Depois que Otávio saiu eu avisei a Enzo sobre a situação de forma resumida e depois tentei me recompor da melhor maneira possível, mas eu estava destruída pois eu realmente entendia o ponto de vista de Otávio, eu realmente agi de forma errada e precipitada, mas agora não poderia mais voltar atrás apenas tinha que arcar com as consequências da minha loucura.

Eram exatamente 23:00hrs quando eu saí de uma cirurgia emergencial onde solicitaram a minha presença como a única neurocirurgiã plantonista no hospital eu estava tomando um copo de café na lanchonete quando meu celular tocou, era um número desconhecido então atendi prontamente.

—Doutora Shalton falando com quem falo por gentileza? — Falei e apenas ouvi uma forte respiração do outro lado da linha. — Alô? Em que posso ajudar? – Repeti exasperada.

Todas as minhas palavras são insignificantes e não devem ser ouvidas, pois minha alma é suja, podre e estilhaçada — Ouvi a voz de Otávio falar de forma rouca e abafada.

— Otávio...—Sussurro sentindo minha espinha gelar.

A minha vontade de morrer sobrepõe todos os meus anseios...


— Otávio onde você está? — Pergunto já me levantando e saindo da lanchonete. Otávio por favor!???— Peço desesperada por resposta além de palavras estranhas. —Eu estou para onde você está por favor me diz onde é?— Tento mais uma vez já dentro do meu carro.

O meu medo da solidão me afasta de tudo e todos pois uma

metade de mim é a lembrança do que fui e a outra metade eu não sei.

Então...que a nossa loucura seja perdoada porque metade de nós é loucura e a outra metade é amor. Me perdoe Otávio, tudo isso é minha culpa, você não deveria estar passando por isso agora! — Digo o final do poema chorando desesperada e colocando o telefone no viva voz.

—Eu não tenho que te perdoar Ester, você não fez nada, quem fez fui eu... eu matei o meu pai sabia? — Otavio balbucia e eu travo com as mãos no volante sem entender o que ele falava.

—O—o —o que? Como? Não.— Digo atordoada.

— O monstro nunca foi o Anthony Ester sempre fui eu, o assassino imundo e sanguinário sempre fui eu.— Ele diz e eu ouço o choro em sua voz.

—O que não Otavio... o seu pai...

—Ele morreu por minha causa. — Ele me interrompe.

—Otavio me escuta... eu tenho algo para te mostrar é muito importante o que eu descobri. — Falo desesperada tentando ganhar tempo.

—Eu não tenho mais tempo doutora Shalton.

—Certo só me diga onde você está? — Pergunto tentando manter meu carro sobre controle mesmo com meu corpo inteiro trêmulo.

—Eu não sei direito mais a vista é incrível, deve lavar todos os meus pecados. Adeus doutora e obrigado por ter tentado e por ter me amado mesmo em tão pouco tempo. — Ele sussurrou e eu entendi.

—Caio!!! É você, não é? Obrigada por ligar eu estou indo CAIO...o—o—olha eu fui na loja que você falou e peguei tudo, e—e—eu não abri ainda, você não vai me mostrar o que é?

—Você pegou? Você foi mesmo? — Pergunta e eu ouço surpresa em sua voz.

—Fui sim, por que não iria? — Pergunto tentando puxar assunto

—Eu não sei, ninguém só nunca se importou o suficiente comigo.

—Ei eu me importo. Onde você está garoto? — Pergunto afoita

—Eu estou no Navy Pier, te dou trinta minutos antes de ir.— Ele diz e desliga.

—DROGA OTÁVIO!!!— Grito esmurrando o volante e então acelero para o píer.

Cheguei em tempo recorde no lugar e rapidamente saí do carro pegando todas as coisas que peguei na loja, caminhei rapidamente em direção aos bancos e de longe conseguir ver uma silhueta masculina andando por cima do parapeito, ele brincava de se equilibrar, correndo fui em sua direção.

—Desci daí menino! — Digo irritada e ele se assusta.

—Você chegou?

—Cheguei vem me mostrar o que é tudo isso vem?!— Chamo me sentando ao banco e vejo o bonito homem vir em minha direção. Caio tinha o rosto abatido e com olheiras enormes, seus olhos estavam vermelhos e ele estava completamente pálido.— Você está bem?

—Na medida do possível.

—O que aconteceu? — Pergunto observando ele pegar o envelope e ficar encarando.

—Anthony e Otávio aconteceram. — Ele resmunga.

—O que eles aprontaram?

—Tudo, Anthony abriu o jogo e jogou toda a merda no ventilador.

—Sério? — Pergunto assustada

—Sério e dentro desse envelope aqui provavelmente tem todas as provas que nos incrimina.

—Como assim? — Pergunto sem entender.

