Me chamam de Corvo (Bulletproof)
16 Bebê Potter
Notas iniciais
Nos beijamos pelo tempo que nos foi permitido, ou seja, até baterem na porta de novo. Dessa vez, era o PD querendo conhecer a Sun. Nós o levamos para dentro e conversamos bastante. Namjoon, mais uma vez, estava certo: tínhamos muitas visitas pela frente. Depois do almoço, apareceram os Choi, o que não foi exatamente a visita mais confortável, mas foi pacífica. No fundo, estávamos com medo de que eles quisessem requerer a guarda dela, mas apenas a conheceram, fizeram perguntas e disseram que não tinham tempo para cuidar dela, mas que ajudariam no que precisássemos e a visitariam sempre que pudessem. Prometemos fazer o possível para levá-la até eles. Depois dessa visita, fiquei pensando sobre os Jeon, sobre como eles nem sabiam que tinham aquela neta, e sobre como não poderiam saber tão cedo.
Já era madrugada quando recebemos nossa última visita do dia. Acho que eu a classificaria como a primeira visita do dia seguinte, na verdade, mas isso não importa muito. Eu acordei ouvindo barulhos na casa, mas tentei convencer a mim mesmo de que era só o vento ou algo assim. De qualquer modo, continuei atento. Ouvi mais alguns barulhos e decidi chamar o Namjoon.
— Nam — sussurrei.
— Hum…
— Eu acho que tem alguém em casa.
Namjoon estava sonolento demais para responder, e provavelmente para entender também, enquanto eu estava cada vez mais acordado. Comecei a olhar ao redor, procurando algo que pudesse me servir de arma no caso de necessidade. A única coisa que vi foi o tripé da câmera no cantinho. Olhei de novo para a porta, que ficava sempre aberta para ouvirmos a Sun, e continuei esperando. De repente estava silêncio, mas eu continuava apreensivo.
— Nam — chamei de novo, com a horrível sensação de que tinha algo errado.
Tive certeza de estar ouvindo passinhos e, de repente, o cara todo de preto passou pelo corredor em direção ao fim. Em direção ao quarto da Sunghee.
Levantei num pulo, peguei o tripé e fui atrás dele. Entrei no quarto já com o tripé apontado para o estranho, que olhava para a Sunghee fixamente. Ela, curiosamente, estava acordada e mantinha seus olhinhos amendoados sobre a figura, quase como se o desafiasse.
— Quem é você? — eu disse.
Não queria ser muito original, na verdade não tinha tempo para isso. Só chamar a atenção do sujeito, mas foi a mesma coisa que nada, porque ele continuou olhando para ela.
— Quem é você? — eu repeti mais alto.
Ele ainda não tirou os olhos dela, mas me perguntou algo que me deixou ainda mais sem reação.
— Ela é filha do Jeon Jungkook?
Eu não respondi. A resposta poderia mudar a opinião dele sobre o que queria fazer com ela, e eu não estava com vontade de arriscar.
— Fica longe dela — eu disse, antes de começar a andar em direção ao desconhecido, mas surgiu outro cara que segurou meu braço e apontou uma arma para minha cabeça.
— Solta esse negócio.
Mordi o lábio. Não podia acreditar que aquilo estava realmente acontecendo. Coloquei o tripé no chão. O cara com a arma pegou e colocou o tripé longe de mim. O que estava perto da Sunghee ainda se mantinha meio hipnotizado com ela. Minha inocência me fez acreditar que ele a deixaria em paz, mas ele a pegou no colo com um cuidado surpreendente. Eu senti que meu coração ia saltar do peito para tirá-la dele, mas minha razão deixou minhas mãos trêmulas paradas ao lado do corpo. Eu tive muito medo do que ele faria, enquanto ele tentava aninhá-la em seu ombro. Eu não conseguia entender por que aquele invasor de casas parecia tão tocado por ela. Abraçou-a e fechou os olhos como se ela fosse uma raridade, como se segurá-la fosse, para ele, um milagre. Permaneceu balançando-a muito levemente, quase como se quisesse fazê-la dormir, e sua expressão não era mais a de um assaltante. De uma maneira muito chocante para mim, ele parecia estar sofrendo, ao mesmo tempo que a Sunghee parecia ter capacidade para amenizar esse efeito. Tudo aquilo me pareceu surreal, porém não mais do que a fala que se seguiu, vinda da boca dele.
— Me desculpa… Me desculpa por ter matado seu pai.
Eu pisquei. Eu poderia ter entendido que ele me mataria em seguida, mas ele tinha perguntado se ela era filha do Jungkook, então aquilo só poderia significar uma coisa.
— Quê? Você… Você matou o Jungkook?
