May The Crows Find You
2 Some Nights you Dance with Tears in your Eyes
Acontecera em um dia muito parecido com aquele, muitas luas antes, numa das poucas vezes em que Jon deixara seu refúgio para Além da Muralha e voltara a Winterfell. Vassalos e súditos de todo o Reino se encontravam no castelo-fortaleza para a comemoração do dia oficial da Independência do Norte, uma ocasião que se tornara esperada por todos.
Todos os tipos de comidas e bebidas da mais alta qualidade foram servidos durante o banquete daquela noite. Era possível ouvir risadas, conversas alegres de quem não se via há muito e cada música que o bardo tocava era mais divertida do que a anterior. Naquele momento, enquanto observava tudo do trono rústicos dos lobos e a melodia conhecida de Matylda in the Billabong* tocava, seus olhos recaíram sobre a figura de Jon Snow.
Ele havia se acomodado ao lado dos demais súditos por insistência própria, após insistir que se sentasse ao lado dela em um local de honra, e estava rodeado de antigos companheiros de Patrulha, todos vestidos de Negro, e homens e mulheres representantes do Povo Livre, incluindo Tormund Terror dos Gigantes, seu braço direito, o qual ria alto de uma piada qualquer após beber sua cerveja da própria jarra.
Notava o quanto ele ficava à vontade na presença daquelas pessoas, mais do que em qualquer momento em que desempenhara o papel de Rei de Norte, pois se mantinha o tempo todo temeroso que estivesse fazendo o movimento errado ao redor de pessoas muito mais experientes em governar. Jon era um líder, um rei no melhor sentido da palavra, mas não um governante. Agora, no entanto, ele não parecia carregar o peso do mundo em suas costas, somente a culpa pela morte de Daenerys Targaryen.
Por vários minutos, observara pessoas indo até ele para cumprimentá-lo, do mais alto vassalo nobre até o súdito mais desconhecido. Sabia que entre eles, mais do que o Rei que deixara de ser, Jon era uma lenda – dessas que os pais contam às crianças na hora de dormir para inspirá-las. De filho bastardo, se tornara Lorde Comandante da Patrulha da Noite, morrera e ressuscitara pelo desejo obscuro de um deus desconhecido, descobrindo-se como herdeiro do Trono de Ferro posteriormente, fruto de um amor impossível entre uma garota Stark inconsequente e um herói Targaryen amargurado.
É claro, dentre o povo, a história tinha várias versões e sussurros diferentes, mas isso parecia tornar a lenda ainda maior entre os nortenhos que o adoravam e o fato de estar vivo ajudava a deixar tudo mais interessante, deveria assinalar. Então, em meio a uma risada alegre pela bebida, Jon percebera seu olhar e pedira licença aos demais para se encaminhar até ela. Ouviu Tormund dizer algo sobre a “Rainha Loba”, como gostava de chamá-la, mas não conseguiu entender e logo o outro estava à sua frente, inclinando-se levemente em uma saudação.
— Sua Majestade. – Sansa sorriu, apertando os lábios para manter a postura, embora pudesse ver o divertimento também nos olhos dele e no fundo do murmúrio. – Em que posso ajudá-la?
— Para começar, pode se sentar ao meu lado e me contar tudo que andou fazendo nos últimos tempos.
Indicou a cadeira à direita e Jon meneou a cabeça antes de dar a volta à mesa e se acomodar de maneira confortável enquanto um criado se aproximava para encher o copo de ambos e uma outra lhe trazia mais de suas tortinhas de limão favoritas. Jon lançou um olhar cético aos doces, antes de encará-la novamente.
— Sem a ameaça dos Caminhantes ou do Rei da Noite é mais fácil desbravar o lado de lá da Muralha. Há muito para ver, acredite. – Ele começou a contar.
— Até onde conseguiram ir?
— Um lugar que chamamos de Atalaia Esmeralda, após um vale muito longo, onde a vegetação começa a mudar e se tornar mais... Viva. – Jon bebericou a cerveja e estendeu a mão para pegar um dos pasteizinhos de carne de veado da montanha. – Gostaria que pudesse ver, é... muito bonito. Diferente de muito do que conhecemos em Westeros.
— E... Nesses novos lugares há mais pessoas? – Pensativa, Sansa se voltou completamente ao homem ao seu lado sem se importar com os demais no Grande Salão. – Pessoas como os antigos selvagens, que acreditávamos não existir, pois o Além da Muralha parecia inabitável demais.
— Grupos de pessoas, sim. Como eles não tem muito, os costumes são parecidos com os do Povo Livre, mas existem clãs com uma diversidade inacreditável.
O observou coçar a barba, concentrado em seus olhos enquanto falava de forma empolgada e detalhada sobre os lugares pelos quais passava. Vez em sempre, Sansa o interrompia para fazer uma pergunta ou outra e, com o passar das horas, a Festividade de Independência se tornava cada vez mais vazia, com os convidados rareando e a música tornando-se mais lenta, tanto quanto as pessoas que ainda restavam.
