Me Mate, Me Ame
21 Ester
Enquanto Anthony me beijava eu permaneci congelada. Por várias questões eu não poderia me envolver com ele, inclusive uma bela clausula no contrato que o senhor Martney me fez assinar. E mesmo se ela não houvesse eu ainda tinha minha ética profissional que gritava em meus ouvidos que ali era meu paciente. Afastei—me devagar de Anthony que ainda continuava de olhos fechados e respirei fundo em busca da minha razão. Dei dois passos atrás e soltei—me de suas mãos.
— Isso aqui é lindo Anthony. — Falei sentindo—me trêmula e olhando o barco ao redor, estávamos em uma espécie de sala que era decorada em tons de cinza, branco gelo e vermelho sangue, os dois lados eram compostos por grandes sofás na cor branco gelo com almofadas cinza e vermelhas. No meio da sala havia um recamier camurçado da mesma cor do sofá e mais adiante me parecia uma sala de jantar também muito bonita. Fui tirada da minha exploração por um pigarro de Anthony.
—Quer dizer que você ainda não gostou?!— Perguntou respirando fundo e encarando—me.
— Bom eu amei a surpresa as flores os ursinhos é tudo muito bonito e de bom gosto. Mas ainda não entendi o motivo. — Falei hesitante ao ver seus olhos faiscando de raiva.
—É pra você gostar de mim! Mas vejo que ainda não gosta, provavelmente prefere o idiota. — Falou amargurado enquanto me encarava.
—Anthony... Ouça, eu não escolhi ninguém nem tenho porque escolher, eu acabei de conhecer vocês e....— Fui interrompida por um grito enfurecido dele.
— NÃO. Você tem que lembrar, você me conhece e prometeu que iria se lembrar de mim pra sempre. —Falou totalmente irritado e eu mais uma vez sem entender onde ele queria chegar com essa conversa apenas balancei minha cabeça negando.
—Eu não me lembro, me desculpe! — Falei baixo realmente forçando minha memória atentar raciocinar sobre o que ele dizia.
— Não, tudo bem, me desculpe eu não deveria ter gritado também. Eu irei continuar esperando, já esperei até hoje, não é?!— Falou passando as mãos em seus cabelos. – Vem vamos embora. – Me chamou de modo bruto já saindo do barco e me deixando sozinha, olhei novamente toda aquela decoração vendo o quão intenso ele parece ser e sem conseguir evitar me vi pegando o menor dos ursos e o escondendo dentro do meu casaco.
Anthony fez todo o percurso até sua casa em silencio apenas ouvíamos nossas respirações e o ronronar do motor do carro. Ao chegar ele nem me esperou descer do carro e apenas se foi para dentro de sua casa e eu fiquei dentro daquele carro sufocante apenas tentando entender tudo o que aconteceu nessas poucas horas. Assustei—me quando Rosa bateu no vidro do carro.
—Tudo bem menina?
—Oi Rosa, tudo bem sim. Cadê o Anthony? — Perguntei saindo do carro
— Trancado no quarto. Vocês brigaram? — Pergunto enquanto abraçava—me de lado e me acompanhava para dentro.
—Não, ele apenas quer que eu me lembre de algo que eu não faço ideia do que seja. E isso o irritou profundamente.
—Não fique assim querida, de todos eles Anthony é o mais sofrido e complicado.
—Esse não seria o Otávio? —Perguntei achando graça
—Não meu bem, espere e entenderá o que digo. — Falou cheia de sabedoria.
