Definitivamente as coisas comigo sempre aconteciam em um time perfeito para não se dizer o contrário. A figura em minha frente que ainda me encarava com uma sobrancelha arqueada não podia ter escolhido melhor hora para aparecer? Caramba eu ainda nem o conheço, droga espero que ele não fale nenhuma besteira com a polícia. Ele continuava parado e eu estava completamente congelada enquanto tentava me lembrar tudo sobre ele.

— Você é muda?— Ele perguntou com a voz baixa, e uma expressão apática totalmente livre de qualquer emoção, seu rosto parecia feito de cera.

— Não, eu não sou muda e eu me chamo Ester Shalton e você?— Pergunto enquanto o vejo andar pelo escritório olhando tudo.

— Eu me chamo Caio, onde estamos? — Pergunta enquanto observa um quadro.

—Estamos na empresa da sua família quer dizer da família de Otávio.— Falo vendo ele se sentar na cadeira atrás da mesa e começar a girar de um lado a outro.

—E o que você está fazendo aqui?

—Eu vim com o Marcos eu sou amiga dele do Otávio, Anthony e Nina.— Falei conseguindo sua atenção.

— Sei, queria entender como alguém pode ser amigo da minha irmã!?Ela é insuportável alias todos eles são.— Ele falou suspirando. Caio falava de forma contida, sem emoção alguma na voz, ele parecia um robô. — Você sabia que é falta de educação ficar encarando e lendo os outros? — Ele falou virando a cadeira e ficando de costas para mim. E então eu percebi que ele também é muito esperto.

— Desculpa é um costume que eu tenho e quanto a Nina e os outros eles tem os seus momentos, mas eu os acho bem legais.— Falo me aproximando da mesa e olhando a grande janela que ele também observava.

— Você ainda não me respondeu o que estamos fazendo aqui.— Falou ainda de costas.

— Bem... é que o Anthony sequestrou o tio de vocês e alguém tem que prestar um depoimento e...

— Eu não sei nada sobre isso.— Ele falou me cortando enquanto girava na cadeira.

— Eu sei, apenas tome cuidado com o que você irá falar para não prejudicar o Otávio e...

— Eu já disse que não sei nada sobre isso.— Falou sério girando a cadeira mais uma vez.— Quando iremos embora?

— Assim que tivermos falado com o detetive.— Falo sentando em uma das cadeiras na frente da mesa.— Conte um pouco sobre você Caio.— Peço ao começar a ficar tonta de tanto vê—lo gira na cadeira.

— O que interessa a você coisas sobre mim? Não é por que você conhece os outros que significa que eu quero te conhecer. — Falou ainda girando.

— E por que você não quer me conhecer? — Pergunto

— Não gosto de pessoas.

— Oi? Como assim? — Perguntei de novo, ele suspirou e parou de girar me encarando.

— Pessoas são seres desprezíveis, descartáveis, falsas, interesseiras, mentirosas e iludidas. Não gosto de gastar meu tempo e muito menos minhas palavras para dialogar com pessoas que mal conseguem acompanhar meu raciocínio muito menos gosto de perder tempo tentando entender seres irracionais. — Discursou prepotente.

— Entendo, e quando tudo isso começou? O que aconteceu para você passar a repelir pessoas? — Pergunto tentando não me sentir atingida com sua indiferença nada discreta. Antes de responder ele suspirou, revirou os olhos e passou a mão direita no cabelo o alisando.

— Você acha que cairei nesse seu jogo médico? Conversar não me agrada nem muito menos interessa...— Fomos interrompidos por duas batidas na porta, era Enzo, ele chegou acompanhado de outro homem.

— Por favor apenas finja ser Otávio ok!?— Sussurro rapidamente para Caio recebendo como resposta apenas aceno de cabeça.

— Olá bom dia!— Enzo disse se aproximando acho que para tentar identificar quem era.

—Caio —Eu rapidamente sussurrei para ele ganhando uma careta em resposta.

— Bom dia.— Apenas eu respondi.