— Houve alguma dificuldade para conseguir... – Ela gesticulou com a taça de vinho à mão, procurando as palavras corretas. – Organizar seu novo povo?
— Acho que estaria mentindo se dissesse que não. Sempre surgem conflitos. – Sansa fez um ruído com a boca, como se concordasse, o que o fez sorrir. – Há jogos de poder, como em todos os lugares... Mas são em uma escala menor do aquela que conhecemos e também... Menos destrutiva.
— A vida em sociedade é complicada.
Comentou apoiando a cabeça contra o espaldar alto da cadeira de madeira. A essa altura, já se encontrava com as pernas cruzadas sob o vestido grosso de lã clara com pérolas inteiramente bordado com flores vermelhas, como uma criança empolgada ouvindo histórias da Velha Ama.
— Mas está equivocada em algo. – Ele estendeu a mão para delicadamente segurar seu pulso, sob a manga larga do vestido, acariciando com os dedos quentes mais ásperos que sua pele. – Não tenho um “novo povo”. Por mais que me distancie, os Stark de Winterfell sempre serão meu único povo. Posso me identificar com o Povo Livre, sua causa e seu modo de viver, mas Winterfell é de onde venho, meu lar mais antigo. Não importa onde eu vá, agora sei disso.
Sansa sentiu os olhos marejarem e virou a mão para encaixar seus dedos nos dele enquanto se inclinava para descansar sua cabeça contra os ombros largos. Sentia falta de ser mais daquela forma, menos como a Rainha, assim como sentia falta de Jon. Às vezes, se pegava pensando no que ele poderia estar fazendo naquele instante, onde poderia estar, se estava bem e, sempre, a ansiedade a alcançava até se transformar em um incômodo agoniado no peito.
— Queria que pudesse ficar aqui. – Murmurou apenas para que ele ouvisse, sentindo as mãos correrem por seu cabelo lentamente. – Como estão as coisas com a Patrulha?
Não gostaria de pensar no que as poucas pessoas ao redor poderiam achar da demonstração de carinho inesperada, por isso ficou ali, somente aspirando o cheiro de grama selvagem misturado ao de cerveja. Jon não parecia incomodado também com seu possível aroma de limão misturado a todo o vinho que bebera durante a festa, além da pouca atenção que recebiam naquele instante, uma vez que a maioria dos convidados já estava bêbada.
— Eles fazem vista grossa para a minha liberdade, eu volto de vez em quando com um relatório, todos ficam felizes. – Ele também murmurou, agora lentamente correndo os dedos pelo espaço de pele logo atrás de seu ouvido.
— E ainda continua a vestir o Negro que os representa. – Afastou-se levemente de forma calma para encará-lo por inteiro. – Sinto falta de vê-lo em trajes Stark.
— Eles ficam melhor em você do que em mim. – Relaxada, mirou o sorriso pequeno que acompanhava os lábios bem feitos enquanto analisava suas vestes. – Você fica bonita nessa cor. Combina com seus cabelos.
Ela sorriu em um agradecimento modesto, ajeitando os fios completamente soltos sob a coroa ao redor dos ombros. Estavam mais curtos do que quando jovens, mas ainda caíam em bonitas ondas até a metade de suas costas.
— Então... Em todas essas suas andanças para além da Muralha, encontrou outra mulher de cabelos vermelhos para entregar seu coração?
Sansa não conseguia evitar. Em algum momento das poucas estadias de Jon ao longo dos anos, tinha sempre de perguntar se ele encontrara alguém, se constituíra uma família, se dera continuidade ao nome deles longe dali, onde ninguém sequer faria questão. De acordo com o juramento da Patrulha, essa chance não era concedida a ele, mas, como explicara antes, ninguém fazia muita questão de mantê-lo na linha. E, embora sempre se mostrasse descontraída, seu coração se acelerava à espera da resposta.
— Não. – Ele rira e se levantara, lhe estendendo uma das mãos. – Você ainda é a única mulher de cabelos vermelhos em minha vida.
— Oh, quanta honra me concede assim!
Entrelaçou seu braço ao dele e seguiram em direção a torre principal, onde imediatamente se sentiu envolvida pelo calor das fontes termais abaixo do Castelo. Havia insistido que Jon ficasse em um dos quartos principais, como o membro da família que era, não com os demais patrulheiros e o Povo Livre. Queria sempre tê-lo por perto na única oportunidade do ano em que podia vê-lo e praticamente arrancar informações.
— Vai perceber que seu quarto está diferente.
Comentou levando-o a um dos aposentos mais distantes, onde ficava o quarto apertado e mal abastecido de sua infância, quando ainda era considerado o bastardo de Ned Stark. Durante seu breve reinado, Jon escolhera ficar em um dos outros quartos disponíveis concedendo a ela a suíte principal, que costumeiramente pertencia ao chefe da família.
— O que você fez? – Ele desconfiou e Sansa mordeu os lábios.
