Meet the Huntar'z
3 M E L I R I O D A S
M E L I R I O D A S
pequeno rei demônio
A ideia inicial não era entrevistar o Melo como segundo, até porque a ideia que eu tinha comigo era a de seguir a linha cronológica de nascimento e conhecimento da existência dos filhos. Mas se teve uma coisa que eu aprendi na minha jornada pela Terra, foi que nossos planos vão por água abaixo e, na maioria das vezes, é necessário que adaptemos nossa teoria à realidade para que nossa prática seja coerente.
A adaptação que eu tive de fazer nesse dia foi a de mudar a ordem dos planos e entrevistar primeiro Meliriodas. Não faria tanta diferença assim, no plano geral da linha genealógica, visto que ele era irmão gêmeo de Maureen, a que estava na lista em segundo lugar. Seria basicamente trocar um pelo outro. Posso lhes confirmar que foi uma mudança meramente pragmática, seguindo as condições que me foram dadas no momento de minha escolha.
E as condições dadas, no momento em que escolhi mudar, eram as de Andynne, uma das filhas do meio e uma das nossas melhores comunicadoras, vir até mim apenas para me avisar que seu irmão mais velho tivera de ser medicado por conta de uma crise de ansiedade.
Uma crise de ansiedade gerada pelo pensamento de ser entrevistado por mim, sua mãe. Uma que lhe causou tamanha tremedeira que teve de ser atendido por nosso médico familiar, remediado, controlado e colocado para dormir. Não pude deixar de me sentir imediatamente mal com a notícia, uma culpa pesada formando em meu peito. Essa era a última coisa que eu esperava que acontecesse.
Andy disse-me que ele estava descansando e que logo acordaria. Aproveitei o tempo em que ele descansava e parti para o meu próprio treino, que, embora não caiba muito bem aqui, cumpriu o seu papel em me acalmar e me fortalecer mentalmente para o que viria depois.
Quando voltei, foi a própria Andy quem me recebeu, avisando-me que ele havia acordado e estava me esperando em seu quarto de treinamentos, um que eu nem ao menos sabia que existia em nosso casa. Tentei ficar não muito surpresa com a notícia, visto que o próprio Castelo se construía e reconstruía à nossa vontade, aos nossos caprichos, sem contar as mudanças que poderíamos fazer com nossas próprias mãos.
Depois da notícia recebida, despedi-me com carinho da menina antes de deixar que a energia do próprio Castelo (a minha energia, moldada e re-moldada para construir aquele palácio de fantasia) me guiasse pelos caminhos escuros e até agora desconhecidos para o quarto de treinos de meu filho mais velho.
Os caminhos de nossa casa não eram assim escuros para todos e a maioria deles não se utilizava da magia intrínseca à construção para se guiar por aí, mas do meu ponto de vista, eu só consigo enxergar a energia e por ela me guiar. O meu guia até a porta do local em que devo encontrar Meliriodas são conjuntos de linhas douradas, que cresciam e se dispersavam pelo chão que eu sabia tão claramente estar abaixo de meus pés. Não me nego sentir também as paredes, andando com a mão esquerda encostada nelas, tocando cada quina, em cada volta, sentindo as texturas modificando de acordo com as diferentes alas que vou percorrendo.
Sei que devo parar quando todas as linhas douradas se misturam em um único ponto dourado, forte, e as pequenas partículas subatômicas, tremendo diante meu olhar, tentam me mostrar uma porta, aberta e claramente esperando por uma visita.
Antes de entrar no recinto, movimento a canhota e recrio uma gaveta invisível, uma que aprendera a fazer no treinamento ainda naquele dia. Abro-a em pleno ar, retirando lá de dentro o caderninho que criara especificamente para o projeto e a caneta rosa com um pompom na ponta que transcrevia o que se falava, que estava exatamente onde havia deixado, dentro do próprio caderno.
Concentro-me com força em destruir a gaveta momentaneamente sem apagá-la completamente da existência, movimentando agora a mão direita. Ao não sentir mais sua energia, bato no vão da porta aberta, chamando a atenção de quem estivesse lá dentro, com o caderninho e a caneta nos braços.
— Ei…? — pergunto, entrando no quarto e me deparando com o garoto a socar um boneco de madeira. O som de seus socos contra o boneco eram de um estampido seco e me peguei imaginando se seus punhos doeriam na ação ou se ele já havia se acostumado com o tempo.
Meliriodas Huntar’z é um garoto pequeno para sua idade aparente; enquanto seu corpo já se desenvolveu como o de um garoto de dezoito para dezenove anos, ainda é baixinho dentre os outros membros da família e seu rosto branco, liso e redondinho, os olhos verdes enormes, fazem com que pareça muito mais novo, tal qual uma criança. Seu cabelo liso e loiro era bem cortado, no estilo que chamaria de capacete-chique, já que seguia o mesmo modelo, mas era repicadinho em camadas que deixavam seus fios arrepiados. Seu corpo é magrinho, embora tenha alguns músculos não muito exagerados devido os treinos físicos que fazia por si e para os outros. Se eu pudesse avisar qualquer um sobre o Melo, avisaria para não se deixar levar por sua aparência, muito menos lidando com ele diretamente em campo de combate.
