May The Crows Find You

1 I've got a war in my mind


Notas iniciais
no final.

Deixando para trás, no Grande Salão, todo o ruído que não fosse sua respiração gelada e o bater de seus pés contra a pedra maciça, caminhou pelos corredores vazios e gelados do castelo-fortaleza até chegar a um dos diversos pátios internos e ultrapassá-lo em direção ao portão de grades floreadas do Bosque-Sagrado. Ignorando o fato de estar fechado em um dia como aquele, Sansa o abriu e arrastou as botas pelo chão coberto de neve.

Os arbustos e folhagens estavam tão esbranquiçados quanto todo o resto do ambiente, em um reflexo do inverno rigoroso, que assolava o Norte naquele ano. A Vila de Inverno, fora dos muros de Winterfell, estava lotada há semanas devido às baixas temperaturas e não podia negar que gostava de todo aquele movimento.

Aquele lugar, contudo, se mostrava um completo santuário em silêncio e calmaria, mesmo para um dia de comemoração, quando diversos vassalos de todas as partes estavam no castelo. Ali, erguendo-se em perfeita sincronia com o lago e como se o todo não pudesse existir e resistir sem sua presença, a árvore-coração enchia o bosque com sua beleza de folhas vermelhas.

Como sempre, o Represeiro demonstrava perfeição e resistência quando tudo se escondia no inverno. O tronco crescia cheio de dobras e curvas devido a quantidade de anos que estava ali, mas ainda assim era lindo, embora o rosto esculpido a um de seus lados fosse completamente deteriorado. Sansa aprendera a valorizar os Deuses Antigos, em detrimento da Fé dos Sete, e agora podia entender o significado daquilo para além de julgar a aparência.

Além disso, podia entender como a Antiga Fé crescia onde havia espaço, assim como aquela árvore-coração no meio de Winterfell, pois passara a senti-la quando se deixara. Gostava de pensar que era aquele sentimento de ligação que a tornava próxima da devoção que uma vez seu pai sentira naquele lugar e, embora jamais pudesse saber, pois nunca se interessara em perguntar na época, o via refletido no homem sentado ao pé do Represeiro naquele momento, mãos juntas e cotovelos sobre os joelhos, enquanto os olhos encaravam a água quase que inteiramente congelada do lago à frente.

Sansa podia sentir a Antiga Fé em Jon, sendo Snow, Targaryen ou Stark. Ele nunca deixara de crer naquilo que Ned o ensinara e ela se sentia grata que ele honrasse a memória de seu pai daquela forma, uma vez que não podia fazê-lo com o afinco e a verdade necessários. Encarando-o sem reservas, notava, não pela primeira vez, como Jon se parecia com Ned sem sequer se esforçar. Havia nele a mesma face solene em cabelos e olhos negros e a mesma ânsia por honra em trejeitos Stark – embora não soubesse dizer se de Lyanna ou Ned.

Aproximou-se tranquilamente, juntando as mãos displicentemente sem luvas, enquanto o analisava de cima a abaixo. Jon não parecia se importar, de qualquer forma, pois estava muito mais focado na ondulação grossa pelo gelo das águas à sua frente. Ao contrário da admiração quanto à fé, detestava o modo como ele podia se fechar naquele lugar, como se voltasse a Winterfell apenas por isso.

— Você deveria estar lá dentro. – Inclinou-se um pouco para frente. – Comemorando, como todos os outros.

— Nunca foi uma comemoração para mim, você sabe.

A resposta veio calma e, em seguida, o viu abaixar os olhos para o chão, junto aos seus pés. Sansa respirou fundo e se sentou ao seu lado, praticamente imitando-o, suas roupas de inverno grossas e volumosas se sobressaindo no branco da neve e do trono da árvore-coração onde se sentavam.

