Match Point
22 ARCO 2 DOMINE! - Capítulo 21 - O Rei Decente
Notas iniciais
NICK
Nick respirou fundo antes de pisar novamente na quadra.
Era só um passo, mas dentro dele havia um mundo inteiro. O som abafado dos tênis tocando a madeira encerada ecoava alto em sua cabeça, como se o próprio ginásio o estivesse observando. A luz branca recortava as linhas da quadra como lembranças vivas do set anterior, onde Suga — com calma e precisão — havia conduzido o time com maestria.
E agora, ali estava ele. De volta. Não como salvador. Mas como alguém que precisava recuperar o que havia deixado escorregar pelos dedos.
Conforme se aproximava do centro da quadra, Daichi foi o primeiro a encontrá-lo. O capitão o recebeu com um olhar firme, mas encorajador, e estendeu a mão.
“Bom te ter de volta,” disse com convicção.
“Valeu, capitão,” respondeu Nick, sentindo parte do peso recuar, mesmo que ainda estivesse ali.
Em seguida, Asahi o cumprimentou com um sorriso discreto, porém sincero. Um gesto calmo, cheio de respeito. Trocaram um toque silencioso de confiança mútua.
Harry apareceu do nada, batendo em suas costas com entusiasmo.
“Vamos virar essa parada!”
Nick sorriu com a energia contagiante. A leveza de Harry ajudava a manter os pés no chão.
Mas quando se aproximou de Tsukishima, o ar pareceu mudar.
O central o encarou de longe, os braços cruzados, a expressão fechada, e os olhos semicerrados por trás dos óculos. Nick hesitou por um segundo, depois caminhou até ele. Parou à sua frente e estendeu a mão. Um gesto simples. Quase automático.
Tsukishima manteve o olhar por mais alguns segundos, como se analisasse o que via. Não houve sorriso. Nem frase. Apenas um assentir breve e seco, e um toque de mão rápido, distante. Quase frio.
Era claro: a confiança ali ainda não estava restaurada.
Tsukishima nunca engolira o passado de Nick como o "Rei da Quadra", a maneira arrogante como ele costumava comandar os companheiros como peças em seu jogo pessoal. Mesmo que Nick não fosse mais aquele jogador... as cicatrizes ainda estavam ali.
Nick baixou levemente os olhos e seguiu em frente.
Ainda não tinha conquistado todos. Mas estava disposto a tentar.
Cristian veio logo depois, com um sorriso largo e sincero. Bateu forte em suas mãos, como se dissesse: a gente tá junto. E Nick agradeceu em silêncio.
Por fim, seus olhos encontraram Charlie.
E então tudo ao redor se dissolveu.
O som, o ritmo da quadra, o peso nos ombros. Tudo sumiu.
Nick se aproximou e estendeu as mãos. Charlie sorriu de leve, sereno, e tocou suas palmas com uma firmeza que ancorava.
As mãos permaneceram juntas por tempo demais para ser apenas um cumprimento. Um toque de pele, de confiança, de promessa silenciosa.
Nick olhou nos olhos dele e viu o que precisava. Não apenas determinação. Mas fé.
“Confio em você,” sussurrou Charlie, como um segredo só deles.
“Vamos ganhar isso,” respondeu Nick, com a força de quem entende o valor de se reconectar.
Quando suas mãos finalmente se soltaram, Nick sentiu-se revigorado, pronto para enfrentar o jogo novamente. E ao caminhar até sua posição, ele sabia que não estava sozinho. Charlie estava ali, ao seu lado, pronto para voar junto com ele.
“O Suga te explicou os sinais?” perguntou Charlie, esforçando-se para manter a voz calma enquanto fingia ajustar as joelheiras.
“Sim, explicou tudo,” respondeu Nick, com um leve sorriso confiante se formando no canto dos lábios.
Charlie olhou fixamente na direção de Oikawa, que sorria provocativamente do outro lado da rede. “Quero muito tirar aquele sorriso da cara dele,” disse Charlie, os olhos ardendo com determinação.
Nick se aproximou um pouco mais, compartilhando a mesma intensidade do olhar. “Então vamos mostrar para eles o que é velocidade.”
Charlie abriu um sorriso suave, deixando escapar quase num sussurro: “Senti tanto sua falta...”
“Eu também,” respondeu Nick, retribuindo o sorriso gentilmente antes de pegar a bola e se dirigir para a linha de saque.
“Força no saque, Nick!” gritou Daichi, seguido por gritos de incentivo do restante do Karasuno.
Nick respirou fundo, sentindo o peso reconfortante da bola em suas mãos enquanto a batia contra o chão algumas vezes para ajustar o ritmo. Ele ergueu a bola lentamente até a altura dos olhos e fechou-os por um instante. Naquele breve segundo, sentiu cada detalhe ao seu redor—os gritos das torcidas ecoando, a vibração dos pés na quadra, a eletricidade da expectativa percorrendo o ginásio. Acima de tudo, sentiu intensamente o olhar de Oikawa, atento e desafiador.
Nesse exato momento, ele sentiu o passado se aproximar como uma sombra densa, rastejando pelos cantos da sua mente, buscando um espaço para se infiltrar. Era uma presença antiga, incômoda, sempre à espreita — e agora, diante do desafio, ela voltava com força total.
A voz surgiu sem aviso. Familiar. Fria. Carregada de desdém.
"Você é fraco, Nicholas."
Palavras cortantes, cravadas como espinhos em sua memória. Aquela voz era inconfundível — a de seu pai.
Cruel. Impiedoso. Como sempre fora.
Nick cerrou os dentes. Os músculos enrijeceram. O coração disparou no peito como se tentasse fugir. A mesma dor de antes voltou: a pressão sufocante, a vergonha, a raiva de nunca ter sido suficiente. Durante anos, essa voz o guiou pelas sombras, alimentando sua dureza, sua frieza, sua arrogância em quadra. Tudo por medo de ouvir aquilo de novo.
