Meet the Huntar'z

2 K A T E R I N A


K A T E R I N A

deusa da música e da dança

Suspiro profundamente antes de entrar na sala, pensando e repensando se eu deveria mesmo fazer esse movimento. A voz destrutiva na minha cabeça, Lili, me xinga baixinho pela falta de coragem, pela alta insegurança. Resolvo calá-la dando o passo certeiro para dentro do estúdio de Katerina.

De caderninho na mão esquerda, com ambas as mãos enluvadas com o que chamei de Criadora e Destruidora (pelo prático e não pelo criativo, em si) para maior segurança, caminho até o centro da sala ao som de uma música que eu nunca antes ouvira, mas que parecia ditar todos os movimentos da garota à minha frente. Imagino que seja ou uma música nova em que ela está trabalhando para as apresentações da próxima tour, ou talvez uma música de algum dos planos em que temos influências e que ela está experimentando para dançar. Não a pergunto sobre isso.

Ela para de dançar antes mesmo que eu fale com ela. A música para imediatamente quando ela se volta para mim. Talvez tenha me visto no imenso espelho que cobre toda a parede oposta à entrada, talvez tenha me sentido vir até ela por nosso laço de Segunda Guardiã e guarda, talvez tenha intuído que eu viria depois de ter contado a ela sobre meus planos de entrevistar todos os meus filhos, seus irmãos. Sabia que seria a primeira por ser a primogênita, por ser a mais próxima, por ser a mais fácil, então não devia estar me esperando há pouco tempo; sabia que eu viria.

— Oi, mamãe. Sua bênção. — achei um pouco formal, mas imagino que ela tenha dito isso pois sabia que eu tentaria descrever a maior quantidade de detalhes possíveis em sua entrevista; queria se mostrar, ou mostrar que me respeitava, ou qualquer coisa assim. Abro um sorriso brincalhão em resposta.

— Séria. Compenetrada. — digo, em um tom tão brincalhão quanto o sorriso, tentando fazer uma expressão séria e falhando miseravelmente. Ela ri de mim e eu rio dela. — Oi, meu bem. Para todos os efeitos, tá abençoada.

Ela assente posivitamente e faz um movimento amplo com os braços, me mostrando o chão, um indicativo para que sentássemos antes de começarmos. E enquanto nos sentamos, a observo cautelosa e carinhosamente. Em outros momentos talvez eu não precisasse descrevê-la assim, mas talvez aqui caiba.

Katerina Huntar’z era o que poderíamos talvez considerar como uma mulher alta, nos seus 1.72 de altura e, embora seja imortal, como todo bom deus de todo bom panteão, carrega consigo a aparência de uma menina de dezenove anos. É loira, branca, dos olhos azuis esverdeados, com o rosto em formato de coração e madeixas que lhe caem em ondas pelos ombros. Seu corpo é o que na Terra chamaríamos de padrão, embora no Inferno o padrão fossem escamas e não pele: magra, com seios de tamanho médio e firmes, uma bundinha redondinha e um físico escultural. Talvez do tanto que dançava, talvez pelo simples fato de ela ter nascido para representar o pecado que carregava.

Pessoalmente não gosto de levar as descrições de meus filhos para esse lado mais físico, mas talvez para a da Katerina seja necessário porque, para além de ser a Deusa da Música e da Dança, em sua própria peculiaridade, ela também representava o pecado da Luxúria, para o lado bom ou para o lado ruim. Todas as suas curvas são interessantes e pareciam certas em seu corpo que passava atenção onde passava; não apenas por sua aparência em si, mas pela energia que aquela forma carregava, a libido, a excitação, o interesse, a luxúria encarnadas.

Assim que me sento, ela se senta na minha frente. Abro o caderninho na minha frente, franzindo a testa ao perceber que não havia trago nada para anotar. Talvez essa fosse uma boa tática. Ela me olha atenta e silenciosamente quando movimento a mão esquerda levemente, imaginando e materializando com certa facilidade uma caneta rosa com um pompom no topo; uma caneta com a qual poderia escrever manualmente ou automaticamente, repetindo pontos mais importantes das falas de minha filha.

