Notas iniciais
O Vale do Urso podia até ser isolado das demais Ilhas do Sul, mas o adjetivo pacato certamente não descreveria o local. Habitado por lendas e tradições em dias normais, na época de fim de ano não havia de ser muito diferente. Na realidade, era o extremo oposto disso.
Pai e filho, herdeiros da família Days, se encontravam agora na Taberna do Vale, dividindo um prato de costela que estava sujando todos os dedos de Matthew de gordura. Ele até tentou limpá-los discretamente na calça, mas seu pai o pegou no meio do ato. "Eu estou vendo."
"Você faz o mesmo."
Era verdade. Seu pai sorriu pelo canto da boca, e logo em seguida o limpou com as costas da mão. O pai de Matthew não era muito parecido com ele, mas com a barba longa e cheia seus traços diferentes passavam despercebidos. Desviando a atenção para o dono da Taberna, seu pai reparou que o homem limpava o balcão com cara de poucos amigos. "Problemas, irmão?"
Heins Skoll, em outros tempos, havia sido um lenhador. Assim como todos os homens da família Days. Eram parte de uma Irmandade, e por isso chamavam uns aos outros dessa forma.
Durante um acidente de trabalho há uns anos atrás, Heins perdera a mão numa briga com um urso, e por isso sua mulher e as circunstâncias o forçaram a se retirar do antigo ofício. Abriu uma Taberna com o dinheiro que juntara ao longo dos anos, e agora todo lenhador tinha mais do que obrigação de beber ali. Era o ponto de encontro dos homens do Vale. Até mesmo dos Caçadores. Mesmo que Heins não tivesse muita simpatia pelos mesmos.
"Eles" Gesticulou na direção do grupo sentado numa das mesas ao centro do estabelecimento. "Não gosto da atitude deles, muito menos de servi-lo. Mas dinheiro é dinheiro, não importa se você é um babaca."
Lenhadores e Caçadores se tornaram rivais desde o momento em que passaram a coexistir. Tudo relacionado com o estilo de vida de ambos, muito diferente por sinal. Se os Lenhadores tiravam da Floresta apenas o necessário para sobreviver, os Caçadores faziam o que o nome implica. Caçavam o resto.
Caçadores normais venderiam peles ao porto, quando barcos das outras Ilhas zarpassem, e as carnes na feira de domingo. Mas havia outro tipo de Caçador. Os escolhidos pelos deuses, nomeados Guardiões.
Esses caçavam Transmorfos.
Nessa época de fim do inverno, quando os ursos já estavam próximos de acordar, porém fracos demais para causar danos, era a época na qual os Transmorfos mais se relaxavam, pois estavam famintos. O inverno no Vale do Urso era impetuoso para todos.
Nesse ponto, a dez dias da Caçada, era comum ver Guardiões frequentando a Taberna. Apesar de Caçadores fazerem mais o tipo solitário, durante essa época eles interagiam bastante, de forma que Heins Skoll tinham de aturá-los com maior regularidade.
"É só até a Caçada." Lembrou Matthew.
Por um buraco no teto da Taberna um passarinho passou com facilidade, assoviando animado para anunciar sua presença. Pai e filho Days olharam na direção do belo Chapim-Azul, planando no ar até pousar atrás do balcão, escondido de suas vistas.
Menos de um segundo depois e uma menina ocupou o seu lugar. Algumas penas esvoaçando ao seu redor. Na casa dos dez, onze anos no máximo, ela cobria os cabelos com uma toca azul, e sorriu falsamente na direção de Heins Skoll.
"Mensagem da Sra Skoll, Sr Heins." Ela anunciou, com uma voz melodiosa. Seus olhinhos puxados piscaram em curiosidade.
Heins passou um pano pelo balcão, assentindo com a cabeça para que ela prosseguisse. "Ela diz que está se sentindo indisposta, e que não deve aparecer hoje para ajudá-lo. Também mandou avisar que sua filha está a caminho, porém atrasada. Srta Skoll precisou de mais tempo para se arrumar, e virá à cavalo. Ah, e ela pediu que me deixasse beber um pouco de água, também."
Heins cerrou os olhos na direção da mensageira. "Imagino que pediu. Pode beber do lavabo nos fundos, mas não ouse me pedir um copo. Vá, não há nada mais para ser dito."