Mas ali, naquele instante… algo mudou.
Ele se viu rodeado pelos colegas. Pelas mãos que apertou. Pela confiança que sentiu no olhar de Charlie. Pelas palavras firmes de Daichi, pelos olhos atentos de Suga. Pela leveza no toque de Cristian. Até pela provocação seca de Tsukishima.
E então, dentro de si, algo rompeu.
Com um grito mental que vinha das entranhas, cheio de tudo que ele nunca teve coragem de dizer, ele respondeu:
"CALA A BOCA, PAI!"
As palavras ecoaram com tanta força dentro dele que a escuridão recuou. De repente, o peso desapareceu.
A tempestade cessou.
Um silêncio imenso preencheu sua mente — mas não era vazio. Era paz. A voz do pai sumiu. Como se tivesse sido varrida de uma vez por todas. Nick abriu os olhos devagar, como se respirasse o mundo de novo pela primeira vez. O ar parecia mais leve. Os ombros, mais livres. Havia espaço em seu peito. Para algo novo. Para ele mesmo. E foi quando ergueu o rosto, com o corpo ainda aquecido de emoção, que seus olhos encontraram os de Oikawa.
O sorriso de Nick se ampliou discretamente, quase como um desafio silencioso, fazendo Oikawa estreitar levemente os olhos em resposta. Naquele instante, Nick não era mais assombrado por fantasmas do passado. Ele estava ali, inteiro, presente, pronto para lutar com tudo que tinha.
“Atenção, pessoal!” A voz de Oikawa ecoou alta e clara, tentando alertar o Seijoh sobre o que estava por vir.
Nick sentia uma empolgação genuína correndo por seu corpo. Com uma confiança revigorada, Nick lançou a bola para o alto. Seu corpo se moveu em perfeita sincronia, os pés deixando o chão com leveza enquanto ele sentia a familiaridade revigorante do salto. No ar, ele se permitiu um breve instante para apreciar aquela sensação única, quase como voar. Então, seu braço desceu com força e precisão, golpeando a bola com força explosiva.
Um verdadeiro foguete atravessou a quadra, deixando o libero do Seijoh, Watari, totalmente despreparado. A bola bateu no antebraço dele e seguiu diretamente para a arquibancada, sem qualquer chance de recuperação.
“ACE!” o narrador da partida anunciou com entusiasmo, sua voz cortando o silêncio repentino da torcida do Seijoh, enquanto o lado do Karasuno explodia em euforia.
17x17. O placar agora estava empatado.
“EHHHHHHHH!” O grito vitorioso de Nick ressoou pela quadra inteira, contagiando cada um dos seus companheiros. Eles respondiam com punhos erguidos e gritos de motivação, celebrando não só o ponto, mas o retorno do levantador do Karasuno. Nick Nelson estava finalmente de volta ao jogo.
Nick se posiciona novamente para o saque, seu olhar fixo, determinado. Ele lança a bola para o alto com precisão, e com um movimento poderoso, dispara mais um saque devastador diretamente para a quadra do Aoba Jōsai. Iwaizumi tenta desesperadamente a defesa, mas a bola bate em seus braços sem controle, desviando-se para trás.
Kunimi reage rápido, correndo até o fundo da quadra e salvando a bola no último instante, lançando-a de forma improvisada para o meio da quadra. Sem alternativas, Kindaichi devolve uma manchete fraca e previsível, entregando a bola facilmente para o Karasuno.
"É minha!" grita Cristian, recebendo com segurança e passando rapidamente para Nick.
Nesse instante, Nick dispara em direção à rede, seus olhos cruzando brevemente com os de Charlie. Não era necessário dizer nada, aquele breve contato visual bastava para os dois saberem exatamente a jogada que iriam realizar. Nick posiciona-se perto da rede, fazendo um levantamento impecável no centro, na altura perfeita para Charlie.
Charlie salta alto e com velocidade absurda, seu corpo subindo como se não houvesse limites. Ele golpeia a bola com violência e precisão, fazendo-a explodir no chão antes mesmo que o bloqueio do Seijoh pudesse reagir.
Ponto do Karasuno. 18x17.
Nick e Charlie se olham sorrindo, caminhando rapidamente um em direção ao outro. Eles batem as mãos num high-five e quase imediatamente se abraçam. Naquele contato breve, com seus pescoços tão próximos, Nick sente claramente a pele de Charlie se arrepiar. Eles se afastam rapidamente, tentando evitar chamar atenção.
"Ainda estamos afiados," diz Charlie com um sorriso tímido e satisfeito.
Nick sorri de volta, seus olhos encontrando os dele com intensidade. "Somos melhores juntos," responde Nick, sentindo o calor da certeza em suas palavras.
OIKAWA
Oikawa chama o Seijoh para o centro da quadra, caminhando lentamente enquanto sentia seus passos mais pesados que o habitual. Por quê? Seria Niko? Será que ele estava nervoso? Ao chegar, percebeu imediatamente que seu time estava tenso, o peso do placar claramente refletido nos olhares apreensivos de cada jogador. Ele não podia permitir aquilo; como capitão, sua responsabilidade era motivá-los e conduzi-los à vitória. Inspirando profundamente, Oikawa ergueu os braços e abriu seu típico sorriso, aquele sorriso que sempre mascarava suas próprias preocupações.
"Respirem fundo," começou com uma voz calma, os olhos brilhando com uma determinação feroz. "Seijoh, olhem bem pra mim. Estamos perdendo? Não. Estamos apenas um ponto atrás. E o que fazemos quando estamos só um ponto atrás?"
Um silêncio pairou momentaneamente sobre o grupo até que Kindaichi respondeu com convicção renovada: "Pegamos o ponto de volta."
