilidade baixas. Vasquez, como minha forma, não tinha nenhum atributo que se destacava fisicamente, mas ampliava minha magia numa proporção absurda. Ao ponto de eu conseguir emanar aura daqui, num ponto mais distante de Costa, que cobria até Costa, passando pelas Marines.

Eu tenho uma cicatriz no olho, tanto que não enxergo de um deles.

Ela move a franja do lado esquerdo do rosto, mostrando um corte em X que passa pelo olho esquerdo, uma cicatriz funda. Não consigo exatamente ver o corte, mas sinto ela ali, produto de uma violência incontrolada, uma marca vermelha no seu rosto.

Essa cicatriz foi feita por Edward e Connor, no dia que eles surtaram. Eu pedi pra nunca retirarem ela de mim porque ela me lembra que eu nunca posso subestimar ninguém.

E eu esqueci de falar das características dos corpos. Excalibur é muito parecido com seu corpo mortal, Mamãe. Muda que sou mais baixa. Cerca de 1,65. Tem cabelos nos ombros e castanhos. Rhita tem um corte mais repicado, mas o cabelo bate na minha cintura. Esse corpo é um pouco menos volumoso nos seios e cintura, mas é mais alto. Cerca de 1,75. Chastiefol tem um castanho muito vivo e o cabelo bate no meio das minhas costas. É um corpo muito magro e baixo, tendo 1,58.

— Uau. — solto, quando ela para de falar.

— Por que... Surpresa...? — ela pergunta, o tom cortado, dando para ouvir o cansaço em sua voz. O esforço que ela tinha feito para conseguir falar tanto, tão continuamente, com certeza foi enorme. Suspiro, tentando amenizar a expressão em meu rosto, sabendo que meus olhos estavam arregalados em espanto e orgulho.

— É a primeira vez que te vejo fazer um discurso tão completo de forma tão... fluida. — confesso. Ela sorri, tentando disfarçar o enorme cansaço mental por ter feito uma fala desse tamanho, errando apenas uma única vez, tropeçando em uma única palavra. Ela não precisa me dizer, porque eu consigo sentir o meu próprio cansaço voltando para mim, visto que sua emoção era sempre espalhada para os outros através de seu poder.

— Eu achei incrível. — continuo. — Eu sei que se esforçou muito. Sei que foi difícil. — abro um sorriso largo, tentando esconder o fato de que minha mente depressiva já estava ficando cansada novamente, que eu conseguia sentir o peso do torpor voltando aos poucos. — Eu estou muito orgulhosa. É um uau orgulhoso. Porque sei do seu esforço.

— Obrigada. — ela responde, e o cansaço em sua voz dá lugarzinho para o orgulho de si mesma, de sua capacidade, fazendo que uma pontinha microscópica disso também cresça em mim.

Respiro fundo, esforçando-me para não me deixar levar totalmente pelas sensações que ela me dava. Se eu fosse apenas por isso, eu travaria novamente na minha contradição interna.

— Pode ir no seu ritmo nos próximos. Tá tudo bem.

— Não. — ela insiste, convicta. — Quero fazer... Bonito... Pra senhora... Escrever... Bonito... — é um empenho falar essa frase, mais interno do que da própria fala. E então sua voz destrava, nova sensação de pura determinação. — Esqueci de uma coisa importante. — arqueio a sobrancelha com a nova informação. — Eu sou Pecado da Ganância.

Pinky se mexe como se estivesse confusa sobre o que fazer, sobre como prosseguir, mas, antes que eu deixasse a caneta senciente escrever nos títulos sobre o Pecado, e cortar mais um na lista, digo:

— Não se canse. — olho para a caneta, que se movimenta levemente como se estivesse ofegante, também cansada de tanto transcrever. — Não se esforce tanto para fazer algo apenas por mim. Se for você, já vai ser bonito. — abro um novo sorriso para ela, agora um feliz e determinado em seu orgulho.

— Eu consigo. Mãe. É importante pra mim. — ela diz, e eu suspiro aliviada.

Eu não quero que ela se modifique apenas porque estou entrevistando-a. Quero que ela seja ela. Quero que ela me dê dela e não do que ela espera que eu queira.

— Eu sei que sim. Só... te explicando que não precisa se forçar a nada. — sei que ela se esforça porque quer, mas quero deixar claro a ela que ela não precisa se sentir envergonhada por ter seu impedimento de fala, ou por qualquer coisa que venha a existir. Ela não precisa se forçar a "fazer bonito" sendo que ser ela já era lindo. — Se quer fazer, o faça. Eu estou muito orgulhosa.

Movimento a cabeça levemente para Pinky, avisando-a mentalmente para se manter a postos para transcrever. Antes de eu fazer a pergunta, lendo minha mente, ela adiciona aos títulos:

Deusa da Lâmina. Deusa protetora dos Guerreiros. Pecado da Ganância.

