Notas iniciais
Uma boa leitura aos interessados!

Com um machado em uma das mãos, e os pés descalços correndo na grama ainda molhada pela neve, Matthew Days teve certeza de que estava alucinando. Ele basicamente estava só com sua calça de pijama, febril, correndo atrás de um cervo imenso que cada vez mais o guiava adentro na Floresta Proibida.

Sua mente, buscando um pensamento racional para se segurar, imaginou que tudo aquilo não passava de alguma brincadeira de mau gosto do festival. Logo Sven apareceria rindo, e também os outros lenhadores, e ele estaria livre para ir pra casa.

Seu coração, em contrapartida, sentia que estava fazendo parte de algo grande.

Matthew sabia onde estavam. Era uma das trilhas mais rasas da Floresta, mapeada tantas outras vezes. Era por onde traziam a madeira com as carroças, a rota com menos animais. Imaginou, portanto, que aquele cervo era, sem dúvida, Sven Lumberjack.

O que eliminava a solução lógica de sua mente.

A perseguição se estendeu até que alcançassem a clareira. Era lá onde os Lenhadores montavam acampamento. Ali cortavam as árvores em pedaços menores, e retiravam os galhos dos troncos. Era um lugar assustador durante a noite, e sem a enorme fogueira que sempre o iluminava.

O veado parou. Sua galhada era tão imensa que Matthew imaginou que poderia matá-lo caso levasse uma chifrada. Virou-se para ele de forma tão animal, que por um momento o jovem Days se perguntou se aquele era realmente o seu líder. Mas, seja dito de passagem, a pelagem dorsal do animal era da mesma cor que o cabelo de Sven. E os seus olhos, pretos, lembravam os dele. Olhos tão profundos que seria impossível mentir para um Lumberjack.

E então o veado avançou.

[...]

Soren Duncan finalmente retornava ao seu lar esta noite. Com as mãos enfiadas nos bolsos do casaco de pele, ele mantinha o pensamento longe, na jovem a quem propôs um pouco mais cedo. Se perguntava se tinha tomado uma decisão certa, ou apenas precipitada.

Não saberia diferenciar.

"Este ano," O homem ao seu lado iniciou, com a voz embargada devido ao álcool "será diferente dos outros, você vai ver."

"Ah, é?"

Brandon era um Guardião, assim como Soren. Ele tinha mais caçadas em sua conta do que qualquer outro, de forma que sua palavra era mais valiosa do que a de Soren. Mesmo que, em dez anos de Caçada, o homem jamais tivesse matado um transmorfo de grande porte.

"Quando se tem alguém pra quem voltar, fica mais fácil retornar. É um incentivo a mais."

"Quando me aconselhou a me casar, fiquei com uma dúvida apenas. Seu objetivo era de que o casamento tornasse a Caçada menos assustadora? Porque, se foi por isso, sinto muito em desapontá-lo, Brandon. Eu gosto da Caçada."

"Oh, eu sei bem disso. Mas você não gosta de retornar dela. Não gosta de voltar pra casa e não ter ninguém para dividir o que viu ou o que passou. Você é solitário, Soren Duncan, mas teme a solidão. Um casamento vai preencher sua casa. Com o tempo, talvez o preencha. E, se tudo der certo, talvez comece a preferir o resto do ano à essa uma semana."

Soren duvidava muito disso, mas não se deu ao trabalho de contestar o homem. Tinha muito respeito pelo mesmo, de forma que o melhor era apenas ouvi-lo. O que não significava concordar com ele.

Seguindo a pé pela estrada de terra, os dois Guardiões chegaram à bifurcação. A casa de Soren era mais próxima do começo da montanha, inclinada e fria. Os ventos dali eram gélidos e intensos, de maneira que o telhado as vezes cantava durante as noites.

A canção da montanha não o deixava dormir nunca.

"Boa noite, jovem Soren. O vejo amanhã no-"

Brandon olhou na direção da floresta, suas palavras se perdendo no ar. Foi tão de súbito que Soren o encarou com certa preocupação. "Ouviu alguma coisa?"