"Exatamente," disse Oikawa, acenando com a cabeça com um sorriso ainda mais confiante. "Não estamos aqui para correr atrás do placar, estamos aqui para dominar a quadra." Seu olhar percorreu cada companheiro, transmitindo confiança e força. "Receptores, vocês só precisam fazer com que a bola chegue até mim," disse com serenidade, voltando-se especialmente para Iwaizumi. "E nosso Ace vai garantir esse ponto pra gente."
Iwaizumi assentiu, sentindo as bochechas esquentarem discretamente com o elogio e a confiança que Oikawa depositava nele.
"E não se esqueçam," Oikawa desviou brevemente o olhar para o chão, tomando fôlego antes de voltar a encará-los, agora com intensidade ainda maior. "EU CONFIO EM VOCÊS!"
As palavras de Oikawa surtiram efeito imediato, revigorando o Aoba Jōsai. Os semblantes antes tensos se transformaram, agora exibindo determinação, foco e prontidão.
Iwaizumi se aproximou discretamente de Oikawa e sussurrou com um tom brincalhão: "Tá nervoso, né?"
"Claro que não," rebateu Oikawa rapidamente, mantendo uma expressão séria, ainda que seus olhos denunciassem algo mais.
"Você sempre olha pros pés quando fica nervoso, Tonto-kawa," disse Iwaizumi com um sorriso suave, bagunçando o cabelo do capitão de maneira carinhosa.
"Sério?" Oikawa arregalou os olhos em surpresa, logo abrindo um pequeno sorriso. "Não sei se fico chocado ou se acho fofo você reparar nisso."
"Eu reparo em muitas coisas em você, Otário-kawa," respondeu Iwaizumi, o tom da voz mais baixo e íntimo.
"Gosto mais de Bobo-kawa..." Oikawa sussurrou com um sorriso meigo.
"Bobo-kawa," repetiu Iwaizumi suavemente, empurrando com o ombro e disfarçando rapidamente o carinho com um sorriso discreto.
Todos retornam rapidamente às suas posições, e Niko vai novamente para a linha de saque. A expressão no rosto dele transmitia confiança, e quando lançou a bola para o alto, seu movimento foi fluido e implacável. A bola disparou como um raio, potente e rápida, direto para o fundo da quadra adversária.
Oikawa estreitou os olhos, acompanhando o saque com precisão. "Ele melhora a cada dia," pensou, sentindo uma pontada familiar no peito, uma mistura estranha de inveja e orgulho. Matsukawa reagiu no último instante, deslizando pelo piso da quadra e recebendo a bola com esforço. A recepção subiu alta e desajeitada, mas Oikawa já estava lá, ajustando a postura com uma naturalidade invejável.
Ele sentiu a bola encaixar-se perfeitamente entre os dedos, como se fosse uma extensão do próprio corpo. Naquele breve instante, seu olhar buscou Iwaizumi automaticamente. O Ace já se deslocava, confiando totalmente na habilidade do capitão. Oikawa não precisou olhar duas vezes—ele sabia exatamente onde Iwaizumi estaria antes mesmo do Ace chegar à posição.
A bola foi elevada com precisão milimétrica, pousando suavemente na palma aberta de Iwaizumi, no ponto mais alto do salto. O impacto do Ace foi devastador; o braço cortou o ar com força brutal, e a bola disparou como um míssil, rasgando a quadra adversária em uma paralela perfeita.
Nick se lançou desesperadamente para tentar defender, mas era impossível. A bola explodiu violentamente contra o chão, o estrondo ecoando pelas paredes do ginásio como um tiro.
"ISSOOOOO!" rugiu Iwaizumi, cerrando os punhos com intensidade enquanto seu grito se misturava ao frenesi da torcida.
Oikawa se aproximou, estendendo a mão para um high five vigoroso, sorrindo com orgulho e confiança renovada. "Esse é meu Ace!" exclamou com energia, o brilho em seus olhos refletindo a determinação implacável que ele trazia ao jogo.
O placar piscou: 18x18. A mensagem era clara—o Seijoh não daria vida fácil ao Karasuno.
Agora era a vez do Iwaizumi sacar. Ele segurou a bola com firmeza e lançou um saque pesado e rápido, cruzando a quadra com intensidade. Daichi, o capitão do Karasuno, recebeu com segurança, posicionando a bola perfeitamente nas mãos de Nick.
Oikawa observou atento, analisando a posição dos jogadores adversários com rapidez. "Quem vai ser agora?" pensou, tentando antecipar o próximo ataque. Mas antes que pudesse concluir seu raciocínio, Charlie disparou pela quadra com uma velocidade quase surreal. Oikawa arregalou os olhos, impressionado com a rapidez da reação do Tampinha. A bola chegou a Charlie em um piscar de olhos, quase como se Nick tivesse apenas tocado nela antes do atacante já estar no ar.
Charlie saltou alto, desafiando a gravidade, sua mão encontrando a bola com força explosiva. Oikawa tentou acompanhar, saltando imediatamente para o bloqueio, mas era tarde demais. A bola passou por suas mãos estendidas e explodiu violentamente no chão do Seijoh, sem dar tempo para qualquer reação.
"Dá até raiva, né?" comentou Oikawa para Iwaizumi, balançando a cabeça enquanto recuperava o fôlego. "Isso é absurdamente rápido."
Iwaizumi cerrou os dentes, claramente frustrado. "Temos que arrumar a defesa."
Oikawa caminha até o libero e dá um soquinho no ombro dele.
"Watari, fica mais ligado," Oikawa pediu, lançando um olhar firme ao líbero.
"Tô tentando," Watari respondeu, visivelmente nervoso. “Mas esse ataque é muito rápido!”
Agora era a vez do Tampinha ir para o saque. Oikawa analisou rapidamente a formação do Karasuno, esperando uma jogada potente, mas o saque veio mais simples, sem muita força. Kunimi recebeu com facilidade e a bola subiu tranquilamente até Oikawa, que em um movimento rápido levantou precisamente para Iwaizumi.