— Algumas ampliações e melhorias. – O outro continuou a somente encará-la, até que revirasse os olhos. – Vai considerar luxos desnecessários, mas...
— Você me conhece perfeitamente bem.
— Mas... – Ela o cortou, empolgadamente ignorando-o. – Fiz porque merece, porque gosto de recebê-lo aqui e... Acho que deve ter um lugar reservado e confortável sempre que estiver em Winterfell.
Finalmente chegaram à porta larga do aposento para onde o levava, um corredor antes da suíte principal, iluminado somente por archotes dispostos nas paredes, além da iluminação natural da lua, que adentrava por janelas de vidro recentemente instaladas por toda aquela torre, substituindo as antigas de madeira. Com uma das mãos na maçaneta, Jon a encarou por um momento com um olhar agradecido, quase surpreso.
— Obrigado, Sansa.
A ruiva sorriu e meneou a cabeça para que ele, finalmente, adentrasse o cômodo à frente dela. Estivera ali diversas vezes nos últimos dias, certificando-se de que tudo estaria perfeitamente arrumado. O quarto era tão amplo quanto o seu, pois mandara simplesmente quebrar as paredes do cômodo ao lado e torná-lo um só, a lareira de pedras reluzentes trazidas de Dorne fora reconstruída paralelamente à cama, grande e opulenta.
Talvez fosse o maior luxo que havia, juntamente com a própria cama de madeira maciça com dosséis de um tecido azul escuro em contraste com os lençóis completamente brancos, a qual ostentava uma cabeceira alta completamente lisa logo abaixo da grande janela de vidro transparente que tinha vista para o pátio interno central.
Havia também uma escrivaninha, devidamente abastecida; baús de madeira onde poderia guardar suas coisas; poltronas de couro cobertas por grandes peles negras e macias; e uma área mais afastada, com tapetes, um biombo e uma banheira espaçosa e muito pesada de cobre.
— Isso é... – Ele encarou tudo ao redor antes de se voltar a Sansa, que se postara próxima à porta com as mãos à frente do corpo. – Mais espaço do que preciso.
— Mas o agradou?
Insistiu, observando-o apertar os lábios para evitar um sorriso antes de fazer uma breve reverência, embora pudesse ver o divertimento tácito nos olhos escuros iluminados pelas velas espalhadas por todo a ambiente.
— Sim, Sua Majestade.
Jon se aproximou dos baús, onde estavam parte das poucas coisas que havia trazido, e retirou a capa negra de viagem, que ainda utilizava.
— Parece gostar de frisar que sou Rainha. – Comentou tranquilamente ao se aproximar, recebendo um olhar estranho enquanto o observava se desfazer da espada e da adaga afiada que carregava no lado oposto, das luvas penduras no cinto e do próprio cinto de couro sobre o gibão negro. – Está tentando lembrar a si mesmo ou a mim?
— Ambos.
Sansa respirou fundo e resolveu mudar de assunto, uma vez que Jon e ela alimentavam certa tendência a discordar com bastante facilidade e isso não mudara com o passar dos anos. Não gostaria de terminar uma noite, que fora bastante agradável, de forma que só pudesse vir a lidar com suas consequências dali um ano.
— Pretende partir antes do café da manhã? – Ele confirmou brevemente e precisou evitar morder a parte interna das bochechas em frustração. – Não vá antes que eu possa me despedir, então.
Deu as costas a ele sem esperar por concordância, como estava acostumada a fazer com todos ao seu redor, mas não pode chegar à porta, pois Jon a chamara novamente. Não a olhava diretamente naquele instante, tendo os olhos escuros sombreados pela pouca iluminação e perdidos em um ponto qualquer do chão de pedra, coberto por tapetes.
— Sinto muito por não poder ficar. – Ela o encarou com indignação por um momento, como se estivesse prestes a dizer tudo que guardara por todo aquele ano. Entretanto, por fim, soltara somente um pequeno sorriso amargo e ineficaz. – Sei que pareço estar lhe evitando...
— Não. – O interrompeu duramente. – Parece estar constantemente escolhendo todos os outros, porque Winterfell não precisa de você.
— É o que é, Sansa. Aquelas pessoas do outro lado da Muralha precisam de mim... – Ele aproximou-se dessa vez, aparentando contrariedade, mas também uma sinceridade dolorida. – Porque as do lado de cá já têm você para guiá-las.
Quanto a isso, não havia o que argumentar, uma vez que os próprios selvagens consideravam Jon seu líder, o colocaram há muito em uma posição de poder e responsabilidade justamente por suas qualidades. No entanto, Sansa não estava pensando em política quando, infantil e tolamente, desejava a presença de Jon em Winterfell.
Tentou respirar fundo para espantar as lágrimas dos olhos levemente marejados. A sensação do fraquejar lhe parecia estranha após tanto tempo se mantendo firmemente superior distante de emoções, mas era tão avassaladora que, ao abrir a boca, não conseguira dizer mais que murmúrio soluçado.
— Preciso de você também. Eu, não Winterfell.
To be Continued...
Fale com o autor