Match Point

23 ARCO 2 DOMINE! - Capítulo 22 - A Dadiva do Sem Talento


Notas iniciais
Oi, corvos! Antes de começarem a leitura, preciso abrir meu coração. Esse capítulo me exigiu muito. Foram duas semanas inteiras escrevendo, revisando, reescrevendo, chorando, sorrindo... e, no fim, entregando tudo de mim em cada linha. Confesso que foi difícil — talvez o mais difícil até agora — mas também foi o que mais me tocou. Ele ficou enorme (me desculpem por isso!), mas cada palavra carrega algo que eu precisava dizer, mostrar, sentir. Espero de verdade que vocês consigam mergulhar nessa batalha como eu mergulhei, e que sintam tudo o que tentei colocar aqui: o peso, a beleza da entrega, a força do recomeço... e, acima de tudo, o amor por esse time que só sabe lutar com o coração. Obrigada por estarem comigo até aqui. Boa leitura. Com carinho, Bia

CHARLIE

Os times se posicionaram para o terceiro e último set, e Charlie permaneceu parado por um instante a mais, sentindo o piso sob seus tênis como se estivesse fincando os pés em seu próprio destino. O ginásio parecia ter silenciado subitamente, mesmo que o murmúrio agitado das torcidas continuasse. Era como se o mundo estivesse prendendo a respiração junto com ele.

“O último set...” pensou, sentindo uma pressão que parecia comprimir seu peito.

Sua mente viajou para trás, revisitando cada passo da trajetória que o trouxera até ali. Viu-se novamente no canto da quadra do Karasuno, recolhendo bolas após os treinos, observando os jogadores com olhos brilhando de admiração e esperança. Relembrou o exato momento em que recebeu seu uniforme, aquela camisa preta e laranja com o símbolo dos corvos estampado orgulhosamente no peito. Aquele foi, sem dúvida, um dos dias mais importantes de sua vida.

E então... o Muro de Ferro.

A lembrança do muro era vívida, intensa, quase dolorosa. Aquela parede sólida de bloqueadores havia sido a maior prova que já enfrentara, uma barreira que parecia impossível de transpor. Ele se recordava claramente da sensação de impotência, de como seu coração acelerou em desespero ao encarar aquela fortaleza. Mas lembrava-se também do salto decisivo. O momento em que fechou os olhos e simplesmente confiou — nele mesmo, em Nick, e no Karasuno. Naquele breve instante, ele havia conseguido voar.

E viu o outro lado.

A visão do topo era gloriosa, indescritível. O brilho das luzes, os gritos emocionados das arquibancadas, a sensação intensa da vitória pulsando nas veias. Ele não queria jamais descer daquele lugar.

Charlie abriu os olhos, voltando à realidade. E lá estava o Seijoh, do outro lado da rede. Eles não eram como o Muro de Ferro. Eram algo ainda pior. Mais rápidos, mais calculistas, mais mortais. Oikawa e seu time não bloqueavam apenas bolas; eles bloqueavam estratégias, destruíam a confiança, abalavam os adversários até o limite emocional.

Charlie engoliu em seco, sentindo um aperto angustiante no peito.

"Se a gente perder…" pensou, o estômago apertando dolorosamente. "...será o fim."

Mas então ele desviou o olhar, buscando rostos familiares ao seu redor. Cristian, incansável e atento; Daichi, firme como uma rocha; Asahi, com sua força constante; Harry, impulsivo e intenso; Tsuk, inteligente e analítico. E finalmente, lá estava Nick, com o olhar firme, determinado, e o punho fechado num gesto silencioso de resistência. O coração de Charlie acelerou novamente, não mais por medo, mas por pertencimento. Ele não estava sozinho ali. Nunca esteve.

O terceiro set avançava rapidamente, uma verdadeira tempestade em quadra. Charlie sentia cada ponto escapando, cada oportunidade deslizando entre os dedos como areia fina demais para segurar. O placar já estava 10x8 para o Seijoh, mas emocionalmente a distância parecia ainda maior. Aoba Jōsai estava imparável — rápidos, precisos, sempre com uma resposta perfeita para qualquer tentativa de ataque do Karasuno.

Charlie saltou para um corte rápido, seus músculos reagindo instantaneamente. Por um instante sentiu a liberdade do ar, até que o bloqueio de Kunimi o interrompeu violentamente, mandando-o de volta à realidade. Seus pés tocaram o chão e a respiração se tornou difícil, o desânimo tentando dominar seu espírito.

Asahi tentava cortar com brutalidade, mas Watari, o líbero, parecia antecipar cada movimento. Harry tentava seus saques mais fortes, mas a defesa adversária simplesmente não falhava. Era como se o Seijoh estivesse lendo cada pensamento, anulando cada jogada.

Ainda assim, Karasuno resistia bravamente. Daichi e Cristian eram verdadeiros guardiões, atirando-se desesperadamente atrás de cada bola como se a vida dependesse daquilo. Eles eram o coração da resistência, incansáveis apesar da exaustão evidente.

Em um momento crítico, Cristian realizou uma recepção milagrosa. Nick rapidamente levantou para Asahi, cujo ataque brutal foi defendido por Oikawa com uma recepção impressionante, impedindo-o de fazer o levantamento. Uma centelha de esperança acendeu em Charlie. "Eles vão precisar improvisar," pensou ele, confiante por um instante.

“Watari!” gritou Oikawa.