E, com isso, a menina sumiu, para então dar lugar ao adorável passarinho que se esgueirou mais uma vez pelo buraco do teto. Matthew a assistiu em sua trajetória com certa curiosidade. Ele gostaria muito de ter um mensageiro, mas estes eram caros demais para sua família bancar. Em casa, eles apenas tinham um cão guia. O Cão já estava ficando velho, mas ele sabia orientar seu pai pela floresta muito bem. Matthew algumas vezes havia se dado ao luxo de conversar com o homem em sua forma humana, mas era sempre repreendido depois.
Se um Guardião visse um humano interagindo mais que o necessário com um Transmorfo, isso certamente acabaria em confusão.
A Taberna continuou enchendo. As mesas agora estavam todas ocupadas, poucas cadeiras vazias no salão. Mesmo o bar estava abarrotado de homens em maioria, e seria — quase — impossível conseguir um lugar, que dirá dois. No entanto, quando Sven Lumberjack chutou a porta de entrada com um divertimento nos olhos que lhe era familiar, e todos os rostos se viraram em sua direção, era fácil dizer que surgiriam cadeiras para ele.
Passou pela porta, revelando assim a figura feminina atrás de si, sua única filha. Kenna Lumberjack se parecia e muito com o pai, diferente de Matthew Days. Os dois Lumberjack tinham cabelos castanhos, olhos escuros e intensos.
Quando Sven se virou na direção do bar, para cumprimentar Heins Skoll, o Tanz Mit Mir brilhou em suas costas. Aquele era o machado mais desejado do Vale, e o mais famoso das Ilhas do Sul. Lendas e canções contavam que havia sido forjado pelos deuses e encontrado numa caverna na Floresta Proibida.
O primeiro a achá-lo, e rezavam as lendas que ele devia querer ser encontrado, foi um Lumberjack. O primeiro de seu nome, que fundou a Irmandade dos lenhadores, e a liderou de forma tão justa e sábia que todos os seus descendentes o imitaram.
Isso até Sven.
Era de conhecimento geral que Tanz Mit Mir tinha seu peso. Quase como um tesouro do dragão, carregar a arma vinha com uma maldição. Nenhum Lumberjack fez questão de contar o que era, mas todos sabiam que havia algo sobre aquele machado. Algo místico.
Sven e Kenna, como esperado, logo ocuparam duas cadeiras de frente para o improvisado palco da Taberna. Ali às sextas-feiras acontecia uma pequena apresentação, que de uns tempos para cá vinha sendo protagonizada por Lyra Skoll.
Não era para menos. A voz da menina era inacreditável, "harmoniosa como o inferno", de acordo com seu pai. No melhor dos sentidos. Para Heins ver sua filha cantando era maravilhoso, de forma que ele nem se importava em lhe dar alguns trocados como faria para um bardo comum.
Dentro de mais alguns minutos, o prato de Matthew Days já estava vazio. Ele agora bebia um bom gole da cerveja amarga da casa, que não agradava em nada o seu paladar. Os lenhadores sabiam apreciar uma boa cerveja, mas Matthew nunca fez o tipo beberrão. Seria o primeiro a cair de cara com mais de duas canecas, e o último a levantar na manhã seguinte.
Heins Skoll já gritava com sua garçonete de seios fartos quando um cavalo relinchou do lado de fora. Seu rosto logo se iluminou, e parecia que cada homem ali havia virado o rosto para ver Lyra Skoll entrando pela porta.
Ninguém poderia culpá-los. Afinal, a menina era um deslumbre. Com os cabelos ruivos como a ferrugem, e olhos de um castanho tão claro que quase parecia ser da cor dos cabelos, ela era, acima de tudo, bonita. Não que ser uma ruiva no Vale do Urso fosse algo muito excêntrico. Na realidade, ruivos nas Ilhas do Sul eram comuns até demais.
Ela caminhou graciosamente até o pai, no bar. As pernas longas cobertas pelo vestido de cor bem clara e tecido leve. A roupa, no entanto, exibia seus braços e ombros pálidos. Mesmo com o frio, ela afirmava detestar tocar com mangas compridas, pois estas travavam seus braços no alaúde.
