— Não, mais que tal servimos para eles um coquetel molotov? — Pergunto com um sorriso de satisfação nos lábios...


— Sério que você vai fazer isso? É perigoso! — Caio perguntou preocupado.

—Agora você está com medo de morrer?! – Pergunto ironicamente encaixando o pedaço da minha roupa no gargalo da garrafa que continha um pouco de bebida. — Vamos combinar uma coisa Caio quando saímos daqui continuaremos nossa conversa e eu te mostrarei como é viver bem te mostrarei como é ter amigos e depois você dirá o que achou. Que tal?

— A ideia é boa, mas não sabemos se eu terei tempo. — Falou segurando a garrafa que eu lhe estendia.

— Não se preocupe com o tempo afinal todos os instantes bem vividos são importantes. Agora, você quer sair daqui com emoção ou sem emoção? — Pergunto depois de preparar outro coquetel.

—O que você quer dizer? — Pergunta me seguindo enquanto eu caminho em direção a porta e encosto meu ouvido na madeira para tentar escutar alguma coisa, porém não ouço nada.

—Quero dizer que com emoção será se esperarmos os homens que nos sequestraram chegarem e sem obviamente será agora afinal parece que eles não estão por perto. — Falo já perto da janela.

— Eu acho melhor irmos agora então. — Ele falou enquanto me estendia a garrafa que eu tinha dado a ele antes, depois ele pegou minha jaqueta que estava no chão e enrolou em seu braço na altura do cotovelo e foi até as janelas olhando uma por uma.

—O que você está olhando? — Pergunto

—Estou tentando ver qual lado será melhor para corrermos afinal não vai adiantar nada se corremos na direção que eles possam estar vindo. — Falou todo sabido.

—Ok você está certo. — Concordei com ele. Caio escolheu a janela que dava para o lado da mata ele preparou—se é logo quebrou o vidro da janela tomando o cuidado de retirar todos os pedaços sobressalentes, com rapidez e agilidade pulamos a janela e olhamos ao redor não encontrando nem um sinal dos sequestradores. – E agora? – Pergunto olhando tudo atentamente.

—Agora iremos correr e tentaremos encontrar alguma estrada para que possamos pedir ajuda e claro o drink que você preparou tem que ficar muito bem servido. — Falou piscando o que me fez rir um pouco.

Corremos alguns metros de distância da cabana e então paramos para jogarmos o coquetel.

— Jogue só um Caio. – Falo parando ao seu lado.

— Mais e o outro? — Pergunta curioso.

— É a nossa única arma caso eles apareçam.

— Certo. — Caio concordou enquanto se preparava para jogar a garrafa. Meticulosamente como um jogador de beisebol Caio lançou a garrafa para dentro da cabana justamente pela janela que tínhamos acabado de sair, logo ouvimos o estrondo e vimos o fogo começar acenamos um ao outro e começamos a correr para longe dali. Não sei exatamente quanto tempo corremos, mas eu começava a sentir minhas pernas falharem eu era uma médica afinal e não uma maratonista. Não aguentando mais pedi a Caio que parássemos um pouco. Eu estava ofegante e muito, muito cansada, nós já havíamos corrido por muito tempo então estávamos longe da cabana aproveitando esse fato sentei—me encostada em uma árvore e Caio sentou ao meu lado.

—Nossa eu estou morta de cansaço! — Reclamo massageando meu pescoço.

—Certo, eu também estou morto, o que faremos agora?— Perguntou ofegante jogando—se ao meu lado.

— Agora vamos descansar um pouco e depois continuamos.— Falo massageando minha panturrilha.

—Se ao menos tivéssemos um

celular...— Caio falou deitando—se na terra.

— Caramba eu tinha esquecido completamente disso...— Falo num rompante tocando no aparelho de Aline no bolso da calça.

— Não brinca!?Você tem um celular aí?— Pergunta irritado e sorrindo um pouco sem graça tiro o celular de Aline do meu bolso. Porém a sorte não estava do nosso lado pois estávamos sem sinal.

—O que? Que cara é essa? Não diga que está descarregado? —Ele perguntou freneticamente.

— Descarregado não está, mas não tem sinal. — Falo e então ele ri

— Mas isso é ótimo. Agora só temos que andar até encontrar sinal.

— Sei, e do que adianta ter sinal e falar com alguém se não sabemos onde estamos?

— O Gps do celular não funciona?