Charlie viu, incrédulo, o líbero do Seijoh correndo para a linha de ataque com uma determinação inacreditável, executando um levantamento perfeito — digno de um profissional. Oikawa, que segundos antes havia recebido a bola, contornou rapidamente e saltou para um ataque devastador. A bola explodiu contra o chão do Karasuno, deixando Nick sem reação.

"Watari levantando e Oikawa cortando?" Charlie estava atônito.

“Numa jogada anterior no primeiro set eu percebi que ele já tinha sido levantador” Nick comentou, ainda recuperando o fôlego.

Charlie concordou silenciosamente, impressionado demais para responder.

“Esse tipo de jogada é de nível profissional...” Daichi acrescentou, visivelmente admirado. “Eles não param de surpreender.”

A intensidade cresceu ainda mais. Oikawa voltou ao saque e enviou um míssil direto para Cristian, que conseguiu receber precariamente. Nick levantou rapidamente para Charlie, que fez um ataque rápido poderoso, mas Watari novamente conseguiu defender. A bola voltou alta e lenta para o lado do Karasuno. Charlie viu a oportunidade perfeita para um ataque de primeira e saltou, focado apenas na bola.

Mas Oikawa saltou mais alto, interceptando o ataque antes mesmo que Charlie pudesse tocá-la, e levantou rapidamente para Iwaizumi, que cortou violentamente no chão do Karasuno. Charlie ficou boquiaberto. Oikawa estava em um nível que parecia inalcançável. Ter perdido o segundo set pareceu ter despertado algo ainda mais poderoso dentro dele.

Ofegante, Charlie desabafou com Nick: “Tô achando que ele é um robô.”

“Ele sempre brilha nos momentos mais difíceis,” Nick respondeu, admirado. “O toque dele fez toda a diferença nessa jogada.”

“É errado eu achar ele incrível?” perguntou Charlie, quase sem ar.

“Deixe para admirá-lo quando o jogo terminar,” Nick rebateu, firme. “Mas você não está errado, Oikawa melhora a cada jogada.”

A treinadora Singh pediu tempo. Os jogadores foram ao banco.

“Eles já estão prevendo nossas jogadas pelo meio,” disse ela com seriedade. “Explorem mais as laterais.”

“O ataque deles é sólido demais,” reclamou Cristian.

“E fazem contra-ataques como se não fosse nada,” Daichi complementou.

“Eu sei,” respondeu a treinadora com um tom firme e encorajador. “Mas vocês cresceram muito no segundo set. Não estão nervosos, estão jogando com equilíbrio e força. Deixem isso bem claro agora.”

“Vamos lá!” gritou Harry, motivado.

“VOE!” completou Nick, e todos gritaram juntos.

Charlie voltou à quadra com o corpo exausto, o coração disparado e os músculos ardendo. Mas havia algo novo dentro dele. Algo mais forte do que o cansaço. Mais intenso do que a dor. Era o desejo de se superar.

Ele se lembrava do que diziam sobre Oikawa. "Ele melhora a cada jogada."

Charlie queria isso. Precisava disso. Queria mostrar que também podia crescer dentro do jogo, mesmo no limite, mesmo sangrando por dentro.

Seus olhos buscaram Nick, e o olhar que trocou com o levantador foi direto. Sem medo. Sem hesitação.

“Nick,” chamou, com a voz firme apesar da respiração pesada, “manda pra mim!”

Nick se surpreendeu com o tom, com a clareza no pedido. Era como se Charlie tivesse deixado o garoto de antes para trás ali mesmo, no chão onde caiu. Sorriu, orgulhoso.

“Cruzado aberto?” perguntou, já se posicionando.

Charlie assentiu com firmeza, o corpo vibrando de tensão, mas a mente ancorada em uma única certeza: Nick saberia exatamente onde colocar a bola.

A jogada começou como tantas outras, mas o que veio a seguir era pura sintonia. A bola foi recebida com dificuldade e voou alta, direta para Nick, que já estava pronto, calmo, os olhos percorrendo a quadra como se enxergasse linhas invisíveis. Seu toque foi rápido, preciso, suave como um sussurro — um levantamento perfeito, flutuando no tempo e no espaço por um único instante.

Charlie disparou.

As pernas queimavam, mas ele correu como se o cansaço não existisse. Fez o movimento de aproximação com velocidade controlada, e no último segundo, mudou sutilmente de direção, confundindo o bloqueio adversário. Era como dançar com o perigo.

E então ele saltou.

No ar, fechou os olhos.

Ali, suspenso por um segundo que parecia eterno, não havia quadra, não havia bloqueio, não havia ninguém. Apenas ele. E a confiança absoluta de que Nick estaria com ele — como sempre esteve.

O braço se armou, e em um gesto instintivo, preciso, feroz, ele golpeou a bola com tudo o que tinha.

A trajetória foi limpa, afiada, atravessando a quadra num cruzado aberto impossível de defender. Iwaizumi sequer reagiu. Apenas ficou parado, os olhos seguindo o rastro da bola até ela tocar o chão, como um raio que ninguém viu chegar.

A explosão na arquibancada veio um segundo depois, mas para Charlie, só existia o silêncio no ar.

Silêncio... e a certeza de que, mesmo de olhos fechados, ele tinha acertado em cheio. Porque confiava. Porque voara com alguém que segurava sua queda.

“Isso é insano!” exclamou Oikawa surpreso olhando Charlie. “Fiquem de olho no Tampinha!”

Charlie sentiu o peito aquecer. Não sabia se o orgulho maior era pelo ponto incrível ou pelo elogio espontâneo de Oikawa. A quadra silenciou, a torcida do Seijoh calou-se. O Karasuno o abraçou em comemoração, e Charlie encontrou os olhos de Oikawa, vendo finalmente o sorriso do rival desaparecer, substituído por um olhar de desafio e respeito mútuo.