— Tá, e quais são as perguntas? — eu não precisaria explicar a ela o que eu ia fazer ali; ela poderia ver dentro de minha mente que eu ainda não tinha nada planejado, mas sabia que eu queria entrevistá-la. Apenas para utilização na posteridade.

Não chego a olhar para ela enquanto bato o pompom da caneta na folha vazia do caderno. Talvez fosse mesmo melhor pensar no que eu queria saber antes de começar a perguntá-la; mas ela seria o meu teste. Havia liberdade e intimidade o suficiente entre nós para que determinássemos isso enquanto íamos.

— Eu ainda não pensei muito sobre isso. — respondo, por fim. — Pensei que pudéssemos ir conversando sobre isso e a gente determinar o que é mais importante de ser falado enquanto ia. Pode ser?

— Uai, pode ser. — sorrio com a resposta; era engraçado ver como os meus anos da Terra podiam influenciar tanto a linguagem deles ali, num cantinho separado do plano espiritual, um cantinho que há muito tempo eu chamei de apenas meu. — Mas aí você vai usar o que a gente tirar aqui com os outros?

— A ideia é as perguntas serem as mesmas para que possamos ter comparativos. — digo, olhando para ela só por um momento, antes de me voltar para a folha em branco e escrever “questões” em uma letra desenhada bem no topo dela. — Acho que podemos começar por nome, títulos, status de relacionamento, sexualidade e etc. Coisas que você achar básicas e necessárias.

Solto a caneta por um instante, apenas para vê-la desenhando com a minha própria letra as palavras na folha de papel. “Nome”, “títulos”, “status de relacionamento”, “sexualidade”, “gênero”, todos um abaixo do outro. Em resposta a um comando que eu nem verdadeiramente pensei ter dado, as folhas do caderno se movimentaram sozinhas e pularam para uma próxima página, também em branco.

— Uau. — solta Katerina, meio impressionada com o feito. Eu ruborizo um pouco ao vê-la impressionada com algo que fiz e nem vi; geralmente o que eu podia ou não fazer não me eram tão importantes.

Sinto algo mais atravessando nossa conexão de guardiã e protegida; uma pitada gigantesca de orgulho vindo até mim, mesmo pela parte pequena de criar uma caneta que escrevia sozinha ou conseguir mover páginas de meu caderno novo com o pensamento. Tento não me encolher de vergonha, visto que a voz destruidora na minha cabeça me aconselhava a aceitar o orgulho e me orgulhar junto, em resposta. Abro um sorriso tímido para a minha filha mais velha, minha melhor amiga.

— Então… — sussurro, para incentivá-la a voltar para o que estávamos fazendo anteriormente. Ela pisca uma vez e ajeita o corpo, se concentrando naquilo.

— Então eu falo e a caneta escreve? — apenas movimento a cabeça positivamente em resposta. — Okay. Então, para essas coisas básicas escreve aí.

Katerina Avalon Huntar’z

Primogênita de Lolline e Luksifer Huntar’z, Primeira Princesa do Inferno, Deusa da Música e da Dança, representante da Luxúria nos Novos Sete Pecados Capitais, maior estrela musical e artística de Costa, parte do panteão divino Infernal…

— Hmm… — em sua pausa, a caneta automaticamente parou de escrever, de repetir suas palavras. — Não sei o que mais.

— Eu acho que já tá bom de títulos, né? Já tem todos, não? — olhava dela para o caderno com a mente interessada em me lembrar dos demais títulos que ela poderia ter quando ela se sobressaltou de maneira extrovertida.