E então à lista no final do caderno, onde estão todos os Mandamentos e Pecados:

PECADOS CAPITAIS

1. Luxúria (Katerina)

2. Orgulho (Escanor)

3. Gula (Merlin)

4. Inveja

5. Ganância (Arthuria)

6. Ira

7. Preguiça

— Pode me explicar como funciona o Pecado da Ganância? — pergunto, quando vejo que Pinky termina de riscar o pecado da lista, caderninho voltando rapidamente para a página original.

Quando a resposta vem, a caneta a transcreve abaixo das demais peculiaridades:

Eu quero ter tudo. Eu quero guardar tudo. Eu quero tudo o que eu puder ter. Títulos, Ouro, Pessoas. Quero tudo pra mim. Eu controlo isso pra não ser chata, mas eu acabo perdendo o controle com o Jay às vezes. Ele entende tão bem que fico até... Perdida. Mas quando acontece eu agarro nele e não solto mais.

— Hmmm. Acho que entendo. — afirmo, porque não sei se entendo de ganância.

Não a pergunto sobre como se agarra nele ou sobre como ele a entenderia tão bem a ponto de deixá-la perdida. Nunca dei meu irmão como uma pessoa gananciosa, que entenderia os motivos e desejos de alguém assim. Mas eu também nunca dei Arthuria como uma pessoa assim.

Talvez eu só não os conhecesse bem o suficiente.

— Um que eu tenho e esqueci de falar é que sou a Maior Espadachim de todos os Panteões. — um título ganho, que ela conquistara durante os Conselhos dos Panteões. Pinky o adiciona junto aos outros.

Deusa da Lâmina. Deusa protetora dos Guerreiros. Pecado da Ganância. Maior Espadachim de todos os Panteões.

— Mais algum? — pergunto, enquanto a caneta ainda escreve.

— Não que eu lembre. — nega.

— Hm. Okay então. Próxima. — olho para página, me lembrando da ordem sem olhar para as perguntas em si. — Como são seus treinos?

Eu estou afastada. Mas normalmente só treino com o Melo. Ele é muito bom em me ajudar a aprender técnicas e posturaas melhores. E eu ajudo ele com o treino dos outros. Ajudo a ensinar posturas e ataques.

— Afastada por causa da Vasquez? — aperto a criança adormecida contra meu colo, apenas para pontuar.

— Sim. — ela não entra a fundo nisso.

Por sentir o meu cansaço mental, misturado com o dela, não tenho forças para continuar perguntando sobre, mas eu com certeza poderia ir mais a fundo, já que curiosidade, no meu estado normal, não me iria faltar, quando estivesse melhor e olhasse para tudo aquilo.

— Okay, agora a última pergunta: uma memória base, que você acha que é essencial e formativa pro que você é hoje.

Ela não respira fundo para falar, mas toma certo fôlego, aproveitando que sua fala já estava confiante e destravada para falar com tranquilidade, Pinky logo atrás:

Quando fiz minha transição. Essa memória diz muito de mim.

Eu estava sozinha, desesperada. Eu não sabia o que fazer sobre mim.

Conversei com a mãezinha e ela disse para eu procurar a Merlin e a senhora. Nessa sequência. Eu o fiz. Merlin estava estudando a criação de corpos humanos em laboratório. Ela fez os meus corpos anteriores e, dessa vez, queria testar algo em outra proporção. Ela queria transferir minha alma para um espírito e um corpo específico.

Eu pedi que ela fizesse uma transição sexual pra mim. Na verdade... Eu implorei chorando, mas não diria isso em outra ocasião. Ela sorriu e aceitou perfeitamente. Foram três dias do processo e, quando terminou, estava muito bom, mas não perfeito. Eu tinha problemas com o próprio corpo me rejeitando e também não conseguia compreender o que eu era, exatamente. Aí fui até a senhora.

Lembro que me deu uma aula de o que era uma ter uma vagina, biologicamente, e, quando percebeu meus problemas, usou do seu poder para arrumar tudo e me tornar perfeita. Eu lembro que, nesse processo, não sabia nem como fazer sexo ou porque eu ficava extremamente molhada. Aí a senhora me ensinou sobre sexo.

Eu estava morrendo de medo, mas depois que me ensinou, fiquei segura e fiz. Se não fosse a Merlin e, principalmente, a senhora, Vas nunca estaria aqui. Eu nunca teria minha filha e sou infinitamente grata às duas por isso. Principalmente a senhora...

Ela fala tudo, extremamente contente, lágrimas escorrendo por seu rosto durante o discurso, muito emotiva, passando para mim toda sua gratidão e felicidade por ter se encontrado, por termos ajudado a se encontrar.

A minha reação é chorar. Até porque essa é a minha reação padrão.

Escondo o rosto com as duas mãos, envergonhada, chorando muito, sem entender se era de tristeza ou de felicidade, cheia de sentimentos e orgulho para saber definir com precisão o que estava acontecendo.