— Oi, filho. Tudo bem? — já me posto praticamente no meio do quarto, quando digo. Ele ainda não para de bater no boneco quando continuo. — Me disseram que você tinha passado mal… Eu fiquei preocupada… — meu tom demonstra o sentimento, a pergunta implícita em minhas reticências. Aperto um pouco o caderno em meus braços, tentando não ficar tensa com a preocupação.
Ele para de golpear a madeira e abre um largo sorriso, um que eu consigo sentir a vibração mesmo de longe.
— Sate, sate, sate… — ele diz, frase tão característica sua, o tom calmo e sereno, enquanto vira-se para mim na mesma tranquilidade, sorriso ainda em rosto. Seu olhar satisfeito e repleto de plenitude acalmam a minha tensão.
— Eu estou bem, mãe. Sua benção. Fico feliz que tenha vindo aqui, já que é a primeira vez que a senhora entra nessa sala. — sei que ele está olhando para mim, sinto seu olhar em mim. Sinto também o brilho do seu sorriso praticamente permanente em seus lábios; a única coisa que me ocorre é sorrir em resposta.
— Abençoado, meu bebê. — meneio a cabeça levemente, antes de voltar o meu olhar para a sala, tentando captar até onde ela iria, quais os limites do seu espaço.
Não identifico nenhum objeto de vista, conseguindo compreender apenas os limites do quarto (que era o seu quarto de descanso pessoal, anteriormente) a partir da extensão das trilhas energéticas. Ainda olho para as linhas douradas que caminham pelas paredes e rapidamente se juntam no teto quando solto:
— É verdade. Eu nem sabia da existência dessa sala. — volto-me para ele novamente, olhos brancos e leitosos brilhando em uma admiração silenciosa. — Descreva-a para mim, para a posteridade. Pode ser bem rapidinho, só para eu conseguir me localizar. — passo a mão na frente de meu próprio rosto, sabendo que minha pupila também esbranquiçada não responderia ao movimento; consigo ver a energia de minha mão a se mover, mas não a mão em si.
Há tempos larguei de lado a vergonha de pedir pelas descrições; com certeza não acompanharia muito da realidade se elas não fossem feitas. Depois delas, era fácil perceber até onde iriam os limites das partículas esparsas com as densas; se eu pudesse tocar os objetos, “vê-los” seria ainda mais possível. Se me contassem mais ou menos, a minha compreensão da energia, o tato e a imaginação dariam conta do resto do recado.
— Bem… — ele passa os olhos por toda sala e eu sei que ele vira-se um pouco para poder observar melhor, fazendo sua própria síntese do espaço antes de descrevê-lo para mim. — Eu instalei um tatame no chão, coloquei alguns bonecos diferentes aqui e ali, e tenho alguns livros e armas por aqui. Separo as armas junto com seus livros temáticos, então fica bem mais prático localizar um livro específico.
De repente é mais fácil compreender o lugar das coisas. Para saber exatamente, eu deveria sair tocando em tudo, mas não era o caso. Já dava para ter uma noção.
— Então com as espadinhas tem livros sobre espadinhas? E com as adaguinhas tem livros sobre adaguinhas? — pergunto, tentando observar ao redor enquanto alguns objetos já se mostravam com maior clareza. Para além do próprio garoto à minha frente, posso identificar o boneco em que ele socava quando cheguei, bem no meio da sala.
— Isso! — ele confirma. — E tem os livros de política e guerra que ficam ali na cabeceira da minha caminha de descanso. Como sempre os leio, sempre deixo comigo.
Sinto uma pontada desconfortável na boca do estômago quando ele fala sobre política e guerra, pois, quando o assunto era política e guerra infernais, a profundidade disso era muito maior do que o imaginável. Tento não fazer uma careta, mas, me conhecendo, algo obviamente se mostrou em meu rosto. Ele não comenta sobre.
— Hm… interessante… — se a minha tentativa falha de não demonstrar facialmente havia funcionado, o tom em que eu falo me entrega por completo. Engulo seco por um momento, antes de pegar o caderninho com as duas mãos, apertando-o um pouco para ganhar coragem. — Eu deveria começar a ler uns livros de política e guerra. Mas hoje em dia só venho pensando em Fantasia. Ela me chama.
Tento também não pensar muito no sentido da palavra “fantasia” em minha fala. Poderia ser o gênero fantástico, a morada da deusa da fantasia ou a própria deusa Fantasia (que também poderia ser deus Fântaso, caso fosse seu desejo). Se eu fosse pensar exatamente no sentido do que me chamava, iria preocupar-me pela minha situação de vida novamente; pelo bem dos que eu amava. E eu não conseguiria levar projeto nenhum adiante caso me pegasse pensando demais sobre qualquer assunto. Principalmente esse.
Abano a cabeça bem levemente, tirando isso de mente. Aperto o caderninho novamente, sentindo o pompom macio roçar em meus dedos, quase que convidativo, criando a coragem necessária para continuar. Eu não ia desistir. Não quando ele já tinha até passado mal por causa disso.
— A gente pode sentar aqui no meio? — aponto para o meio do tatame com o caderno, preso entre minhas duas mãos.
— Podemos sim. — ele responde, já se sentando no exato centro da sala, apoiando as costas no boneco de treino central, no qual há poucos minutos atrás dava umas boas porradas.