Ele fez um sinal de silêncio, o indicador nos lábios.

Soren seguiu seu olhar. A Floresta balançava em sincronia com o vento, como uma dança ritmada, embora muito lenta. Nada de anormal, visualmente falando. Até que ele sentiu. Em seu peito, uma sensação de ardência. Seu corpo estava de repente acendendo de dentro pra fora. Como se algo estivesse acordando dentro de si.

Uma gota de suor cortou sua testa, escorrendo até as sobrancelhas ruivas. Soren não tinha percebido que suava. "Está acontecendo."

E ouviram, ao longe, Des Knaben Wunderhorn.

Aquele era o chamado. O mesmo que um dia chamou por todos eles, unindo-os com o mesmo objetivo. Por um propósito maior. A Floresta não cometia erros. Dez dias para a Caçada, e teriam um novo Guardião. Era inconcebível.

Soren Duncan cobriu a cabeça com seu eterno tigre siberiano, e apenas correu, com Brandon em seu encalço. Dali em diante, a Floresta os guiaria até o novo escolhido.

[...]

Quanto mais homens chegavam à clareira, mais confuso Matthew Days ficava. Seu corpo estava gelado, e ele se mantinha no chão, deitado de costas. Os olhos no que deveria ser o céu, mas era apenas uma imensidão de copas de árvores.

Todos os homens pareciam tão confusos quanto ele, de forma que quando ergueu o braço apenas para limpar o rosto do sangue, eles se afastaram um passo.

"Você é Matthew Days, não é? O filho mais velho de Owen Days?"

Matthew pensou um pouco. Olhou o sangue em suas mãos, ciente de que não era seu, e então encarou o homem que o havia questionado. "Sim."

Um murmúrio se iniciou na clareira. Os homens trocaram olhares que tinham muitos significados. Desconfiança, surpresa, descrença. Matthew ainda não entendia o que estava acontecendo, e na realidade nem eles.

Estavam presenciando o impossível.

"Então seu pai é lenhador? Filho de lenhadores? Sua mãe também?"

"Que inferno, Evan, já entendemos que ele é um maldito lenhador. A dúvida é que, considerando isso, o que diabos estamos fazendo aqui?!"

Matthew não sabia se devia dizer alguma coisa, ou ao menos levantar. Se fosse honesto consigo mesmo, continuaria ali, esperando alguém explicar alguma coisa, mas ninguém naquela clareira parecia muito esclarecido.

"Abram passagem."

Essa voz era familiar para o lenhador. Com o semblante sempre pesado, Soren Duncan atravessou a roda de seus companheiros, e olhou para Matthew Days como quem vê uma aberração.

Embora nunca tivessem se falado, o Vale do Urso era um lugar pequeno, uma das menores ilhas das Ilhas do Sul, de forma que todos ali conheciam uns aos outros. Mesmo que não fossem próximos.

"Eu teria compaixão por qualquer um que fosse escolhido tão perto da Caçada deste ano. Mas, de você, eu tenho pena."

"Soren, não incentive o menino ainda." E o próximo rosto que entrou em seu campo de visão foi o de Brandon Hal. Um homem já próximo dos quarenta, cujos olhos eram azuis claríssimos mesmo na penumbra. "É o mais velho dos Days, estou certo?"

"Matthew." Achou sensato lembrá-lo.

"O animal que você matou, filho, era um transmorfo. Sabia disso?"

Matthew não era retardado, ou ao menos nunca lhe disseram que o fosse. Ele sabia responder as pessoas sem um intervalo tão grande de tempo. No entanto, à essa altura da noite, ele precisava pensar mesmo sobre coisas muito simples.

Recordou do momento em que Sven Lumberjack se transformou bem diante de seus olhos, ainda em sua propriedade. "Sim, sabia."

Soren Duncan parecia esfaqueá-lo com os olhos.

"Bom, filho, muito bom. Estava se sentindo diferente essa noite?"

