Maybe
6 Os olhos
Notas iniciais
Não é à toa que os olhos são conhecidos como as portas da alma, o pensamento é piegas e vertiginoso, mas verdadeiro. O olhar de amor dos nossos pais, olhares cansados de um idoso, o olhar travesso de uma criança, aquele olhar sincero ou de esperança. O meu dia tinha sido cheio de olhares apaixonados, envergonhados e dizer que o meu humor estava ruim era um eufemismo.
Henry e Rebecca passaram a segunda flertando e eu queria gritar, gritar para ela o quanto estava magoada, gritar e perguntar dele o porquê, por que ela o fazia tão feliz e eu não?
Estava sentada na arquibancada do campo de futebol, tinha esquecido completamente do treino e fui de carona com o Luke naquela manhã. Bem que poderia pegar um táxi, mas não queria chegar em casa, sabia que quando chegasse as paredes pesariam ao redor, o meu quarto ficaria pequeno demais, deitaria na minha cama e choraria baixinho até aquele aperto passar.
O que está acontecendo comigo? Eu sou Catherine Morgan, não choro por coisas estúpidas.
O livro do Conan Doyle nas minhas mãos era incrível, mas mesmo assim não conseguia me concentrar. Me rendi, coloquei o livro de lado e comecei a prestar atenção no treino.
O treinador gritava ordens e os jogadores já cansados faziam o que ele ordenava. Involuntariamente comecei a prestar atenção em Henry, em como os ombros dele eram fortes, como ele parecia determinado. Suspirei lembrando de todas as nossas conversas, da sua esperteza, seu sorriso...
Senti algo pingando na mão que estava sobre o meu colo, me dei conta do meu rosto molhado e enxuguei rapidamente.
– Merda! — xinguei baixinho.
Saquei um pequeno espelho dentro da minha mochila e conferi o meu estado, estava tudo bem. Os olhos azuis ali tinham um ar nebuloso e era como eu me sentia, um dia nublado, um daqueles dias em que todos torcem pra que a chuva caia e então o sol volte a brilhar.
O treino não se delongou, assim que o treinador anunciou o término me levantei e andei até onde meu irmão estava.
– Vou te esperar lá fora — indiquei com a cabeça.
Os outros meninos já se dirigiam ao vestuário.
– Ok, mas antes vem aqui me dar um abraço — ele abriu os braços e vinha em minha direção enquanto eu recuava pra trás. O suor pingava do seu corpo, nojento.
– Nem vem, Luke, não estou com saco.
Ele sorriu travesso.
– Eu também quero um — Henry que estava pegando algumas coisas no banco também se virou pra mim.
Ah... Em você eu dou quantos abraços quiser.
– Não, meninos — ergui a mão indicando que eles parassem.
Eu recuava devagar e eles avançavam no mesmo ritmo, eram como predadores analisando uma presa e se divertindo muito. Eu não conseguiria correr mais que eles, perderia aquela, mas mesmo assim não deixei de tentar. Saí em disparada pelo campo e eles vinham no meu encalço. Não demorou muito para que me pegassem.
– Eu odeio vocês dois! — gritei.
Cada um me abraçou por um lado do corpo e fiquei respingada de suor, eles estavam gargalhando. Me desvencilhei do aperto e remuguei:
– Ótimo! Nada melhor do que nhaca de jogador.
– Um banho resolve, Cat, eu garanto — Henry deu uma piscadela.
Revirei os olhos.
– Vou logo me trocar — anunciou Luke entre os risos e ele e Henry se enfiaram no vestiário com os outros.
Me pus em pé do lado de fora da escola, estava fedendo a meia suja. Amarrei os cabelos no topo da cabeça e esperei. Depois de um tempo Henry se colocou ao meu lado.
– Desculpa por aquilo, vi que você ficou meio chateada, era só uma brincadeira — ele estava envergonhado.
Dei de ombros.
– Tá tudo bem.
Houve um momento de silêncio.
– Na verdade não está, Cat. Não por causa do abraço... Coletivo e suado — ele sorriu, — não sei o que é, mas você não tem estado bem já faz uns dias.
Ele esperou um momento para ver se eu diria alguma coisa, fiquei quieta.
– Eu não estou paranoico, certo? O que está acontecendo?
Mais silêncio. Ele estava me observando.
– Não use o Henry gentil comigo — me virei pra encará-lo. — Já percebi que você usa esse artifício pra conseguir o que quer.
– O quê?
– Você se importa de verdade?
– Claro, Catherine. Somos amigos.
Amigos.
Tinha cogitado contar a verdade, mas do que adiantaria? Ele só nos considerava amigos, nada ia mudar, contar só ia complicar tudo e as coisas já estavam bem complicadas.
– Vamos? — Luke indagou enquanto se aproximava.
Ele havia chegado bem na hora, eu queria abraçá-lo.
– Sim — respondi. — Até amanhã, Henry.
Nos despedimos e voltamos para casa.
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