— Eu... Nem sei... O que eu tô sentindo agora... — sussurro, entre as mãos e entre os soluços, tentando me fazer parar de chorar. Porque eu deveria estar feliz e grata por ter uma filha incrível como ela; deveria saber que estou feliz, não deveria haver confusão nisso, mas há.

Eu queria ser mais presente, eu queria fazer mais.

Mas sempre que entrava em uma entrevista nova e cada um deles me dizia o quanto eu tinha feito por eles, de forma tão simples, tão natural, era como se enfiassem uma bomba de amor e confiança no meu coração.

Uma que, às vezes, eu não sei como lidar. Não há como simplesmente sorrir sobre isso e sair aos pulinhos de felicidade quando meu cérebro não entende que eu mereço, sim, ser feliz, que eu sou uma boa mãe, que eu me esforço constantemente para fazê-los bem e contentes, mesmo incapaz de estar com eles sempre.

— Isso é... muito vergonhoso...

— Acho que minha aura de... Felicidade e... Orgulho... Faz todo mundo... Vazar... Quando fica... Muito... — insinua, meio envergonhada também, mas feliz por perceber que os sentimentos que saem por minhas lágrimas são majoritariamente bons. Bons porque ela faz serem bons.

Rio por cima do choro, estancando as lágrimas. Então tiro as mãos do rosto e as passo pelas bochechas, limpando-as, ainda um pouco envergonhada da enxurrada de emoções que quase me afogara.

— Eu acho... Que eu teria chorado mesmo sem seu poder. — confesso, rindo de mim mesma, me conhecendo como a chorona sensível que sou.

— Talvez. — ela admite, gracejo na voz.

— Eu amo você, filha. Eu fico muito orgulhosa de você sempre. — declaro, porque o orgulho queima em meu peito nesse momento, e, mesmo meu rosto ainda estando vermelho e manchado pelo caminho das lágrimas, consigo sorrir abertamente para ela, passar para ela todo meu amor.

— Eu ate... Amo. Mamãe. A senhora é... Tudo pra... Mim. — o meu peito se aquece tanto que até esqueço por um instante que havia chegado nesse quarto absolutamente toda quebrada por dentro.

— Você também é tudo pra mim, bebê. — ajeito Vasquez no colo de forma a conseguir esticar a mão até Artie, fazendo um carinho em seu rosto. Meu rosto brilha com a exaltação e a brandura.

Demoro-me um pouco na carícia em sua bochecha. Quando a solto, declaro:

— Então... Essas são as perguntas. Algo mais a declarar?

— Posso pegar ela? — ela pergunta, fazendo menção à recém-nascida em meus braços, uma que, sem fazer nada a não ser apenas ser um bebê, me ajudara intensamente durante aquela entrevista. — Não tenho mais nada. Pra falar. Está na hora dela... Mamar.

— Pode sim, meu bem. — estico minha neta à ela, sorrisinho no rosto, entregando-a em seus braços. Quando a entrego, pego Pinky, que ainda está no ar, coloco-a dentro do caderno e o fecho. — Nesse caso, acho que me vou.

Arthuria não está mais prestando em mim nesse momento, porque só tem olhos para sua filha desde o instante em que a pegou de volta. Ela retira um dos seios de dentro da roupa, dando-o para a criança calmamente.

— Não tenha... Pressa... — sussurra para a criança. — O mamá não vai fugir... — sua voz é calma, tentando passar essa mesma sensação para a bebê, que agora já tem um mamilo em sua boca e o suga com afinco, determinação cega diminuindo enquanto se acalma.

Sorrio para elas, toda contente, me levantando da cama e indo até a porta.

— Tchauzinho, meu bem. — volto a olhar para ela, virando meu corpo. — Se cuida, viu? Cuida direitinho dela.

— Tchau. Mamãe. Obrigada. Tenho muito... Orgulho... Da senhora... — confessa, e eu sinto esse orgulho adentrar em mim. Pela primeira vez durante toda aquela tarde, deixo que essa sensação me domine, deixo que eu tenha orgulho de mim mesma pelo menos por aquele instante. Deixo que isso vença a depressão. — Cuidarei... Sou forte como a senhora... — termina e eu me sinto derreter.

O meu sorriso cobre quase todo meu rosto quando, já saindo do quarto, digo em bom tom, apenas para relembrá-la:

— Amo você!!! — já no corredor, deixo que meu sorriso satisfeito sobrepuja a tristeza, sobrepuja todo aquele mal estar.

— Amo. A. Senhora. — consigo ouvir; ela fala baixinho, sem gritar, para não assustar a filha, mas essa energia de amor poderia adentrar todo meu ser enquanto lugar daquela casa.

É bom demais deixar que isso adentre em mim.

É bom demais deixar que isso vença.