Me chamam de Corvo (Bulletproof)
17 Os reinos se misturam
Notas iniciais
B sentou no chão e X me empurrou para o colchão estendido. Ele e C se sentaram, cada um de um lado.
— E a vida, como é que tá?
— No momento, em risco, né…
— Resposta errada. Sua vida não tá em risco. Ainda não entendeu que eu transformei tudo numa farsa? Nós vamos conseguir muito dinheiro, e eu vou te dar um pouco disso. O que vocês acham gente? Quanto eles merecem?
— Acho que dez tá de bom tamanho.
— Afe, larga de ser egoísta, X. Vamos faturar cem milhões, eu disse cem milhões de wons, às custas dessa galera, e você vai dar só dez?
— Eles não fizeram nada, a gente que tá tendo todo o investimento — protestou C.
— Mas eles têm um bebê. Ter um bebê é muito caro!
— Eles iam se virar sem a gente, dez milhões já é uma ajuda e tanto — argumentou X.
— Volto a dizer — disse B — que já tiramos demais deles. Tá, o dinheiro não vai trazer o Jungkook de volta, mas a gente ainda tá em dívida. E é o cara mesmo que vai pagar.
— Tu que sabe, mano, tu que é o líder mesmo… Tu que decide tudo, não importa o que a gente fale.
— Gente, fala sério, eu pedi mais pra sobrar pra eles. A dívida foi do cabrunco que ameaçou a gente, nada mais justo ele pagar. A gente não tinha colocado só cinquenta na meta?
— Não tô sabendo de meta nenhuma.
— Claro que não tá, você não ouve nada do que eu falo, X. Agora falando sério mesmo, a gente não tem que ficar discutindo na frente do falso refém. Já que vocês tão se doendo tanto, pode ser quarenta pra eles e sessenta pra nós?
— Fechou — disse X.
— Pera aí… A meta de vocês era conseguir cinquenta mil wons assaltando a minha casa? Vocês sabem que iam passar longe, né?
— A gente trabalha com metas altas — explicou C. — Assim trabalhamos mais para atingir isso.
— Nunca pensei que um dia a gente ia cumprir nossa meta — confessou X.
— Gente, e o outro cara? Não eram dois? — perguntou B.
— Eu apaguei ele — disse C.
— Você o quê? — perguntei eu, com a minha maior voz de indignação.
— Relaxa, mano, é só clorofórmio — disse C, na defensiva. — Não que ele não estivesse roncando sem a minha ajuda.
— Tadinho, também, né… Passamos o dia todo muito atarefados, cuidando da Sun, recebendo as visitas, tentando dar um jeito nessa casa… O Namjoon trabalhou pra caramba hoje.
— E qual é a de vocês? Vocês são amiguinhos, priminhos, ou o quê?
— No momento tá meio indefinido, mas no geral eu diria que é uma união estável.
B colocou a mão no coração, fingindo-se de chocado.
— Ok, eu não esperava por essa. Mas espero que sejam felizes. Principalmente com quarentinha na conta. Ah, céus, me passa sua conta, né…
— Você tem certeza que vai me ceder isso tudo?
— Ih, ele não quer, pega de volta — disse C, rapidamente.
— Não tem essa de querer — argumentou B. — É presente.
— Já tem ideia de como vai usar? — perguntou X.
— Tem que conversar com o Nam, mas no geral, pagar umas contas, comprar coisas pra Sun, reformar a casa, de preferência colocar algum equipamento de segurança, por exemplo… — eu mesmo não acreditava naquelas palavras. Parecia irreal ganhar quarenta mil sem sair de casa. Uma invasão que vira assalto que vira um falso sequestro. Mas pensando bem, coisas estranhas acontecendo na minha vida não eram nenhuma novidade.
— Tá, na próxima visita a gente bate na porta.
— Não sei que visita é essa se a gente não vai mais estar em Seoul.
— Verdade, esqueci — murmurou C.
