Me Dê Uma Chance
6 Cumplicidade - Parte II
Notas iniciais
Eram mais ou menos 07:30h quando Michael abriu os olhos e percebeu que não havia sonhado.
Ray estava ao seu lado, adormecida, linda e plena. Era incrível como ela confiava plenamente no cantor, depositando aquele momento de fragilidade em suas mãos, assim como ele igualmente havia feito a ela. Sorriu, beijou o topo de sua cabeça e a deixou descansando, em seguida se levantou e foi escovar os dentes para comer alguma coisa.
Ao descer as escadas, deparou-se com Morten assistindo TV naquele mesmo canal das paisagens nevadas. O rapaz arqueou a sobrancelha e foi em sua direção.
— Morten...?
Ele quase se assustou, mas, ao ver que era apenas o seu amigo, suspirou de alívio.
— Não faz isso comigo, eu pensei que fosse teu pai. Aquele cara me dá medo…
Michael deu-lhe um sorriso fraquinho.
— A mim também. O que tá fazendo?
Sentou ao seu lado e olhou para a TV. Antes de comentar sobre o programa, esperou que o rapaz falasse alguma coisa. Morten apenas suspirou, parecia um pouco mais quieto naquela manhã.
— Você tá bem…?
Indagou, agora um pouco mais preocupado. Levou uma mão ao ombro do rapaz, que não reagiu.
— Eu só… eu tive uns dejavus, eu acho. Eu lembro… de algumas coisas…
Por fim, finalmente encarou o cantor.
— Meu nome é Harket. Morten Harket. Eu tenho 20 anos e não sou da Irlanda… eu sou… norueguês. E acho que meu inglês é britânico.
Michael fez uma expressão surpresa ao ouvir cada informação. Aquilo só o fez confirmar que sua criação tinha, sim, personalidade própria, e que talvez inventar coisas para ele agora seria inútil. Pelo visto, mais cedo ou mais tarde ele se lembraria.
Porém, esse detalhe só conseguiu o deixar mais confuso. Se Morten tinha personalidade própria… o que exatamente ele é? Por que criou vida?
Suspirou.
— Uau… você só me deixa mais intrigado a cada dia.
Morten riu discretamente.
— É, eu também sinto isso. Eu lembro das coisas, mas me pergunto do que isso adianta. Do que adianta saber que eu sou da Noruega? Continuo morando dentro de um caderno velho.
Michael fez um biquinho emburrado.
— Se achava isso, por que não me falou? Eu teria comprado um caderno novo…
Morten riu e empurrou o rapaz de leve.
— Ah, não cisma! O caderno é velho, mas as folhas tem um cheiro legal. Pelo menos, agora, eu posso sentir cheiro.
— Falando nisso… desde quando você passou a ter sensibilidade?
Morten balançou a cabeça discretamente, tentando se lembrar.
— Desde que… hum… acho que desde que eu comecei a ter as primeiras lembranças. Desde…
De repente, ele travou. Involuntariamente levou a mão à parte do corpo de Michael que estava mais próxima de si, e como a mão do rapaz estava em seu ombro, o que sobrou foi sua coxa. Morten encarou um ponto específico da sala, o que fez o cantor perceber que a situação era grave. Virou o rosto e, lá, estava Joe Jackson, bem contrariado com todo aquele aprochego.
— Quem é esse...?
— Er… esse…
Michael encarou Morten, que não conseguia se explicar. Percebeu que precisaria tomar alguma atitude, pois o rapaz simplesmente havia travado e o seu pai já estava começando a perder a paciência.
Discretamente levou a mão à dele, em sua coxa, e removeu com sutileza antes que seu pai reclamasse sobre aquilo.
— É do trabalho, pai. É… bom, é meu coreógrafo.
Morten o encarou com um semblante completamente confuso. Michael discretamente piscou pra ele.
— Estávamos falando sobre trabalho. Vamos, Morten? Vamos pro meu escritório, lá você me fala o que tá pensando pro álbum, okay?
Segurou o pulso do rapaz e o puxou antes que o velho fizesse mais perguntas. Subiram as escadas rapidamente, Michael nem se importou com a TV ligada. Ao chegar no corredor para o escritório, o moreno suspirou.
— Essa foi por pouco…
— Já disse que seu pai me dá medo? Aqueles olhos… parece que ele vai arrancar o meu couro a qualquer momento.
Michael mordeu os lábios.
— Eu sinto a mesma coisa… nós não estamos compartilhando sentimentos, não é?
— Eu espero que não, mas que isso é estranho, é. Pra onde vamos?
— Pro meu escritório. Ray tá no quarto, não vou te levar pra lá, ela vai ficar desconfortável.
O rapaz assentiu e seguiram em frente. Assim que entraram no local, pequeno e com poucas entradas e saídas de ar, Michael percebeu, enfim, que Morten não havia trocado aquela roupa desde que “nasceu”.
— Ahr… cara, você precisa tomar um banho!
— Ei, nem olha pra mim. Eu não ia usar o seu banheiro sem sua permissão.
Brincou, deixando um sorriso sapeca em evidência. Michael balançou a cabeça negativamente e riu baixinho.