Ao vê-lo se sentar, aparentemente tão confortável, faço um biquinho, reclamando. É uma expressão fofa e que, provavelmente, não seria vista em qualquer outra relação mãe e filho senão uma em que eu fosse a mãe e ele o filho.
— Ai. Quero apoiar as costas também. Mamãe é velha. — meu tom é entre o melancólico e o brincalhão. E embora a aparência seja nova, e o Luksi me veja como um bebê (não literalmente, porque isso seria estranho), a verdade é que sou velha mesmo; pelo menos com meus filhos eu tinha a liberdade de usar essa cartada.
— Então troquemos de lugar! — ele logo se prontifica, antes mesmo que eu explicasse meus motivos, que já estão na ponta da língua.
— Fiquei sentada no chão para conversar com a Katerina ontem e fiquei com torcicolo. — aponto, tocando um ponto já tenso em meu ombro esquerdo com a mão direita e me direcionando até o ponto em que o filho estava antes.
— Eba! — digo, quando ele se levanta apenas o suficiente para se sentar à frente do lugar onde estava. Sento-me ali, apoiando as costas no boneco. Não que fosse muito mais confortável, mas já era um apoio muito bem agradecido.
Cruzo as pernas, uma em cima da outra, e abro meu caderno no meio delas, observando o conteúdo da primeira página, com as perguntas. Pego a caneta rosa para passear na página com seu pompom, pensativa.
— Okay… Antes de começarmos… — volto o olhar para ele novamente, aquele olhar cheio de preocupação e carinho maternos de uma mulher que não poderia se preocupar ou acarinhar o dia inteiro.
— Eu fiquei muito preocupada com você. Me disseram que o Jay teve de te medicar por causa de uma crise de ansiedade. — faço uma pausa, olhando para ele, tentando captar em sua energia vital alguma coisa que me gritasse sobre seu mal-estar, sem conseguir encontrar nada. — Era uma crise por causa dessa entrevista?
— Eu só fiquei bem ansioso… Sim… — ele diz, um tom mais baixo, se ajeitando em seu lugar e balançando as pernas.
— Mas por quê? — dá para notar que eu estou um pouco frustrada nessa frase. — Não é para ser algo… ruim. É exploratório. Para eu conseguir unir todos vocês em uma trama fantasia ao invés da real, no futuro. Ou talvez a real, mas com minhas pitadinhas próprias. — a última coisa que eu queria era que as crianças se sentiam emocionalmente abaladas, de forma negativa, com meu novo projeto; não sei se conseguiria continuar com ele caso isso os afetasse negativamente.
— Você não precisa falar sobre as coisas que te machucam. Você pode se negar a responder algumas perguntas. — explico, para tentar tranquilizá-lo, mesmo que não tenha conseguido até agora captar nele sinais energéticos de mal-estar.
— Eu fiquei muito feliz, ao ponto de ficar ansioso. — enuncia, muito calmo, com um sorriso implícito em sua voz; algo se desmancha dentro de mim ao ouvi-lo assim.
— Feliz? — a dúvida e a curiosidade são genuínas; um sorrisinho curioso se forma em meus lábios. — Por que feliz?
— Porque sabia que poderia conversar com a senhora. — essa resposta tem dois efeitos conflitantes sobre mim; a alegria pura de vê-lo feliz em falar comigo e a tristeza ainda mais pura de não poder vê-lo e falar com ele todos os dias de minha vida. O que se sobressai nesse momento, por alguma razão, é o da tristeza e eu sinto meu ânimo murchar um pouco.
— Eu sinto muito… — digo, visivelmente chateada. — Por não poder fazer isso sempre… — é complexo demais para que eu tente explicar agora, mas também é complexo demais para que eu mesma entenda; não saberia explicar.
— É uma questão de abertura. — nada em sua expressão de serenidade pareceu se modificar nem por um segundo. — E não é sempre que quero… — não sei porque, mas essa sua fala me acalma até o âmago; a sensação de dolorosa culpa se extinguiu. Hesito um pouco antes de continuar.
— Mas fico feliz que fique feliz por poder conversar comigo. — um sorriso genuíno. — Eu te amo, filho. Pode falar comigo sempre que puder e quiser. — tento deixar claro que é uma mistura de escolha e oportunidade, porque não há outra forma de descrever isso. Eu gostaria de estar com ele, mas não posso; se pudesse, estaria. E mesmo que eu pudesse, não dependeria apenas da minha vontade para acontecer; ele também teria de querer.
— Eu também te amo, oka! Fiquei feliz das coincidências. — não sei de que coincidências ele está falando, mas continuo sorrindo, porque é quentinho de ouvir; dentro de mim, é como se a felicidade e o orgulho queimassem livres.
Hesito por mais um momento, só sentindo o calor do amor de meu filho, antes de olhar dele para o caderno, agora bem consciente da caneta rosa que eu segurava.
— Podemos começar, então?
— Aye, oka! — ele parece seguro, nem um pouco parecido com o que eu imaginei que ele estaria se sentindo quando recebi a notícia mais cedo.