— Em algum momento, terá que parar de remoer o que aconteceu e seguir em frente. – Sugeriu com cautela, novamente. Parecia um ritual deles, sempre que Jon atravessava a Muralha para o Sul e ia a Winterfell: ele estava sempre carregando suas feições culposas pelo destino que cravara para todos e Sansa se via no papel de tentar juntar seus pedaços. – Já faz tempo demais, Jon.

— Eu sei.

Ele sempre concordava, ela sempre suspirava em derrota, mas estava tão cansada desse caminho. Apesar de ser sua Rainha ali, não queria se sentir como uma mãe, que precisa dizer palavras consoladoras para o filho sempre que o mesmo se machuca. Não queria desempenhar um papel como esse na vida de Jon, pois precisava dele para juntar seus próprios pedaços quebrados.

Anos depois da tomada de Porto Real por Daenerys e da Independência do Norte, ainda tinha suas dores pessoais e seus momentos de temor. As feridas que Cersei, Joffrey e Ramsay Bolton deixaram nela também se encontravam ali em forma de angústia, ansiedade, insegurança. E, ao mesmo tempo em que queria que ninguém jamais conhecesse tudo isso nela, gostaria de poder compartilhá-las com alguém de confiança.

Nos últimos tempos, entretanto, Jon estava tão centrado em sua própria dor que via nela apenas a Rainha, que quisera e deveria ser. Torceu os dedos no próprio colo, nervosamente, e olhou o perfil forte do homem ao seu lado. A barba rala e os cabelos cortados rente à nuca, com a parte de cima caindo sobre a testa, muito diferentes dos compridos cachos, contrastavam imensamente com os olhos martirizados.

Ele já havia visto demais e feito demais por todos, pensou para justificar seu comportamento. Jon merecia alguma paz, um modo de viver que não fosse uma punição, tanto imposta por si mesmo quanto por terceiros. Assim, lentamente apoiou o braço no ombro esquerdo e levou os dedos ao rosto frio, passeando-os pela barba com calma. Jon não se importou, somente fechou os olhos em um suspiro cansado, apreciando a carícia.

— Sua barba já tem fios alguns fios brancos.

Murmurou distraidamente, vendo-o levantar o canto dos lábios em um sorriso pequeno antes de buscar a mão que estava em seu rosto e levá-la a boca para depositar um beijo casto ali.

— Onde estão suas luvas? – Apertou a mão dela contra o rosto novamente. – Seus dedos estão congelando.

— Gosto da sensação do frio se instalando em meus ossos, tornando a pele do meu rosto dormente e minha respiração fria. – Engoliu em seco, deitando a cabeça no ombro dele enquanto encaixava seus braços. – Aprendi a apreciar essas pequenas coisas nortenhas, depois de tudo.

— Ainda assim... Posso ver muito de suas heranças sulistas, da garota quase estrangeira que foi. – Jon entrelaçou seus dedos enluvados aos dela. – Se há calor em seu olhar... É porque você é verão demais para essas terras e essas pessoas. Não tem que tornar seus cabelos mais escuros em uma tentativa de se encaixar, Sansa, não deve se envergonhar pelo que é.

— As pessoas gostam de me ver encarnando o Norte. Em roupas, trejeitos, costumes. – Abaixou os olhos claros para o chão, respirando devagar. – Às vezes, sinto que não devo estar aqui, exercendo esse papel perante nortenhos até a última gota.

Jon suspirou pela declaração e apertou seus dedos antes se voltar a ela, analisando todo o seu rosto, dos cabelos mais escuros às feições finas de Catelyn Stark, enquanto fazia o mesmo de volta. Ele ficava mais e mais bonito a cada vez que voltava ali, com suas roupas completamente negras combinando perfeitamente com cabelos e barbas na mesma cor, contrastante com a pele clara marcada por algumas cicatrizes de batalha. Sansa gostava que Jon fosse mais nortenho do que qualquer homem que conhecia, não somente em costumes, mas também em honra. Não havia ninguém como ele.

