Maybe
7 A festa da sobremesa
Notas iniciais
O Sr. Madison recebeu um telefonema naquela manhã, meu pai justificando a minha falta, ele explicou que eu estava indisposta e que ficaria em casa para descansar. Não precisou muito para convencer ele a mentir para o diretor, na verdade só me custou uma breve conversa:
"Pai, sem escola hoje, por favor."
"Por que?"
"Coisa de adolescente."
"Um justificativa coerente, Catherine."
"Estou evitando alguém."
"E posso saber o motivo?"
"Não, é arquivo confidencial."
"Escola é importante, mocinha."
"Mas é só um dia."
"Tudo bem, mas você sabe, continue indo bem e os privilégios também continuam."
"Sei, sei..."
Agradeço pela confiança despreocupada do meu pai, não suportaria encarar Henry e suas perguntas mais uma vez por ora. Era só uma fuga breve, mas ainda assim uma fuga.
Assim que todos saíram para as suas devidas atividades peguei o carro e dirigi até a Eliot. Passei pelas portas e fiquei surpresa quando alguém gritou pra que eu parasse e me identificasse. Nunca tinha visto antes a garota posta atrás do balcão, ela era alta e de olhos grandes.
– Desculpe senhora, mas você precisa efetuar um cadastro para permanecer aqui e se você já tiver um preciso que me mostre o seu cartão.
– Claro, para melhorar o dia tem que ter uma funcionária nova e desavisada — murmurei.
– O que disse? — perguntou a menina rispidamente.
– Eu não ando com o cartão — ignorei a pergunta. — Não preciso dele. Agora me diga onde está Anna.
Ela me analisou alguns instantes.
– Desculpe, mas preciso da sua...
– Te deixo sozinha alguns minutos e você já arranja confusão, Jessie? — Abby apareceu. — Anna está na cozinha, Cat.
– Obrigada, Abby.
Caminhei até a cozinha, o lugar era um misto de cores, pior que movimento LGBT.
– Catherine! — Anna me viu e me cumprimentou com um abraço. — Por que não está na escola, menininha?
– Dia de festa da sobremesa — respondi.
– O que aconteceu ma petite?* — Bash que estava prestando atenção perguntou.
– Seus pais sabem que você está aqui? — Anna me olhava com a testa franzida.
– Eles me deixaram faltar a aula hoje, fique calma e bonjuor*, Sebastian. Não que falar o que aconteceu, podemos fazer mesmo assim?
Anna suspirou.
– Ok, festa da sobremesa hoje, ainda bem que você adora o seu trabalho, Sebastian.
A festa da sobremesa era a atividade relâmpago da Eliot, Anna criou porque ela nunca sabia o que fazer quando os filhos dela ficavam muito tristes, então em dias ruins ela colocava a cozinha para preparar todos doces do cardápio e distribuía de graça na casa. Ela me deixava usar o "código de tristeza" o quanto eu desejasse. Se fosse pra qualquer outro isso seria um grande prejuízo, mas Anna tem a casa por hobby, não necessidade.
Bash, Shelley, Phoebe e Ingrid, a equipe da cozinha, estavam tirando tudo que precisaríamos dos armários, depósitos e geladeira. Alguém já colocara uma música para tocar no pequeno aparelho de som posto no canto, só a atmosfera do lugar já melhorava tudo que se encontrava misturado no meu peito.
– Você duas aí vão ficar olhando mesmo ou tá difícil ajudar? — Bash perguntou em francês.
Eu e Anna estávamos encostadas no balcão observando. Rimos e pegamos o trabalho mais próximo.
No final da tarde eu já estava cheia de farinha, açúcar e outras coisas grudadas no avental que usava e um pouco no rosto também. Tinha comido tantos doces que provavelmente não conseguiria dormir naquela noite, mas ninguém tinha achado a chave ainda e a brincadeira só acaba quando a chave aparece.
Quando as tortas são feitas, uma delas é escolhida para levar a chave, literalmente uma chave, colocamos ela dentro e assamos todas as tortas, depois as tortas são distribuídas pela casa e quem acha a chave tem um mês de sobremesa grátis.
Estava dançando com Sebastian quando a porta se abriu e o garoto alto e bonito já estava dentro da cozinha. Aaron, filho da Anna, todos o cumprimentaram. Eu estava surpresa, não sabia que ele viera de Paris para uma visita.
– Quem está comemorando o dia da sobremesa? — ele perguntou.
Ergui a mão.
– Eu.
– Ah, claro, tinha que ser a favorita — ele brincou.
– Não banque o bebê chorão, Aaron — zombou Anna.
O telefone tocou e Shelley atendeu enquanto ainda jogávamos conversa fora.
– Acharam a chave — ela anunciou.
Houve um coro de "vivas".
– Sala?
– Do Piano.
Dito isso todos saímos em disparada da cozinha em uma corrida desajeitada. Quando entramos na minha sala favorita os olhares das pessoas se cravaram em nós.
– Quem achou a chave? — gritou Sebastian.
– Acho que fui eu? — olhei pra quem tinha respondido e não estava acreditando, Joseph a tinha encontrado.
– Ah não! — resmunguei.
– Palmas para o vencedor — pediu Anna.
Todos bateram palmas.
– O que eu ganhei exatamente? — ele indagou confuso.
– Vamos e te explicamos tudo — respondeu Bash.