Iwa subiu com toda a força, desferindo um corte poderoso que parecia imparável. No entanto, o Gigante de Óculos do Karasuno subiu no tempo perfeito, formando uma muralha impenetrável. A bola bateu no bloqueio com violência, retornando à quadra do Seijoh com velocidade assustadora.
Num reflexo puro, Oikawa se lançou desesperadamente ao chão, esticando os dedos ao máximo. Ele conseguiu tocar na bola, mas não foi o suficiente. A bola bateu de leve em sua mão antes de cair definitivamente no chão.
"Merda!" rugiu Iwaizumi, lançando um olhar raivoso na direção do Gigante do Karasuno, que ajustava calmamente seus óculos.
O placar mostrava agora 20x18 para o Karasuno, uma vantagem perigosa que começava a preocupar o Seijoh. Oikawa respirou fundo, sentindo a pressão aumentar. Sabia que o jogo ainda não estava perdido, mas o Karasuno não daria a menor brecha. Eles precisariam se superar se quisessem virar aquela partida.
O técnico do Seijoh solicitou tempo, e os jogadores rapidamente se reuniram ao seu redor.
"Relaxem, pessoal, não vamos perder o foco agora," disse o treinador calmamente.
"Professor, o senhor notou a nova formação deles?" Oikawa perguntou com urgência, o olhar fixo e determinado.
"Percebi," respondeu o técnico com um leve sorriso. "Quer explicar isso para eles?"
"Sim, obrigado," disse Oikawa enquanto se abaixava para amarrar o tênis rapidamente. Em seguida, ergueu o olhar para seus colegas, seu tom ganhando uma seriedade incomum. "O Gigante de Óculos e o Niko não se dão bem na linha de frente. Sempre que possível, o Niko evita levantamentos para ele, mesmo que esteja em posição mais favorável. Podemos usar isso contra eles. Essa é uma fraqueza crucial, eles não se comunicam direito."
"Porra!" murmurou Kindaichi, arregalando os olhos com uma expressão surpresa. "Eu definitivamente nunca quero ser seu adversário. Você não perdoa nem a menor fraqueza deles."
O comentário arrancou alguns risos dos outros jogadores do Seijoh, aliviando um pouco a tensão do momento. Oikawa ergueu-se novamente, observando cada rosto diante dele. O suor escorria em seus rostos, seus músculos estavam tensos e o cansaço começava a cobrar seu preço, mas o brilho em seus olhos estava longe de se apagar.
Ele deu um passo decidido à frente, sua presença forte contagiando a todos.
"Hoje, somos um só. Somos o Aoba Jōsai," declarou Oikawa com firmeza, sua voz ecoando claramente por todo o grupo. "E o que vamos fazer?"
"DOMINAR A QUADRA!"
O grito veio em uníssono, vibrante e intenso o suficiente para fazer as paredes do ginásio estremecerem.
CHARLIE
O grito do Seijoh ecoou com força pela quadra, fazendo Charlie estremecer levemente. Aquela declaração de guerra tinha um poder que ia além das palavras. Ficava claro que o Seijoh não desejava um terceiro set; eles queriam finalizar o jogo agora.
O saque ainda era de Charlie. Ele bateu a bola duas vezes no chão, tentando disfarçar o leve tremor em suas mãos. Saques sempre o deixavam desconfortável—ter todos os olhos do ginásio focados nele, esperando por seu movimento, era intimidador demais. No saque anterior, a bola havia saído torta, e agora ele tentou ajustar cuidadosamente a trajetória. Mas, apesar dos esforços, a bola novamente escapou de seu controle, indo direto na cabeça de Harry.
“Porra Charlie!” Harry resmunga esfregando a cabeça
Charlie fechou os olhos instantaneamente, cobrindo o rosto com as mãos, sentindo seu rosto esquentar de vergonha. Errar um saque já era ruim; naquele momento crítico, era quase insuportável. Ele sentia o peso dos olhares, não apenas da torcida, mas principalmente dos seus companheiros de time.
"Relaxa, acontece com todo mundo," disse Daichi, aproximando-se rapidamente. Sua voz era firme, porém compreensiva. "Deixe para lamentar depois. Agora precisamos de você focado e atento no jogo!"
"Tá bom, me desculpe," respondeu Charlie baixinho, dando um leve tapinha nas mãos estendidas de Daichi, enquanto voltava para sua posição.
O placar agora era de 19x20 para o Karasuno.
O saque do Seijoh ficou nas mãos de Kindaichi, que não arriscou e optou por um saque simples, colocando a bola cuidadosamente na quadra adversária. Cristian recebeu sem dificuldade, enviando a bola direto para Nick perto da rede. Nick fez um levantamento rápido para Tsukishima, que pareceu surpreso ao receber a bola. Seu corte saiu torto, mas o Seijoh conseguiu defender, e rapidamente a bola chegou a Oikawa.
Com um movimento elegante, Oikawa ergueu a bola perfeitamente para Iwaizumi, o Ace do Aoba Jōsai, que disparou um corte potente. Charlie tentou se posicionar a tempo, mas o impacto fez a bola desviar de seus braços e sair diretamente para fora da quadra.
20x20, tudo empatado.
Charlie sentiu o peso da culpa em seus ombros, já que o empate do Seijoh havia ocorrido devido a dois erros seus em sequência. O apito soou alto, interrompendo o jogo momentaneamente; a treinadora Singh solicitara um tempo. Ambos os times se dirigiram rapidamente ao banco.
Charlie caminhou devagar, sentindo seus pés pesarem como chumbo, os ombros baixos sob o peso da responsabilidade.
"Não fica assim..." disse Cristian, aproximando-se com calma e colocando o braço ao redor dos ombros de Charlie. "...o set ainda não acabou."
"Desculpa," murmurou Charlie sem conseguir esconder a frustração.