OIKAWA

Oikawa cerrou os dentes com força, sentindo a frustração percorrer suas veias como eletricidade pura.

"Droga!" pensou ele. "Não podemos deixar esses dois juntos depois que pegam no tranco."

Seus olhos foram imediatamente atraídos para Charlie, o Tampinha, que parecia desafiar todas as leis possíveis daquele esporte. Pela sua estatura, ele jamais deveria ter sido atacante. Até mesmo como líbero, ele enfrentaria dificuldades. Mas havia algo em Charlie que despertava em Oikawa um reconhecimento silencioso, quase desconfortável. Ambos eram jogadores que desafiavam expectativas, que jogavam sob a sombra constante da dúvida alheia. E, ainda assim, sempre surpreendiam.

O placar estava em 15x14 para o Seijoh, um momento perigosamente decisivo. Cada ponto agora tinha o peso de uma sentença, definindo destinos. Oikawa sentia aquela pressão comprimir seu peito como um peso físico.

Ele observou atentamente enquanto Nick preparava mais uma jogada com sua precisão habitual. Charlie disparou pela esquerda, tão rápido que parecia deixar apenas um rastro no chão da quadra. O bloqueio do Seijoh reagiu imediatamente, acompanhando-o, fisgados por aquela isca evidente demais.

Mas Oikawa não mordeu. Seus olhos calculistas captaram imediatamente a postura de Nick. Aquilo não era um levantamento real para Charlie, era uma isca perfeita para atrair o bloqueio. Seu olhar deslizou rapidamente pela quadra adversária até pousar em Harry. A postura do Tagarela Irritante revelava sua intenção — ombros prontos, peso concentrado no pé direito, olhos fixos na bola.

Naquele instante, Oikawa sentiu com clareza como o vôlei era, acima de tudo, um constante embate contra a gravidade. Saltar para bloquear, para enganar, para atacar — cada salto era uma declaração de força e resistência.

Charlie ainda estava no ar, executando sua encenação perfeita. Iwaizumi já se preparava para o bloqueio. E Oikawa, sentindo cada músculo responder ao chamado, saltou com seu Ace. A bola, cortada por Harry, explodiu contra suas mãos estendidas e caiu violentamente na direção da quadra do Karasuno.

Mas ainda não havia terminado.

Cristian, o líbero do Karasuno, atirou-se como um relâmpago em direção ao chão. Em um movimento desesperado, deslizou com precisão suficiente para interceptar a bola no último instante. A jogada ainda estava viva.

Enquanto se recompunha, Oikawa notou algo preocupante. As pernas de Iwaizumi e Kindaichi estavam levemente dobradas demais, pesadas. O cansaço começava a ser evidente em cada membro, cada respiração. A partida estava se alongando perigosamente, sugando forças e energias com intensidade brutal.

Sabia que seus companheiros saltariam novamente, não por querer, mas por obrigação. O cansaço já não permitia decisões baseadas apenas em vontade.

Do outro lado da quadra, o Karasuno também sofria. Os rostos exaustos, as respirações ofegantes, os joelhos trêmulos revelavam a dura batalha que estavam travando.

Mas ninguém cedia. Ali, naquela quadra, já não era apenas talento versus talento. Era resistência contra resistência, coração contra coração.

E o céu, naquele momento, parecia mais distante do que nunca para ambos os times.

"Eu tô aqui!", gritou o Tampinha, rompendo a tensão com sua voz confiante enquanto disparava pela direita da quadra com uma velocidade absurda.

Oikawa mal conseguiu acompanhar com os olhos, atônito pela rapidez impressionante daquele garoto. Charlie já estava no ar antes que pudesse pensar em reagir, e algo naquele salto capturou imediatamente sua atenção.

Os olhos de Charlie estavam fechados.

“O QUE?” sua mente grita

Oikawa sentiu um arrepio subir pela coluna, totalmente desconcertado. “Como aquele garoto podia confiar tanto em Niko a ponto de saltar sem sequer olhar?” Era uma conexão além do compreensível.

O corte veio direto, seco, violento, certeiro demais para que ele pudesse ajustar sua posição. A bola explodiu contra seu peito, roubando-lhe o fôlego e caindo imediatamente no chão. Uma dor aguda se espalhou pela região do impacto, mas era outra coisa que realmente o incomodava naquele instante — a sensação clara de que aquela jogada não fora baseada em técnica ou treinamento. Aquilo era puro instinto, uma confiança absoluta entre o Tampinha e Niko.

Oikawa levou a mão ao peito, respirando fundo, sentindo o orgulho ferido arder mais forte que a dor física.

Na jogada seguinte, Charlie parecia ainda mais veloz, imparável. Oikawa, desesperado, gritou instruções ao bloqueio que se posicionou rapidamente para interceptá-lo. Mas ele cometera um erro crucial: esquecera que Niko estava sempre atento às suas ações.

Desta vez, a bola não foi para Charlie.

Foi lançada para trás, diretamente nas mãos do Ace, Asahi. O corte veio brutal, violento. Oikawa saltou com todas as forças, tentando bloquear, mas suas mãos cederam sob a força devastadora da bola. A dor nas palmas das mãos foi aguda, como se tivesse tentado segurar uma rocha em queda livre. Mas, mais doloroso ainda, foi ver a bola atingir implacavelmente o chão da quadra do Seijoh.