— Isso vai levar o tempo que você quiser e vai ser longo o quanto quiser. — relembro-o, apenas me certificando para que quaisquer resquícios de sua ansiedade pudessem se extinguir diante da tranquilidade. Ele ditaria o que seria dito; ele teria qualquer liberdade para falar o que ele desejasse.
Ele se silencia, prestando atenção. Eu olho para a primeira página do caderno, acompanhando as perguntas, virando ocasionalmente as páginas para ver as respostas de Katerina, anotadas anteriormente.
— Mas as primeiras são fáceis. — digo, sem olhar para ele. — Nome. Títulos. — passo o pompom pelo caderno, tentando chegar em uma folha em branco. Escrevo o nome do Melo no topo com letras rapidamente desenhadas enquanto continuo. — A Katerina foi em quase todos os títulos dela. Mas você pode falar os que você achar mais interessantes. — termino, terminando de desenhar e já deixando a caneta livre para trabalhar por si mesma. Conhecendo-o bem, ele não daria brechas ou voltas como Katerina; era de sua característica ser direto.
— Eu sou Meliriodas Huntar'z, filho de Lolline Huntar'z e Luksifer Huntar'z. — a caneta faz o favor de seguir a minha linha de raciocínio, sem que eu nem a toque, separando os tópicos.
Meliriodas Huntar’z
Filho de Lolline Huntar’z e Luksifer Huntar’z. Sou o Mandamento da Piedade e Primeiro General do Exército Infernal. Por conta disso, sou responsável por treinar todo o Exército Infernal e todos meus irmãos e sobrinhos que desejam treinar. Isso faz com que todos me chamem de Capitão.
— Meliriodas D. Huntar’z ou seu pai não te colocou esse naquela época? — pergunto, por pura curiosidade, sem nenhum medo ou receio em dizê-lo; a expressão dele diz que ou provavelmente eu estou calma demais diante disso, ou que simplesmente perdi a noção do perigo.
— Não. — dá para notar que ele treme um pouco (bem pouco mesmo) na menção do sobrenome maldito do pai. — Só Ele, a Mãezinha e a Ginny têm esse nome no meio. E ele não é pronunciável. — e lá estava a leve tremida de novo, como se o pensamento o arrepiasse por inteiro. Eu definitivamente estou calma demais diante dessa situação.
— Okay… — paro, pensativa. — Depois eu pergunto a ele sobre isso aí. Me desculpa. Pelo arrepio. — aponto a caneta para ele rapidamente, antes de abaixar os olhos para o caderno, mais para esconder a vergonha de obviamente não entender a seriedade de alguma coisa do que para realmente olhar o que eu precisava perguntar.
— Agora… hm… — hesito. — Sexualidade, gênero, status de relacionamento.
— Sate, sate, sate… — Meliriodas coça a cabeça, visível e genuinamente confuso. — Isso é realmente importante? Os humanos realmente se importam com isso? — aceno positivamente. — Ah… Tudo bem. Eu sou heterossexual, homem para os padrões humanos e vivo em uma união estável fechada com Maureen Huntar'z.
Heterossexual, homem (cis)
União estável fechada com Maureen Huntar’z
Olho para o caderno, visualizando cada palavra escrita e analisando cada uma das palavras que acabara de ouvir. Para um demônio tal como Meliriodas, que vivia em meio a outros trilhões de demônios-bestas, que não sabiam exatamente o conceito de gênero, etnia ou cor que não a morte de seus inimigos, talvez o conceito de homem fosse apenas… um nos quais ele poderia se encaixar, se quisesse. Não é como se verdadeiramente importasse. Mas…
— Os humanos se importam com isso. — meneio a cabeça positivamente. — E se eu demorar muito para chegar nas suas irmãs mais… hum… “diversificadas”... — me sinto um pouco mal de falar assim; ali elas simplesmente eram, não tinha isso o que era o igual ou o diversificado, afinal nenhum deles era igual. — A galera pode não prestar tanta atenção assim no que eu escrevo. — talvez fosse um medo bobo, talvez um medo válido; nem mesmo meu lado destrutivo saberia dizer ali.
— Eles não têm muita representatividade por lá. Não me surpreenderia se alguns ficassem chateados pelos primeiros entrevistados serem brancos do cabelinho loiro. — rio baixinho da ironia da vida. — Eu ainda me choco um pouco sobre como no próprio panteão Infernal temos mais representatividade e diversidade do que nas grandes aglomerações políticas da Terra. — até no Inferno, que eles sempre tanto odiaram… O que será que eles fariam conosco se nos encontrassem?
— Mas... não posso fazer muito sobre isso. — dou de ombros, já que há muito já havia aceitado que a possibilidade de eu, sozinha, conseguir mudar alguma grande coisa nesse planetinha azul é ínfima. Não me dou mais o trabalho de pensar sobre isso.
— Hm… — coço a cabeça com a ponta da caneta rosa, pensativa, sentindo o pompom em meus cabelos. — Acho que seria bom apontar que a Maureen é sua irmã gêmea, não? — apenas imagino o choque de todos em saber que ele se casou com sua irmã gêmea. — Para tirar isso a limpo antes de continuarmos…
Ele se encolhe um pouco, calor subindo por seu rosto, cobrindo levemente suas bochechas com sua vergonha. Esse é um assunto que claramente o deixava um pouco desconcertado. Faço força para segurar o riso quando ele volta a falar.