— Deixe—me apresenta-los, esse aqui é o Detetive Aragão ele veio conversar um pouco com você, tudo bem Otávio?— Enzo falou frisando bem o nome Otávio enquanto encarava Caio que apenas deu de ombros e girou na cadeira mais uma vez.— Detetive essa aqui é a Drª. Ester Shalton uma amiga da família.

— Olá senhorita!— Falou me estendendo a mão.

— Olá!— Respondi a apertando de volta, o detetive era um homem baixinho e robusto tinha uma proeminente careca e um bigode engraçado.

— Então eu creio que os senhores já estão cientes do assunto a ser tratado com o Sr. Carson, eu gostaria de conversar um pouco com ele, a sós , tem algum problema ?— Perguntou para Otávio

— Tanto faz. — Caio respondeu dando de ombros.

— Err.. Estaremos ali fora qualquer coisa é só chamar. — Enzo falou me chamando para fora. Eu olhei rapidamente para Caio e ele me encarava de forma entediada, eu realmente não estava segura que essa ideia era a melhor então podia apenas contar com a sorte e torcer para que Caio não falasse nenhuma besteira.

Dando uma última olhada em Caio eu segui Enzo para fora da sala, ao chegarmos no corredor Enzo me guiou em direção a um sofá que tinha na recepção.

— É...Agora a sorte está lançada.— Enzo falou suspirando

— Você é sortudo?

— Não. E você?

— Nem um poquito. — Digo passando a mão em meu rosto.

— Cara o que é isso?! Não tem nem uma semana que Otávio colocou os pés em Chicago e eu sinto como se já fosse uma década.

— Eu pensei que fosse só eu que estava me sentindo assim.

— Você já está desistindo? — Ele perguntou me encarando.

— Não ainda não, é tudo tão intenso e confuso. Mas eu não irei desistir dele, não assim sem nem ter tentado nada.— Falei firme.

— Que bom então, eu estava preocupado que isso pudesse acontecer ainda mais agora com essa tal de Julia de volta na vida dele.— Falou me encarando e realmente parecia bem preocupado.

— Me conte mais sobre essa história Enzo.

— Ah, eu não sei muito, Otávio tinha dezessete anos e estava internado em uma clínica de repouso foi na época em que o TDI estava nos enlouquecendo as personalidades vinham e ficavam meses no lugar de Otávio, muitas coisas ruins aconteceram e para abafar da mídia meu pai decidiu colocá-lo nessa clínica. Lá ele conheceu a Jully e ficaram muito amigos, logo começaram a namorar e então tudo se acalmou foi como se o TDI tivesse dado uma pausa. Um ano depois ele saiu da clínica dizendo estar bem, meu pai não pôde fazer nada afinal ele era emancipado. Otávio foi para Toronto começou a estudar e dizia estar bem muito bem, quatro anos depois eu recebi uma ligação de um hospital de lá Otávio tinha sofrido um acidente, no carro diziam estar ele e a namorada, porém ela morreu na hora. Otávio quase enlouqueceu quando ficou sabendo e depois do enterro tentou se matar, meu pai cuidou dele de novo, pois eu estava em Boston, logo ele teve uma melhora e foi para NY entrou em outra faculdade e o resto você já sabe.

— Vocês viram o corpo da moça?

— Não, disseram estar irreconhecível então o caixão nem aberto foi.

— Sei, mais tem alguma coisa que não se encaixa Enzo.

— O que?

— Anthony a chamou de traidora e tentou esganar ela. O que será que aconteceu entre eles? E outra coisa, ela contou que foi sequestrada mais eu não sei...

— A história dela não desce né!?— Ele perguntou coçando a cabeça.

— Não, porque só agora ela conseguiu fugir?— Eu pergunto e não posso deixar de suspeitar que tudo não passou de uma grande armação.

— Será que foi mesmo sequestro?— Ele pergunta pra si mesmo.

— Pois é também me pregunto isso.— Falo suspirando

— Quem ganharia algo com o desequilíbrio ou a morte de Otávio?—Perguntei mais ao mesmo tempo me repreendi, o que eu estou pensando? Não estou em um filme ou novela para ficar confabulando coisas assim.

