Me diga quem é você!
4 A Sombra
Notas iniciais
Anteriormente em ~ Me diga quem é você! ~
POV's Autor
Será que ela havia finalmente respondido? Perguntou-se com um sorriso se formando em seus lábios
Pegou o celular e abriu a mensagem. Seus olhos de uma hora para outra ficaram alarmados e o sorriso desvaneceu. Levantou rapidamente, vestiu uma camisa e saiu do quarto com as chaves da moto em mãos.
Na tela do seu telefone uma mensagem de desespero podia ser lida.
POV's Nora
Por favor. Me ajude! Segurei o celular contra meu peito. Chorava com soluços baixos o suficiente para evitar que me ouvisse.
– Vamos. Quem acha-la, brinca primeiro. Mas nada de ganância, vamos deixar um pouco para os amigos. Certo? — ouvir um deles falar.
Meu medo era grande o suficiente para nem tentar olhar para onde eles foram. Respirei fundo e permaneci em silêncio quase absoluto se não fosse por minha respiração entrecortada.
Olhei meu celular novamente.
Será que ele recebeu? Ele leu? Será que...que ele vai me ajudar?
Deveria ter corrido até não conseguir mais, talvez até tivesse encontrado alguém na rua, mesmo a essa hora. Agora estava presa em um canto escuro, frio e fedido, esperando e pedindo para que não me encontrassem.
Seria esse meu destino?
Ouvi dizer que podemos engana-lo, mas nunca conseguimos fugir dele. É inevitável.
– Esse é o último! — ouvi alguém falar. Meu coração parou nesse momento. Reagi, me afastando para trás, no entanto, o lugar foi preenchido por um barulho de uma garrafa quebrando.
– Ela já deve estar longe daqui.
– O que foi isso? — perguntou um deles. Engoli em seco.
– Deve ter sido um gato — respirei fundo. Fiz uma prece silenciosa
Não. Não. Por favor sigam seu rumo. Por favor!
– Ou uma gata? — escutei sua voz brincalhona.
É o fim. Meus olhos desataram a derramar lágrimas, mas permaneci em silêncio. Sabia o que me esperava. Tinha consciência de que estava no fim na linha. Não havia para onde correr e nem esconder. Minhas pernas tremiam, assim como todo o meu corpo.
Seus passos ecoavam no beco. Cada vez mais perto, escutei o som das latas sendo chutadas.
Preciso lutar até minhas últimas forças. Certo pai? Você me ensinou isso. Não adianta me conformar sem lutar. Certo?
Sai de trás das latas e dos sacos. Logo dois pares de olhos me focalizaram. Um deles era alto, moreno e com o cabelo na altura dos ombros e desgrenhados enquanto o outro tinha a mesma altura porém era mais esguio e possuía uma tatuagem tribal no braço direito.
– Não disse que era uma gata! — falou o homem moreno. Notei o perigo em seus olhos.
– Você estava certo! Como sempre!
– Por favor — pedi — Por favor me deixem ir. Aqui — tirei minha mochila e joguei aos seus pés — Tudo o que eu tenho! Podem levar!
O homem da tribal sorriu. Um sorriso de deboche.
– Você ou eu? — perguntou direcionando ao cara a seu lado.
Percebi que eles não iriam embora.
– Eu faço as honras! — respondeu com um sorriso nos lábios.
– Por favor. Por favor — pedi chorando — Me deixem ir. Por favor. Não vou contar a ninguém — implorei.
Eles apenas sorriram.
– Eu já liguei para o meu pai — tentei outra abordagem — Ele já está vindo me...me buscar! — minha voz falhou.
– Eu acho que ele não vem! — o moreno falou sorrindo.
Me afastei um pouco deles, andando para trás.
– É melhor vocês irem. Eu já o avisei — senti o muro do beco na minha costa.
– Fim da linha! — avisou o moreno. Vi ele passar a língua em seu lábio inferior e meu estomago revirou ao mesmo tempo.
As lágrimas retornaram e senti meu coração batendo cada vez mais rápido, sabendo o que estaria por vir. Meu desespero e medo aumentavam.
O mais esguio andou em minha direção. Seu cabelo estava bagunçado para trás. Senti o forte cheiro de álcool.
– Por favor! — implorei chorando. Ele não parou.
Procurei por algo que pudesse usar como arma. Encontrei somente o cabo de uma sombrinha quebrada do meu lado esquerdo. Corri para pega-la, mas não rápido o suficiente. Senti mãos em meu cabelo, me puxando fortemente para trás. Comecei a gritar e chutar para todos os lados, tentando acerta-lo.
Ele me segurou pelo braço e me jogou para o lado. Cai em cima de uns sacos de lixos. Senti algo afiado sendo pressionado contra meu braço, gemi com a dor cortante.
Olhei para cima. A noite estava escura e o céu negro e sem nenhuma estrela. Os primeiros pingos de chuva me atingiram, se misturando com as lágrimas em meu rosto.
– Pai... — sussurrei chorando.
Meu pé foi segurado, fui arrastada pelo chão; a dor em meu braço mais latente, senti o vidro cortando ainda mais a superfície da minha pele e penetrando mais fundo em meu braço.