Beijou a testa de Heins, e os fregueses o viram sorrir pela primeira vez esta noite. "Me desculpe pelo atraso, papai."
"Está tudo bem, criança. No mais, podia ao menos ter vindo com mais roupa. O inverno ainda não se foi, e duvido muito que esteja com calor."
Ela revirou os olhos em impaciência. "Não seja tão careta. Garanto que posso fazer muito pior."
Matthew Days tinha dificuldade de se concentrar na própria cerveja, um pouco distraído pela conversa dos Skoll. Ele achava engraçado um homem tão ranzinza quanto Heins se derreter perto da filha. A única filha. Ela frequentava a Taberna bastante, ajudando com o serviço. O que não incluía limpar as mesas, muito menos os banheiros.
Depois de ajeitar as cordas de seu instrumento, Lyra Skoll finalmente se direcionou ao palco. As tábuas rangeram quando ela se posicionou no banco ao centro do estrado, cruzando as pernas e pondo o alaúde sobre o colo. Os dedos tocando suavemente nas cordas.
O silêncio preencheu o lugar, e ela não fez nenhum discurso inicial. Apenas tocou as primeiras notas, e começou a canção.
"Halò, a h-uile duine.'s fhearr deireadh math na droch thoiseach"
A letra era de um idioma antigo, há muito falado pelos ancestrais das Ilhas do Sul. Contava a história de uma mulher que há muito perdera o seu amor para a floresta. E todas as noites recebia a visita de uma coruja, uma coruja de olhos bem grandes. Olhos que a observavam pela casa até o amanhecer.
Todos os dias ela deixava uma taça de vinho para que o marido bebesse, na beira da floresta, e todos os dias o vinho sumia. Um dia, sem mais o sustento do marido, ela teve de caçar a própria comida. E então matou a coruja e a comeu. E nesse mesmo dia o vinho permaneceu na taça, para nunca mais então ser bebido outra vez.
"Slán, Tá grá agam ort..."
O som do alaúde preenchia o salão em suas últimas notas, e Lyra Skoll finalizava a sua canção triste e trágica. As músicas românticas sempre seriam as favoritas de todos. Sobre amores não correspondidos ou de fins violentos.
A Taberna explodiu em palmas. O som de canecas batendo contra as mesas, em aprovação. Matthew jurou ter visto Heins enxugar o canto de um dos olhos, mas guardou para si mesmo. Seu pai o cutucou nas costelas, e ele franziu as sobrancelhas sem entender.
"Por que está suando?" Ele perguntou por cima das palmas.
Matthew passou a mão pela própria testa, finalmente percebendo que não só estava molhado de suor, como também quente como o inferno. E, considerando a temperatura da Taberna, ele só podia estar com febre.
O som das canecas e vozes cessou, e não porque Lyra Skoll tivesse retomado a apresentação. Na realidade, alguém havia se levantado. E não um qualquer. O homem de pé era Soren Duncan. Um Guardião, e o mais respeitado deles. Apesar de não ser o mais velho, Soren era de longe o mais forte. Seu casaco era adornado no capuz com uma cabeça de tigre siberiano. O restante do casaco era costurado por uma mistura de couro com a pele do tigre. Seu prêmio da Caçada anterior.
Um transmorfo de grande porte.
Com a caneca erguida num pedido mudo de atenção, ele olhou rapidamente na direção de todos, se impondo no salão. Seu cabelo ruivo já passava dos ombros, e a barba não ficava muito atrás. Uns três dedos abaixo de seu queixo, fazendo-o parecer mais velho. Em parte porque ele estava ficando mais velho. Com seus vinte e quatro, esse ano participaria da sua quinta caçada desde que se tornara um Guardião.
Quando o último dos homens se calou, Soren Duncan bateu com a caneca na mesa, e olhou diretamente para Lyra Skoll. "Heins Skoll, tenho um anúncio a fazer na sua Taberna."
Apesar do tom não ter sido de pergunta, aquele era um pedido de permissão. Heins, de cenho franzido, o autorizou a continuar com um leve sacudir de cabeça.
"Quero pedir Lyra Skoll em casamento." Ele disse, e não havia um pingo de humor ou hesitação em suas palavras.
Notas finais
C.M.S
Ah, a língua que eu usei para fazer a canção da Lyra é gaélico. Nem me perguntem como >.<
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