"Diferente?" Matthew repetiu, sacudindo a cabeça em negativa. "Eu não... na verdade, estava doente. Muita febre, meu corpo estava queimando. Tive que sair pela janela, e o ar frio... acho que me fez ter alucinações. Achei que estivesse tendo uma quando vim até aqui, o perseguindo."

"Como o matou?" Soren praticamente cuspiu a pergunta. Matthew olhou para ele, nervoso.

"Ele não precisa responder isso agora, não é, Soren?" Havia uma certa impaciência por trás das palavras de Brandon, como se ele não estivesse gostando da atitude de Soren. Talvez porque não estivesse. "Nós sentimos esse mesmo queimar que você sentiu. Não é realmente uma febre, é só uma reação do corpo. Se o chamado por si só não é alto o bastante, então há outros meios de nos chamar a atenção. Você não teria como saber..."

Matthew estava cada vez mais confuso com aquela conversa. "Por que vocês todos vieram aqui?"

"Porque também nos chamaram. Para te receber, digo."

Ah. A compreensão atingiu a cabeça de Matthew como uma flecha, direto no alvo. Eles estavam, erroneamente, deduzindo que ele fosse um Guardião. O que era impossível por diversos motivos. Primeiro, ele era um lenhador. Segundo, matar um transmorfo não era o seu objetivo quando saiu de casa naquela noite.

Não tinha nada a ver com sua natureza de caça. Até porque, ela era inexistente.

"Isso é um engano, Sr. Brandon." Um ou dois homens riram com a formalidade. Matthew fingiu não ter se alterado. "Eu... não sou Guardião. Isso tudo foi um maldito engano. Eu nem devia ter saído de casa esta noite."

"É, você não devia, Days." Soren Duncan tomou a palavra, interrompendo Brandon. No reflexo de seus olhos Matthew viu apenas raiva. "Mas você o fez, não fez? E ai acabou fazendo o que já estava predestinado para acontecer. A Floresta não comete erros. Não pode fugir do que você é. É um lenhador, e agora também um Guardião. O primeiro, suponho."

"E esperamos que o último." O tal Evan acrescentou, fazendo outros rirem.

O único que parecia minimamente solidário com a situação de Matthew era Brandon Hal. Para a sua sorte, já que aquele homem era o mais respeitado e influente dos Guardiões. "Contarei tudo o que precisa saber, e imagino que seja tudo. Duvido muito que os filhos de lenhadores sejam preparados como os nossos são..."

"Vá buscar a galhada dele, Matthew Days. Antes que alguém pegue o seu troféu." Foi o único conselho de Soren Duncan, pouco antes de abandonar a roda e sumir na trilha por onde veio. Os outros Guardiões o seguiram pouco a pouco, trocando olhares com Brandon primeiro.

Não foi difícil para Matthew deduzir que, dali em diante, os caçadores teriam uma certa implicância com ele. Os lenhadores tampouco o receberiam com uma chuva de arroz. Era quase como uma traição.

"A Floresta trabalha por meios misteriosos." Brandon comentou, estendendo a mão para que o jovem lenhador pudesse se erguer. "Soren tem razão. É melhor pegar a sua galhada."

Matthew Days engoliu o seu segredo em seco. Ele não queria arrancar a galhada de Sven Lumberjack da cabeça dele. Aquilo seria extremamente desrespeitoso.

Com a ajuda de Brandon, se pôs de pé outra vez. Pensando se teria de carregar aquela morte consigo, ou passar a notícia adiante. Sven Lumberjack disse várias coisas, nenhuma delas útil ou lógica o suficiente.

"Não conte o que houve nessa clareira aos seus... irmãos." Brandon aconselhou. "Pela manhã me encontre no mercado. Temos muito o que conversar, Matthew Days."

Matthew seguiu ambos os conselhos.

Quanto ao corpo de Sven Lumberjack, esse teria de esperar. O Days foi até o estábulo de sua casa, para pegar uma pá e um facão, e retornou à clareira naquela noite. Para enterrá-lo com dignidade, e retirar a maldita galhada de sua cabeça.

Mas o veado morto não estava mais lá.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.