— Oh, que coisa! Eu esqueci os mais importantes! Corrige aí, vou falar na ordem de novo. — o caderno seguiu a ordem sem nem mesmo que eu falasse, apenas por processar o pedido de Katerina; logo, o tópico de “títulos” na página destinada à Katerina fica totalmente em branco e recomeça assim que ela volta a falar.

Primogênita de Lolline e Luksifer Huntar’z, Primeira Princesa do Inferno, Segunda Guardiã da Rainha, Deusa da Música e da Dança, representante da Luxúria nos Novos Sete Pecados Capitais, maior estrela musical e artística de Costa, parte do panteão divino Infernal, esposa de Merlin Huntar’z e mãe de Hanah e Nyayn Huntar’z.

— Agora sim estou satisfeita. — por alguma razão, a caneta também soube não copiar essa parte. Ela sorri abertamente, como se sua função para comigo, no seu papel de filha, no seu papel de guardiã, fosse para ela a coisa mais importante de todas. Eu não consigo deixar de sorrir de volta, fazendo força para que minhas lágrimas de orgulho e felicidade por ela existir não virem ao meu rosto.

— Okay… agora os outros. Sexualidade, gênero, status de relacionamento.

— Acho que esse último já foi respondido, mas tudo bem, eu respondo de novo.

Bissexual (ou polissexual, ou pansexual, não me importa de verdade o rótulo).

Mulher com vagina, mulher cis.

— Eu queria colocar que eu me sinto um pouco incomodada de usar os termos que a Terra usa de forma bastante limitada para me descrever. Estou tentando usar nos termos que ficaria mais fácil para que os outros entendam quando você falar sobre mim, mas sei lá… Aqui as coisas parecem tão mais naturais… — ela parece verdadeiramente incomodada com o assunto, já que franze a testa e olha para o nada, concentrada em alguma coisa que eu não me prestei a ler.

— A galera só vai ficar um pouco chocada que o Inferno aceita melhor isso do que a Terra. Embora… — hesito um pouco, com uma expressão confusa — … a Terra também faça parte do Inferno…

— Ah, acho que quando se vive num plano não-materializado como o nosso, ou qualquer um oposto à Terra, fica mais fácil de aceitar as coisas. As pessoas são como são e é mais fácil representar isso, ou representar mudanças, ou representar coisas inatas quando se é um espírito ou um semi-espírito. — ela gesticula a mão direita como se fosse algo banal.

— Mas de qualquer forma, eu nasci com vagina, me identifico como mulher e pego qualquer pessoa que existir. Talvez por minha esposa ser intersexo a galera talvez se sentiria mais confortável com pansexual, mas gosto do bisexual, porque as cores da bandeira são mais bonitas aos meus olhos. — eu rio de sua fala, porque, de verdade, na nossa perspectiva, na perspectiva de deuses visitantes, todos aqueles conceitos pareciam verdadeiramente banais; mesmo que não seja banal materialmente. — E… — ela aponta novamente para a caneta antes de falar.

Casada em relacionamento fechado com Merlin Huntar’z.

— O fechamento do relacionamento é recente, mas o casamento é de longa data. Só pra deixar pontuado, caso alguém tenha interesse futuro nisso. — ela levanta um dedinho, o apontando para mim. Eu só sorrio para ela, voltando a pegar a caneta e a bater com o pompom na folha agora pela metade.

— Okay. — ela diz antes mesmo que eu fale alguma coisa, na curiosidade de saber o que eu levaria em consideração para o restante da entrevista. — E agora?

— Agora… — hesito um pouco, ainda batendo ansiosamente na página em branco e pensando seriamente no que deveria ser o âmago das perguntas, o que eu deveria levar em consideração. Volto para a página de perguntas no caderno, com a mente a mil tentando achar uma pergunta mais fácil do que pedir para ela me contar toda sua história de vida de uma vez.

Assim que olho para a lista, vem-me a questão.

— A sua arma! Qual a sua arma mágica? — a caneta logo entra em ação de novo, escrevendo “arma mágica” na página; as folhas voltam sozinhas para a página de Katerina. A caneta para no ar, pompom apontado para Katerina, como se pedisse, impaciente, para que ela falasse.