"Eu já errei muitas recepções também," Cristian disse com um sorriso suave. "Acredite, isso não é o fim do mundo."
Charlie sorriu fraco, sentindo-se um pouco melhor, e seguiu para junto da treinadora.
Enquanto isso, a torcida do Seijoh gritava intensamente das arquibancadas:
"VAMOS, VAMOS, SEIJOH! VAMOS VIRAR!"
A treinadora Singh observou a tensão nos rostos dos jogadores do Karasuno e falou alto, de forma que todos pudessem ouvir.
"Olhem essas caras!" Ela exclamou, apertando de leve a bochecha de Harry. "Estão todos tensos demais! Se acalmem!" Sua voz ficou séria, e ela olhou diretamente nos olhos de Charlie. "Vocês estão se movendo muito bem! Não percam a cabeça só porque o placar empatou!"
Todos estavam atentos às suas palavras.
"Nick e Tsuk..." ela continuou com autoridade, "...vocês têm que conversar. Preciso que vocês se entendam. Nada de decisões apressadas!"
Charlie observou Nick e Tsuk. Pela primeira vez, ele realmente compreendeu o desafio constante que Nick enfrentava em se comunicar com todos os jogadores. Com ele próprio, tudo era natural, apenas um olhar bastava. Mas com os demais companheiros, Nick precisava encontrar outras maneiras. Charlie sentiu um respeito renovado pela complexidade da posição de levantador, responsável por cada jogada e cada conexão dentro da quadra.
"Eu jogo do meu jeito," Tsuk disse, encarando Nick seriamente. "Prefiro receber levantamentos sempre do mesmo tipo."
"Me desculpe," Nick respondeu honestamente, "eu estava tentando levantar onde achava que era melhor para o ataque."
"Você não é o único que pensa no time," Tsuk rebateu, sustentando o olhar. "Observe melhor a defesa adversária. Meus melhores ataques hoje estão sendo pela direita em cruzado."
"Entendi," Nick respondeu, com uma humildade surpreendente. "Desculpa, eu realmente não havia percebido isso."
"Você tá mansinho hoje ein, majestade," provocou Tsukishima ajeitando os óculos.
Charlie percebeu os punhos de Nick se fecharem discretamente; ele odiava ser associado ao Rei da Quadra.
"Vamos tentar pra ver se funciona," respondeu Nick com firmeza inesperada.
Tsukishima franziu a testa, pego de surpresa pela resposta. Ele claramente não esperava que Nick—um levantador reconhecidamente talentoso—aceitasse facilmente uma sugestão dele. Charlie notou um leve sorriso no rosto de Suga, sentado no banco. Nick estava, de fato, aprendendo algo com o veterano.
"Então tá, então..." respondeu Tsukishima, ainda com um tom de incredulidade.
A treinadora deu as últimas instruções, e a equipe voltou à quadra com uma energia renovada, preparada para lutar até o último ponto.
NICK
A vontade de Nick naquele momento era socar Tsuk. Mas ele sabia que não podia se deixar levar por impulsos, não mais. Nick estava consciente de que qualquer desentendimento seria percebido imediatamente por Oikawa, que certamente exploraria essa fraqueza ao máximo. Não poderia oferecer essa oportunidade ao Seijoh, especialmente naquela fase crítica do segundo set. Se perdessem agora, tudo estaria acabado.
Com isso em mente, Nick engoliu o orgulho e decidiu confiar em Tsuk, tentando se adaptar ao seu estilo. A bola veio forte em direção à quadra do Karasuno, e Cristian fez uma recepção firme, mandando a bola diretamente para Nick.
“Eu jogo do meu jeito, prefiro levantamentos de um tipo só!” As palavras de Tsuk ainda ecoavam claramente na mente de Nick. Em um rápido olhar para a quadra adversária, Nick percebeu que um levantamento pelo meio seria mais seguro. No entanto, ele escolheu confiar em Tsuk e lançou a bola para ele na direita.
Tsuk saltou alto, seus braços estendidos em uma postura perfeita para um corte potente. O bloqueio duplo do Seijoh imediatamente se posicionou contra ele, mas no último segundo Tsuk simplesmente ajustou a mão e aplicou uma finta delicada, passando por cima do bloqueio adversário. Ninguém havia antecipado aquilo, muito menos Oikawa, que se jogou desesperado para tentar salvar, mas a bola já havia tocado o chão suavemente.
Não foi um ponto conquistado pela força bruta ou por uma estratégia complexa; foi um movimento simples e inteligente, fruto de uma leitura apurada do jogo. Tsuk era conhecido por sua habilidade no bloqueio, o que naturalmente o tornava capaz de ler jogadas adversárias. Porém, usar essa mesma capacidade ofensivamente era simplesmente brilhante.
Nick abriu um sorriso discreto, assentindo com admiração para Tsuk. O olhar de surpresa de Tsuk revelava que ele não esperava tal reconhecimento. Nesse instante, Nick percebeu os olhos atentos de Oikawa, que acompanhava cada reação sua cuidadosamente.
Nick encarou Oikawa, abrindo um sorriso desafiador que parecia dizer claramente: "Achou que eu não sabia lidar com jogadores difíceis?" Oikawa, em resposta, sorriu discretamente e assentiu, percebendo que sua estratégia havia sido desarmada.
O placar agora marcava 20x21 para o Karasuno.
A partida continuou intensa. Tsuk voou mais uma vez para bloquear um poderoso corte de Kindaichi. A bola explodiu em suas mãos, voltando ao lado do Karasuno, onde Harry se atirou com tudo para mantê-la viva. Em um movimento rápido, Nick confiou novamente em Tsuk, que aplicou outra finta. Desta vez, Watari, o líbero do Seijoh, conseguiu salvar no último instante, devolvendo a bola de graça para o Karasuno.
"Boa, Watari!" gritou Oikawa, incentivando imediatamente seu companheiro de time.
