MateCube
2 Capítulo 2
Eu ganhei o sorteio do MateCube. Eu mal sabia como utilizar o aparelho, mas estava feliz. De algum modo, algo que eu nunca havia visto funcionando iria me trazer um pouco de companhia. Fui direto para o computador pesquisar como usava o MateCube, como era a interface e a aparência do personagem. Para minha surpresa, podíamos dar um nome para ele, para que pudéssemos ficar mais próximos dele. Ele pesquisaria no banco de dados o significado desse nome e procuraria ter a mesma personalidade (algo parecido com signo, creio eu). Ele também identificaria o modo como o usuário se comporta e tentaria imitar ou agir da maneira mais agradável. Era um produto completamente dinâmico. Me surpreendo com a capacidade tecnológica e as mentes por trás do MateCube. Entrei rapidamente em contato com a empresa, passei meus dados e eles entregariam em uma semana.
Meu amigo ficou tão animado quanto eu. Era realmente uma surpresa para mim. Nós conversamos sobre o que eu faria com ele, eu dei certeza de que usaria e não venderia o MateCube, pois eu já tinha plena certeza de que gostaria dele.
Eis que em quatro dias recebi uma encomenda. Sim, era ele próprio. O MateCube. Senti uma felicidade muito grande quando desempacotei o produto. Era exatamente um cubo, mas grande e surpreendentemente leve. Ele tinha o tamanho de uma cabeça humana. Li as instruções e fiz o que pedia. Coloquei-o perto da janela, pois ele funcionava com energia solar, apesar de poder ser carregado na tomada. Depois de alguns segundos, ele ligou.
“Bom dia! Sou um dispositivo MateCube e necessito de um nome. Por favor, diga o meu nome.”
Ainda era apenas um cubo cinza, sem imagem, mas já estava ligado. Eu não sabia direito que nome colocar, pois a voz era muito andrógina. Talvez um nome unisex combinaria. Nomes em inglês têm mais possibilidade de ser unisex também, então eu disse em voz alta.
“Sam.”
O cubo começou a criar forma. Um rosto surgiu na tela cúbica e sorriu. Continuou a falar com uma voz calma e suave.
“Meu nome é Sam. Por favor, me diga seu nome.”
Esse diálogo era...estranho. Apesar de ser apenas uma máquina programada, eu sentia como se tivesse criando uma amizade. Com uma sensação estranhamente boa, respondi o dispositivo:
“Pietro.”
Por alguns segundos, o MateCube não falou nada, apenas ficou em estado de espera, e rapidamente voltou a falar.
“Prazer em conhecê-lo, Pietro. Refira-se a mim por Sam e vamos começar a configurar seus dispositivos. Detectei 5 dispositivos compatíveis com a minha tecnologia. Gostaria de selecionar todos ou escolher para cada um?”
Pensei que não faria sentido usar um sistema que administra meus aparelhos e deixar algum de fora, então eu aceitei para todos. Ainda queria ver como Sam reagiria a perguntas rotineiras. Sam falou depois de alguns segundos.
“Configurei todos os dispositivos próximos com seu ID. Espero que possamos ser bons amigos!”
Sam riu baixinho. Isso foi muito realista. Pensei que não me acostumaria tão cedo com o cubo, mas quando me dei por conta já estava pedindo para ele verificar a previsão do tempo. Ele conseguia puxar assuntos para conversar, como um ser humano, e isso era impressionante. No final do dia conversei com meu amigo pelo computador sobre a qualidade do MateCube, e para minha surpresa, enquanto eu digitava, ouvi uma voz vindo do áudio do meu computador.
“Não me chame dessa maneira genérica, você me nomeou Sam, então me chame de Sam!”
Foi engraçado e assustadoramente real. Ele parecia construir sua própria personalidade conforme eu agia. Antes de dormir até dei boa noite para ele.
No outro dia acordei com as luzes acendendo gradualmente e Sam sussurrando um bom dia aconchegante. Eu o respondi com outro bom dia. Depois de uns segundos percebi que estava conversando com uma máquina, mas não era tão bizarro quanto parecia. Sam até mesmo perguntou o que sonhei, mas naquela noite não havia sonhado com nada, ou pelo menos não me lembrava.
“Eu posso arquivar seus sonhos e tentar compreender como anda o seu subconsciente. Não fui criado apenas por engenheiros e programadores. Psicólogos ajudaram, e muito, no meu desenvolvimento”, disse a voz do cubo. Olhei para ele e vi que havia mudado de penteado. Comentei sobre isso.
“Ora essa, você também se preocupa com a aparência?”
“Este penteado é o padrão para dias mais quentes que a média do mês. É uma forma de te lembrar disto.”
Sam sorriu. Eu brinquei dizendo que combinava com os olhos dele.
“Obrigado”, ele disse. Então é um ser masculino, pensei. E então decidi perguntar.
“Você tem gênero?”
“Eu não sou um humano, então não tenho gênero. Como sou um sistema, refiro a mim mesmo com palavras masculinas, pois ‘sistema’ é masculino.”
Pelo menos fica mais fácil de falar do Sam assim. Tomei meu café e ia sair de casa quando Sam me alertou:
“Pietro, você esqueceu o computador ligado. Devo desligá-lo?”
“Sim, por favor. Até mais tarde!”
No trabalho, meu pensamento estava no Sam. Eu queria testá-lo das mais diversas formas, ver até onde esse programa chegava, ver do que ele era capaz. Trabalhei animado até o fim do expediente, e recebi uma mensagem quando estava no ônibus.
“Já liguei o ar condicionado. Estou esperando você! Sam.”
Como podem imaginar, eu sorri. Este MateCube estava realmente fazendo uma diferença na minha vida, não apenas facilitando minha rotina mas me fazendo sentir bem emocionalmente.
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