Quando Will finalmente volta, já passa das 23h40. Jonathan chegou na metade de Caça-Fantasmas, murmurou um rápido "oi" e subiu para dormir. Joyce e El se recolheram assim que os créditos começaram a rolar. Mike ainda enrola um tempo na sala, observando o relógio e se esforçando para ignorar os pensamentos sobre o paradeiro de Will. Ele finge ler Carrie, de Stephen King, um prato de pizza intocado na mesa da sala, quando o som da porta se abrindo quebra o silêncio, e ele ergue o olhar a tempo de ver Will entrar, visivelmente bêbado e tropeçando nos próprios passos.
“Você está atrasado.”
“Não enche, Wheeler.”
Mike fecha o livro e o joga de lado. Ele se levanta e, usando todo seu autocontrole para ignorar a raiva borbulhando no peito, coloca um braço ao redor das costas de Will e o guia até as escadas.
“Eu não pedi ajuda”, Will resmunga, mas não se afasta de qualquer forma. Ele cheira a maconha, álcool e perfume amadeirado. Mike revira os olhos.
“Você não está conseguindo nem ficar de pé. Agora pare de ser um babaca e cale a boca, sim?” Ele fala rispidamente. Will, para sua surpresa, obedece. Eles entram no quarto e Mike o leva até o banheiro. Ele o faz sentar no chão, perto da banheira e abre a torneira, deixando que a água encha o fundo esmaltado.
“Tome um banho e tente vomitar um pouco. Volto daqui 20 minutos.”
Will assente, emburrado, sem olhá-lo.
Mike revira os olhos e sai, fechando a porta atrás de si. Vai direto para a cozinha, onde começa a preparar um sanduíche, tentando ignorar o peso incômodo no peito. Duas fatias de peito de peru, uma fatia de queijo, chips de batata, tudo intercalado entre três fatias de pão, do jeito que ele lembra que Will gostava. Mas agora, até isso o deixa inseguro. É só um maldito sanduíche, mas, se Will mudou tanto em um ano, será que Mike ainda sabe como ele prefere? O pensamento o deixa doente.
Ele coloca o sanduíche e o copo d'água sobre um prato grande e sobe as escadas. Bate suavemente na porta de Will e ouve um “entra” irritado vindo de dentro. Mike revira os olhos — ele está percebendo, para seu horror, que talvez tenha o mesmo mal hábito de Nancy — e empurra a porta. Will está na porta do banheiro, secando os cabelos com a toalha, usando apenas uma calça de moletom. Mike sente o rosto esquentar. Will definitivamente têm se exercitado, com músculos visíveis no peitoral, costas mais largas e braços tonificados. Sem perceber o olhos sobre si, Will joga a toalha no chão e deita na cama, cobrindo o rosto com as mãos.
Mike engole em seco e coloca o prato na escrivaninha ao lado da cama, se sentando na cadeira da mesa de estudos.
“Trouxe um sanduíche e água”, Mike diz, tentando disfarçar o desconforto. Will apenas resmunga, mas não parece irritado, apenas cansado. Ele parece visivelmente mais sóbrio também. “Onde eu encontro Aspirina?”
“Banheiro, no final do corredor. Armário do espelho.”
“Já volto.”
Ele retorna alguns segundos depois, um frasco branco nas mãos. Ele retira dois comprimidos e os deposita no prato intocado. Will ainda está massageando as têmporas.
“Vou deixar o frasco aqui. Tome mais dois comprimidos amanhã de manhã.” Ele fala e Will senta-se com dificuldade e toma os comprimidos. Ele encara por alguns segundos o sanduíche com um olhar perdido. Mike morde o lábio inferior e se levanta. “Coma, vai fazer você se sentir melhor.”
“Você…” Will começa e para. Mike se enrijece na entrada do quarto e olha para ele. Will ainda encara o sanduíche. “... Obrigado.”
Mike se sente um pouco decepcionado, mas apenas assente. “Não se preocupe. Acho que você não tem perigo de vomitar enquanto dorme, então… vou para o meu quarto.”
“Você ficou acordado esperando por mim?”
Mike sente o rosto formigar em calor por Will ter ligado os pontos tão rápido, ainda que bêbado. Ele aperta a maçaneta na porta e desvia o olhar dele.
“Não seja ridículo, eu estava apenas lendo.”
Will dá um sorriso satisfeito e morde o sanduíche.
“Tudo bem então”, ele diz simplesmente. “Boa noite, Wheeler.”
A palavra atinge Mike como um soco no estômago. Ele sente as mãos se fecharem em punhos, a raiva subindo por ele como uma onda de descontrole. Wheeler. Ele odeia isso. O nome impessoal, distante. Will está tratando-o como um desconhecido, e Mike não consegue lidar com isso. Mesmo que ele tenha ficado acordado até tarde esperando por Will, e saiba exatamente como ele gosta do sanduíche, e saiba que, se Will estivesse em casa, eles teriam assistido A Morte do Demônio em vez de Caça-Fantasmas. Eles nunca falaram sobre isso, mas Mike simplesmente sabe que Will gostaria — porque, apesar de ser medroso, ele sempre teve uma estranha fascinação pelo terror. Uma dor crescente começa a se formar em seu peito, e, por um momento, Mike só quer gritar, socar Will, fazer ele perceber o quanto ele está sendo insuportável.
O que realmente assusta Mike não é a raiva, mas sim a vontade de machucar Will. Ele nunca, jamais pensou que poderia sentir algo assim por ele. E agora, com tudo isso acontecendo, Mike só quer enfiar o punho na mandíbula perfeita dele e gritar para que ele pare de tratá-lo com tanta frieza. Eles não eram melhores amigos, eles são melhores amigos, porra. Amigos consertam as coisas. Amizade exige maturidade e Mike nunca pensou que algum dia estaria na posição de ser mais maduro que Will.
Mike respira fundo e controla seus sentimentos. “Boa noite, Will.”
Ele entra no corredor escuro e fecha a porta do quarto.
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