Daichi recebeu com facilidade e passou a bola para Nick, que rapidamente levantou para o Ace do Karasuno, Asahi. Com um movimento explosivo, Asahi cravou a bola contra o bloqueio do Seijoh, conquistando mais um ponto para os corvos. Porém, logo em seguida, o Ace do Seijoh, Iwaizumi, devolveu o ataque com igual potência, cravando a bola violentamente na quadra do Karasuno.
O confronto seguiu acirrado, ponto a ponto, com ambos os lados lutando ferozmente. O placar agora marcava 22x23 para o Karasuno.
Nick novamente lançou a bola para Tsuk, que tentou repetir a finta, mas Watari estava preparado e conseguiu defender. Em seguida, Nick e Tsuk se posicionaram rapidamente para o bloqueio, mas o ataque em diagonal de Iwaizumi superou o bloqueio. Cristian saltou desesperado, salvando a bola em um esforço sobre-humano, enviando-a novamente para Nick.
A jogada óbvia agora seria lançar para o Ace, Asahi. Mas no último instante, Nick optou novamente por Tsuk. Watari antecipou-se, correndo para frente da quadra, já esperando outra finta.
"Não!" gritou Oikawa, percebendo a intenção de Watari. "Não vá longe demais!"
Mas era tarde. Tsuk, percebendo o movimento de Watari, alterou o corte, lançando a bola precisamente no fundo da quadra adversária, no espaço que Watari acabara de abandonar.
O placar agora marcava 22x24. Era set point para o Karasuno.
A torcida dos corvos explodiu em euforia, fazendo o ginásio tremer com sua vibração. Todos os jogadores do Karasuno foram imediatamente até Tsuk, comemorando efusivamente aquele ponto crucial. Tsuk nunca havia sido tão decisivo ofensivamente.
"Boa!" Nick disse animado, dando um tapinha nas costas de Tsuk.
Tsukishima, com sua postura reservada, ajeitou os óculos e assentiu discretamente na direção de Nick. Essa era a forma dele dizer obrigado.
OIKAWA
Niko. Niko. Niko. Niko. O nome martelava na mente de Oikawa como uma batida incessante. Faltava apenas um ponto para Niko fechar o segundo set. A respiração de Oikawa se acelerava, o ar queimava nos pulmões. Ele não podia permitir isso. Sabia o quanto vencer esse set era decisivo — quem o levasse, teria a vantagem psicológica no terceiro. Desde que Niko voltou para a quadra, Oikawa não conseguiu render seus habituais 150%. Para ele, 100% nunca foram suficientes.
Durante toda a sua infância, Oikawa conviveu com a sensação sufocante de não ser suficiente. As vozes que diziam que ele não tinha talento, que o vôlei não era o seu destino, ecoavam constantemente em sua mente. Cada comentário maldoso, cada expressão de dúvida e cada olhar de desaprovação tornaram-se cicatrizes invisíveis, que ele carregava silenciosamente. Mas aquelas feridas também eram combustível para uma determinação inquebrável, uma vontade feroz de provar o seu valor.
Agora, ele estava exatamente onde lhe disseram que jamais chegaria: semifinal do Intercolegial, carregando com orgulho a faixa de capitão do respeitado Aoba Jōsai, a um único passo da final tão sonhada.
Porém, naquele instante, o sonho se tornava secundário diante do adversário do outro lado da rede: Niko.
Para Oikawa, vencer Niko não era apenas uma questão de vitória ou derrota. Era algo maior, mais visceral. Era a promessa silenciosa que ele havia feito a si mesmo anos atrás, quando percebeu que precisaria compensar com esforço, dedicação e disciplina aquilo que lhe faltava em talento natural. Vencer Niko era provar ao mundo inteiro — e principalmente a ele próprio — que suor e perseverança poderiam derrotar qualquer genialidade inata.
Não era ego que movia seus passos, nem rancor ou vingança. Era algo muito mais profundo: era justiça.
Porque Oikawa jamais havia deixado de admirar Niko. Na verdade, jamais havia deixado de amá-lo. Niko fora mais que um amigo; havia sido seu melhor amigo, seu porto seguro em momentos difíceis, aquele que acreditara nele antes mesmo que ele próprio acreditasse. Foi Niko quem lhe ensinou os fundamentos, quem esteve ao seu lado nos primeiros passos incertos sobre a quadra. Niko tinha sido o início de tudo, a inspiração que fez Oikawa acreditar que poderia ir além.
Mas, em algum ponto do caminho, algo se quebrou. O amigo gentil e companheiro deu lugar ao "Rei da Quadra" — um jogador arrogante, frio, que jogava apenas para alimentar seu próprio ego. Niko tornara-se prepotente, indiferente aos sentimentos dos que o cercavam, tratando os companheiros como peças descartáveis em seu jogo particular. Oikawa sentiu raiva do que ele havia se tornado, odiou o brilho arrogante nos olhos daquele que um dia fora seu apoio mais sólido.
No entanto, ao observá-lo agora, vestindo o uniforme do Karasuno, Oikawa podia perceber pequenos flashes do antigo amigo. Na intensidade silenciosa de seu olhar, no respeito pelos colegas, na paixão renovada pelo jogo, havia algo familiar: o antigo Niko parecia estar ali, escondido sob a superfície endurecida. Mas Oikawa não podia esquecer tudo que viveram. O soco violento ainda pulsava em sua memória, o gosto metálico de sangue misturado às lágrimas da humilhação que Niko lhe infligira com palavras cortantes, dolorosas, marcantes.
A única maneira de finalmente deixar o passado para trás, de encerrar esse ciclo de dor e ressentimento, era enfrentá-lo ali, naquele momento decisivo, e vencê-lo dentro da quadra.
“Seijoh!” Oikawa chamou, reunindo o time rapidamente. Seus passos estavam mais pesados que antes. A tensão visível. “Ainda não acabou. O Niko não vai vencer essa!” Sua voz carregava raiva e todos voltam para suas posições.