— Não é bem uma arma, né… Mas é…

Uma pulseira prateada, com pingentes diversos, que, ao pedido, se transforma em quaisquer instrumentos musicais possíveis e imagináveis, sendo também um canal para magia, podendo ser utilizada para musimagia. Feita por Alec Huntar’z.

— Hm… Qual a sua relação com sua particularidade e seus poderes? — o caderno e a caneta parecem ter criado seu próprio ritmo, para acompanhar a conversa, porque antes mesmo que eu pudesse pensar, a caneta já terminava de anotar a pergunta no espaço correto e o caderno já voltava para o ponto certo para que a resposta fosse anotada.

Tento não ficar muito espantada com a visão energética dos dois objetos se movendo, a conexão de milhares de fioszinhos dourados ligando os dois a mim e entre eles mesmos; tento não demostrar isso para Katerina. Ela parece concentrada demais em tentar me arranjar uma resposta para perceber qualquer coisa.

Antes mesmo que ela falasse, percebo que aquela seria uma resposta que deveria ser transcrita na íntegra, para melhor entendimento dela como pessoa. Ela não me pergunta de qual particularidade estou falando, diante todas as suas. Sei que ela vai tentar falar de todas, então só olho para ela, ouvindo-a atentamente enquanto a caneta se posta a transcrever tudo o que ela falava.

Ela hesita por alguns minutos. E depois...

Bem… Eu poderia dizer que é bem… conflituoso. Tem algumas coisas que me são inatas, algumas coisas que conquistei, algumas coisas que me são maldições, algumas coisas que me são bênçãos. Acho que… talvez eu devesse falar das que me são inatas.

Eu nasci definitivamente, (depois das várias vezes em que nasci e eu acho que talvez aqui isso não venha ao caso), uma semi-demônio, por assim dizer. A galera talvez goste da palavra “nephilim”, porque eu sou filha do Archdemônio com uma humana; uma humana imortal, okay, mas humana. A parte demônio que me coube me transformou em uma succubus. Uma succubus, para quem não sabe, é uma espécie de demônio feminino que tira a sua energia vital do sexo. Como isso é uma coisa altamente sexual e crianças não costumam sentir essas coisas, isso só começou a se mostrar na minha puberdade, quando eu já tinha há muito descoberto minha paixão pela arte, principalmente pela música e pela dança.

Eu costumo dizer que a música e a dança foram presentes para mim; uma bênção que a vida me proporcionou, porque eu com certeza não nasci sabendo. Mas estou na luta para conhecer de tudo, e fazer de tudo, e ser a melhor em tudo que temos nessas áreas desde que me conheço por gente. A senhora minha mãe com quem falo sabe bem que eu antes cantei que falei, dancei que andei. Mas acho que nesse ponto eu já estava consciente que eu queria ser a Dança e a Música em mim.

Eu desenvolvi a Dança e a Música muito antes de desenvolver qualquer coisa sexual. E na verdade, comecei a explorar isso exatamente por meio de música e dança; no auge de minha adolescência, eu fazia shows absurdos em que o ápice era sempre eu acabar semi-nua no meio do palco. Ninguém reclamou na época; eu não me importava com os comentários que vinham deles; eu queria que eles falassem, eu me sentia bem com eles falando. Eu queria que eles me quisessem.

Eu até hoje sinto bastante prazer com a galera me querendo, mas chegou um ponto na minha carreira em que decidi que não era necessário que eu estivesse verdadeiramente nua no palco para que todos os olhos estivessem em mim. Hoje em dia aposto em uma boa coreografia, uma boa iluminação e uns efeitos de pirotecnia que a Merlin sabe fazer que mwah! INCREDIBLE. E musimagia, muita musimagia. Musimagia sempre chama atenção da galera.

