Notas iniciais
Antes de tudo, algumas palavras: 1) A capa é uma fanart Wolfstar feita por @olowka.pdf (instagram). Sigam o trabalho dela, é absolutamente maravilhoso. Tomei a liberdade de usar a arte na fanfic pq acho os Bylers daqui muito fisicamente semelhantes aos Wolfstar. 2) Alguns temas pesados poderão ser abordados ao longo da história, como transtorno alimentar não especificado e homofobia internalizada. Se essas temáticas te causam gatilhos, não leia. 3) O Will aqui está um pouco revoltado com tudo e todos, porque acho que ele tem sim o direito de despirocar depois de tanta merda que passou. Deixem meu menino em paz. Boa leitura, um beijo a todos.

“Posso entrar?”

Will suspira antes de desviar o olhar do seu caderno de esboços. Na porta do quarto, Mike o observa, mais magro e longilíneo do que nunca. Ossos zigomáticos afiados na altura das bochechas, a pele pálida quase translúcida sob a luz suave do corredor. Alguns fios pretos e ondulados escapam do coque alto, caindo sobre seu rosto.

Lindo.

Serão duas longas semanas.

Will desvia o olhar.

“Claro”, ele responde, voltando sua atenção para o caderno de esboços. Continua o desenho, os traços leves formando um pássaro preso dentro de uma gaiola, enquanto escuta os passos suaves de Mike pelo quarto. O colchão afunda levemente quando ele se senta na cama.

Por um tempo, nenhum dos dois diz nada.

“Então”, Mike começa, hesitante. “Como você está?”

“Bem”, Will responde, sem muita emoção. “E você?”

“Bem também.”

O silêncio se instala.

Mike pigarreia. “E o ano letivo? Como tem sido para você?”

“Ótimo.”

“Entrou em alguma atividade extracurricular?”

“Clube de pintura.”

“Oh, sim.” A voz de Mike soa mecânica, como se estivesse escolhendo as palavras com cuidado. “Combina com você.”

“Sim.”

Mais silêncio.

“E você?” Will pergunta, sem desviar os olhos do esboço à sua frente.

“Clube de D&D”, Mike responde, e desta vez há um vislumbre de animação na voz dele. “É muito legal! Eu, Dustin e Lucas participamos. Um veterano mestra as rodadas para a gente, o Eddie. Ele é foda. Sempre que jogamos, eu lembro de você. Você iria gostar.”

Will não levanta o olhar. “Não acho.” Seus traços no papel ficam mais rígidos. “Acredito que já passei da fase do D&D. Mas boa sorte no seu clube.”

O silêncio retorna, agora carregado de algo mais denso.

Mike suspira, e Will escuta o farfalhar dos lençóis quando ele se mexe na cama.

“Okay, o que está acontecendo?”

Will franze as sobrancelhas. “Como assim?”

“Você está incomodado. E distante. E me respondendo de forma seca.” A voz de Mike soa frustrada. “E sequer olha para mim.”

Will solta um suspiro pesado, fechando o caderno de esboços com um movimento contido. Finalmente, se força a encará-lo.

Mike está sentado na cama, as sobrancelhas franzidas, o rosto levemente corado, um tom avermelhado subindo pelo pescoço. Ele parece… impaciente. Talvez até magoado. Will mastiga o lábio inferior.

“Estou olhando para você.”

“Sim, e parece que está passando por uma prova de resistência”, Mike responde, cerrando os punhos.

Will desvia o olhar para o carpete, tentando conter a onda de emoções que ameaça transbordar.

“O que está te incomodando? O que eu fiz?”

“O que você fez?” Will repete, incrédulo. Ele levanta o olhar, encontrando a expressão surpresa de Mike. “Acho que seria melhor perguntar o que você não fez.”

Mike franze as sobrancelhas. “Como assim?”

Will solta uma risada seca, sem humor. “Ah, não sei. Talvez o fato de eu ter te mandado umas vinte cartas e nenhuma delas ter sido respondida? Ou de você ter ignorado minhas ligações? No começo, eu realmente achei que você estava ocupado, ou que precisava de um tempo para si mesmo, e eu respeitei isso. Mas aí…” Ele engole em seco. “Aí eu vejo a El recebendo cartas e ligações toda semana, enquanto eu fiquei seis meses esperando qualquer sinal de vida.” Ele solta um suspiro amargo. “Foi quando eu aceitei que talvez você tivesse se tornado meio babaca.”

Mike se enrijece. “A El é minha namorada, Will.”

“E eu sou o quê?”

'Mike hesita. “Somos amigos, Will!” Ele levanta o tom de voz, parecendo aflito. “Somos amigos.”

Will desvia o olhar. “É, bem…” Sua voz sai mais baixa agora. “Costumávamos ser melhores amigos.”

O silêncio que se instala é pesado. Mike suspira e passa a mão pela testa, tentando organizar os pensamentos.

“Olha, Will…” Ele começa, mas o som repentino da cadeira se arrastando o interrompe. Mike vê Will pegando seu casaco e mochila, movendo-se com pressa em direção à porta.

“Will, que porra é essa? Estamos conversando.” Mike se levanta rapidamente e vai atrás dele.

“Eu já acabei por aqui”, Will responde sem olhar para trás, descendo as escadas com passos firmes. Mike o segue, o coração disparado.

Will chega até a porta da frente e destranca a fechadura.

“E para onde você está indo?” Mike pergunta, cruzando os braços.

“Saindo com alguns amigos. Eles marcaram de passar aqui agora.”