— B, na moralzinha… — murmurou o que apontava a arma para mim. — Me explica por que você tá se entregando?
— Você matou o Jungkook, é isso mesmo? — eu perguntei, tentando não transparecer muito a minha raiva. Não é muito saudável testar a paciência de pessoas armadas, é?
B olhou para Sunghee, ainda me ignorando, e colocou-a de volta, enquanto tentava me responder.
— Eu não fiz por querer — ele mantinha a voz firme.
— Foi um acidente? — perguntei. Nisso, chegou outro cara no quarto.
— Não. Eu fui obrigado.
— Por quem? — perguntei, com vontade de chorar. — Como alguém obriga uma pessoa a matar um garoto da idade do Jungkook?
— Será que dá pra adiantar? — perguntou o que tinha chegado. — Tem que colocar as coisas no carro, ainda.
— Não tem — disse B, virando-se para ele. — Vamos embora. Já levamos coisas demais dessa casa.
— Que bom que você sabe — eu disse, sem acreditar que poderia existir uma pessoa tão peculiar como o tal de B.
— Como assim vamos embora? — perguntou o da arma. — Você esqueceu que nossa grana tá acabando e temos que sumir da cidade?
— Desde quando você é tão insensível, X? — perguntou B. — Achei que um de nossos princípios fosse só fazer mal a quem merece.
— Então a gente deve tá merecendo, porque você não tá nem aí pra gente — respondeu X.
— Na real, acho que estamos merecendo, mas ainda podemos dar nosso jeito. Não acha, C?
— Sendo bem sincero… Eu também me sinto culpado pelo garoto. Mas a gente precisa tirar dinheiro de algum lugar.
— Como eu disse, de quem merece. Não é o caso aqui.
— Tá tramando alguma — notou X.
B olhou para mim, o que me foi ligeiramente incômodo.
— Qual foi sua última pergunta?
— Eu… Perguntei quem mandou você matar o Jungkook.
— A pessoa que vamos assaltar.
— Ih, pirou — murmurou C. — A casa dele é cheia de segurança. Ele tem muito dinheiro, conhece várias pessoas que podem acabar com a gente…
— Só pra lembrar, a gente fez o que fez porque ele ameaçou a gente — disse X.
— Excelente momento para dar o troco — disse B, com um sorriso, tirando o celular do bolso. Jogou-o para C. — Pode começar.
B colocou a máscara e pegou Sunghee de novo. C preparou o celular para a foto, mas de repente mudou.
— Vira um pouquinho pra lá pra pegar o nome dela.
— Ah, tá.
B virou para deixar o adesivo da parede da Sun de fundo. C tirou algumas fotos e virou a câmera para mim.
— Faz uma carinha de desespero aí.
— Mais do que já tô?
C tirou algumas fotos de X apontando a arma pra minha cabeça, enquanto B devolvia Sunghee para o berço.
— Enviando pro dito cujo — informou C, enquanto mexia no celular.
— Vocês ainda não disseram que fez isso — lembrei.
— Nem vamos dizer — informou B. — Faz parte da ética da nossa profissão não ser X9. Mas não se preocupa. Você vai descobrir, de qualquer jeito.
C jogou o celular de volta para B. Ele teclou um pouco e colocou o celular na orelha, tirando a máscara.
— Boa noite, parça. Te acordei? Não tô nem aí. Acho bom prestar bastante atenção em tudo que eu vou falar. Dá uma olhadinha na nossa conversa no KakaoTalk e você vai entender o porquê. — ele esperou alguns segundos. — É isso aí, tiozão. Tamo aqui na casa dos moleque. Tamo de olho nos dois moradores que restaram.
— São três — corrigiu X.
— De olho nos três moradores que restaram. Já que você nos fez acabar com Jungkook, estamos acostumados, e não teremos pena de lidar com o resto, porque estamos sem paciência. Mas se você quiser nos deixar mais calmos, basta transferir cem milhões para a minha conta. Você já sabe qual é. E você só tem uma hora. Em uma hora, nossa paciência acaba, e não tente dar uma de espertinho. Estou mandando mensagem para todos os meus contatos, então se algo der errado comigo, eles saberão que foi você. Eles vão te caçar, e vão caçar todos os seus. Você sabe bem que eu não brinco em serviço, não sabe? Então é isso. Sessenta minutos para eu decidir se puxo o gatilho. Estaremos esperando ansiosamente com nossas armas apontadas para eles. Até mais ver, traste.
B desligou o celular e começou a rir loucamente da própria sagacidade.
— E aí, como eu fui?
— Merece um Oscar — brincou C.
— Ótimo. Vamos esperar sessenta minutos. Enquanto isso, vamos sentar e jogar conversa fora.
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