— Não sei, mas não custa tentar. E além do mais teremos que andar de qualquer forma. — Falo mexendo no aparelho em busca do gps. Eu acho que Aline nem tem esse aplicativo, mas eu realmente não queria ser tão pessimista.

Passamos alguns minutos em silêncio e depois de revirar as funções do celular de Aline acabei desistindo e ao levantar meu olhar para o Caio o vejo com um pedaço de madeira desenhando na terra me aproximo e vejo o esboço do meu rosto, não era um desenho tão perfeito pois era feito na terra porém a delicadeza do traço estava presente, Caio desenhou o perfil do meu rosto de forma clara e linda deixando evidente o seu dom.

— Nossa você desenha muito bem Caio! — Falo encantada

— Valeu! Na realidade eu gosto mesmo é de grafitar mais já tem muito tempo que não faço isso. Ele falou dando alguns retoques no desenho.

— Você aprendeu a grafitar com quem? — Pergunto ainda de pé perto dele.

— Sabe que eu não sei exatamente. A primeira vez que apareci eu estava tão triste que tudo que eu conseguia fazer era desenhar.

— E o que você desenhava?

— Rostos, feições alegres, tristes com ódio ,medo faces com expressões que aliviavam o meu tormento aí depois disso o papel passou a ser pouco para mim eu queria desenhar coisas grandes que alguém pudesse ver sabe?!

— Entendo você queria ser visto.

— Exatamente isso.

— A primeira vez que você apareceu você consegue lembrar onde foi?— Pergunto aproveitando a deixa que ele estava me dando.

— Eu não tenho certeza mais acho que tinham crianças era algo como uma escola?!— E fala com dúvida enquanto colocava—se de pé ao meu lado.

— Não seria um internato seria!?— Pergunto e ao mesmo tempo me arrependo ao vê—lo empalidecer em minha frente.

—Ei, ei Caio! Você está bem? — Pergunto segurando ao notar seu desequilíbrio repentino.

— Aí a... minha cabeça doeu agora.

— Você quer sentar um pouco? Venha sente aqui. — Falo o apoiando e o levando até a sombra. Nós estávamos em uma mata, mas ela não era fechada e selvagem pois por todo caminho que percorremos encontramos vestígios humanos ao que parecia era um lugar onde pessoas acampavam e se as pessoas passavam por ali obviamente deveria existir alguma trilha e por fim uma estrada e era isso que tínhamos que encontrar o mais rápido possível. Observo Caio mais uma vez e o vejo passando as mãos repetidas vezes em seu rosto.

—Você está melhor?— Pergunto abaixando a sua frente.

— Estou, a dor passou porém o barulho está insuportável.

— Barulho?— Pergunto sem entender e logo ele aponta para sua cabeça e então lembro que o Marcos comentou a mesma coisa comigo no hospital, ou seja as personas provavelmente estavam discutindo e com certeza alguém estava tentando sair só que agora para mim não era vantagem nenhuma ter que lidar com outra persona no meio dessa fuga.

—Ei Caio, olhe para mim, como que eu posso te ajudar? Me diga caio do que você gosta?

—Eu? Eu gosto de grafitar, ler, ouvir música e andar de skate. — Ele responde melancolicamente.

—Certo, que tipo de música você curte?

— Rock e música clássica.

— Nossa que mistura.

— É que gosto de ouvir clássicos quando estou grafitando e rock quando ando de skate. — Falou ainda sentado e me encarando.

—Que legal Caio. Você disse que conheceu a Jully, você lembra quando e como foi isso? — Pergunto seguindo uma lógica que eu tinha pensado enquanto corríamos nada tirava da minha cabeça que Caio apareceu justamente depois de Otávio e os outros terem visto a Julia e indo pelos fatos contados por Enzo, Otávio estava em tratamento do TDI quando ela apareceu o que me leva a crer que ela provavelmente conviveu com alguma persona de Otávio sem saber.

—Eu... Estava acho que era numa casa de repouso a algum tempo e logo depois ela também chegou nos odiamos de primeira, pois eu a achava louca, porém com o tempo nos tornamos ...amigos acho, ficamos próximos e logo depois eu não tive mais tempo e não sei o que aconteceu. —Falou ainda mais triste que antes.

—Ok eu entendi, e então você está melhor? — Pergunto me levantando.

—Estou sim. — Falou esticando suas pernas.

— E o barulho? Parou? — Pergunto fazendo o gesto universal do “louco” perto da minha orelha.

— Ei eu não sou louco, e sim o barulho parou um pouco. — Falou se colocando em pé.

