Deixei Otávio no quarto e segui para o quarto de Julia ainda no corredor percebi que a porta estava aberta então parei um pouco para tentar ouvi alguma coisa mais as duas mulheres lá dentro pareciam estar em silêncio, resolvi me fazer presente e dei dois toques na porta assustando Aline que estava perto.

—E aí Aline como vão as coisas por aqui? —Pergunto do ao lado de Alice.

—Estão paradas ela não fala, não quer tomar o remédio e só fica aí paradona.— Aline respondeu cruzando os braços.

—Sei, você pode ir tomar um suco e aproveita e chame a Nina com você, eu vou conversar um pouco com essa bela mulher agora. —Falo vendo Julia me olhar com uma sobrancelha arqueada. Espero Aline sair e me aproximo da cama.

—Você não vai me ganhar com elogios Ester.— Ela resmunga me encarando.

—E nem você irá me ganhar com beicinho e muito menos se fazendo de doida afinal essa é a minha especialidade. Eu quero que você confie em mim como amiga antes de tudo.

—Como eu vou confiar em alguém que quer pegar o meu homem? — Ela pergunta séria.

—Eu não quero pegar seu homem coisa nenhuma, eu estou apenas ajudando Otávio a superar o TDI e quando tudo isso acabar nem aqui mais eu vou ficar. — Digo séria também.

—O que você quer dizer com isso? – Pergunta me olhando com interesse.

—Quero dizer que logo estarei indo embora.

—Assim espero então. O que é que você quer conversar comigo? — Pergunta ainda sentada na cama abraçada a um travesseiro.

—Eu quero que você me conte primeiro como foi que você conheceu Aleff Varques? — Pergunto de pé olhando os quadros nas paredes do quarto.

—Conheci Aleff em NY ele foi um colega do estúdio onde comecei a modelar. — Ela responde suspirando.

—Sei e foi ele que te induziu a usar drogas? — Pergunto me virando para olhar em seus olhos.

—Não, antes dele eu já tinha usado, olha Ester a minha história é bem complicada e eu não quero falar disso ok?!— Ela diz se ajeitando na cama e desviando o olhar, eu me aproximo e sento na mesma.

—Por que? Falar é bom pode te ajudar. — Tento de novo.

—Sem papo de psicólogo pra cima de mim Shalton! — Ela reclama me encarando.