A musimagia já é uma coisa que eu conquistei, porque eu ralei bastante para aprender. Comecei com o violino porque era o que a minha mestra da época, a Rosaline, a Rose I, a Rose original, tocava. Mas depois que eu aprendi o básico da magia, que é mais vontade do que tudo, eu comecei a fazer com os outros instrumentos também. A diferença da magia dos instrumentos está no poder da onda; os tons mais graves conseguem densidades mais fortes, os mais agudos menos densidades. Uma vez eu criei a ilusão de uma baleia com musimagia, em uma música instrumental que eu fiz sobre o fundo do mar.

Quando os sintomas da fome de uma succubus começaram a chegar em mim, no auge da minha adolescência, também, foi quando eu comecei a fazer merda por causa de sexo. E é aí que eu digo que a Luxúria é minha maldição; pelo menos é assim que eu vejo hoje em dia, é assim como eu deveria ter visto todos esses anos…

Uma pausa. A caneta para. Eu peço para que ela pare. Katerina agora está calada, pensativa, se perguntando se deveria continuar.

— Você não precisa falar sobre isso, se não quiser. — toco seu braço carinhosamente, meus olhos leitosos fixados diretamente nos seus azuis. — Acho que já deu para ter… uma ideia. — abro um sorriso melancólico, na intenção de que isso a acalmasse, a acalentasse. Ela suspira rapidamente, nega com a cabeça de forma terminada e continua.

A Luxúria é o meu pecado e minha maldição. Eu não gosto de ser representante da Luxúria nos Novos Sete Pecados, mas… eu sou. Não tem como negar que eu sou. Eu preciso de sexo para me alimentar, de verdade; não é brincadeira quando eu digo isso. Eu até como comidas normais, mas eu preciso da energia vital do sexo para me sentir viva. Eu cheguei num estado depressivo tão forte, por coisas da vida que talvez não caibam aqui também, que eu transava de forma inconsequente e impensada como uma grande viciada. Como uma puta ninfomaníaca, como uma drogada em sexo. E eu pegava todo mundo. Saía em tour sem e COM a Merlin para pegar todo mundo…

E quando eu falo “todo mundo”, não é de dez pessoas numa noite que eu tô falando; é de todo mundo mesmo. Qualquer pessoa que me olhasse com desejo, qualquer pessoa que tivesse a coragem de chegar até mim e me pedir qualquer coisa. Porque eu precisava me sentir bem; porque tendo da energia vital e sexual daquelas pessoas eu conseguiria ficar bem. Mas tal como droga de verdade, não funcionava por muito tempo; eu precisava tanto de tanta energia que ela se extinguia rapidamente e eu precisava do próximo. Da próxima. Du próxime.

Machuquei todo mundo que me amava, machuquei a pessoa que eu mais amava!!!, por causa da Luxúria. Eu venho tentando me desvencilhar disso, depois que eu percebi o quanto machucava a mulher da minha vida, a Merlin. Eu tive de perdê-la por um tempo para perceber isso, mas… eu fico feliz de que ela venha me ajudando a parar, a superar, a não doer, a não precisar tanto disso. É bem difícil. Está sendo bem difícil, eu não vou te negar, não. Dói. Eu sinto todos os meus órgãos pedindo por isso; uma necessidade tóxica. Mas eu luto contra isso. Todos os dias. Todos os dias…

Ela para, com lágrimas nos olhos, uma dupla delas já escorrendo pelos dois lados de seu rosto. Os meus olhos também estão cheios de lágrimas, porque eu sei o quanto dói nela todo esse sentimento; porque eu estive com ela, intrinsecamente conectada a ela, por todo esse caminho. Conectada a ela.

Olho para ela com intenso carinho nesse momento, repassando em minha mente todas as memórias iniciais da minha representação da Música e da Dança, e da honra que eu sentia em ela ter me escolhido como sua verdadeira mãe, diante o caos que vivenciamos com deuses de outros panteões. Essa talvez seja uma história que eu possa contar mais tarde, mas pessoalmente não existem palavras para descrever agora o orgulho e carinho que sinto olhando para ela.