—Nossa que bom então...Já pensou o que poderia me acontecer estando com um louco na floresta?!— Falo fazendo graça. — Vem vamos voltar a caminhar pois estou morrendo de fome. – Digo e pego em sua mão para puxá—lo, porém ele não sai do lugar. – O que foi?

— Não foi nada, eu... só... Obrigado Ester! — Ele diz um pouco vermelho e abaixa sua cabeça.

— Por???

—Ah... É que ninguém nunca quis que eu ficasse e eu entendi o que você fez. Então obrigado por se importar. – Ele falou ainda de cabeça baixa.

—Que é isso, precisa agradecer não afinal de contas você é o único aqui que sabe grafitar e eu quero aprender. – Falo, dou um tapinha em seu ombro e aproveito da sua surpresa para sair saltitando em sua frente.

—Ei me espera! — Ele falou correndo atrás de mim.

Caio logo me alcançou e seguimos por um longo tempo em silêncio. E enquanto isso minha cabeça fervilhava de informações, eu estava louca para sentar com meus papéis e começar a traçar os caminhos percorridos por Otávio e suas personas de algumas coisas eu já tinha a certeza, a primeira era que a morte do avô dele o grande magnata tinha desestruturado toda a família e a perda da mãe de Otávio foi um baque para ele afinal de contas ele era apenas uma criança que logo em seguida perdeu o pai. Seguindo por essa linha tudo me leva a crer que algo muito sério aconteceu na família pois Anthony não iria sequestrar o tio apenas por diversão. Aí vem o internato onde o conheci, depois a clínica e pôr fim a Jully ou Julia sei lá...Algo me dizia que eu estava no caminho certo e eu torcia para que eu tivesse êxito nesse caso, não por fama mais sim para que Otávio venha ter um pouco de paz.

—Ester!?— Fui tirada dos meus pensamentos pela voz de Caio.

— Oi?!— Falo olhando para ele.

— Como é que os outros te chamam?— Perguntou enquanto passava o coquetel de uma mão para outra.

— Os...outros?— Pergunto sem entender sua curiosidade.

— É.— Respondeu simplesmente ainda olhando a garrafa.

— Ah! Bem, meus pais e amigos íntimos me chamam de Ester, os colegas de trabalho de Drª. Shalton meus pacientes também, meu irmão me chama de tee...

— E Otávio?— Perguntou me interrompendo.

— Bom Otávio ainda não me conhece direito só estive com ele duas vezes. Ele me chama de Mary.

— E a Nina e os outros?

— Nina me chama de vadia na maior parte do tempo. — Falo rindo um pouco ao me lembrar de seu temperamento efusivo. —O Marcos me chama de doctora você sabe com todo aquele jeitão latino dele. E Anthony me chama de Ester e o Sam eu não conheci ainda...Por que?

— Por nada...

— Por nada mesmo? — Insisto o vendo suspirar e balançar sua cabeça.

— O que nós somos? Amigos ou médica e paciente?

— O que você quer ser? — Pergunto sorrindo por três motivos. Um era que o celular estava com sinal, dois é que eu tinha acabado de avistar uma pista a nossa frente e o terceiro motivo era que esse tipo de conversa parecia ser algo só nosso. Viro—me para ele e vejo um pequeno sorrisinho em seu rosto o que me fazia crer que ele pensava como eu.

— Eu posso escolher o que quero ser?

— E por que não poderia? — Falo enquanto lhe mostro celular.

— Sério? Tem sinal? —Pergunta chegando mais perto e o pegando de minhas mãos.

—Sim tem sinal. Vamos embora?

— Com certeza. Vem, vamos até a estrada para ver se encontramos alguma placa. — Ele falou me puxando em direção a pista. Já no asfalto quente o sol estava nos matando lentamente andamos por bons minutos e nada de encontrarmos uma bendita placa, Caio tinha dado a ideia de andarmos para o lado contrário de onde tínhamos vindo mas ele já tinha se arrependido umas dez vezes dizendo que do jeito que ela era azarado provavelmente a placa está na direção oposta e bom, pelo tanto que já tínhamos andado eu concordava com ele plenamente.

— Você já escolheu?— Pergunto virando em sua direção erámos dois andarilhos ensopados de suor, mortos de sede e fome e tínhamos nossas roupas de frio estendidas sobre nossas cabeças como se fossem guarda—sóis.

— Você está curiosa?— Ele perguntou ofegante assim como eu.

— Não posso?

—Talvez?

—Você não vai falar?