“Seu babaca!” Iwaizumi o fuzilou com os olhos. “Isso não é uma batalha pessoal contra seu ex-namorado.”
Oikawa parou, perplexo.
“Namorado?” repetiu, confuso.
“Seu imbecil... ainda não percebeu? A gente não tá jogando contra um cara.” Iwa se aproximou, a voz grave, os olhos cravados nos dele. “É o Seijoh contra o Karasuno. Não é Oikawa contra Nick. Tem mais cinco do nosso lado e cinco do outro.”
Na mente de Oikawa, uma memória antiga se acendeu. A bronca que deu em Niko, anos atrás: “É o time com os seis melhores que é o mais forte.” Como se alguém tivesse virado uma chave dentro dele.
Idiota. Sua obsessão estava colocando tudo a perder.
“Iwa...” disse baixinho, com sinceridade nos olhos. “Me desculpe. Você tem razão.”
Iwaizumi piscou, surpreso com a humildade.
“É claro que eu tenho...” murmurou, desconcertado. “...Otário-kawa.”
Oikawa sorriu, o primeiro sorriso genuíno em muitos minutos.
“Confia em mim?” Oikawa diz
“Sempre!” Iwa responde confiante
“Não vamos deixar!” Oikawa olha nos olhos de Iwa
“Não vamos deixar!” Iwa se aproxima do rosto de Oikawa e suas testas se unem.
O Seijoh voltou para quadra transformado. A atmosfera mudou. Aqueles jogadores não iriam entregar o set — iriam lutar até o último ponto.
A bola veio para a quadra do Aoba Jōsai. Kunimi recebeu com precisão. Oikawa já estava posicionado. Quando a bola tocou seus dedos, ele não precisou pensar. Sabia onde Iwaizumi estaria. Sempre sabia. Um bloqueio triplo se levanta frente Iwa. Mas o Ace do Aoba Jōsai mostrou porque tinha esse título. Uma bomba sai de suas mãos e bate com tudo nas mãos do Gigante de Óculos e suas mãos vao para trás e bola cai no chão do Karasuno.
23x24.
“A GENTE NÃO VAI DEIXAR!!!” O grito de Iwaizumi explodiu como um trovão pela quadra.
Oikawa olhou para o Karasuno e viu — o impacto havia sido real. Os corvos hesitaram. Eles sentiram.
E o Seijoh... estava de volta.
NICK
Nick sentiu o estômago embrulhar. Seu olhar percorreu a quadra e o que viu o deixou ainda mais inquieto — o Karasuno estava imóvel, paralisado pelo último ponto. O impacto psicológico fora brutal. Era isso que tornava Oikawa tão perigoso. Com um único lance, ele conseguia desestabilizar a confiança de um time inteiro. Ele respirou fundo, tentando conter o medo que subia em ondas. Precisava falar, precisava puxar o time de volta.
“Só falta um ponto, e esse set é nosso!” disse em voz alta, firme. Seus olhos varreram os rostos dos companheiros. Um a um, todos assentiram com a cabeça, lentamente, como se estivessem tentando se convencer daquilo também. “Eu sei que a gente consegue.”
Mas então Charlie, ainda pálido, fez um discreto gesto com a cabeça, apontando para o outro lado da quadra. Nick seguiu o olhar... e sentiu o sangue gelar.
Oikawa estava na linha de saque.
“Merda...” Nick murmurou, engolindo em seco.
Não podia ter vindo em pior hora. Ele sabia exatamente do que Oikawa era capaz. Um saque daquele cara não era apenas uma jogada — era um golpe certeiro no psicológico.
Um calafrio desceu por sua espinha. Mas então ele olhou para Cristian e Daichi. Ambos estavam em posição, os olhos afiados, e ergueram os polegares em sua direção. Estavam prontos ou ao menos, estavam tentando estar.
Oikawa lançou a bola para o alto com precisão absoluta, como se tivesse ensaiado aquele movimento milhares de vezes — e ele, de fato, havia. Seu corpo se arqueou com fluidez perfeita, cada músculo em harmonia completa, os olhos fixos no ponto exato onde a bola se encontraria com sua mão. Quando o impacto veio, ele enviou um saque brutal, uma diagonal baixa, carregada de efeito, diretamente para o canto esquerdo da quadra do Karasuno. Era uma aposta perigosa. Um erro mínimo ali poderia entregar o set ao adversário. Mas não havia espaço para dúvida ou hesitação em Oikawa; para ele, era tudo ou nada. Sempre foi.
Do outro lado da rede, Nick assistiu admirado. Um sentimento profundo de respeito tomou conta de seu peito. Era impossível não recordar daquele menino inseguro, quase desesperado, errando saque atrás de saque na Quadra do Rio. Aquele garoto que Nick viu tantas vezes, franzino e frustrado, era agora um maestro absoluto da quadra, fazendo parecer simples o que para outros seria impossível.
Cristian mergulhou para a recepção, lançando-se no ar numa reação instintiva e desesperada. Ele conseguiu tocar na bola, mas a recepção saiu muito alta e descontrolada. Ela subiu numa trajetória errática, distante de qualquer jogador do Karasuno, e caiu sem perigo algum no território do Seijoh.
Watari, tranquilo e atento, recebeu com facilidade e passou a bola diretamente para as mãos firmes de Oikawa.
Nesse momento, Nick estreitou os olhos, atento a cada detalhe da movimentação adversária. Kindaichi estava posicionado bem no meio da rede, pronto para um ataque rápido. A defesa do Karasuno estava exposta justamente ali. Aquela seria a jogada óbvia, segura, perfeita. A jogada que qualquer levantador faria sem pensar duas vezes.
Mas Oikawa nunca foi um levantador qualquer.
