Medo de amar
26 Capítulo 25
O garoto já estava a um bom tempo encarando seu aparelho celular. Balançava-o freneticamente nos dedos sem coragem de ligar para o número já discado. Estava difícil. Como resultado o celular caiu no travesseiro e um suspiro foi ouvido de seus lábios. Estava cansado. Noite passada para Enzo realmente não fora fácil, não dormira mais que 2 horas, fazendo o que? Rebobinando incontáveis vezes sua conversa com Diana sobre família e suas palavras firmes e de sentido conclusivo:
“- Existem muitos tipos de famílias.
— As melhores são as felizes.
— Cada um encontra sua felicidade em coisas diferentes.
— E pra mim quais podem ser essas coisas?
— Somente seu coração poderá dizer.
— Ele está calado
— Eu sinto muito”
E foi aquele sinto muito que acabou com tudo. No fundo, Enzo nunca se sentira tão coitado. Tão sem valor, tão sem porque de existência, talvez. Nunca se sentira tão inútil. Mas aquele eu sinto muito, acabou com tudo.
E o telefone toca.
Pai.
— Alô.
— Acho que agora o irresponsável pode me atender não é mesmo? – disse claramente irritado até a ponta de seu último fio de cabelo.
— Sabe...
— Cale a boca!
— Desculpe!
— Eu mandei você...— silencio é dominado abruptamente. — Eu ouvi bem?— Enzo se retorceu ao sentir seu orgulho ser pisado por um salto alto tão fino como uma agulha médica.
— Desculpe por tudo.
— Isso não aliviará seu castigo se pensa isso.
— Não penso e nem mesmo espero por isso.
— Não entendo aonde quer chegar com tudo isso Enzo.
— O amor não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade. Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta...
— Enzo. Não venha com as passagens bíblicas de sua mãe pra cima de mim.
— Sabe, eu me lembro que todas as vezes que brigávamos na época do meu colegial minha mãe me dizia essas palavras. E o que mais me pegava era o: tudo suporta. Eu nunca entendi porque devia te amar, te amava, mas não te suportava. O amor tudo suporta... Ontem entendi. – Enzo esperou algum protesto, porém, nada foi ouvido do outro lado da linha – Ontem me disseram que existem vários tipos de famílias, e que podemos encontrar felicidades diferentes em cada uma, no início achei aquilo confuso, mas quando me disseram que essa felicidade era determinada pelo meu coração comecei a entender que eu não te perdoava. Sabe, no final de tudo, o perdão é a proposta do suportar, com o tempo querendo ou não perdoamos. Mas foram tantos anos, tantas brigas, tanto tempo... Mas eu finalmente entendi e sabe, você pode não acreditar no que eu acredito, mas eu sei que acredita no amor, sabe por quê?
— Hum...
— Porque se não você não teria comigo o amor de pai que tu tens. Obrigado pelas cobranças. Mesmo severas, sempre foram para me ver feliz. – Enzo pode ouvir um leve e quase inaudível suspiro do outro lado da linha.
— Eu tinha te ligado pra te dizer que desisti de uma vez por todas de você. Eu pensei que cansei... Você cresceu Enzo... Tenho orgulho de você.
— Obrigado Pai.
~*~
— Alô Diana.
— Oi En. Alguém morreu?
— Venha logo para o quarto.
— O que houve?
— Derramei toddy na sua cama. – mentiu o rapaz.
— Eu vou te matar Enzo Givonneli. – e desligou na cara do rapaz que já estava sorrindo da situação.
...
A garota entra escandalosamente no quarto quando olha para sua cama e a vê limpa.
— Eu quero te matar Enzo!
A moça parte para cima do rapaz que segura seu braço impedindo os leves socos que a garota tenta lhe dar enquanto sorri. O menino a vira em sua cama e fica por cima dela segurando seus braços. O clima fica tenso. Não deveria. Mas fez. Enzo fez cosquinhas na menina que consegue logo se livrar dos braços dele caindo no chão. O rapaz ajuda a garota a se levantar do chão e ela se senta em sua própria cama. Os dois se encaram sorrindo por alguns segundos até que ela interrompe o silêncio.
— Você tem ideia em quê me atrapalhou? – disse a garota jogando uma das almofadas de sua cama no rapaz.
— Tenho certeza que nada mais importante do que eu. – diz o rapaz indiferente.
— Às vezes me surpreendo com quanta modéstia há em ti.
— Tanto faz. Vamos ali.
— Não quero ir. Não estou com paciência para outro ataque de pelanca vindo de você. – diz a moça ajeitando seu travesseiro e se deitando.
— Eu não tenho ataques de pelanca.
— Tem sim.
— Prefiro me manter sem detalhes. Enfim, quero te oferecer uma tigela de açaí com tudo que tem direito, precisamos comemorar.
— Quem morreu?
— Estou começando a desconfiar desse seu humor negro. – a garota riu – Me acertei com meu pai.
— Sério?
— Não tenho porque mentir Diana.
— Desculpa ai.
— Ótimo. Vamos.
— Não aceitei ir.
— Não aceito suas desculpas, sendo assim, me deve uma.