"Foi mal, eles me enganaram", disse Kindaichi, ofegante e frustrado.

O placar agora marcava 15x15. Tudo empatado novamente.

O treinador do Aoba Jōsai solicitou tempo.

“VAI, VAI, FORÇA, FORÇA SEIJOH!”, o ginásio gritava em uníssono, tentando reanimar o time.

Reunidos ao redor do treinador, os jogadores do Seijoh respiravam com dificuldade, os rostos brilhando de suor e tensão. Cada um deles carregava no corpo a exaustão de dois sets intensos, mas era nos olhos de Oikawa que o verdadeiro desgaste se revelava — não físico, mas mental. O coração batia tão alto que ele mal ouvia o burburinho da torcida. Pela primeira vez na partida, ele não tinha uma resposta imediata. E isso o incomodava.

“O que vamos fazer com o cruzado aberto do Charlie?” perguntou Iwaizumi, quebrando o silêncio com a voz rouca, ainda ofegante.

A pergunta pairou no ar. Oikawa hesitou, encarando o chão como se as linhas da quadra fossem algum tipo de mapa oculto. Ele conhecia aquela jogada — a explosão no ar, os olhos fechados, o tempo parando para o Tampinha, e a confiança cega no levantamento do Nick. Era algo instintivo, quase impossível de prever.

Foi então que o treinador deu um passo à frente, os olhos calculistas fixos em todos.

“Eu quero que vocês ignorem ele!” disse de forma direta, a voz cortando o ar como um comando de guerra.

“Como assim?” questionou Kindaichi, surpreso, franzindo o cenho com confusão evidente.

“É isso mesmo...” murmurou Oikawa, entendendo imediatamente a lógica por trás da proposta.

O treinador então se virou para Watari, que o observava com atenção. “Sem o bloqueio para dificultar a visão da recepção, Watari pode defender sem problemas.” Era uma mudança ousada. Ao invés de pressionar o atacante com um bloqueio que tentava antecipar o impossível, o Seijoh abriria mão dessa disputa — confiaria completamente na leitura e na precisão do seu líbero.

Watari entendeu na hora. “Isso pode funcionar...” disse com um sorriso surgindo nos lábios, já imaginando o caminho da bola limpando o ar até ele.

“Boa, treinador!” exclamou Iwaizumi, agora empolgado, estendendo o braço e colocando a mão no centro do círculo.

“DOMINE A QUADRA!” gritaram em uníssono, os punhos erguidos, sentindo a confiança se reinstalar como uma onda.

De volta à quadra, Karasuno se posicionou para repetir sua arma secreta. Nick levantou com sua precisão cirúrgica e Charlie saltou como de costume, com os olhos fechados, pronto para o cruzado aberto. Mas... nenhum dos bloqueadores do Seijoh saltou. O espaço estava livre. A linha de visão aberta como uma estrada limpa para Watari. E o líbero, calmo como se estivesse num treino, recebeu o ataque com facilidade absoluta, dominando a bola como se soubesse exatamente onde ela iria desde o começo.

A frustração tomou conta de Charlie no ar, e o olhar confuso de Nick encontrou o dele assim que seus pés tocaram o chão. Aquela jogada que sempre funcionava... agora tinha sido neutralizada com uma defesa fria e estratégica.

Oikawa não perdeu um segundo. Com a recepção perfeita de Watari, ele se moveu para o centro da quadra. Todos esperavam o levantamento clássico, talvez para Iwaizumi. Mas no último segundo, sem sequer erguer os olhos, Oikawa realizou uma largada de segunda — suave, inesperada e cruel.

A bola caiu sem resistência do outro lado, numa zona morta da defesa do Karasuno, como se ele tivesse enxergado aquele buraco no mapa desde o início.

Um sorriso se desenhou nos lábios de Oikawa, lento e cheio de malícia. O brilho competitivo reacendeu nos seus olhos. Ele estava de volta. O maestro. O estrategista. O Grande Rei.

Agora era seu momento de sacar. Oikawa ajeitou a bola na mão, e com o olhar afiado, pensou:

Agora, é o meu jogo.


NICK

Os pensamentos de Nick fervilhavam em sua mente, quentes e intensos como o suor que escorria pelo seu rosto. "Nem mesmo com aquele cruzado aberto conseguimos abalar o Seijoh" pensava ele, frustrado. O peso da responsabilidade apertava-lhe o peito enquanto observava Oikawa se preparar para o saque, uma visão assustadora naquele momento crítico.

"Droga! Justo quando não queremos que eles abram vantagem, vem o saque dele" Nick pensou, sentindo o coração bater mais rápido.

Do outro lado, Oikawa saltou com força, seu corpo movendo-se com precisão absoluta. Mas o saque saiu inesperadamente fraco. A bola tocou na rede e, por sorte, caiu do lado do Karasuno. Ninguém esperava aquilo, Nick tentava se decidir se aquilo foi um erro de Oikawa ou ataque estratégico. Ninguém do Karasuno conseguiu chegar a bola e ela cai no quadra do Karasuno. Nick respirou fundo, mas a tensão não diminuiu. Ainda estavam dois pontos atrás, e cada ponto agora parecia custar o dobro.

Nick engoliu seco, tentando acalmar os nervos. "Tenho que manter a calma" repetiu mentalmente, inspirando profundamente para recuperar o equilíbrio emocional.

No saque seguinte, Oikawa não hesitou. A bola veio como uma bala, mais forte e venenosa. Cristian tentou receber, mas o impacto o desequilibrou. A recepção saiu torta e desesperada.