— Desculpe. Eu nem penso nisso e acabo me esquecendo… — depois de tanto tempo juntos romanticamente na vida imortal, coisas como laços consanguíneos paravam surtir qualquer efeito sobre as vontades, as conexões, as paixões. Eu não poderia dizer que não o compreendia, até porque o compreendo bem.
— Acho que ninguém aqui em casa pensa muito nisso. — digo, tentando acalmá-lo e justificar minhas próprias ações. — Do meu lado, pessoalmente, é sobre conexão e oportunidade. Não temos tabus. — abro um sorriso pequeno, direcionado a mim mesma e meus pensamentos, quando me lembro de como antropólogos terráqueos descrevem a formação do tabu do incesto na realidade social.
— E somos uma família real de deuses. — dou de ombros, como se só o fato de sermos deuses já falasse por si mesmo. — Para mim parece meio óbvio que ia rolar incesto. Todo panteão tem incesto. — as mitologias egípcias e gregas não poderiam negar a minha linha de raciocínio; poderia não ser um fator tão visível assim na maioria das vezes, mas ainda existia, ainda estava ali.
Era como se todos os deuses tivessem, de forma intrínseca, a ideia de permanência e continuidade do poder entre os seus. Se fosse o caso conosco, os Huntar’z, acredito que seja bastante inconsciente mesmo, pois não é proposital, ou uma relação contratual entre irmãos; as almas só se conectam, a liberdade e a possibilidade fazem o resto do trabalho.
— É assim para você também? — pergunto, depois de um leve momento de hesitação para reflexão.
— Eu só consigo pensar que há amor envolvido e é o que fundamenta. — ele responde, no seu tom de sempre. — A partir do momento que isso é o que importa, os laços sanguíneos não importam mais para seres como nós. — assinto positivamente, concordando com sua linha de raciocínio; não poderia ser de outra forma.
— Não gosto de me ver como um deus ou algo assim. — continua Melo e, de alguma forma, sinto uma pitada de frustração e desconforto em sua fala, mesmo que não tenha mudado seu tom ou tivesse verdadeiramente se mostrado infeliz com sua fala. — Eu sou o único que tem um título divino que não faz o menor sentido. — talvez seu desconforto estivesse aí.
— Que é…? — pergunto, agora olhando para o caderno e pegando a caneta que se postava no ar, esperando, para escrever isso eu mesma.
— Deus da Piedade. Todos os Mandamentos são deuses do seu Mandamento. — ele não faz pausa entre as falas, mas escrevo na frente dos seus outros títulos.
[Deus da Piedade,
Não sei o que isso poderia significar. Resolvo não perguntar pois, por seus olhos e a energia que lançava em sua fala, dava para perceber que nem ele mesmo entendia muito bem o que isso significava de verdade. Por ser um dos Mandamentos, não me dou o trabalho de imaginar o que poderia ser; não parecia coisa muito boa.
— Esc sempre diz que sou o deus da cartola porque sempre tiro mais poder da cartola. Eu só não uso tudo, sabe... Nunca irei usar. — esse não parece ser um título verdadeiro ou que faria sentido, mas adiciono logo à frente dos outros.
“Deus da Cartola” (Esc)]
Largo a caneta no meio do caderno, ainda olhando as palavras escritas e analisando as que havia escutado. Um poder interminável e que ele nunca iria usar tudo; um que provavelmente nem ele conhecia por completo, da forma em que falava. Também não o pergunto se ele conheceria seus próprios limites; não queria lhe passar a ideia de que talvez fosse legal ele tentar ir até eles.
— Hm… — hesito um pouco, para tentar lidar com as perguntas que se arranham pela minha garganta e que não saem apenas pela ideia de causar algum desconforto. — Acho que agora seria um bom momento então pra falar sobre a sua arma. — uma boa forma de fugir das questões não permitidas, é continuar com o que havia sido programado. — Qual a sua arma?
Faço a pergunta e a caneta rosa logo se levanta no ar, pondo-se a postos como se alguém muito veloz a estivesse segurando, pronta para anotar quaisquer palavras que ele soltasse a partir do momento em que abrisse a boca.
Lostbreak é uma arma que veio quebrada. Sua forma utilizável é do tamanho de uma adaga, mas quando a libero consigo utilizar meu poder em todos seus fragmentos, que podem tanto flutuar em volta de mim quanto serem utilizados por repulsão para cortar o alvo.
— E quais são seus poderes? — já emendo uma pergunta na outra, mas, antes que ele comece, me corrijo, lembrando-me da questão no projeto da entrevista. — Pra ser mais exata: qual a relação que você tem com as suas peculiaridades e poderes? — ele não se demora em responder e a caneta rosa move-se de maneira frenética enquanto ele fala, escrevendo cada palavra em minha letra cursiva, muito mais rápido do que eu jamais conseguiria manualmente.
Eu tenho o poder de refletir golpes. Sejam físicos ou mágicos. Também tenho o poder de dissipar magias com meu poder, refletindo e dividindo tão rapidamente que dispersam.
Eu não gosto muito do meu poder, mas aprendi que não importa nada o quão inútil seja seu poder e sim como o desenvolve. O poder é como um órgão do nosso corpo que desenvolvemos para caminhos específicos de acordo com o que fazemos com ele.