— Sansa, você é o Norte, tanto quanto posso ver. Está em seu sangue, em sua forma de governar, em seu respeito por essas pessoas e pela honra da Casa Stark... Não é a aparência que define esse tipo de coisa, nem o fato de ainda amar tortinhas de limão. – Eles sorriram brevemente e o viu levar os dedos a seus cabelos ruivos, mais escuros que o normal, com um olhar pensativo. – Gosto dos seus cabelos como são.

— Obrigado. – Murmurou sentindo-o passear os dedos suavemente pelo desenho lateral de seu rosto. – É que... Tudo isso não será suficiente por muito mais tempo.

— O que quer dizer?

Sansa respirou fundo e ajeitou a postura, novamente a Rainha em detrimento da mulher, como demonstrava a coroa de ferro maciço e trançado, perfeitamente acomodada em sua cabeça. Jon a examinou de forma detida e ela percorreu o Bosque Sagrado com os olhos, buscando as palavras certas para um momento que não parecia muito adequado, mas teria de ser, pois não dispunha de mais tempo.

— A partir de certa idade, a fertilidade começa a abandonar as mulheres e eu já não sou mais uma garota. – Não conseguiu evitar o morder de lábios inseguro, ao passo que seus dedos brincavam nervosamente sobre suas pernas. – Não posso continuar a adiar o inevitável.

— Oh.

Ele não teve qualquer reação, senão desviar o olhar enquanto a ouvia com atenção.

— As cobranças e sussurros mal disfarçados acontecem há muito e, desde sempre, venho ignorando as sugestões dos Lordes e, depois, do Pequeno Conselho, mas... – Ela deu de ombros, repentinamente cansada por estar novamente discutindo um casamento político, com um propósito maior que qualquer sentimento. – O Meistre Liebman disse que não há mais tempo, as chances de conceber diminuem a cada volta de Lua...

— Por isso, toda aquela movimentação de Lorde Manderly. – Jon concluiu em um tom frio, encarando um ponto qualquer do Bosque.

— Nós conversamos mais cedo, antes do banquete. – Sansa meneou a cabeça, tentando manter o tom ameno. – Eles estão bastante interessados.

— É claro que estão. A Casa Manderly colocaria toda sua fortuna em jogo para dar sobrenome ao primeiro Rei do Norte independente. – Observou um sorriso amargo crescer lentamente nos lábios dele, assim como o silêncio entre ambos, pois essa era a verdade. – Está considerando isso a sério? Se casar com um dos patéticos herdeiros de Lorde Manderly?

Lentamente, Sansa se colocou de pé e respirou calmamente. Era um de seus costumes mais antigos manter a postura de dama sem qualquer esforço, mas com Jon ali sempre se mostrava mais difícil, pois tinha a impressão de que ele sempre a enxergava além dessa barreira que construíra em torno de si mesma, além da frieza que impunha em seus olhos claros ao encarar todos à sua volta.

— Uma aliança com Porto Branco é interessante para Winterfell. – Juntou as mãos atrás do corpo, sentindo o olhar dele queimando-a, mas evitando de maneira calculado. – Teremos controle de muito mais terras, tanto aqui quanto no Leste, além de uma fonte mais segura de suprimentos, uma vez que os portos deles seriam nossos portos. E também... É importante que a Casa Stark detenha mais controle sobre os centros de comércio do Reino. É muito mais do que outros Lordes podem oferecer.

— É também bastante boa vontade de Lorde Manderly ceder tanto em troca de você. – Ouviu o tom baixo a alfinetando e ela o encarou sentida.

— Não sou eu, Jon, é a Coroa que me acompanha.

Ele a fitou apertando os lábios por um momento, um reflexo de incredulidade brilhando nos olhos escuros antes de menear a cabeça ceticamente.