“Desculpe, defendam,” Cristian falou, sua voz carregada de ansiedade.

“É minha!” Nick e Asahi gritaram juntos, as vozes se chocando no ar. Os dois se encararam por um breve instante, hesitantes. Aquela fração de segundo quase custou caro. A bola despencava rapidamente, prestes a tocar o chão. Mas Nick reagiu rápido, impulsionado por puro instinto, mergulhando em direção à bola e salvando-a no último instante. Asahi se recuperou rapidamente, passando a bola de manchete para o outro lado. Foi uma devolução de graça, sem potência, quase um pedido silencioso para que o adversário não os punisse.

“Se acalmem!” a voz firme da treinadora Singh ecoou do banco. “Não se afobem agora!”

O rally que seguiu foi brutal e implacável. A bola parecia ter vida própria, teimando em não cair. Charlie subiu com explosão, mas encontrou um bloqueio firme de Kindaichi. A bola despencou violentamente, mas Daichi se jogou ao chão, salvando-a no limite. Nick, ágil e atento, levantou imediatamente para Asahi. O Ace disparou um corte poderoso, mas Watari, o líbero incansável do Seijoh, recebeu com precisão impressionante.

A bola subiu limpa para Oikawa, que, com movimentos fluidos, lançou-a rapidamente para Kindaichi. O corte veio violento, cheio de determinação, mas Charlie e Tsukishima subiram juntos num bloqueio certeiro, devolvendo a bola para o lado do Seijoh.

Kunimi, demonstrando reflexos surpreendentes, mergulhou no chão para manter a jogada viva, devolvendo-a com dificuldade para Oikawa. Este, implacável, fez um levantamento perfeito para Iwaizumi, que saltou com força devastadora, disparando uma bomba certeira na paralela.

Harry, num momento quase impossível, reagiu por puro instinto, salvando a bola com o pé em um movimento desesperado. A bola saiu torta, fugindo de Nick. Cristian disparou como um relâmpago atrás dela, conseguindo levantá-la com grande esforço até Charlie, que já havia se posicionado no centro da rede.

Naquele instante, todos perceberam que aquele ponto significava muito mais que um número no placar. Era o tipo de ponto que poderia definir o ritmo final do set.

Charlie saltou com toda força, confiante, pronto para fechar aquela jogada decisiva. Mas, do outro lado, ergueu-se uma muralha tripla: Kindaichi, Kunimi e Iwaizumi saltaram juntos, bloqueando qualquer brecha possível. A bola bateu violentamente no bloqueio e caiu implacável no chão do Karasuno.

19x16 para o Seijoh. O placar pesava na consciência de Nick, e a pressão tornou-se quase insuportável.

A treinadora Singh, percebendo o momento crítico, pediu tempo imediatamente.

"Não podemos perder a calma," ela falou com uma voz firme e serena, olhando nos olhos de cada um dos jogadores enquanto se hidratavam. "Essa pode ser nossa maior falha neste set. Não se afobem."

De volta à quadra, o saque veio forte do lado do Seijoh, mas Daichi recebeu com a confiança de sempre. Nick imediatamente armou uma jogada para Harry, que atacou na paralela com precisão. Watari novamente estava ali, firme, salvando a bola e enviando-a de volta para Oikawa.

Oikawa levantou rapidamente para Kindaichi, que subiu com força. Porém, num momento inesperado, seu braço tocou a rede.

"Falta!" o árbitro gritou, sinalizando o ponto para o Karasuno.

19x17. O Karasuno respirou novamente, recuperando parte da confiança perdida.

Charlie então se preparou para sacar, caminhando lentamente até a linha de fundo. Ele ajeitava cuidadosamente a bola nas mãos, sentindo o peso do momento. Mas antes que ele pudesse sequer se posicionar corretamente, o apito soou. Um silêncio repentino tomou conta do Karasuno, todos surpresos, sem entender o que acontecia.

Eles se viraram, confusos, e então viram Tao na lateral da quadra, segurando a placa com o número 9. Um choque percorreu todo o time. Tao estava entrando para sacar no lugar de Charlie.


TAO

“Isso é só pelo Charlie! Isso é só pelo Charlie! Eu não gosto tanto assim de vôlei... Isso é só pelo Charlie!” A mente de Tao repetia a frase incessantemente, como se tentasse convencer a si mesmo daquela verdade incerta.

Tao nunca havia sido bom em esportes. Muito menos no vôlei. Ele havia entrado para o Karasuno apenas para proteger Charlie — de Ben, de Harry, das dores e das dificuldades que um verdadeiro amigo encara lado a lado. Sempre permaneceu no banco, tranquilo, confortável, e sinceramente, nunca havia desejado estar em quadra.

Mas, lentamente, quase sem perceber, algo dentro dele começou a se transformar.

Ao observar Charlie, Nick e os demais companheiros batalhando por cada ponto, comemorando cada vitória e sofrendo a dor de cada derrota, Tao começou a compreender. Aquilo não era apenas um jogo escolar sem significado. Era algo muito maior: era luta, superação, amizade verdadeira. Era o pertencimento que ele, sem perceber, começava a desejava profundamente.

A cada jogada decisiva, a cada saque destruidor de Oikawa, a cada nova estratégia construída, algo crescia em seu peito — algo novo, inquieto, cheio de vida: era ambição.

E naquele exato momento, pela primeira vez, Tao queria estar dentro daquela quadra. Queria fazer parte daquele momento histórico, mesmo que fosse apenas por um instante, por um saque, por um ponto. Ele queria sentir como era ser um verdadeiro jogador do Karasuno. Porque agora, finalmente, ele também se importava.