— Minha guerreirinha. — acaricio seu braço, não tendo ainda o soltado; em meus olhos, toda a compaixão do mundo, as lágrimas; em meu sorriso, o apoio, o amor, a compreensão.

Ela abaixa a cabeça, deixando mais algumas lágrimas caírem, mas, ao mesmo tempo, sorri, orgulhosa de si mesma. E o que ela começa a dizer estilhaça o meu coração em milhões de pedacinhos, todo o amor extravasando por dentro de mim, eu sem nem ao menos saber o que estava mesmo sentindo.

Mas pessoalmente, a melhor peculiaridade que eu tenho, foi uma que eu ganhei. Uma que eu ganhei quando a pessoa que eu mais admiro, mais amo e mais adoro no Universo estava precisando imensamente de uma mão amiga, de alguém que a cuidasse, alguém que estivesse ali presente todos os segundos do dia. Porque a melhor peculiaridade que eu tenho diz respeito a você, mãe. E das asas que eu ganhei quando a própria Yahweh me concedeu o posto de sua Segunda Guardiã. E da conexão que eu ganhei com você quando isso aconteceu.

E de como eu sei que você está chegando, e de como eu sei exatamente o que você está sentindo, e de como eu sei exatamente o que você pensa e o que quer pensar. De te conhecer por completinho e te admirar em todos os seus acertos e errinhos. E de, mesmo sendo sua filha, me orgulhar muito do seu progresso como pessoa e da sua evolução. Porque como eu sei tudo sobre você, eu sei exatamente o que você passou para chegar aqui.

Não contenho as lágrimas dessa vez. Choro silenciosamente desde o momento em que ela fala sobre como eu precisava mesmo de uma mão amiga, sobre como eu precisei mesmo de alguém ali presente todos os segundos do meu dia por não saber verdadeiramente se eu iria me manter viva por mais um segundo; se eu iria gostar de viver por mais um segundo; se eu não faria bobagens e me machucaria intensamente entre um segundo e outro.

Quando ela termina, não consigo mais segurar os soluços. Espero que a caneta pare antes de soltá-los ruidosamente, abraçando-a com força. A quantidade de pensamentos e memórias que ouvi-la falando me atiçara não poderia ser descrita nem por todas as palavras do mundo e, se pudessem, eu não conseguiria o fazer nesse momento. Choro em seus braços, sentindo os soluços da própria garota começarem também.

Porque fora difícil. Essa fora uma fala difícil. Tudo ali parecia difícil.

Mas uma coisa que eu venho aprendendo com o tempo é que nada é muito fácil; e quando alguma coisa vem fácil, ela vai fácil. Então…

Só a seguro em meus braços, tentando apaziguar meu próprio choro para acalentar o dela. Lentamente, paro de tremer e chorar, e apenas a acaricio, beijando o topo de sua cabeça para certificá-la de que estava tudo bem. Ela é minha Segunda Guardiã, cuidava dos meus pensamentos e sentimentos, mas eu sou sua mãe, e eu devo também cuidar dos dela. Acarinho minha loirinha até que seu próprio chacoalhar pare.

Ela se afasta.

Seus olhos estão ainda marejados quando me olha e abre um sorriso, melancólico, mas muitíssimo verdadeiro. Muitíssimo grato.

— Eu não planejava chorar na sua entrevista. Me desculpa. — ela ri de si mesma, talvez pensando no quão patético aquilo poderia parecer. Eu com certeza estaria pensando isso de mim quando se estivesse no lugar dela. — Mas foi um alívio. — ela sorri agora aberta e sinceramente, feliz de ter falado e pensado nas coisas que pensou ao falar. — Muito obrigada por ser minha mãe. E minha melhor amiga.