— Eu... agora...estou vendo uma placa ou aquilo é uma ilusão?— Ele balbucia parando um pouco sua caminhada.

— Placa? onde?— Pergunto soltando minha jaqueta e procurando desesperadamente a placa que ele falava.

—Alí! Vem, anda, vamos, corre, é uma placa! — Ele falou correu até a bendita placa e se jogou no chão ajoelhado na frente da mesma. Rindo corro ao seu encontro.

— Você vai rezar agora? — Brinco ao chegar ao seu lado.

— Hahaha...engraçadinha, liga logo para alguém. — Falou mandão

— Mandão igual alguém que conheço

— Credo, não me compare, eu não sou igual a eles...— Falou sério de repente.

—Ok. Não está mais aqui quem falou. – Falo estendendo minhas mãos em sinal de rendição. Pego o celular de Aline e feliz da vida por ter sinal e a carga da bateria estar boa disco o número de Enzo. Chamou três vezes e logo em seguida a voz preocupada de Enzo pôde ser ouvida.

—Alô Ester?!— Falou apressado. — Graças a Deus! Está tudo bem? Vocês estão bem? Desde ontem estamos loucos atrás de vocês, onde estão?

—O—Oi Enzo !?Estamos bem, você disse desde ontem?!

—Sim.

—Caramba. — Solto sem acreditar que passamos o restante do dia de ontem apagados. Cara que perigo.

—Onde vocês estão? — Ele pergunta e eu olho a nossa localização na placa.

— Estamos na Bluff Rd abaixo da I355 na entrada do parque florestal.

— Nossa...Ok o carro está indo buscar vocês agora. O que foi mesmo que aconteceu ontem?

—Depois que saímos da empresa fomos seguidos encurralados e sequestrados por homens encapuzados que estavam em uma van preta. — Falei tudo em um só fôlego enquanto me sentava ao lado de Caio que estava encostado na placa.

—Certo... Vocês viram o rosto de alguém?

—Não, você viu algum dos caras Caio? — Ele nega minha indagação balançando a cabeça.

—Ok nós estaremos aí em quinze minutos a partir de agora. — Ele falou e pelo som ao fundo ele estava acompanhado no carro por alguém que não tinha medo de velocidade.

—Certo não sairemos daqui até mais. — Digo e desligo. Olho para o lado e Caio está me observando. —O que foi?

—Nós já iremos voltar, não é?!— Aceno que sim e ele continua. —Bom. Mas talvez agora que voltaremos talvez eu perca o meu tempo. — Falou cabisbaixo pegando o celular de minha mão e mexendo no mesmo suspirou.

—Você quer mais tempo, não é? — Pergunto entendendo sua frustração.

—Sim. — Afirma seguro.

—Me diz o que você quer fazer da próxima vez que aparecer?

—Eu tenho um objetivo agora e se o meu tempo acabar hoje e não der tempo de cumprir esse meu objetivo eu quero que você vá a esse lugar e compre essas coisas, guarde e espere que eu apareça. — Falou escrevendo algo no bloco de notas do celular de Aline.

— O que é?

— Não leia agora, é só se eu for embora antes da hora. Aline tem seu número aqui, não é?! Isso, aqui achei, pronto já enviei a mensagem para o seu celular e apaguei a que escrevi aqui. — Falou sorrindo um pouquinho.

— Ah! Isso não é justo meu celular nem está comigo. – Falo contrariada por ter que ficar curiosa.

— Ótimo. Diga sua profissão?

—Por que isso agora?

—Querer te conhecer é pecado?

—Você já sabe muito sobre mim até meus apelidos...Eu sou psiquiatra, também sou neurocirurgiã mais não atuo muito nessa área não, inclusive a última cirurgia que fiz foi a da Jully...— Digo rendida por seu olhar de cachorrinho que caiu da mudança.

—Não a chame de Jully ela não é a Jully. — Ele disse rapidamente me interrompendo.

— Como assim? — Pergunto sem entender sua lógica.

— Só acredite. — Ele diz sério. — Tem dois carros vindo olha só! E estão em alta velocidade. — Falou se levantando e apontando a nossa frente. Eu me levantei também, porém não tive tempo de pensar em nada apenas agi quando vi o vidro traseiro do carro preto se abrir e uma arma ser apontada para Caio. Eu apenas me lancei em sua direção e em seguida senti a dor me atingir. Ao cair no chão ouvi o grito indignado de Caio e o som de uma explosão depois tudo ficou escuro.


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