O celular do B apitou e ele olhou.
— Ih, olha só… É rápido, ele. Fala sua conta, bro.
— Isso só pode significar uma coisa… — murmurei. — Se foi tão rápido assim, talvez ele ainda se importe comigo, de fato.
— Você já sabe quem é ele, Sherlock? — perguntou B.
— Só tem uma pessoa que pode ter desejado mal ao Jungkook. A mesma pessoa que desejou mal a todos os meninos.
— Devia tomar cuidado com ele.
— Estou tomando. Pode ter certeza disso, B.
— Sua conta.
— Quê? Ah, ta…
Passei minha conta para o sequestrador. Depois disso, eles foram se levantando e se preparando para ir embora.
— Temos que ir andando — informou X. — O caminho para Nenhum Lugar Específico é bastante longo.
— Eu concordo. Espero que tenham sucesso.
— Obrigado — disse B. — Me desculpa por tudo isso que aconteceu. Realmente espero que vocês três sejam muito felizes. E… Talvez nos vejamos novamente algum dia.
Depois de fechar a porta de novo, voltei para o quarto e me certifiquei de que a gravação da Yumi estava tocando novamente. Sunghee olhou para mim com aquela carinha de anjo, e eu passei o dedo no nariz dela.
— Você foi demais, bebê.
Esperei um pouquinho até ela adormecer, e voltei para a cama.
Namjoon demorou um bocado para acordar, como era de se esperar. Por isso, coloquei a Sunghee no sling e fui dar um jeito na casa. De vez em quando, ia lá tentar acordar a criatura, mas estava difícil. Priorizei a sala e o quarto da Sun na minha faxina, já que era o que as visitas iriam ver mais. Estava pensando se faltava alguém aparecer, quando, de fato, bateram na porta. Eu abri e encontrei Sehun um tanto preocupado.
— Que bom que você está bem. Mais ou menos, né, imagino que o seu psicológico não deva estar nada legal. Mas enfim, tive que transferir cem milhões da minha conta e não sei como vou fazer agora.
Pisquei algumas vezes.
— Como é que é?
— É isso aí — disse ele, entrando na casa, indignado. — Achei que você soubesse. Não estava com os sequestradores quando ligaram?
Eu estava boquiaberto. Se não estivesse com a Sunghee no sling eu teria dado um tapa na cara do Sehun ou coisa pior.
— Como é que você tem coragem de vir na minha casa e olhar na minha cara depois disso? Eu achei que você prestasse, mas pelo visto só pode ser mal do médico. Isso se você não tá trabalhando junto com aquele imbecil. Cai fora da minha casa agora!
— Calma aí, hyung, por que tá tão bravo?
— Você ainda pergunta? Você entrou na minha casa, dormiu na minha cama, como eu deixei isso acontecer? Quem pode me dar certeza de que você não matou a Yumi também?
— E se eu tiver feito, o que você vai fazer? Não pode mudar nada do que aconteceu.
Nunca pensei que fosse realmente chegar a esse ponto, mas dei um tapa no rosto de Sehun colocando toda a raiva que eu estava sentindo. Imediatamente depois disso, comecei a chorar.
— O que é isso? — me perguntei. — Eu não posso mais confiar em ninguém.
— Você deveria saber disso há muito tempo — disse ele, segurando o rosto. — Não se surpreenda se o Namjoon não acordar nunca mais.
— O que você fez? — perguntei, já no fim das minhas energias.
— Eu apenas segui ordens. Agradeço pela sua confiança, mas não sou digno dela. Somos médicos e monstros. É sempre assim. Eu deveria ter cuidado de você, mas nem sempre as coisas são como queremos. Não é o que dizem? Tive que tirar tudo de você para que não tirassem tudo de mim. Eu sinto muito, mas quem importa pra mim é prioridade… e quem importa pra você não. O Namjoon ainda deve estar vivo… por enquanto. Então aproveite para se despedir.
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