Charlie se preparava para sacar, mas a voz firme da treinadora chamou Tao:

“Tao!” disse ela, com suavidade, mas convicção. “Precisamos do seu saque.”

“O quê?” Tao reagiu, completamente incrédulo.

“O seu saque flutuante. Aquele que você treinou nas últimas semanas” a treinadora respondeu calmamente.

“Não vai rolar...” Tao disse, incrédulo, sentindo o coração acelerar. “Eu acerto totalmente na sorte.”

“Talvez sorte seja exatamente o que precisamos agora,” retrucou ela, firme.

“Mas…” Tao engasgou, sentindo o peso do momento “É uma hora crucial para o Karasuno. O Seijoh não pode abrir mais vantagem agora.”

“O que está escrito naquela bandeira?” perguntou a treinadora, apontando para o bandeirão do Karasuno, orgulhosamente erguido pela torcida.

“Voe!” Tao respondeu com um fio de voz.

“Exatamente,” ela disse com intensidade no olhar. “Você também é um corvo, Tao. Você é um jogador do Karasuno e agora seu bando precisa de você.”

Tao sentiu algo quente brotar no peito ao olhar para Charlie e o restante do Karasuno. Um sentimento novo e forte, que preenchia cada parte de si.

“Tá legal,” ele disse, com a voz firme.

“Voe Tao!” a treinadora afirmou, pousando suavemente a mão em seu ombro. “Mostre para o Seijoh por que eles devem temer cada corvo que pisa nesta quadra.”

Tao pegou a placa, sentindo uma energia renovada, e caminhou decidido até a linha lateral. O apito soou alto, marcando sua entrada. Charlie veio ao seu encontro, os olhos brilhando em incentivo enquanto pegava a placa das mãos do amigo.

“O Seijoh está ferrado!” disse Charlie, sorrindo amplamente orgulhoso do amigo.

“Isso tudo é culpa sua! Eu quero uma maratona de filmes no fim de semana,” Tao retrucou com uma falsa irritação.

Charlie apenas sorriu e concordou, transmitindo confiança.

“Força no saque Tao!” Charlie incentivou mais uma vez. “Voe!”

“Junto com você...” Tao respondeu, sentindo o coração bater acelerado.

Tao encarou a linha lateral da quadra como se estivesse diante do abismo mais profundo. “Tudo o que está além dessa linha é um mundo diferente… desconhecido,” ele pensou, sentindo um tremor quase imperceptível nos dedos. O coração parecia querer sair pela boca, a adrenalina tomando cada parte do seu corpo. Mas, respirando fundo, ele deu o passo decisivo entrando em quadra.

E tudo mudou naquele instante.

O chão da quadra pareceu mais firme, o ar mais denso e quente, como se a pressão tivesse ganho forma física ao seu redor. Tao sentiu uma energia elétrica, pulsante, se espalhar pelo seu corpo. Cada músculo se tensionou, cada fibra de sua alma despertou para o momento.

Ele estava dentro. Finalmente.

Tao olhou à sua volta. Os jogadores do Karasuno estavam ali, seus companheiros, cobertos de suor, respiração pesada, concentração absoluta em seus olhos. Ele viu Cristian, com o rosto sério, os olhos brilhando de tensão e esperança; Daichi, com sua postura de líder, pronto para qualquer coisa; Nick, com as mãos na cintura, controlando a respiração. Todos compartilhavam uma mesma energia, unidos por algo maior.

Então, lentamente, Tao virou para o lado adversário.

Sentiu.

A quadra do Seijoh parecia uma fornalha viva. Seus olhares fuzilavam Tao, perfurando cada uma de suas inseguranças, analisando cada movimento, prontos para devorá-lo caso cometesse o mínimo erro. Tao engoliu seco. O estômago revirou, sua boca secou, mas ele não recuou. Pela primeira vez, ele não era apenas um espectador. Agora, era parte do jogo. Parte daquele time. Parte do Karasuno. Ele queria, mais do que tudo, ser digno daquele uniforme e da confiança depositada nele — digno do amigo pelo qual lutava.

“Acaba com eles, Tao!” gritou Daichi, determinado.

“Força no saque, Tao!” incentivou Cristian com um sorriso firme.

“Não estraga tudo!” Harry provocou com um sinal positivo e um leve sorriso.

Tao caminhou lentamente até a linha de fundo. Cada passo parecia pesar uma tonelada. O coração martelava rápido, suas mãos tremiam levemente. Parado atrás da linha, ele observou a imensidão da quadra à sua frente. Tudo parecia maior, mais desafiador. Respirou fundo e se lembrou dos saques que treinou — dos muitos erros e dos poucos acertos.

Olhou para o placar: 19x17 para o Seijoh. A pressão era gigantesca.

Ele bateu a bola no chão, segurando-a com firmeza, afastando-se dois metros para tomar impulso. Seus pés se alinharam à largura dos ombros. Com uma respiração profunda, lançou a bola para cima sem giro algum, seu braço subiu com precisão, cotovelo alto, mão aberta, dedos firmes. O contato foi seco e decidido, transferindo o peso de todo o seu corpo para aquele toque.

“Flutuante!” Oikawa gritou assustado para o Seijoh, reconhecendo imediatamente a postura de Tao.

A bola cruzou a rede flutuando instável, balançando no ar, imprevisível. Watari tentou recebê-la, mas a bola desviou-se em seus braços, disparando descontrolada para a arquibancada. A torcida do Karasuno explodiu em um rugido de alegria. Elle, Darcy, Tara e Isaac explodiram em gritos e aplausos que fizeram Tao corar.