—Ok você venceu e pelas sua defensiva eu já até imagino qual tipo de família você foi parar e eu sei também que foi por causa deles que você acabou indo por esse caminho torto.—Falo e suspiro.—Eu tive muita sorte sabe!?Não quero me gabar, longe disso, mas eu e meu irmão na realidade tivemos a mesma sorte, eu sou adotada e meu irmão também meus pais morreram em um acidente de carro e eu fui a única sobrevivente eu não me lembro muito bem do dia do acidente mais os meus pais estavam tão felizes com algo que também não lembro mais infelizmente e toda essa alegria foi interrompida por um caminhão desgovernado, algumas pessoas disseram que viram o acidente e que meu pai salvou a minha vida, me disseram que ele mesmo ferido saiu do carro me pegou do banco traseiro e me colocou a beira da estrada e então ele voltou ao carro para salvar a minha mãe mas o carro explodiu antes dele conseguir sair com ela. Eu não vi nada disso a única coisa que eu cresci sabendo foi que meu pai deu sua vida por mim e minha mãe, ele poderia apenas ter corrido pra buscar ajuda, mas não ele fez o que estava ao alcance dele e me salvou. Então eu coloquei em minha mente que eu tinha como obrigação honrar a segunda chance que meu pai me deu e eu sempre procurei uma forma de fazer isso, sempre ajudei os outros, me meti em muitas roubadas para salvar amigos lá no internato e então um dia um casal apareceu e me adotou, não vou dizer que foi fácil me adaptar pois não foi eu tinha terror noturno então sempre tinha pesadelos terríveis e me sentia muito sozinha também afinal no internato eu dividia o quarto com três meninas e nós sempre estávamos juntas, meus pais me vendo sofrer por estar só decidiram adotar outra criança eu pedi um irmão pois não queria outra menina no meu quarto lilás sabe. —Dou risada lembrando do meu drama com relação ao meu quarto e aproveito para tomar coragem e para entrar no assunto dos Hilton. — Então o dia do tal irmãozinho vir pra casa chegou e eu vi um pequeno menino loirinho de olhos verdes o segundo par de olhos mais tristes que eu já tinha visto em minha vida, ele era magrinho e tinha o cabelo loiro caindo por seu rosto. Eu não entendia nada sobre aquele garoto, ele não bebia água, não tomava banho e passava a noite tomando soro na veia para ficar hidratado sabe?!minha mãe dava banho nele com um paninho úmido e nunca, nunca mesmo eu o via com um copo de água ou suco nas mãos. Foi muito difícil para adaptá—lo a nossa família, e eu achava que tinha pesadelos terríveis mais depois eu descobri que os dele eram bem piores então eu passei a velar o sono dele, dormi muitas noites no chão do quarto dele apenas para acordá—lo caso ele tivesse um pesadelo e com isso conquistei a amizade e confiança dele, depois disso estávamos sempre conversando ele me contava segredos e histórias de sua infância e de sua verdadeira irmã. Ele me contou que a família dele morreu na explosão de um barco e por isso ele ficou com trauma de água eu fiquei chocada e respeitei seu medo e obviamente meus pais também, logo ele começou a ir para terapia e foi evoluindo aos poucos até passou a beber água, mas banho ainda era um problema, então um belo dia de sol fomos a uma festa na piscina, meu irmão nem perto da água chegava mais eu??? Nossa eu era muito espoleta só que eu não sabia nadar e mesmo assim pulei na piscina...sabe o irmão com medo de água??? Ele salvou a minha vida mesmo com medo ele me salvou e disse que não queria perder a outra irmãzinha dele dentro da água. Moral da história? Eu decidi pelo meu pai e pelo meu irmão seguir em uma carreira que me permitisse salvar vidas, decidi me tornar uma médica.

—Bonita história, você teve a sorte que eu não tive. — Ela diz fungando.

—É eu realmente tive sorte e você também sabe por que? Por quê nossas histórias se entrelaçaram a anos atrás e agora de novo, o meu pai me salvou me permitindo ter uma família nova onde eu encontrei o meu irmão adotivo que me salvou da morte pela segunda vez me fazendo sonhar em ser médica, eu me tornei médica, e por ser médica conheci Otávio, você é noiva de Otávio e veio atrás dele... se acidentou e eu salvei a sua vida e devolvi a chance do meu irmão adotivo encontrar a irmãzinha perdida dele. —Falo e vejo o sangue sumir completamente do seu rosto.

—O — o — o que você está querendo dizer? – Pergunta sussurrando

—O que você ouviu. —Falo firme analisando sua reação.

—Não, eu fui jogada fora meus pais não me queriam mais por isso eu fui jogada no mar.— Ela diz se levantando e andando de um lado pro outro.

—Julia! Fica calma, você apenas não se lembra do que realmente aconteceu o seu pai salvou a vida de vocês assim como o meu pai salvou a minha vida! —Eu falo levantado e indo em sua direção.

—NÃO, ELES, ELES ME ODIAVAM E, ME JOGARAM FORA! POR QUE EU SOU UMA PESSOA RUIM EU...—Ela começou a gritar se debatendo.

—ALINE!!CORRI AQUI!!!!—Grito por Aline tentando parar Julia mais sem ter muito sucesso.

—ME LARGA EU NÂO MEREÇO ISSO...EU...EU...— Ela dizia confusa.

—O que é que está acontecendo aqui Ester? —Aline pergunta afobada chegando na porta do quarto.

—Aconteceu que contei a verdade para ela e ela pirou, consegue os calmantes agora. —Falo rapidamente enquanto seguro os braços de Julia para evitar que ela se machuque.