— Você não presta Enzo. – diz se levantando e calçando seus tênis.
~*~
— En, você anda um tanto estranho ultimamente.
— Estou apenas pensando em algumas coisas. – falou o rapaz mexendo em seus bolsos. – Está ouvindo esse celular tocando?
— Ah! Pera, é o meu. Alô. – atendeu.
— Oi meu anjo.— era a voz da mãe.
— Mãe... Como está? Bença... – ela largou a colher.
— Estou bem meu anjo, Deus te abençoe. E você come esta?
— Estou bem, lanchando com um colega.
— Colega... – resmungou o rapaz com um bufar um tanto exagerado em seguida.
— Quer dizer, um amigo.
— Perfeito. – o sarcástico garoto revirou os olhos fazendo um sinal de okay ao falar. A menina apenas franziu o rosto sem entender qual o problema. Logo pensou ser outro ataque de pelanca, mas preferiu ignorar dessa vez, pois estava falando com sua mãe.
— Ah meu anjo então depois eu ligo e conversamos.
— Pode falar agora.
— Não é tão urgente Di.
— Mas só me diz então qual o motivo exato da ligação.
— Nada, apenas para dizer que o Lucas conseguiu uma vaga na Sant Andy’s e não precisará ir para o colégio dos perdedores da cidade. – a menina riu ao ouvir o apelido engraçado que ela e a mãe haviam atribuído ao colégio de sua região, ao qual poucos conseguiam escapar.
— Mãe isso me deixa muito feliz, a senhora não sabe o quanto. — O menino apenas levantou o olhar encontrando aquele belo sorriso e ficou admirando.
A conversa entre a mãe e a menina prosseguiu por mais algum tempo, ao qual o menino passou olhando as feições e expressões que a menina esboçava ao falar no telefone. Quando ela desligou ficou um tempo sorrindo para o nada antes de se pronunciar.
— Vamos rachar a conta do lanche.
— Nada disso.
— Eu também tenho motivos para comemorar, sendo assim você também é meu companheiro, dividiremos a conta assim como a felicidade.
— O que houve exatamente?
— Bem, meu irmão foi admitido em uma boa escola e minha irmã ganhou em um concurso de fantasias que teve em nosso bairro. Estou feliz. – Dava para se notar pelo sorriso gigantesco no rosto da moça.
— Me promete que um dia vai me permitir.
— Oi?
— Ah, esquece. Vamos embora que ainda tenho um trabalho para começar.
— Okay, mas Enzo...
Antes que a menina pudesse continuar o rapaz já havia se levantado e ido pagar, após tudo acertado ele a chamou com apenas um aceno de cabeça e seguiu em saída do estabelecimento.
— Enzo eu te falei que ia pagar metade. – disse a moça o tentando alcançar, mas ele estava andando muito rápido.
— E eu falei que eu não iria deixar.
— Você não falou tecnicamente isso, você disse: nada disso.
— Diana para! – falou o rapaz acelerando um pouco mais o passo.
— Enzo qual o seu problema? O que houve com você?
O menino parou bruscamente assustando um pouco, de certa forma, a menina que vinha rapidamente logo atrás.
— Eu estou cansado. Estou envergonhado. Estou apaixonado... Esse é o meu problema. – disse chegando cada vez mais perto da moça.
— Ah Enzo se você queria conselhos ou ajuda minha pra conquistá-la era só pedir cara, não precisava me pagar um lanche.
— PARA! – A menina levou um susto com o grito dando um pulo para trás. – Chega de brincadeira, de fingimento, de joguinhos, eu gosto de você, caramba! VOCE! Eu não sei como essa loucura veio acontecer porque você não faz o meu tipo – ele começou a contar nos dedos – você era apaixonada pelo meu melhor amigo, você me detestava e nós tínhamos tudo, TUDO para mantermos dois quilômetros de distancia para não olharmos um na cara do outro. Mas aí chega você com esse sorriso, você com sua doçura disfarçada, murais de família, joguinhos de ciúmes que você faz sem nem mesmo saber, você chega toda complicadinha, toda quietinha e perfeitinha e eu caio que nem um idiota nas tuas ciladas. Eu passo a sonhar com você, me imaginar com você, eu passo a te desejar...
— Enzo eu não estou gostando da brincadeira. – diz a moça passando as mãos umas nas outras. Seu ato de nervosismo.
— Brincadeira? Brincadeira? Fala sério. –o menino olha ao redor e solta uma profunda e curta risada. – Eu fui capaz de largar uma viajem de sonhos por você, eu impedi meu amigo de gostar de você pra poder estar com você e você acha que isso é uma brincadeira?
— Você fez o que?
— Han?
— Você impediu o Dante de gostar de mim?! Como você pode fazer isso comigo? Você sabia o que quanto eu gostava dele.
— Mas e o que eu sinto por você? Não vale nada?!
— Você brincou com meus sentimentos, você me machucou pra conseguir me enganar com essas palavrinhas chulas... Você é o pior Enzo! O pior!
E a menina foi embora, ouvindo seu nome ser chamado, mas ninguém vindo atrás de si.
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