— Se, realmente, acredita nisso é uma tola. – Sansa cruzou os braços pelo breve ataque. – Olhe ao redor, Sansa, fez as pessoas a amarem. Elas têm curiosidade sobre você, vestem o que você veste, usam o mesmo penteado, as meninas se espelham no que faz e... Homens por todos os lados a desejam. A mulher, não a Rainha. Com essa aliança, Lorde Manderly pode comprar o trono, mas você é o prêmio principal.

Sansa se viu encolhendo a cada palavra, quase se sentindo novamente a garota que fora somente uma peça nos jogos de outras pessoas, vendida por um propósito maior. Não podia negar que viera adiando o momento de buscar por um casamento justamente para não adentrar uma espiral de interesses, os quais, no fim, acabavam machucando-a de uma forma ou de outra.

— Bem... – Subiu os ombros levemente, suspirando, mas se mantendo tão digna quanto podia. – Terei que lidar com isso, como já lidei com todas as outras coisas. Não há mais como postergar meu dever com o Norte e com a Casa Stark, certo?

— Há outras opções, Sansa. – Jon insistiu naquele tom desgosto. – Lordes que jamais serão tão pomposos e mimados como os Manderly podem ser. Não deveria encarar isso apenas como um dever... Irá afetar sua vida por inteiro, não somente os interesses do Reino. Não gostaria de um casamento como o de seus pais?

Dessa vez, foi a mulher que sorriu desgostosa pela sugestão. Jon estava tentando apelar para seu lado romântico, pois sabia que ficaria mexida com a memória de seus pais, de como eles aprenderam a se amar, ainda que estivessem juntos devido a um casamento arranjado, que sequer seria com Ned em primeiro lugar. Sansa gostava de acreditar que eles estavam destinados aquilo, um arranjo de amor, mas amadurecera o suficiente para saber que não deveria esperar por algo parecido.

— Sou crescida o suficiente para não alimentar esperanças de vivenciar algo do tipo com um desses Lordes, que desprezo e não confio. – Ela examinou as bordas largas e bordadas de uma das mangas de seu vestido grosso de inverno, aguardando o silêncio pesar entre eles, enquanto Jon absorvia suas palavras.

— Porquê está sendo tão dura consigo mesma?

— Porque preciso! Sei o que devo fazer, calculei todos os passos e ainda continuo hesitando porque você não...

Sansa se interrompeu e bufou em frustração, como há muito não acontecia. Todos a escutavam, pediam por sua opinião quando se mostrava indiferente, estavam prontos a obedecerem suas ordens e a um passo de realizar seus desejos mais estranhos... Exceto pelo homem à sua frente. Jon se esquivava e a evitava sempre que se fazia próxima demais e, então, a rejeitava em nome de sua culpa.

Era capaz de ver a resignação nos olhos escuros enquanto a encarava, entendendo exatamente onde queria chegar sem qualquer palavra e, finalmente, desviando-os em direção ao chão com um suspiro cansado, como se Sansa estivesse escolhendo todos os caminhos errados ao confrontá-lo, ao trazer à tona o que ele tanto tentava evitar.

Notas finais
Oi!! Meu primeiro experimento em uma fic de GOT e é justamente com Jon e Sansa, que surgiu muito do nada em minha mente e eu precisei parar tudo pra escrevê-lo (isso porque estava escrevendo uma completamente diferente nessa quarentena) pra matar a saudade. . Enfim, os acontecimentos serão baseados na série, mas desejo fortemente que a aliança de Jon e Sansa pra reconquistar o Norte realmente aconteça nos livros e quem sabe Georginho não possa desenvolver esses dois um pouco mais, já que eles não são irmãos né? . A história terá apenas 5 capítulos pelas minhas contas e estou escrevendo e postando pra animar tanto a vocês quanto a mim nessa quarentena, então deixem seus comentários sobre suas impressões pra gente falar a respeito desses dois! ;) É isso, até o próximo capitulo! ♥