— Muita gente Ester, pessoas que deveriam cuidar dele estão no topo da lista, mas não podemos acusar ninguém sem provas.— Falou enquanto se levantava.

— Você gosta muito dele não é?— Pergunto e vejo um sorriso nascer em seu rosto.

— Muito, ele é o irmão que nunca tive.— Respondeu me encarando

—Bom saber...Eu tive uma ideia Enzo.

— Qual?

— Vai envolver mais uma pessoa porém creio que dará certo. Meu irmão Jered ele é um detetive ele poderia ir a Toronto investigar o que realmente aconteceu.

— Você acha que ele toparia?

— Tenho certeza que sim. — Falo lembrando—me do meu amado irmão. Jed era um cara incrível e eu tinha certeza que ele iria desvendar esse mistério.

— Se você diz então eu acredito, pode ligar para ele sim...

— ESSE HOMEM É LOUCO,LOUCO EU VOU PRENDER ESSE CRETINO.— Fomos interrompidos pelos gritos do detetive que saía da sala de Otavio enfurecido.

— Detetive o que aconteceu? Enzo perguntou

— Aquele moleque me desrespeitou, arrogante se acha superior aos demais. — Falou bufando de raiva— E tem mais se o senhor Josh não aparecer até amanhã pela manhã irei mandar prender esse moleque.

— Como assim prender? Não tem provas contra ele. — Eu falo me levantando.

— Prisão preventiva do principal suspeito pode sim e não tem mais nem meio mais. Passar bem. — Falou o homem enquanto saía pisando duro.

— Mais que merda! — Enzo xingou alto.

— Eu vou ver o que o Caio aprontou. — Falo já indo para sala.

Entrei direto sem bater e encontrei de pé ao lado da janela.

— Caio? O que você falou para o detetive? — Pergunto

— Nada demais apenas a verdade. — Respondeu sem me olhar.

— Que verdade?

— A verdade verdadeira. Como falarei sobre o que não sei? Já podemos ir embora? Perguntou entediado.

— Podemos sim, mas depois quero saber de tudo.

— Problema seu eu não irei falar nada.

— Argh...Respira Ester, calma— Sussurrei para mim mesmo. — Vai vamos embora. Falei já saindo da sala.

Enzo não estava mais por ali devia ter ido atrás do detetive. Caminhamos apressadamente para o estacionamento e eu fui em direção a moto do Marcos chegando lá peguei o capacete que usei antes e coloquei em minha cabeça percebi que Caio estava parado me olhando e não fez nenhum movimento para colocar o seu.

— Você não quer mais ir embora?— Perguntei

— De quem é essa moto?

— Do Marcos.

— Quem vai pilotar?

— Você?

— Eu não sei e só tenho dezessete anos, não é contra lei?!— Falou pálido como se fosse realmente verdade, respirei fundo e contei até 10 mentalmente.

—Bom, então que bom que eu sei pilotar não é!?Sobe aí!—Falei já montada na moto, graças ao Jed eu sabia pilotar moto então logo um Caio com o rosto bastante vermelho pegou o capacete colocando em sua cabeça e logo depois subiu na moto.

Rapidamente nos tirei dali porém quando pegamos a rodovia principal percebi um carro preto nos seguindo, eu achei que era coisa da minha cabeça mais assim que eu acelerei e troquei de faixa o carro fez o mesmo então assustada acelerei o máximo permitido e costurei por entre os carros fazendo assim o perseguidor ficar para trás. Quando já estávamos a algumas quadras da casa de Otávio uma van preta surgiu do nada nos fechando no meio da rua ao parar atravessada bloqueando nossa passagem. Fiz o impossível manobrando a moto para não batermos, mas infelizmente acabamos caindo, graças a Deus não nos machucamos, porém quando eu ia confirmar com o Caio que estava ao meu lado mortalmente pálido e assustado um pano cheio de éter foi posto em meu rosto e a última coisa que vi antes de desmaiar foi o olhar assustado de Caio.


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