Além disso tenho uma forma original um pouco diferente dos outros demônios. Eu não tenho escamas ou chifres, mas uma energia escura tão grande que ela me veste quando me liberto. Isso é bem complicado porque é extremamente difícil manter o controle. Eu já disse que não consigo cortar absolutamente nada por conta própria? É um efeito colateral bem desagradável.
Faço um leve movimento com a mão esquerda e a caneta para, ponta encostada na folha em branco, esperando para continuar. Em meu olhar, confusão e curiosidade.
— Como assim não consegue cortar nada por conta própria? — tento, mas não consigo deixar de imaginar a Maureen ao seu lado, cortando seu bife na hora do almoço, ou dando facadinhas em seus inimigos, ou apenas rindo da frustração do amado enquanto, até mesmo com uma faca de pão, não podia cortar o queijo.
— Toda lâmina que toco fica instantaneamente cega. — esclarece. — Por isso a minha arma foi projetada pra que eu possa cortar, mas só os fragmentos flutuantes cortam. — agora não consigo parar de imaginar o desastre que poderia ser um almoço com todos de casa, ele retirando sua lâmina quebrada da bainha e requisitando que suas pequenas partes lhe cortassem um pedaço do prato principal.
— Entendi… — digo, meneando a cabeça levemente, concordando mais para mim mesma do que com a sua fala. — Mas e sobre ser general? Sobre ser o Capitão? — embora fosse da mais alta patente exército infernal, o primeiro comandante, o título de Capitão era ainda mais conhecido que o de Primeiro General.
Embora fosse uma patente menor, era mais um apelido do que um título oficial; não me lembro de uma época, mesmo antes que ele fosse colocado como responsável pelo Exército em si, em que não tivesse sido chamado por Capitão.
Ele faz uma pequena pausa, parecendo sopesar o que era mais trabalhoso, ser o Primeiro General do Exército Infernal ou ser o Capitão, o treinador de todos os seus irmãos e demais familiares. E então diz, caneta o acompanhando:
Por incrível que pareça, treinar todo o Exército Infernal é mais difícil que treinar os descontrolados dos meus irmãos. A diferença é que mesmo que todos os meus irmãos que treinam comigo sejam fissurados por lutas, possuem pelo menos meio-cérebro. Isso é o suficiente para que obedeçam comandos. No caso do Inferno é tanta criatura burra que muitas vezes tenho de usar da violência para conseguir que parem de fazer montinhos de pancadaria.
Faço força para não rir dele ou da forma como fala de seus irmãos.
— Não é incrível. É esperado. Seus irmãos são só 20 e alguns não treinam. — em minha cabeça, não dava nem para fazer comparações; para mim era meio óbvio que as criaturas do Inferno seriam piores. — O exército infernal... — vacilo por um momento, tentando encontrar as palavras certas. — É instintivo e gigantesco.
— Falo isso porque chega a ser parelho o vício em lutar e a burrice dos demônios altos. — uno os lábios e balanço a cabeça positivamente, como se dissesse silenciosamente que ele tinha um ponto ali.
— Acho que se tiver a população da Terra no exército infernal ainda é pouco. Correto? — eu não conseguiria nem imaginar o tamanho desse exército reunido. Não com as proporções das multidões que eu conhecia, pelo menos.
— Dá pra colocar o Exército Infernal na casa dos trilhões. — e em minha mente, um verdadeiro oceano de pessoas, criaturas, espíritos, demônios, feras. Várias dezenas de vezes maior do que a população inteira do planeta Terra. Por seu tom, sua pose, a forma como ele brilha diferente diante meus olhos, dá para sentir a exaustão ter de lidar com isso. Não o obrigo a falar mais sobre o assunto.
— Compreendo… — há uns dez segundos de silêncio reflexivo antes que eu continue. — E como são seus treinos? — essa é outra pergunta do que já estava planejado, uma das últimas. Suas palavras são transcritas no papel.
Sigo o mesmo modelo para os meus pessoais e os que instruo. Eu sempre inicio com aquecimentos e alongamentos. Em seguida, começo com movimentos técnicos simples ou revisão. Por fim, faço lutas de pontos com todos no treino ou com meu boneco de treino. Sei que do boneco sempre vou ganhar, mas nesse caso prefiro colocar limitações que façam o braço do boneco ter 50% de chance de me acertar.
— E aí essas limitações são mágicas? — questiono, pura curiosidade. — E o que são lutas de pontos? — agora por pura falta de conhecimento, mesmo. — Perdoa sua mãezinha ignorante.
— Também. Lutar com um graveto ou com a lâmina na boca. Cada vez faço diferente. — ele responde primeiro, antes de rir da minha fala, uma risada boba e alegre que parece encher seu quartinho de treinos pessoais. — Sabe… É bem simples: se acertar diretamente ou impedir contra-ataques, é um ponto. — abro um sorriso enquanto ele fala, pois há algo na forma em que ele fala que demonstra que está sentindo verdadeiro prazer em me explicar. — Geralmente faço de três pontos em casa e de um no Inferno. Seriam muitas criaturas pra fazer de três pontos...