19x18.

Todos correram para cumprimentar Tao, eufóricos. Emocionado e renovado, ele sacou novamente. Outro saque flutuante, que Watari conseguiu receber com dificuldade. A bola chegou até Oikawa, que levantou rapidamente para Iwaizumi. O corte foi certeiro, indo direto em Tao. Ele tentou defender, mas a bola ricocheteou e saiu para fora.

20x18 para o Seijoh.

Mesmo assim, Tao respirou fundo, sorrindo. Aquela sensação era viciante. Ele olhou para a lateral da quadra e viu Charlie com a placa número 12. Seu tempo na quadra tinha acabado.

“Você foi demais!” Charlie disse entusiasmado.

“Foi só um ponto,” Tao rebateu, escondendo o orgulho.

“O ponto que vai fazer toda a diferença pra gente” disse Charlie, tocando seu ombro com carinho.

Charlie tinha razão. Aquilo foi muito mais do que apenas um ponto. Pela primeira vez, Tao sentiu verdadeira alegria e satisfação. Agora, ele finalmente fazia parte do Karasuno. E ele gostou. Muito.


CHARLIE

Charlie ergue os olhos para o placar: 20x18. São apenas dois pontos, mas nunca dois pontos pareceram tão distantes. Diante dele está o Seijoh, e à sua frente, como um espectro inalcançável, Oikawa. Charlie sente como se estivesse correndo desesperadamente, estendendo a mão para agarrar a camiseta de Oikawa, mas a cada vez que ele se aproxima, Oikawa acelera ainda mais, escapa de seus dedos como uma brisa intocável.

Charlie corre, salta, se impulsiona ao limite, mas a distância permanece. Ele olha para o bandeirão azul celeste do Seijoh, onde em letras imponentes está escrito "DOMINE A QUADRA". E, pela primeira vez, aquelas palavras pesam em sua alma como uma sentença, uma constatação inevitável. O Seijoh não está apenas jogando; eles estão dominando tudo. Cada saque, recepção, levantamento e ataque parecem ser obras cuidadosamente esculpidas por mãos habilidosas, como se a própria quadra fosse deles por direito.

Charlie desvia o olhar para o lado oposto, onde uma imensa faixa preta tremula com orgulho na torcida do Karasuno. Em letras vivas e pulsantes, a palavra "VOE!" dança no ar. Aquela palavra sempre fora muito mais que uma simples frase motivacional. Era um chamado, uma promessa, uma declaração de identidade para Charlie e seus companheiros. E agora, mais do que nunca, eles precisavam voar juntos, como um bando unido, se quisessem alcançar o inalcançável.

Harry corta com determinação, e Watari tenta defender, mas a bola desvia e escapa pela lateral.

20x19. Charlie sente seus dedos quase roçando a camiseta de Oikawa, esticando-se mais um pouco, tentando vencer o vento, tentando romper a distância.

Mas o Seijoh reage rápido. Matsukawa corta com força descomunal; Daichi defende, mas a bola sobe demais, proporcionando a Iwaizumi o espaço perfeito para cravar violentamente a bola no chão.

21x19. A figura de Oikawa escapa mais uma vez, distante e inacessível.

O saque devastador de Kindaichi é um míssil que explode nos braços cansados de Cristian. Daichi se lança num movimento desesperado, mas a bola cai lentamente, dolorosamente, no chão.

22x19. Agora, a distância parecia um abismo, a visão de Oikawa começava a se desfazer no horizonte, nebulosa e distante.

Nick tenta reagir, levantando para Tsukishima que faz uma finta inteligente, mas Watari estava pronto. Oikawa, como um maestro, ergue a bola no ponto perfeito para Iwaizumi. O Ace do Seijoh ataca implacavelmente e marca novamente.

23x19. Oikawa dispara na frente, e Charlie sente a dor no peito, uma sensação de derrota antecipada querendo rasgar seu coração.

O cansaço pesava sobre o Karasuno. As pernas de Asahi não saltavam mais com a mesma força. Os saques de Harry perdiam intensidade, as recepções de Daichi e Cristian já não eram tão seguras. Todos respiravam pesadamente, o suor escorrendo em seus rostos exaustos. Mas Charlie não podia sucumbir. Ele não tinha vindo até aqui para desistir.

Kindaichi ataca novamente, mas exagera na força. Asahi percebe a trajetória e afasta o corpo no último segundo.

23x20. Charlie sente seus dedos se esticando um pouco mais perto de Oikawa, como se ele pudesse tocar o tecido da camiseta agora.

Iwaizumi dispara mais um ataque, mas dessa vez Nick recebe, lançando imediatamente para Harry. O ataque de Harry é forte e preciso. Oikawa sobe para o bloqueio, mas a bola escapa entre seus dedos e vai para fora.

23x21. Um passo adiante, Charlie sente a distância encurtar.

Outro ataque violento do Seijoh vem na direção de Daichi, que salva heroicamente. Nick levanta rapidamente para Tsukishima, que faz uma nova finta. Mas o bloqueio adversário rebate firme; a bola cai perigosa, quase tocando o chão. Harry estica o pé desesperado, salvando-a milagrosamente no último instante. A bola sobe fraca, quase sem vida, prestes a morrer. Charlie vê isso como sua última chance e se atira de peixinho, o corpo deslizando pelo chão, a mão aberta impedindo o inevitável. A bola sobe e toca a fita da rede, caindo caprichosamente no lado do Seijoh.