— Eu que agradeço por ter me escolhido. — seguro seus dois braços, apertando-os carinhosamente e sorrindo-lhe o maior dos sorrisos, orgulho, amor e felicidade estampados no rosto.

Ficamos um momento nos olhando, sorrindo e conversando com aqueles olhares. Hesitando em um silêncio muitíssimo confortável.

Solto-a para prestar atenção no caderninho no meu colo pela primeira vez em minutos, ver o quanto a frenética caneta cor de rosa com um pompom na ponta havia escrito. Observo cuidadosamente as diversas páginas de escrita, a minha letra perfeitamente representada em um texto que eu não havia escrito, mas a caneta que eu criei para escrever por mim, sim.

— Tem mais alguma coisa que você queria falar? — pergunto, olhando ainda para as anotações no caderno.

— Não, acho que é isso… Acho que até já falei demais. — ela diz, meia risada no meio do caminho. Uma leve, mas com uma pitada de desconforto, tal qual restasse ali um pouco de culpa do que havia falado.

— Você foi incrível. — tento confortá-la, por estar muito feliz com o resultado e com a conversa, por estar contente de ter ouvido-a partilhar tudo isso. Envio para ela essa sensação por nossa conexão de guarda. Seu olhar se suaviza.

— Você acha que eu deveria perguntar mais alguma coisa para seus irmãos? — pergunto, voltando-me para o caderno e observando agora a página das perguntas, sentindo que ela estava um pouco vazia.

— Hm… — ela começa. — Talvez seja legal perguntar para eles sobre treino. — eu mesma escrevo essa no papel, apenas para sentir que eu ainda sabia escrever com minhas próprias mãos. “Como são seus treinos?”

— E como são seus treinos? — pergunto, apenas para desencargo de consciência.

Eu danço e canto e toco. E danço mais. E toco mais. E escuto mais músicas. E transo um pouco. E danço, danço, danço. É esse meu treino.

Não seguro a risada. Mais pelo jeito que ela falou do que pelo que ela falou.

— Okay, okay. E o que mais?

— O que mais o quê? De perguntas? Acho que dá para perguntar sobre memórias traumáticas. Ou memórias que são daquelas específicas, sabe? Que marcam a gente. — ela para, pensando se isso seria uma boa ideia. — Acho que seria uma boa ideia perguntar isso para aqueles que não falam tanto, sabe? Porque eu duvido que todo mundo vai falar o tanto que eu falei.

— Acho que vão ter alguns que vão falar mais do que você.

— O Velho! — ela ri. — Com certeza o Velho vai falar mais do que eu. Mas faz sentido, porque ele viveu mais do que eu, né? E talvez a Merlin. E a Georgine. E o Meliodas, se ele for explicar sobre como ele treina um bando de brutamontes todos os dias sem ficar louco.

Solto uma risada baixa, me deliciando com o pensamento. Seria divertido.

— Veremos. Quando eu terminar todos, eu te falo. — coloco a caneta entre as folhas do caderno e o fecho, fazendo menção de levantar.

— Antes que se vá! — ela me aponta, levantando mais rápido do que eu. — Como vai fazer com os bebezinhos? — sua voz se contorce um pouco enquanto ela se estica, se espreguiçando. Eu me levanto.

— Eu sei lá. — dou de ombros de maneira aberta e meio cômica. — Vou ter de me virar. Mas com certeza eu vou dar um jeito.

— É… Eu imagino que sim. — a forma como ela me olha parece dizer tudo sobre como confia em minha capacidade de realmente dar um jeito. Ela sorri de novo e eu sorrio em resposta. É muito bom estar com ela.

— É isso, então? — ela pergunta, quando faço menção de ir embora.

— Sim. Vamos ver como vai ser com o resto do pessoal.

— É… veremos.

Dou as costas para ela, com o sorriso ainda estampado no rosto. Antes mesmo que eu saísse, a música que antes tocava já havia recomeçado do início e ela já repassava todos os passos da coreografia que havia parado quando cheguei.