Nick percebeu imediatamente o movimento sutil na lateral esquerda. Iwaizumi estava saltando com toda a força e determinação. Essa era a verdadeira jogada, exatamente o que Nick faria se estivesse no lugar de Oikawa. Mas Tsukishima ainda olhava para Kindaichi, fixo no centro, completamente distraído.
Em uma fração de segundo, impulsivamente, Nick agarrou a camisa de Tsukishima, puxando-o para a posição correta. Foi um gesto instintivo, sem tempo para explicações. Os dois saltaram juntos em perfeita sincronia.
Iwaizumi desferiu um corte devastador, colocando toda sua força no ataque, confiante de que atravessaria aquele bloqueio improvisado. Mas a bola encontrou os braços firmes de Nick, desviando-se abruptamente para as mãos erguidas de Tsukishima, que, em puro reflexo, empurrou-a violentamente para baixo.
O impacto da bola contra o chão do Seijoh ecoou com um estrondo seco, como um trovão em meio à tempestade.
Um silêncio pesado tomou conta do ginásio por um instante.
Iwaizumi permaneceu imóvel, olhos arregalados, completamente atordoado. A bola rolou suavemente até parar aos pés de Oikawa. Lentamente, Oikawa encarou suas próprias mãos, incrédulo diante daquilo que havia acabado de acontecer. Nick conhecia aquele olhar muito bem — era puro desapontamento, dor profunda e uma incredulidade quase impossível de disfarçar.
E então, uma única lágrima solitária surgiu nos olhos de Oikawa. Discreta, quase imperceptível, mas ali estava ela. Nick a viu claramente. E, ainda assim, sentiu a certeza absoluta de que, naquele ginásio lotado e vibrante, Oikawa não precisava daquela lágrima. Porque, independentemente daquele ponto, ele ainda era, sem dúvidas, o melhor jogador naquela quadra.
A torcida do Karasuno explodiu em comemoração. Gritos eufóricos ressoaram pelas arquibancadas enquanto o placar anunciava a virada impressionante:
23x25. O Karasuno venceu o segundo set.
Os companheiros de equipe cercaram Nick imediatamente, envolvendo-o em abraços apertados, dando-lhe tapas amistosos nas costas, gritando em celebração. Mas, em meio a toda aquela alegria contagiante, os olhos de Nick permaneceram fixos em Oikawa, incapazes de se desviar daquele que fora, e talvez ainda fosse, seu maior rival.
OIKAWA
“Você não tem talento. Nem aptidão. Vôlei não é pra você.”
"O treinador tinha razão! Você não tem talento e é um inútil em quadra!"
"Você não é mais meu amigo, seu viadinho!"
As palavras martelavam em sua mente. Oikawa caminhava para o banco em silencio sem seu sorriso tão significativo.
“EU VOU TE MOSTRAR QUE O ESFORCO E O TRABALHO DURO VENCEM O TALENTO NATURAL” A frase que tanto o motivava doía tanto em seu peito. Niko o tinha superado naquele set.
“Me desculpa!” diz Iwa se aproximando “Eu tava tão confiante que marcaria que não pensei direito.”
“Eu não quis fazer a jogada obvia pelo centro. O ataque rápido com Kindaichi” Oikawa sussurra “Era obvio demais, mas parece que o Niko conseguiu prever que eu mandaria para você na esquerda.” Oikawa encara Iwa “Sabe o que isso significa?”
“E o que isso quer dizer?” Iwa perguntou, confuso.
Oikawa respirou fundo. Seus dedos tremiam levemente. “Significa que ele não está mais preso àquelas decisões automáticas. Ele não tá apenas jogando com reflexo. Ele está pensando como um levantador de verdade. Ele leu a nossa desvantagem. Ele previu nossa estratégia.” Ele desviou o olhar e fixou nos olhos calmos e atentos de Suga do outro lado da quadra. “Aquele Carinha Revigorante… ele mudou tudo.”
Oikawa fechou os punhos com força. “Ele virou o jogo. Com leitura. Com paciência. Ele fez o Niko pensar. O Niko do primeiro set jamais teria previsto minha jogada com você.”
Então, ele soltou um suspiro e, lentamente, um sorriso começou a se formar. Não o típico sorriso debochado. Era um sorriso tenso, vibrante. Cheio de algo novo.
“Parece que o Rei da Quadra tá virando um Rei Decente.” A frase veio carregada de ironia, mas também de reconhecimento.
Era perigoso. Muito perigoso.
Mas Oikawa não recuava diante do perigo. Aquela mistura de raiva, frustração e ressentimento queimava dentro dele — e ele sentia sua energia voltar. Aquilo que poderia derrubar qualquer um, em Oikawa virava combustível.
Oikawa ergueu os olhos e os lançou na direção do outro lado da quadra. Seus olhos âmbar queimavam em determinação enquanto encontravam os verdes intensos de Nick. Não havia sorrisos. Não havia provocações. Apenas o silêncio entre dois rivais que conheciam cada sombra um do outro.
Com passos firmes, Oikawa caminhou em direção à nova metade da quadra. O Aoba Jōsai o seguiu, como soldados prontos para a última marcha. Havia algo na maneira como ele andava — uma aura imponente, quase real, como se arrastasse com ele o próprio peso da batalha.
Do outro lado, Nick também deu o primeiro passo. Um passo que ressoou em cada jogador do Karasuno, fazendo-os segui-lo com a mesma confiança silenciosa. Ele não precisava dizer nada. Seus olhos diziam tudo: “É agora.”
No centro, diante da rede, os dois pararam.
Oikawa de um lado. Nick do outro.
Seus olhares se encontraram no meio do campo como duas forças colidindo. Nenhuma palavra foi dita. Nenhuma precisava ser.
A tensão era espessa como fumaça. As arquibancadas vibravam. O chão parecia pulsar. Dois generais frente a frente, cada um liderando um exército.
O último set estava prestes a começar!
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