Mike pisca, atordoado. “Alguns amigos?” Ele repete, como se as palavras não fizessem sentido.

Como se fosse um sinal, uma van laranja surge na esquina, os acordes de Bohemian Rhapsody do Queen ecoando pelos alto-falantes.

“É.” Will abre a porta de trás da van, e Mike tem o vislumbre de uma garota vestindo roupas hippies e um garoto com um estilo punk.

Will joga a mochila no colo do garoto e, antes de entrar, olha brevemente para Mike. “Já avisei a minha mãe, a El e o Jonathan que vou chegar tarde, mas agradeceria se você pudesse reforçar o aviso. Não devo passar das 23h.”

Mike apenas assente, ainda tentando processar tudo. “Okay…” Sua voz sai incerta, quase incrédula.

Will não responde. Apenas bate a porta da van, que arranca logo em seguida, deixando para trás um Mike parado na soleira, sentindo-se inexplicavelmente deixado para trás.

Okay, então Will mudou... drasticamente em um ano.

Com El e Joyce fora para fazer compras, e agora com a saída de Will, Mike finalmente tem espaço para se perder em seus próprios pensamentos — algo que ele tem evitado de fazer nos últimos meses.

Desde o momento em que viu os Byers no aeroporto, ele percebeu que Will estava diferente.

A camisa com a capa de Heroes do Bowie, os jeans largos. Nada disso seria digno de nota se não fosse pelo fato de que, agora, as mangas da camiseta esticavam contra os braços de Will, assim como o tecido moldava um peitoral que não estava lá há um ano atrás. Ao contrário dele, Will claramente resolveu adicionar alguma atividade física à rotina. Ele ainda era mais alto, mas agora Will era maior. Muito maior. E Mike ainda não conseguiu se acostumar com isso.

Ele também estava calado. E distante. E Mike fingiu não perceber que foi praticamente ignorado do aeroporto até em casa. Ele tentou não pensar muito nisso até que ficaram sozinhos. Até que Joyce e El saíram e ele viu sua chance de finalmente conversar.

Will pode ter adotado essa nova personalidade de lobo solitário. Mike pode ter sido um péssimo melhor amigo desde que os Byers se mudaram para a Califórnia. Mas, no fim das contas, uma conversa sempre foi o suficiente para resolver qualquer coisa entre eles.

Bem, ele não contava que Will fugisse.

“Covarde”, ele resmunga, afundado no edredom. Tenta ignorar a sensação incômoda de ter sido empurrado para fora da vida de Will. Até poucos minutos atrás, ele ainda acreditava que eram melhores amigos. Mas agora... agora ele não tem tanta certeza.

Ele se pega pensando nos novos amigos de Will. Eles pareciam descolados, despreocupados, e Will, de alguma forma, parecia se encaixar perfeitamente entre eles. Mike tenta afastar os pensamentos, mas não consegue evitar se perguntar de qual deles Will era mais próximo.

A forma como ele se referiu a eles no passado ainda ecoava na sua cabeça. Costumávamos ser melhores amigos. Isso significa que Will já o substituiu? Que tem um novo melhor amigo? O garoto punk no banco de trás, talvez? Eles pareciam íntimos. Will jogou a mochila no colo dele como se fosse algo rotineiro, e ele aceitou normalmente, como se já estivesse acostumado com isso. Ou talvez… fossem algo mais do que apenas amigos.

Mike sente os dedos tensionarem. Ele fecha as mãos em punhos, forçando-se a manter o controle.

Ele não vai roer as unhas.

O som de vozes vindas do andar de baixo o arranca de seus pensamentos. Joyce e El acabaram de chegar. Mike solta um suspiro longo e se obriga a sair da cama, tentando empurrar todas as questões sobre Will para um canto isolado da mente, um espaço que ele pode revisitar mais tarde.

Ao descer as escadas, encontra as duas na cozinha, ocupadas desembalando as compras.

“Oi”, ele diz, hesitante, parando na entrada da cozinha.

El levanta o olhar para ele, e por um breve instante, seu rosto se ilumina, mas logo ela morde o lábio, parecendo hesitante.

“Oi, Mike.” Há uma pausa antes de seu olhar se desviar para o corredor atrás dele. “Onde está o Will?”

Mike sente um nó se formar em sua garganta. “Ah, sim.” Ele engole seco. “Ele saiu com alguns amigos. Disse que volta antes das 23h. Comentou que já tinha avisado vocês, mas pediu pra eu lembrar.”

“Oh.” El parece surpresa, e Joyce franze as sobrancelhas.

“Eu lembrava disso”, El murmura, pensativa. “Mas achei que ele levaria você com ele. O grupo de amigos dele é bem legal.”

Mike força um sorriso, mas a mágoa escapa por entre as palavras antes que ele possa controlá-la. “É. Acho que ele preferiu me deixar de fora dessa.”

El e Joyce trocam um olhar rápido.

“Bem”, Joyce diz, tentando soar leve, “acredito que vocês vão se acertar melhor quando ele voltar.” Ela se aproxima e o envolve em um abraço breve, mas reconfortante. O cheiro de lavanda que escapa das roupas dela o acalma um pouco, dissipando parte da tensão em seus ombros.

Ela se afasta e sorri para ele. “Agora, que tal pedirmos uma pizza e assistirmos a um filme? Você escolhe, Mike.”

Mike hesita por um segundo e faz uma careta, sentindo o estômago revirar. Noites de filmes o lembram de Will.

“É… Acho que pode ser.”

“Ótimo!”

Serão duas longas semanas.