—MENINA O QUE É QUE ESSA VADIA LOUCA TEM? — Otávio chegou a porta do quarto gritando.

—Shiii!!!Agora não Nina, fica quietinha sim! — Peço sem paciência.

—Mas Ester...—Tenta de novo se aproximando.

—Nina pega meu celular aqui no meu bolso tem um vídeo para você ver! —Falo enquanto continuo segurando uma Julia chorosa.

—Tá bom então qualquer coisa grita. — Ela diz quando vê o conteúdo do vídeo e saí saltitando pelo quarto me fazendo respirar um pouco aliviada.

—Julia olha para mim. — Peço a puxando para sentar na cama. — Você passou por uma situação traumatizante quando era muito nova por isso sua mente bloqueou o que realmente aconteceu você não foi jogada fora eles te amavam muito por isso eles deram uma segunda chance a vocês. Eles se sacrificaram assim como os meus.

—Mas eu... acordei na praia sozinha e depois tive que comer lixo e me prostituir...que amor é esse Esther? — Ela pergunta chorando

—Julia...eu realmente nem consigo imaginar por tudo que você passou até aqui e eu só posso dizer que você é uma guerreira e eu tenho certeza que tudo que você fez foi para se manter viva. Os seus pais devem ter orgulho da mulher forte que você se tornou e o seu irmão está louco de vontade de conviver com você de novo.

—Mais eu sou tão ruim, tão suja...— Ela diz ainda chorando

—Ester, aqui o remédio. —Aline diz parando ao nosso lado.

—EU NÃO QUERO REMÉDIO!EU NÃO QUERO SABER DE NADA SOBRE ESSA HISTÓRIA!É TUDO MENTIRA EU FUI JOGADA FORA, VOCÊS ESTÃO MENTINDO PRA MIM.VOCÊ ESTÁ ME ENGANANDO POR QUER FICAR COM O OTÁVIO PRA VOCÊ, VOCÊ SABE QUE SE EU TIVER ALGUÉM MAIS ELE VAI ME DEIXAR!—Ela grita enfurecida e me empurra pro chão.

—NÃO! Julia!!!— Aline entra na frente dela.

—Aline cuidado ela está em um surto, calma! Eu falo me levantando do chão e puxando Aline para longe de uma Julia completamente descontrolada que pegava às colchas da cama jogando no chão.

—O que está acontecendo aqui? – Nina voltou ao quarto.

—Ela surtou. —Respondo a Otávio que entrou novamente no quarto.

—Por que? —Perguntou sussurrando.

—Por que eu contei a verdade sobre a família dela.

—Ota! AMOR PROMETE PRA MIM QUE VOCÊ NÃO VAI ME DEIXAR?!!!—Julia diz se atirando para cima de Otávio.

—ME SOLTA GAROTA!!!— Nina grita irritada.

—NÃO OTÁVIO NÃO ME DEIXA!!!SE VOCÊ ME DEIXAR EU ME MATO!!!—Ela ameaça indo em direção a sacada.

—NÃO!!!—Eu, Aline Otávio e Rosa que tinha chegado gritamos.

—Julia vamos conversar! Por favor entra! — Tento de novo. — Aline liga pra Mike e manda ele preparar uma dose de Lorazepam.

—Certo. — Ela concorda pegando o celular e já discando.

—Julia vamos conversar vem aqui! — Nina chama se aproximando.

—Você me ama? — Julia pergunta passando uma perna por cima da grade de segurança.

—Amo Julia. — Nina diz

—Vai ficar comigo pra sempre? — Julia estica a mão pra ele.

—Vou, vou. — Otávio respondeu automaticamente.

—Vai casar comigo amanhã?

—Ah não! Aí já é demais vadia, anda desce daí!!! —Nina/ Otávio respondeu irritado

—Então vou me jogar! – Julia disse apaticamente passando a outra perna por cima da grade.

E então ela pulou deixando todo mundo em choque.

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