Notas iniciais
O silêncio preencheu cada canto daquele salão quando Soren Duncan fez a sua proposta. Lyra Skoll segurava o braço do alaúde com tanta força que seus dedos estavam ficando brancos. Ela não conseguia focar os olhos em nada, muito menos em seu pretendente.
Já Heins Skoll não conseguia tirar os olhos dele. "Como é?"
"Estou pedindo a mão da sua filha." Soren não se importou de repetir, tão alto quanto da primeira vez.
A situação era delicada. Como filha de um lenhador, um pedido feito por um caçador poderia ser facilmente negado. No entanto, Soren não era apenas um caçador, mas sim um Guardião. E isso mudava as coisas de figura. Eles eram os pilares de toda a sociedade do Vale, de forma que recusar uma proposta dessas seria desonroso para a família.
Heins Skoll pensou, e pensou mais um pouco. Todos aguardavam uma resposta, ou mesmo uma atitude, mas ele não conseguia se concentrar. Havia muito em jogo ali.
Sentindo a pressão nos ombros de seu irmão, Sven Lumberjack se levantou. O homem era a personificação de poder quando tomava a palavra. "Soren Duncan, eu suponho que a menina Skoll tenha algo a dizer sobre sua proposta. Por que não a leva em casa esta noite e deixe que ela decida?"
Alguns amigos do Guardião riram baixinho. "Estou pedindo autorização do pai dela. Não é o bastante?"
"Oh, na verdade, não." Sven Lumberjack sorriu sarcástico. "Filhas únicas não são fardos a serem despachados logo. Elas não custam tão caro, e são ótimas companhias. Digo por experiência própria."
"Imagino que isso seja a palavra final." Soren comentou, olhando esperançoso na direção do dono da Taberna.
"Quem sou eu para impedir minha filha de tal honra. Se for o que ela quer, então venha pela manhã e terá minha benção."
Soren Duncan olhou uma última vez para Lyra Skoll, para então sentar-se de novo. Só de olhá-lo, Matthew Days era capaz de dizer que o homem estava insatisfeito com o desenrolar das coisas. Se perguntou o porquê daquele pedido.
"Filhos ruivos e arrogantes." Uma voz cochichou ao seu ouvido.
Lars, amigo de infância de Matthew, ocupou o banco ao seu lado. Ele acenou para o pai de Matthew, para então retomar seu discurso venenoso. "Imagino o que Soren Duncan está planejando. Voltar da Caçada com outro transmorfo de grande porte, e dar o maior casamento do ano, para que a porcaria do Vale comente sua existência pela eternidade."
"Está com inveja?" Matthew divertiu-se.
"Não consigo pensar num homem que não esteja."
Matthew Days tinha ciência de que Lyra era uma garota atraente. Era até bem educada, mas suas opiniões por ela paravam por ai. Ele não gostava de fantasiar sobre meninas com as quais não tinha chance alguma. E Lyra Skoll era uma delas.
Mas, aparentemente, o restante dos rapazes da sua idade gostava de se decepcionar com expectativas. Lars incluso. "Esse idiota ganhou o troféu do ano, e agora vamos vê-lo exibindo-o pelo restante de nossas vidas. Sem falar que isso elimina uma das minhas melhores opções."
"Lars, acho que você não entende. Ela não era uma opção, sabe."
"Você não pode achar que pessoas de belezas semelhantes devem se relacionar, isso é totalmente errado."
Matthew até formulou uma resposta, ele realmente o fez, mas algo em sua garganta parecia errado. Como se ela estivesse se fechando. Com as mãos segurou o próprio pescoço, e, quando a sensação finalmente passou, ele ouviu pela primeira vez naquela noite.
Uma voz ao longe, sussurrando pelos ventos. Chamando seu nome.
"Matt? Tá me ouvindo?"
"Filho, você está suando muito."
Seus olhos focaram em seu pai. "Acho que estou com febre." Era o mais sensato a dizer. Omitiu a parte da voz vinda do além, pois achou irrelevante. Provavelmente era o delírio causado pela própria condição.
[...]
Mais tarde naquela noite, muita coisa aconteceu. Soren Duncan cumpriu seu papel, e acompanhou Lyra Skoll de volta para sua casa. A moça sentada no cavalo negro da família, e o rapaz guiando-o pelas rédeas, a uns passos de distância.
Não se falavam, pelo menos não ainda. Mas Lyra detestava o silêncio, portanto foi quem o quebrou. "Que arma vai levar para a Caçada este ano?"