—Sabe Ester eu sempre tive alguns flashes de memórias então cada vez que eu me lembrava desses momentos ruins eu ficava tentado a acabar com tudo, daí um dia eu vim até Chicago sem Otavio saber e contratei um detetive e aqui está o resultado disso eu só nunca tive coragem de ler, mas o detetive me garantiu que as notícias eram chocantemente boas e que talvez pudesse ajudar Otavio de alguma forma, mas agora as coisas estão realmente complicadas, Otavio matou duas pessoas sabia!? Um homem desconhecido e o próprio pai. – Caio falava sério

—Oi? Não. — Eu duvidei e então ele me contou tudo, todas as lembranças recuperadas, todos os momentos cruéis no internato tudo e eu chorei a cada palavra ouvida.

— E é isso, eu não preciso abrir esse envelope para confirmar o que está fresco em minha memória. — Ele diz se levantando. – Vem, vamos usar o que tem nessa mochila eu farei isso pela última vez e será uma honra estar acompanhado por você. Ele diz puxando meu braço e me levando dali.

—Você não vai mesmo ver o que tem no envelope? — Pergunto enquanto caminho rapidamente atrás dele.

— Não, eu já sei o que tem aqui. — Ele diz e joga o envelope em uma lata de lixo assim que passa por ela e eu rapidamente a pego sem ele perceber.

—Para onde vamos? —Pergunto curiosa.

—Para o subúrbio. — Ele diz olhando para o chão.

—Certo eu estou de carro...

—Vamos andando, quero ficar um pouco mais com você. — Ele falou de forma melancólica.

Andamos juntos por um bom tempo até que chegamos ao The 606 um parque ambiental que foi construído em uma antiga linha de trem, como estava tarde não tinha muitas pessoas por ali então Caio me puxou em direção a um grande muro e parou em frente a ele.

— Você já infringiu alguma lei? — Ele pergunta me encarando.

—Algumas.— Digo encarando.

—Ótimo. —Ele responde e abre a mochila pegando algumas latas de spray e jogou uma para mim. – Faça algo para você se lembrar. – Ele diz e coloca seus fones de ouvido e começa a desenhar eu fico um pouco parada observando sua desenvoltura, Caio começa a desenhar rostos distorcidos e sombrios emoldurados como se fossem um espelho, ele desenhou seis rostos e por último por cima de todos desenhou uma grande e assombrosa caveira e dentro dela escreveu a seguinte frase...

A morte é o melhor fim

Assustada com seus pensamentos e esperançosa de poder mudá—los pego meu spray e rabisco encima das suas palavras, morte, e o fim e escrevo em vermelho vivo em baixo de sua frase...

O Melhor é um novo começo

—Você acha mesmo? — Ele pergunta encarando a minha frase.

—Com certeza. — Digo firme o encarando.

—Mesmo para um assassino? — Ele pergunta rouco.

—Você não é um assassino. Seu pai está vivo. – Falo para tentar obter dele alguma reação.

—Como isso seria possível Ester? Eu vi com meus olhos ele caindo nas chamas. — Ele diz rouco

—Certo eu entendo que você viu isso, mas alguém tirou o seu pai de lá e o aprisionou em um cativeiro por todo esse tempo, o seu pai agora está seguro Carlos e Enzo o levaram para um lugar melhor e com tratamento médico adequado.

—Quem fez?

—O que?

—Quem o prendeu? — Ele pergunta de forma dura e eu não consigo responder. — QUEM PRENDEU O MEU PAI ESTER? — Ele grita me assustando e jogando as latas no chão.

—Calma Caio.— Falo assustada.

—QUEM FOI?— Ele vocifera em minha direção.

—OS DANIELS. – Eu grito assustada ao sentir suas mãos frias em meus braços.

—Vá para casa doutora. —Ele diz mais baixo me soltando e começando a andar para longe de mim.

—Onde você vai? — Pergunto o seguindo.

—Vem vou te deixar em um taxi. —Ele diz me puxando.

—Eu estou com o carro lá no píer.

—Me dê as chaves. — Ele pede

—Caio...— Eu hesito.

—ME DÊA PORRA DA CHAVE Ester!— Ele grita descontrolado e eu lhe entrego minha chave. Já na avenida ele para um taxi e me coloca dentro sem dizer uma palavra sequer e some por entre as pessoas que ali passavam.

Rapidamente peguei meu celular e liguei para Enzo.

—Enzo...eu, eu, fiz merda...— Falo desesperada e de forma embolada.

—Ester calma o que foi?— Ouço a voz urgente do outro lado

—Otavio me ligou declamando um poema sobre morte aí eu vim atrás dele e encontrei o Caio disposto a acabar com tudo de vez, então eu falei sobre o Anthony estar vivo e agora Otavio pegou o meu carro e sumiu.— Falo apressada enquanto as lágrimas descem por meu rosto.

—Droga. Calma Ester uma hora ou outra ele teria que saber...eu vou tentar localizar ele.— Enzo tenta me acalmar.

—Certo eu... eu vou...

—Você vai para sua casa pois ele pode aparecer por lá.— Enzo diz rápido.

—Certo. — Dei meu endereço para o motorista e segui até em casa rezando para tudo dar certo para Otavio, as horas se arrastaram e foi exatamente às cinco da manhã que meu telefone tocou com a notícia que fez minha alma gelar.

Josh Daniels Vasques estava morto.

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