– Não deixe ela inconsciente. Quero que ela veja toda a diversão — o moreno falou sorrindo.
Me levantaram e fui jogada novamente. Bati minha cabeça contra o chão duro e frio. Senti uma pontada cortante na testa.
Tentei me levantar mas algo me empurrava contra o chão. Senti a dor em minhas vértebras.
O ar começava a travar em meus pulmões, tossi, tentando colocá-lo para fora e me forcei a respirar novamente. Aos poucos consegui.
Senti uma vertigem. A chuva estava mais forte e dessa vez o frio me abalava, fazendo me tremer, não só de frio, mas de medo também.
Gritei com todas as minhas forças. Não sabia se era um grito de medo, dor ou tristeza. Mas sabia que não era de socorro. Porque ninguém apareceria, eu não tinha ninguém exceto meu pai.
Dessa vez foi o moreno que me levantou e me fez olhar em seus olhos enquanto tampava minha boca com uma das mãos.
Minha visão estava turva. Não conseguia abrir os olhos com êxito. A chuva não parava de cair.
Na minha boca sentia o gosto de algo como ferrugem, meio metálico.
Seria água da chuva aquilo que escorria por meus olhos, ou sangue, ou poderia ser lágrimas. Não importava mais.
– Olha para você. Tão jovem e cheia de vida! — senti seu rosto em meu pescoço.
Tentei gritei novamente, mas não conseguia, então o mordi com todas as minhas forças. O gosto de sangue invadiu minha boca. Seu punho se fechou contra meu maxilar. A dor me atingiu e todo o meu mundo rodou, não tive equilíbrio nenhum. Cai no chão novamente. O gosto do sangue veio a minha boca, agora mais forte, me fazendo engasgar. Os pingos da chuva lavavam meu rosto e minhas lágrimas.
Pai, me desculpe!
O céu parecia triste e sem vida. Não conseguia sentir mas nada. Minha mente estava em torpor profundo.
– Pai...pai...- sussurrei para os céus — Pai. Me desculpe — fechei os olhos.Estava cansada demais para fazer qualquer coisa.
Senti um peso em cima de mim.
– Fique acordada — pediu ele — Quero que fique acordada quando eu estiver dentro de você — deu tapas em meu rosto.
Não tinha forças para resistir. Não tinha forças para nada.
Pai me desculpe. Espero não ter sido um fardo para você.
Senti as mãos do agressor rasgando minha blusa.
Me desculpe por tudo. Por não saber me cuidar sozinha. Se não fosse eu, talvez você estivesse feliz com aquela mulher?
O barulho do tecido sendo rasgado invadiu meus ouvidos.
Se não fosse eu, você poderia ter tido uma vida melhor. Desculpe pai, me desculpe por ser um fardo e até mesmo agora independente do que acontecer vou continuar sendo um fardo para você. Sinto muito!
Eu só quero apagar!
De repente algo tomou minha visão, uma sombra, no início do beco.
Ela moveu-se, avançou para dentro e andou tranquilamente até onde estávamos.
– Por favor! — sussurrei levantando minha mão em sua direção. Estaria minha consciência falhando? Me pregando uma peça? Me agarrei ao meu último delírio como se não houvesse mais nada Senti que mesmo daquela distância e com a chuva ela seria capaz de me ouvir — Me ajude — minha visão ficou cada vez mais escura e turva — Por favor — sussurrei usando o resto de força que me restou.
A última coisa que vi foi ela correndo na minha direção e então meu mundo escureceu completamente.
POV's Autor
– Temos companhia Kevin — falou o mais esguio que mirava o encapuzado a sua frente.
Kevin virou-se e também o viu.
Merda. Eles tinham que dar um jeito nesse cara agora.
– Livre-se dele Sean — ordenou e voltou seus olhos a garota. O homem que se chamava Sean avançou contra ele.
– Alto lá. Se não quer se machucar, de a volta e siga seu rumo. Não tem nada para você aqui! — Sean disse estralando seus dedos.
O encapuzado olhava-o atentamente.
Ele correu contra Sean, que tentou acerta-lhe um soco, mas desviou em um último momento, acertando-o em cheio a costela. Sean imediatamente cambaleou para trás por causa do impacto do golpe. O cara do capuz tentou uma direita que foi desviada, sendo atingido no queixo, em seguida
Seus olhos pousaram na garota. O moreno terminava de rasgar sua blusa.
O encapuzado foi com tudo para cima do tatuado tentando acerta-lhe um chute.
Idiota, pensou Sean que segurou seu chute antes, o que amorteceu o impacto. Mas o que veio a seguir foi inesperado, seu braço não foi tão ágil. O encapuzado segurou seus ombros e puxou, cabeceando-o com toda força que tinha. Como esperado Sean largou sua perna por causa do impacto, ele aproveitou e chutou-o no peito que o fez cair desacordado.
Os dois sentiam a cabeça latejar, mas era Sean, o único que possui uma laceração no canto da sobrancelha que sangrava.
– Acorde! – disse Kevin dando tapas no rosto da garota. Sua blusa cinza estava rasgada e o sutiã preto a mostra. Seu peito levantava e subia lentamente e com extrema dificuldade.