Embora sua curiosidade fosse genuína, a pergunta não escapou da impressão de constrangimento.
"Achei que fosse segredo." Soren comentou, sem olhá-la ou mesmo virar o corpo.
"Ah, me conte, por favor!" Ela riu, sentindo-se mais interessada no assunto. "Se está me pedindo em casamento, deve ter um preço." Seu tom era divertido.
Soren parou, e olhou-a por cima dos ombros. "O preço de sua mão é uma fofoca? Inacreditável. Não sabia que a honra de uma mulher podia valer tão pouco."
Lyra o estudou brevemente. A forma como os lábios estavam contraídos indicava que ele estava prestes a rir, embora não de deboche. Sua análise geral era de que talvez ele fosse apenas irônico, e não rude.
"Não uma fofoca, Soren Duncan, mas um segredo."
O Guardião se virou para ela desta vez. Completamente. Como se finalmente ela tivesse se mostrado digna de sua atenção interina. "Há consequências na sua escolha. Se me aceitar, terá de lidar com a Caçada. Não há uma Irmandade entre os meus. Somos solitários, e terá uma vida solitária nas temporadas de caça, também."
Lyra Skoll o encarou. "Por que tão de repente? Aliás, por que?"
O dúvida não era com relação ao comentário anterior dele, e sim com relação à proposta em si. Para Lyra era como uma visão distante de sua realidade. Num dia, Soren Duncan era o herói de seu povo. Um caçador mais próximo de uma lenda do que de um homem. E, numa noite, seu futuro noivo.
"Você é uma garota esperta, Lyra. Então me diga você. Não faça perguntas cujas respostas já sabe. Isso é tão irritante. O que quer que eu diga para que aceite? Não vou implorar, e nem prometer nada. Ofereço minha parte, e cabe a você aceitá-la ou não."
Lyra refletiu. Ela de fato sabia os motivos dele. Ela era bonita, jovem, e ele estava na idade de se casar. Muitos jovens já haviam competido por Lyra, de forma que ela conquistou seu pedestal ao longo da adolescência. Mas o pedestal de Soren era de outro patamar, de modo que negá-lo seria estupidez.
"Você só me disse o que eu perco estando com você. Mas o que eu ganho?"
E agora, sim, os dois estavam falando a mesma língua. A única que Soren Duncan entendia.
"Uma boa casa, comida, status social. Quando a Caçada for boa, pode ter o que quiser. Tampouco a proibirei de visitar seus pais. Se não quiser ser doméstica, outros podem fazer o seu papel, não me importo. Só não me cause problemas, nem irritações, e teremos uma vida de paz."
"Parece justo." Ela disse, depois de um tempo. "Venha pela manhã, e meu pai lhe concederá sua benção. Você já tem minha resposta."
Soren assentiu, entregando as rédeas para Lyra. "Uma boa noite, Lyra. A vejo pela manhã."
"Ah" Antes que ele pudesse ir, ela o chamou outra vez, lembrando-se de algo "a arma. Você não disse qual escolheria este ano."
O Guardião revirou os olhos, já se afastando. Suas costas exibindo a cabeça de tigre, que camuflava tão bem nos cabelos que o homem quase se parecia com uma fera. "Uma besta, acho."
Lyra Skoll o assistiu sumir na escuridão, ciente de que quando acordasse no dia seguinte, tudo seria diferente. Em parte porque seria.
[...]
Naquela mesma noite, Matthew Days se revirava em sua cama, o colchão molhado de tanto suor. Não tinha mais forças para se erguer e tomar um banho, de forma que apenas aceitou sua sentença e contorceu-se pelo que pareceu durarem horas.
A maldita voz chamando-o de longe. Num sussurro quase inaudível.
"Matt, você quer um copo d'água?" Kaiser, seu irmão mais novo, estava preocupado. "Posso pedir para a mamãe trocar o pano em sua testa, também."
Sua garganta estava muito seca para falar. No entanto, também não tinha sede.
Kaiser o espiou mais um pouco pela fresta da porta, para então fechá-la e retornar para o seu próprio quarto. Matthew podia ouvi-lo perfeitamente, rangendo o assoalho. Na realidade, ele podia ouvir tudo ao seu redor.
Inclusive o chamado.