Depois do nosso pequeno dialogo com ela deixou—me na cozinha e foi para alguma outra parte daquela grande casa. Aproveitando que estava sozinha fui para o quarto que estava usando e deitei—me um pouco abraçada ao pequeno urso panda que segurava um pequenino coração vermelho. Enquanto estava ali lembrei—me de tudo que foi dito por Anthony, do nosso primeiro encontro no aeroporto, a boate, hoje, o beijo e o barco com meu apelido, com certeza tínhamos uma história e alguma coisa dizia—me que ele estava certo em dizer que eu o conhecia e eu queria e iria me esforçar para lembrar. Fecho meus olhos com força e recordo—me dos meus dias no internato eu sempre soube que fui adotada e lembro que quando meus pais biológicos morreram eu fui deixada em um internato só para meninas, não fui para um orfanato público porque meus pais tinham muito dinheiro e como herdeira única o estado decidiu que meus bens ficariam sob a tutela das pessoas que se dispusessem a cuidar de mim, porém muitas famílias foram reprovadas nos testes pois todos queriam usufruir dos meus bens e nisso os advogados dos meus pais biológicos estavam de olho. Até que em uma tarde de inverno a família Shalton apareceu e se encantaram com a menininha que estava na neve conversando com um garotinho sardento e de olhos verdes que estava muito triste do outro lado da grade que dividia o internato feminino do masculino. Sento—me abruptamente ao recordar—me desta memória de muitos anos atrás exatamente a quase dezessete anos. Era ele, como era o nome? Sem conseguir me lembrar do nome do garoto que encontrei por acaso do outro lado grade em um dia de neve em que eu estava a brincar, agarro o telefone disposta a ligar para Jered e perguntar, afinal Jed também era adotado e ficava nesse mesmo internato pois também era rico e tinha perdido sua família. Porém recuo em minha decisão pois se o fizesse tudo estaria perdido. Deito—me de novo e acabo sorrindo ao me lembrar melhor do menino da cerca. Quando o vi pela primeira vez ele estava tão triste e irritado, o chamei e perguntei por que ele chorava, mas não fui respondida, lembro que eu tinha um pirulito no bolso e então pedi que se aproximasse para eu poder lhe entregar o doce mas ele não veio apenas me encarou com seus grandes e vazios olhos verdes. Deixei pendurado na grade e andei para dentro do abrigo novamente e antes de fechar a porta o vi se aproximar e pegar o doce com suas pequenas mãos, ele olhou o doce secou seu rostinho e deu um pequenino sorriso torto, e eu entrei feliz por ter conseguido faze—lo sorrir. Depois daquele dia sempre nos encontrávamos na cerca em dias de chuva, sol e neve. Ele não falava no início, levou exatamente dois meses para que ele respondesse qual era sua idade, 8 anos ele disse, e assim seguiu nossa amizade sempre eu falando de tudo e ele apenas ria e sorria para mim eu não me importava de ser a palhaça apenas para vê—lo feliz até que um tempo depois ele não veio mais até a grade e eu parei de sorrir. Vários dias passaram e nada dele aparecer. Lembro—me que um dia estava chovendo muito forte e eu estava olhando a chuva da janela do meu quarto eu iria embora na manhã seguinte, pois os Shalton tinham conseguido minha tutela provisória, foi nesse dia que eu o vi agarrado a cerca e chorando muito rapidinho eu desci as escadas e fui escondida em direção as portas do fundo, enfrentei a água gelada e fui a seu encontro.
—Ei menino da cerca o que foi? — Perguntei alto por causa dos trovões, ele encarou—me com os olhos vermelhos e disse.
— Você sabe como se faz para morrer? — Sua voz estava bem rouca e seu rosto estava roxo no canto direito da boca.
—Não. Porque? — Respondi assustada.
—Eu preciso. – Ele disse ainda agarrado a grade.
— Não, você é criança ainda só se morre quando a gente estar velho igual ao meu pai e minha mãe. — Expliquei em minha lógica infantil. – Criança tem que ser feliz. – Falei convicta.
—Então por que não sou? — Perguntou com raiva
—Talvez não seja o tempo. —Falei dando de ombros. – A irmã Mari diz que Deus disse que a tempo pra tudo na terra. — Expliquei de novo
—E se o meu tempo não chegar? — Perguntou hesitante
—Chegará sim. — Falei sorrindo
—Bom se você está falando então eu acredito em você Ester. — Falou sorrindo um pouco.— Eu irei ser paciente e esperar.
—É a primeira vez que você fala o meu nome. — Falei feliz mais logo fiquei triste. – E a última.
—Por que? — Ele perguntou aflito
—Estarei indo embora amanhã de manhã.
—Que triste. Ester, ESTER, ESTER, ESTER! — Ele começou a gritar
—Por que você está gritando? — Perguntei tampando os ouvidos.
—É para eu poder aproveitar o tempo e para você não esquecer de mim o garoto da cerca que gritou seu nome na chuva. — Falou rindo. – Ester, ESTER, ESTERRR!!!!
—TÁ!!! Eu não vou esquecer.
—Jura? — Falou parando de pular e encostando sua mão na grade novamente.
—Juro, juradinho. —Falei encostando minha mão na sua no momento em que um trovão altíssimo ecoava no céu fazendo nós dois corrermos para dentro rindo muito.
Saio das minhas lembranças ainda sem lembrar do nome do garoto, mas aqueles olhos... tenho a certeza de tê-los em minha vida de novo, e agora com mais uma pista para desvendar o motivo dele ter TDI, alguma coisa aconteceu com ele aquele dia e eu tenho que descobrir o que foi.
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