– Droga. Menina fraca! Então vai ser assim mesmo — Kevin começou a tirar o cinto. Quando estava prestes a desabotoar a calça foi puxado pela camisa. O encapuzado o jogou no chão.
Kevin olhou-o ameaçadoramente.
Quem esse bastardo pensa que é para estragar minha diversão? Pensou Kevin.
– Então quer brincar de herói? – falou Kevin — Seria eu o vilão então? — perguntou levantando-se.
– Vamos então cara. Venha proteger sua donzela. Você vai apanhar tanto! E vou ter o prazer de fode-la na sua frente — sorriu lambendo os lábios.
Suas palavras o causaram um nojo repugnante. Ele avançou.
O homem do capuz sentia-se cansado e dolorido, mas ainda tinha forças.
O moreno avançou e tentou golpeá-lo, não conseguiu desviar, não houve tempo para pensar na dor, pois sentiu outro punho se fechar em seu maxilar.
Cambaleou para trás, mas não houve tempo para pensar, pois o moreno adiantou-se e o chutou na perna, o fazendo ficar de joelhos no chão. Antes do moreno acerta-lhe um chute, deu uma rasteira nele. Não perdeu tempo e subiu em cima dele, o socando no rosto. Com a direita e a esquerda, suas juntas doíam, e o rosto do moreno tinha lacerações na boca e no canto dos olhos. Sentiu um soco no ouvido, que o fez perder o equilíbrio e tombou para o lado.
O Sean ajudou seu amigo a levantar-se.
Kevin cuspiu no chão, puro sangue e depois limpou sua boca.
– Você me paga, filho da puta — lambeu o lábio inferior.
Sean segurou-o no chão e o Kevin começou a desferir socos na face dele.
– Levante ele! — Kevin ordenou.
Sean o fez rapidamente. O encapuzado tombou a cabeça para frente.
– O que foi hein? — Kevin deu um tapa em seu rosto — Cadê toda a sua brabeza agora?
O homem de capuz balançou a cabeça e a jogou com toda a força, acertando o oponente atrás.
Não houve tempo para comemorações. Kevin acertou um golpe de esquerda.
– Você devia ter seguido seu rumo filho da mãe — Kevin avisou.
O encapuzado se recuperava dos golpes ajoelhado no chão. A chuva continuava mais forte e inabalável.
– Você pensa que é o Batman? — riu Kevin — Ou melhor, o arqueiro, com esse capuz. Cadê seu arco hein? — debochou e chutou no peito fazendo o cair e consequentemente seu capuz também.
– Merda! — praguejou — Merda, merda! –ele afastou-se devagar, parecendo ter muito cuidado para não fazer qualquer movimento errado. Pegou seu amigo, pensamentos de o abandonar ali mesmo passaram por sua mente, mas temia que algo ruim acontecesse.
– Levanta! Vem! – praguejou o levantando. Carregou-o o mais rápido que pode, mas de maneira cuidadosa até saírem do beco.
Droga. Essa foi por pouco. Merda, onde eu vim me meter, só para conseguir um pouco de diversão.
O homem retornou a pôr seu capuz e se aproximou da garota.
Seu rosto desacordado o perturbou. Ele viu sangue por toda parte, ele precisava leva-la a um hospital rápido.
POV's Nora
No sonho eu caminhava por um campo. A grama verde em meus pés e o sol brilhando no horizonte.
– Nora! — ouvi me chamarem. Olhei para trás. Meu pai estava parado lá, sorrindo para mim.
Corri ao seu encontro, mas ele começou a se afastar, como se flutuasse.
– Pai! — o chamei estendendo meu braço para alcança-lo.
De repente o sonho se transformou. Agora o céu estava escuro e sem nenhuma luz, aos poucos a chuva acertou meu rosto, senti seus pingos escorregarem por minha face.
Uma dor logo me acertou, minha cabeça parecia estar prestes a explodir. Tinha o gosto de sangue na boca. Tudo em mim doía e o frio intenso me cercava, me fazendo tremer descontroladamente.
Abri meus olhos no momento de presenciar a sombra que vi antes se aproximar até onde eu estava. Percebi que os homens haviam partido.
Será que ela havia me salvado?
A sombra se ajoelhou ao meu lado Não conseguia ver seu rosto, minha visão estava turva demais. Será que uma sombra ti
Seria possível uma sombra ter vida?
Senti pela primeira vez algo quente em meu rosto. O segurei com as duas mãos ignorando a pontada de dor em meu braço. Tentei roubar todo o calor que ele tinha. Percebi que era a mão da sombra a minha frente.
As sombras também tinham calor?
Segurei sua mão; o porto seguro que me esquentava no momento vinha dela.
– Obrigada! — sussurrei para a sombra chorando, meus lábios tremendos, enquanto meus dentes batiam. Segurei sua mão com a força que me restava.
– Obrig...- então meu mundo voltou a escurecer. Mas dessa vez não tive medo como da primeira vez.
Pai. Tudo vai ficar bem. Não se preocupe. Eu te amo.
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