Seu corpo estava em chamas agora. Se continuasse deitado ali, ele sabia que morreria sufocado. Ou cozinharia de dentro pra fora. Precisava de qualquer jeito sair, mas desconfiava que a diferença de temperatura com o lado de fora talvez o causasse um choque térmico.
Se saísse pela porta, o piso de madeira o denunciaria.
Com o que lhe restava de forças, Matthew segurou-se nas bordas da cama, e fez um esforço descomunal para erguer o corpo. Seu quarto era tão minúsculo que só de esticar o braço conseguiria alcançar a janela, então tratou de abri-la nas duas bandas.
O vento gélido invadiu o quarto, o aliviando de uma forma indescritível. Foi prova suficiente de que apenas se saísse desse cômodo teria chances de sobreviver. E, com isso em mente, Matthew Days pôs as pernas para fora da cama, e levantou-se.
Pular a janela foi a parte mais fácil. Morava numa casa modesta, de um andar apenas, de forma que foi tranquilo passar suas pernas pelo vão e chegar ao quintal. A grama já estava crescendo de novo, dando uma aparência de mato ao terreno. Perto da cerca algumas toras jaziam espalhadas pelo chão, com um machado fincado numa delas. Kaiser provavelmente o esquecera ali. Era típico dele.
Abraçando o próprio corpo pouco coberto, Matthew caminhou com seus pés descalços pela grama. Ele odiava o escuro, mas parecia sua única opção senão queimar de dentro pra fora no quarto.
"Ei, irmão."
Matthew quase caiu duro no chão, virando o rosto para ver Sven Lumberjack do outro lado da cerca, fazendo um sinal mudo de silêncio.
"Sven" Matthew foi até mais próximo do homem. "O que houve?"
"Seu pai ainda está de pé?"
"Não. Ele e minha mãe já se recolheram. Estou só."
"Pesadelos?"
"Quase isso. Está mais para alucinação."
"Ótimo. Então está preparado para ouvir o que eu tenho a dizer. Há uma conspiração na Irmandade. Você como parte, ouviu tantos rumores quanto eu. Metade de nós questiona a maneira como lidero. Não os culparia por isso mesmo que quisesse."
"São apenas boatos." Matthew afirmou.
Sven o olhou com compaixão. Quase beirando a pena. "Kenna disse o mesmo. Criatura extraordinária, ela. Posso tentar dizer a ela a verdade por cem vezes, e ela ainda assim se recusaria a acreditar. Um dia ela vai te perdoar, Matthew."
"Senhor, não entendo o que está dizendo."
"Não importa. O Tanz Mit Mir deve ser encontrado por quem for digno de tal. Deixe que Kenna o tente, já cuidei para que ela o encontre quando a hora chegar. Você, Matthew, também pode tentá-lo. Que vença o melhor, pois os deuses sabem que confio em ambos. O que estou prestes a te mostrar, vai te obrigar a me matar. Não hesite em fazê-lo."
Por um momento, Matthew achou que as alucinações o tivessem consumido. De fato o choque térmico o fizera delirar e, agora, ele estava vendo Sven Lumberjack dizer coisas sem sentido algum à sua frente, mas aquilo não era real.
Não podia ser.
"Você entendeu alguma palavra do que eu disse, filho?" Sven quase riu. Um som estrangulou em sua garganta.
Matthew sacudiu a cabeça em negativa. "O senhor, se não é uma alucinação, como eu acho que é, enlouqueceu totalmente."
"As coisas aqui tem que mudar, Matthew Days. Está tudo errado. Para isso, o que nunca aconteceu antes terá de acontecer."
As coisas só pioraram para Matthew quando Sven Lumberjack, sem dizer nada, simplesmente tomou outra forma. Seu corpo se modificou tão rápido que Matthew não foi capaz de acompanhar a mudança. Num momento, era o líder que conhecia e, no outro, um veado de galhada imensa.
Um Transmorfo.
"Você é um deles."
O chamado ao longe ficou mais alto. Gritando por ele. Agora ele era capaz de ver que vinha da floresta, a Floresta Proibida. Um território além da compreensão do Vale.
As regras eram claras. Qualquer um que visse um Transmorfo teria de avisar aos Guardiões. Mas Matthew Days estava sozinho, e, além de tudo, aquele era o líder de sua Irmandade. Um traidor de sua própria espécie, mas também o homem que sempre o tratou com tanto respeito. Um grande amigo de seu pai.
O veado passou a correr em direção à floresta. E só o que Matthew conseguiu fazer foi pegar seu machado e acompanhá-lo.
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