— Entendi. — não de verdade, porque eu teria de participar de algo assim para entender verdadeiramente, mas já conseguia ter uma ideia. — E aí quem marcar um ponto, vai com o próximo? Até perder?
— No Inferno faço assim. Funciona melhor. — confirma. — Aqui em casa faço em sistema de torneios.
— Como assim?
— Com chaves de disputa onde quem vence passa pra próxima etapa. Até ter um campeão. Quem vence fica três torneios sem participar até termos quatro campeões que se enfrentam pra defender título. — em minha cabeça, um esqueminha de pares de disputa se forma, conectando os vencedores com os vencedores da última chave. Agora faz mais sentido, sem explicações melhores.
— Tem algum irmão seu que não treina com você? — eu sei que tem, mas não sei listar seus nomes, então peço para que ele o faça.
— Alguns. Katerina, Maureen, Annie, Rose, Merlin, a Florinha, o Connard e também a maioria dos meus sobrinhos. — basicamente quaisquer pessoas que tivessem mais poder mágico do que físico, ou que simplesmente não se interessavam em treinar sua magia fisicamente. Lembro-me vagamente de já ter conversado sobre isso com Luksi anteriormente.
— Mas aí elas treinam separadas? As crianças menores não treinam no Instituto? — o Instituto seria a escola para criaturas mágicas e inteligentes que sua esposa, Maureen, dirige atualmente, local de formação artística, mágica e física comum a todos, de quaisquer planos que pudessem alcançá-lo, do Inferno a Fantasia, do Olimpo a mundos mágicos ainda desconhecidos.
— Todos treinam comigo. Eu dou aula no Instituto, também. — pergunto-me por um instante como ele arranja tempo para cumprir todas aquelas funções, treinar todas aquelas pessoas. A resposta é muito óbvia e eu me sinto boba de não ter pensado nela de imediato: ele é imortal e tem todo o tempo do Universo para fazer qualquer coisa.
— As meninas não treinam comigo porque elas têm o treino delas, que é outro sistema e que eu não entendo nadinha dele. — ele continua, e faço uma nota mental de perguntar para alguma delas depois, já que Katerina não mencionou esse treino em sua entrevista. — O Alec e o Tio Jay são os únicos que treinam tanto comigo quanto com as meninas. — não faço ideia do porquê de fazerem isso, mas até que faz certo sentido, no total das coisas. Ele também não parece saber os motivos e eu não os pergunto; não é uma entrevista sobre Alec ou Gaiden.
— Basicamente todos que usam habilidades físicas ou lutam corpo-a-corpo treinam comigo. — ele termina, orgulhoso, o brilho em seus olhos dizendo que, mesmo por vezes exausto em sua tarefa, gostava de fazê-la. Eu sei que ele cumpre seu papel muito bem. Confio plenamente em Meliriodas para esse trabalho.
Não consigo evitar sentir um quentinho em meu coração, calor se espalhando por meu corpo em orgulho do que meu pequeno Melo se tornou com seu próprio trabalho e desenvolvimento. Abro um sorriso genuíno, deixando-me derreter um pouco nesse fogo de amor materno.
Talvez eu fosse derreter assim por todos eles; não me importaria de o fazer.
— Fofo. — comento, vendo-o sorrir levemente antes de voltar meu olhar para o caderno em minhas pernas.
Folheio até encontrar as perguntas novamente, olhando para a última questão na página, sugestão de Katerina na entrevista anterior.
— Agora… — olho para ele novamente, enquanto volto para última página escrita, deixando-a pronta para receber as últimas informações. — A Katerina me pediu pra perguntar sobre uma memória base. Uma que você ache que seja muito importante para o que você é. — explico. — Também pra ser trabalhado mais na posteridade. Pode falar só um pouquinho. Ou não falar nada, se quiser.
Para a minha surpresa, ele não hesita ou balbucia em continuar. Apenas responde, na mesma tranquilidade que teve durante toda a nossa conversa, naquele mesmo tom sereno que me parecia tão característico dele. A caneta rosa com o pompom no topo responde a ele escrevendo suas falas em ritmo acelerado, tentando acompanhar cada sílaba com exatidão.
Eu sou uma Lâmina Quebrada.
Eu lembro claramente de quando tive o primeiro contato com a Mau-Mau e como eu ganhei uma lâmina quebrada e foi o que perguntei ao Velho sobre se eu era. Ele disse que sim, mas que isso não era ruim.
Ele me disse que uma Lâmina Quebrada pode fazer muito mais para proteger do que qualquer um pois ninguém dá nada por ela. É como todos me vêem sem me conhecer. Ninguém dá nada pelo baixinho com cara de criança, mas como uma lâmina quebrada eu aprendi a surpreender. Essa coisa toda do presente do Velho foi um marco pra mim, sabe...
— Entendi… — enuncio, um sorriso enorme e contente estampado no rosto. Não sei ainda se essa informação, se essa fala, essa mensagem, me deixa mais apaixonada por Meliriodas ou pelo próprio Luksifer (o tal do Velho). Decido não tentar descobrir isso, admitindo que provavelmente me deixa um pouquinho mais apaixonada pelos dois, embora isso tenha repercussões diferentes no final. Eu poderia beijar Luksifer um milhão de vezes só por essa fala. — Muito fofo.