— Vai tomar um banho, bobão. Eu vou pedir pra uma empregada lavar essa sua roupa.
— Tá bom, você quem manda. Onde fica o banheiro mais próximo?
Michael parou para pensar, teria que levá-lo para um banheiro privativo como aqueles de quartos com suíte, não podia sair exibindo o Morten por aí, mesmo para sua própria família. Lembrou-se que alguns poucos quartos de hóspedes possuem esse detalhe e o guiou para um deles no segundo andar.
— Eu vou ficar te esperando, okay?
— Vou precisar mesmo, porque eu vou precisar vestir outra coisa enquanto a sua empregada estiver lavando minha roupa.
— É, eu sei…
Michael suspirou, queria poupar de ouvir comentários de seu pai sobre dividir a roupa com o próprio “coreógrafo”, teria que dar o seu jeito como sempre. Morten não o esperou e já foi entrando no banheiro. O moreno, por sua vez, sentou-se na cama e o aguardou.
— Hum… e se eu desenhar a sua roupa?
— Ah, não sei... Tenta!
Gritou do box. Michael assentiu e correu para pegar seus materiais de desenho. Os catou, sorriu ao ver Ray ainda dormindo e se aproximou para lhe dar outro beijinho, em seguida retornou ao quarto onde Morten estava. Lá, começou a desenhar.
Começou com uma jaqueta preta de couro, Michael adorava jaquetas e achava que daria um ar bem bad boy ao se unir ao topete de Morten. Logo em seguida, desenhou uma camisa branca sem mangas, calças também de couro escuro e coturnos. Olhou mais um pouco e achou que algumas pulseiras discretas dariam um charme a mais. Ao finalizar, o rapaz já estava saindo do banheiro com uma toalha envolta da cintura que havia achado lá dentro.
— Você já viu o tamanho disso?? Nossa, você foi bem generoso, hein?
Michael arqueou a sobrancelha, mas entendeu do que se tratava depois de ligar os pontos. Revirou os olhos.
— Esse é o seu melhor comentário?
— Hum… ah, o sabonete desse banheiro tem um cheiro legal. O que você preparou pra mim?
— Olha…
Ele se levantou e o apresentou à roupa. Morten deu ombros e levou a mão ao desenho, adentrou nele em poucos instantes. Michael, por sua vez, fechou o caderno e o aguardou se vestir.
Logo, tudo tornou a ficar silencioso. O moreno suspirou, lembrou-se do que queria falar com o rapaz: sobre a cumplicidade deles, sobre como estavam ajudando um ao outro… sobre como Morten parecia conhecer os seus sentimentos… não sabia exatamente o que queria falar, mas queria falar alguma coisa.
— Er… Morten?
Aguardou e aguardou, ele respondeu um pouco depois.
— Oi…
— Eu… obrigado pelo que falou pra a Ray.
Silêncio.
— Ah… de nada.
Mais silêncio. Michael achou estranho aquela conversa ter sido tão absurdamente seca, ele esperava algo diferente, mas aceitou.
— Abre aí, por favor.
O rapaz assentiu e colocou o caderno aberto no centro da cama para que Morten pudesse sair, porém, durante aquele processo que se iniciou instantes depois do cantor abrir na página, Ray havia despertado de seu sono e, com ajuda de funcionários que perambulavam por toda a mansão, conseguiu encontrar o quarto onde os meninos estavam.
— Mike…?
Aquilo foi suficiente para os dois levarem um susto. Michael não se afastou do caderno a tempo e Morten já estava saindo da folha. Aquela bagunça resultou em um caindo por cima do outro, o que os deixou paralisados. Michael o encarou com espanto, e foi Morten arregalar os olhos que ele notou a gravidade. Estavam próximos demais, com o cantor apoiando as mãos na cama e os joelhos em cada lado do corpo do amigo, que, por sua vez, estava deitado de frente, usando os cotovelos para também se apoiar.
— Mike, vamos continuar o dese...!
Ela encarou os dois meninos, definitivamente não esperava encontrar o Morten, embora soubesse que havia essa possibilidade. Já o jovem de cabelos dourados e olhos azuis apenas instintivamente empurrou Michael de cima de si, aproveitou que Ray estava meio sonolenta para pensar besteira e procurou não alimentar a sua mente.
— É, “Mike”, vai desenhar…
Morten imitou a voz da garota, anasalando mais o seu tom. Michael o empurrou de volta, de leve, em seguida se afastou.
— Vamos, Ray. Já tomou café da manhã?
— Ah, n-não, eu vejo isso dep…
— Não, não, vai tomar sim. Vamos…
Os dois se retiraram. Assim que saíram, Morten começou a resmungar.
— “Nhé nhé nhé vem tomar café, amor”…
De repente sua barriga começou a roncar. Ele mordeu os lábios, era a primeira vez que sentia aquilo, ou assim se lembrava.
— Putz… o que… o que é isso?
Ele passou a mão no abdome e o sentiu vibrar mais uma vez. Suspirou, com o moreno dando toda a atenção do mundo para a garota, teria que se virar sozinho.
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