Joseph se levantou e andou até nós, então todos saíram correndo de volta para a cozinha e ele ficou lá parado. Sabia que ele não iria correr, era a primeira vez que ele via aquilo, um completo desavisado, por isso fiquei também.
– O que...? — a confusão dele era bem engraçada.
– Essa é a parte em que nós corremos — eu estava rindo.
– Mas por quê?
– É parte da brincadeira, não seja um pé no saco — revirei os olhos e saí em disparada.
Ele me acompanhou. Chegamos na cozinha e a música tocava mais alta.
– Bem-vindo a parte privada da festa da sobremesa, Joseph, — iniciou Anna — você foi escolhido pela chave e convocado para ajudar na degustação das novas sobremesas para o cardápio — ela apontou para o balcão cheio delas — e também ganhou um mês de sobremesa grátis.
– Legal! — ele disse empolgado.
– E como sou rainha desse dia de sobremesa você tem que lamber o meu pé para receber tudo isso — falei o mais séria que consegui.
– Eles estão limpos? — Joseph apontou para os meus pés.
– Você é nojento! — fiz uma careta — Eu estava brincando.
As pessoas na cozinha gargalhavam.
– Eu sei, mas precisava ver a sua cara — ele retrucou.
Experimentamos todas as sobremesas do balcão, algumas eram divinas, outras nem tanto e uma parte era simplesmente intragável. Quando tudo terminou estava escuro do lado de fora, subimos até a sacada no segundo andar para observar o céu.
O céu de New York não abriga estrelas, as luzes da cidade são intensas demais para isso, mas ainda é o céu, infinito e majestoso com o seu azul quase preto aquela hora da noite.
Bash estava cantarolando uma música em francês e eu prestava atenção na sua letra.
– Pode traduzir o que ele está cantando? — sussurrou Joseph perto do meu ouvido.
Assenti.
– É um tanto deprimente, mas sim — sussurrei de volta. — É sobre uma mulher chamada Jeannette, poderiam casar ela com um príncipe ou um barão, mas ela quer Pierre, o amigo preso.
– Tu n'auras pas ton Pierre — continuava Sebastian.
– Tu não vais ter teu Pierre — traduzi.
– Nous le pendouillerons, nous le pendouillerons.
– Nós vamos enforcá-lo.
– Si vous pendouillez Pierre. Pendouillez-moi avec, pendouillez-moi avec.
– Se vocês enforcarem Pierre. Me enforquem também.
– Et l'on pendouilla Pierre, et sa Jeannette avec, et sa Jeannette avec.
– E vamos enforcar Pierre, e Jeannette com ele.
– En route, ami, en route, nous les dépendrons, nous les dépendrons.
– No caminho, amigo, no caminho, nós lhe contaremos. — me virei para Bash — De onde é essa música?
– Isso é uma cantiga de ninar francesa, crianças — ele sorriu.
– É horrorosa — comentei.
– Imagino que as crianças na França devem ter pesadelos sempre — brincou, Joseph.
– Nem tanto, menino, talvez se fossem inglesas tivessem mais. — Bash se levantou — Vamos moças, precisamos arrumar aquela cozinha — disse ele se referindo a sua equipe.
– Preciso ir também, mãe, fiquei de me encontrar com um amigo hoje à noite — disse Aaron.
– Ok, eu te levo até a porta — Anna respondeu.
Depois de algumas despedidas restou somente eu e Joseph, os dois lado a lado como velhos amigos, só que não éramos exatamente amigos. O silêncio era confortável, mas ele resolveu destruir a calmaria.
– Há quanto tempo conhece a Anna?
– Faz uns 5 anos, mas às vezes parece a vida toda — sorri.
– É bem bonita a relação de vocês.
– Obrigada.
– Ela comentou uma vez, antes de saber que nos conhecíamos que você gosta de Maria Rilke — ele me observava de soslaio.
– Um dos meu poetas favoritos.
Houve mais alguns segundos de silêncio. Dava para ouvir os barulhos dos carros passando nas ruas próximas.
– "Como um fósforo a arder antes que cresça / a flama, distendendo em raios brancos/ suas línguas de luz, assim começa..." — ele declamou perfeitamente.
– Dançarina Espanhola, por que não me impressiono com a escolha? — revirei os olhos. Eu estava um pouco corada.
Ele riu.
– É divertido te ver sem graça. A propósito é uma pena que você não esteja usando pijamas — ele virou para mim e passou o olhar de baixo a cima.
– Estava até estranhando a conversa agradável — me virei para encarar seus olhos castanhos, quase amarelos — você é ridículo.
– Qual poema dele você gosta? — perguntou ignorando meu comentário.
Me virei de volta em direção da paisagem. Depois de pensar um pouco, achei algo que serviria de resposta.
– "Sei que a vida é boa/ e que o mundo é uma taça cheia,/ mas a mim não me chega ao sangue,/ a mim só me sobe à cabeça."
– A Canção do Suicida,- ele franziu o cenho — você tem que gostar logo do poema mais deprimente dele?
– Ele me dá vontade de viver — sorri. — Me faz pensar que a mim ainda chega ao sangue e que eu ainda tenho que provar muito dessa taça, eu quero isso.
Ele parecia intrigado.
– É um bom ponto — disse devagar.
Então ficamos lá, em silêncio, afundados nos nossos próprios pensamentos, até ficar tarde demais e eu precisar ir.
–
–
–
–
ma petite?* = minha pequena
bonjuor = bom dia
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