— Posso colocar Lâmina Quebrada como um de seus títulos? — pego a caneta no ar enquanto pergunto, já fazendo o movimento para escrever logo a frente dos demais títulos, apenas dois dedinhos de distância dos outros.
— Claro, oka!
— Ótimo. — e, com a sua permissão, o escrevo em uma letra diferente, maior e mais significativa, mais visível, diante dos demais. No tópico dos títulos, fica então:
Filho de Lolline Huntar’z e Luksifer Huntar’z. Sou o Mandamento da Piedade e Primeiro General do Exército Infernal. Por conta disso, sou responsável por treinar todo o Exército Infernal e todos meus irmãos e sobrinhos que desejam treinar. Isso faz com que todos me chamem de Capitão. [Deus da Piedade, “Deus Cartola” (Esc)]
LÂMINA QUEBRADA
— Acho que foi isso. — concluo, ao terminar de escrever seu último título na folha de papel. Folheio rapidamente as páginas escritas, vendo a quantidade de informação recebida e imaginando o que poderia fazer com isso; apenas sonhando com as possibilidades. — Você quer falar mais alguma coisa? — questiono, olhando dele para o caderno, deixando que ele decidisse se era o fim ou não.
— Ie. — solta, acenando negativamente e já se levantando. Prático e direto, como sempre. Imagino que sendo o Primeiro General do Exército Infernal não há muito tempo para ser outra coisa.
Não demoro muito para me levantar também, com calma, me apoiando rapidamente no boneco atrás de mim para fazê-lo, enquanto fito meu filho com cuidado. Há um sorriso no meu rosto, mas não demora muito para começar a ficar desconfortável.
Era sempre desconfortável o momento de me despedir de algum deles. Eu nunca sabia exatamente quando teria a oportunidade de conversar com eles novamente. Afinal, não era com todos que eu tinha uma conexão mágica que me permitia conversar por horas a fio. E o processo exigido para que eu chegasse até ali para meramente papear com eles era longo e complicado demais para ser recorrente.
— Okay. Hm… Então… — hesito, claramente incomodada. — Muito obrigada, meu bem. De verdade. — poderia ter ficado nisso, mas como sou eu, os agradecimentos nunca são o suficiente. — Me desculpe não ser muito próxima. É tão complicado… — abaixo a cabeça, tentando verdadeiramente não me sentir muito culpada diante a minha dificuldade e distância de casa. — Eu queria tanto… mesmo… — não era mentira, embora às vezes eu acho que talvez seja melhor assim.
Ele visivelmente percebe meu incômodo e, como se para fazer uma declaração ou para me manter mais tranquila, se curva em uma reverência longa e tranquila antes de levantar apenas a cabeça e abrir um largo sorriso.
— É uma escolha minha, Oka. — o desconforto foge de meus lábios e uma calma sutil dança em meus olhos. É claro que é. A proximidade deles não é algo que depende só de mim; depende do querer e poder de outras pessoas também.
— Se é assim... bom. Fico mais tranquila, ao menos. — acho que para qualquer outra pessoa, ouvir de seu filho que ele escolhe ser afastado, pode ser motivo de dor, mas não há tempo para sentir dor na minha condição. Se ele se sente bem com meu afastamento forçado e escolhe não se manter tão próximo, que assim o seja; eu ficarei feliz por ele. — Só quero que saiba que eu te amo muito. E que sou muito orgulhosa de você. De verdade. — termino, dando um beijinho em sua bochecha, sorrisinho tímido mas sincero em meu rosto.
— Obrigada por participar do meu projetinho. — digo, ao me afastar, olhando em seus olhos, vendo-os tremular com uma emoção que eu percebi sendo direcionada a mim poucas vezes na vida. Talvez até tenham existido mais vezes, mas eu não costumo ser muito boa em aceitar elogios silenciosos vindo em minha direção.
— Eu sou mais do que grato, Oka. — ele me observa e eu sei que o que tremula dentro dos olhos dele é orgulho. Tento silenciar a parte dentro de mim que pede para que eu saia pulando em saltinhos, abraçando a mim mesma e gritando para os céus. Porque o orgulho dele é orgulho de mim.
— Eu vou indo. — anuncio, a voz tremendo um pouco pela emoção. — Deixo você sabendo quando eu terminar. — certifico-me de que a caneta está bem guardada dentro do caderninho antes de me virar para a saída. — A Mau é a próxima. Avise-a.
Caminho até a porta, olhando para todos os lados por um momento, esperando que aquelas linhas douradas voltassem para me guiar. Elas dançam à minha frente, deslizando pelas paredes e se juntando no mesmo caminho pelo qual entrei, dispersando-se do lado de fora, cheias de possibilidades.
— Tchauzinho! — digo, acenando com a mão direita antes de sair, sem virar-me totalmente para observá-lo.
— Aye! Bom trabalho, Oka! — ele diz, o tom mais alto um pouquinho, para que eu pudesse escutar já do lado de fora do quarto.
Não espero estar muito longe para começar a dar os pulinhos de felicidade e rir comigo mesma de orgulho. Tento não explodir com a sensação, mas não é todo dia que ela vem. Então só saio, sorrindo feito uma boba, sentindo toda a adrenalina da emoção de um projetinho bem sucedido correndo por todo meu corpo.
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