MateCube
1 Capítulo 1
Não fazia mais de um mês que eu havia comprado minha própria casa. Era bem pequena, três cômodos e não tinha pátio, mas pelo menos eu sabia que conseguiria começar minha vida adulta bem. Talvez não tão bem. Eu tinha 21 anos e ainda era virgem. Não que eu esteja "me guardando esperando a pessoa especial", mas nenhuma garota se interessou por mim. Sempre fui uma pessoa solitária, porém minha família estava lá quando eu precisava. Quando fui morar sozinho, eu senti que as coisas mudariam. Estava começando a faculdade, apesar de já ter conseguido um emprego. Mas vocês sabem como são as coisas, se eu quero me estabilizar na vida, preciso ter estudo.
Era uma noite de sábado, não havia trabalho nem precisava estudar (ainda), então aproveitei para me divertir na internet. Meu amigo me convidou para jogar um jogo bem popular de batalha, mas eu não sou muito fã de jogos assim, prefiro ler algo ou jogar um jogo focado em narrativa com uma história cativante, algo que eu possa escolher o rumo da história. Conversei com ele sobre nossas discordâncias entre gêneros de jogos até perceber um anúncio na rede social. "Tenha seu próprio colega de quarto virtual! MateCube administra sua casa para você". Fiquei um pouco surpreso. Decidi clicar no anúncio por curiosidade mesmo. Era uma tecnologia de Internet das Coisas com uma interface humana. Parecia interessante para quem tem dinheiro para comprar essas coisas. Na minha casa os únicos objetos programáveis são as lâmpadas, ar condicionado e computador. Pessoas que possuem cafeteiras programáveis, portas, janelas, essas coisas de "riquinho", talvez gostariam de comprar isto. Eu até achei interessante por morar sozinho, mas não fazia questão de ter algo assim.
Continuei conversando com meu amigo e contei a ele sobre esse anúncio. Ele disse que deve existir gente que compra isso por fetiche. Achei válido. Deve ser uma invenção asiática. Já estava tarde, então me despedi dele e fui dormir. Acordei no outro dia com uma mensagem no meu celular. Minha mãe queria saber como estava sendo a vida de solteiro. Confesso que não gostaria que fosse assim, queria ter alguém para ficar comigo, mesmo sendo um animal, mas eu consegui afogar meu primeiro peixe quando era pequeno (segurei ele pelas guelras), então adotar um animal estava fora de cogitação. Mas eu menti mesmo assim, disse que estava ótima, e que estava conseguindo me manter bem sozinho.
Naquela manhã de domingo, resolvi sair um pouco de casa. Respirar um pouco de ar fresco em algum parque. Eu sabia que existia um parque não muito longe de casa e nunca tinha ido lá, mas mesmo assim ignorei o desconhecimento e fui. Péssima ideia. Sabe quando você acha que o parque será um lugar verde, cheio de pessoas passeando com seus cachorros e crianças brincando? Eu cheguei lá e um grupo de garotos me abordou. Sim, fui assaltado. Não estava nem com o celular, só levei uns trocados para comer algo, e mesmo assim fiquei sem nada. Que vida…
Depois disso voltei para casa andando rápido. Era melhor ficar em casa ou sair por lugares que eu já conheço. Mas as duas opções eram ruins, pois não havia ninguém para conversar. Faço faculdade de História, pois quero ser professor, e não me comunico muito com os colegas. Me pergunto como vou conseguir ensinar as crianças sendo que não sou falante, mas eu imagino que isso mude com o tempo, e até eu me formar já vou ser menos introvertido.
Pedi um lanche como almoço, e comi em frente ao computador mesmo. Estava me sentindo entediado de olhar séries, então fui ver o que havia de novo nas redes sociais. Me deparo novamente com aquele anúncio do MateCube, e percebo que há um sorteio de um desses produtos. Me veio uma sensação de solidão bastante infantil até, eu não sabia se deveria me inscrever para esse sorteio. Uma parte de mim queria ter uma companhia, mesmo sendo apenas um programa, e outra parte dizia que isso era muito estranho e "virgem". Mandei o link do sorteio para o meu amigo, aquele dos jogos, para saber a opinião dele. No começo ele riu, mas disse que não havia nada de errado em ter um programa para administrar a casa, a menos que eu queria um desses por fetiche. Eu não sou uma pessoa desse tipo, viciado em garotas virtuais. Eu sou apenas... sozinho. E ter um companheiro que não precisa ser cuidado seria ótimo. Me inscrevi naquele sorteio e esperei os 14 dias que faltavam para o término.
Passei essas duas semanas fazendo as mesmas coisas rotineiras, indo à faculdade e ao trabalho normalmente. Entrou uma garota nova no trabalho, mas nada que mudasse minha rotina. Eu trabalhava como caixa em um mercado, e ela foi para a padaria. Não nos falávamos muito, mas ela era bem educada com todos.
Eu tinha até esquecido do sorteio pois comecei a jogar um jogo muito bom do tipo que eu gosto, e isso manteve minha mente ocupada, até que meu celular notificou um email. Nesse exato momento eu lembrei do sorteio e um calafrio subiu pela minha espinha. Meu corpo até tremeu por um segundo. Pausei o jogo e fui ver a mensagem. Era sobre o sorteio do MateCube. Uma estranha felicidade fez minha boca se abrir em um grande sorriso.
Eu ganhei.
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