23x22. Charlie agora pode sentir o tecido escorregadio da camiseta branca e azul-celeste quase em suas mãos. Quase.

Nick assume o saque com uma determinação feroz. A bola corta o ar, letal. Kunimi recebe de forma perfeita, e Oikawa levanta majestosamente para Kindaichi. O corte do Seijoh é explosivo, Daichi recebe num reflexo puro e a bola sobe para Nick. Ele levanta para Harry que dispara outro ataque potente, mas Watari salva novamente. A bola volta para Oikawa, que ergue uma obra-prima para Iwaizumi, que não desperdiça a oportunidade e crava com violência no chão do Karasuno.

24x22. Oikawa escapa mais uma vez, sua figura se afastando dolorosamente. Charlie quase alcança, sente os dedos fechando em vão, enquanto a realidade atinge duramente seu coração: é Match Point para o Seijoh. Mais um ponto e tudo estaria acabado.

"MAIS UM PONTO! MAIS UM PONTO!" gritava ensurdecedora a torcida do Seijoh.

Outro corte destruidor é lançado contra o Karasuno. Cristian defende desesperadamente e a bola sobe até Nick, que entrega tudo nas mãos do Ace. Asahi sobe e dispara um ataque brutal, cravando com força no lado do Seijoh.

24x23. Charlie sente na ponta dos dedos a textura da camiseta de Oikawa. Ele está perto, tão perto que pode sentir a respiração acelerada do adversário.

"Só mais um ponto," Charlie sussurra como um mantra.

Harry caminha até a linha de saque, e Charlie sente todo o peso daquela responsabilidade, como se estivesse nos ombros de seu companheiro. Errar significaria o fim, acertar ainda não garantiria nada. Mas Harry não hesita. O saque sai como um raio furioso e desesperado.

Watari recebe firme, Oikawa ergue um levantamento perfeito, e Iwaizumi dispara outro ataque letal. A bola explode no peito de Harry e sobe em uma trajetória desesperada, atravessando a rede novamente. Oikawa vê aquela bola solta como sua oportunidade de acabar com tudo. Seus olhos brilham, ele salta confiante para definir a partida.

Mas, naquele instante, Nick olha para Charlie.

Aquele olhar era mais que suficiente. Nick salta com uma força descomunal, superando Oikawa em altura e velocidade. Antes que Oikawa possa tocar na bola, Nick consegue um leve toque com os dedos, desviando-a para Charlie, que já estava no ar, concentrado, decidido. Por um breve instante, seus olhos se encontram com os olhos mel de Oikawa, e ali, pela primeira vez, Charlie vê medo.

Esse medo multiplicou a força de Charlie, que cortou com uma precisão mortal, cravando a bola no chão do Seijoh exatamente quando Oikawa aterrissava impotente.

24x24. Charlie finalmente fecha suas mãos com firmeza ao redor da camiseta de Oikawa, alcançando o inalcançável.

Agora era um Deuce. A batalha decisiva. Quem abrisse dois pontos de vantagem levaria tudo e chegaria à final.


OIKAWA

Oikawa se abaixou lentamente, apoiando as mãos sobre os joelhos. Cada respiração era pesada, dolorosa, como se o ar estivesse denso demais para entrar em seus pulmões. O suor pingava de seu rosto, escorrendo pelos olhos, salgando-lhe os lábios. Mas não era só o corpo que estava exausto — era algo mais profundo, algo que consumia sua mente, drenava suas forças emocionais.

A quadra parecia mais pesada naquele instante, como se estivesse sustentando não apenas os doze jogadores em quadra, mas também todas as expectativas e os sonhos deles. O set estava em suas mãos. Bastavam apenas dois pontos para selar a vitória. Ele sabia exatamente o que precisava ser feito. Porém, naquele momento decisivo, tudo o que seus olhos conseguiam enxergar do outro lado da rede era Niko.

E a oportunidade única de derrotá-lo.

Ele desejava aquela vitória com uma intensidade desesperadora. Era pessoal, profundamente pessoal. O problema era exatamente esse. Porque, em quadra, nada deveria ser pessoal. No vôlei, não há espaço para batalhas individuais, apenas coletivas. Mas como poderia separar isso, quando o rosto de seu passado, a pessoa que lhe causara tanta dor, estava bem ali diante dele, desafiando-o silenciosamente?

Se fosse qualquer outro time, qualquer outro jogador, aquela partida já teria terminado há muito tempo. Mas cada ponto que o Karasuno conquistava era como uma lâmina atravessando seu coração, uma velha ferida aberta novamente, pulsando dolorosamente.

Oikawa sentiu a garganta apertar enquanto as lembranças inundavam sua mente. Cada treino exaustivo, cada crítica dura recebida, cada lágrima silenciosa derramada sob a lua enquanto ele treinava sozinho — tudo aquilo havia moldado o jogador que era hoje. Mas não importava o quanto se esforçasse, ele sabia a verdade cruel: jogadores naturalmente talentosos como Niko ou Ushijima sempre o alcançariam, sempre estariam ali, no seu encalço. E então, ele teria que se esforçar duas vezes mais, e quando eles inevitavelmente o alcançassem de novo, ele teria que dobrar seus esforços novamente. Era um ciclo exaustivo, brutal, mas que ele estava disposto a enfrentar.

Oikawa nunca foi um prodígio como eles, mas isso nunca o deteve. Agora, apenas dois míseros pontos o separavam da tão sonhada final. Ele não deixaria o talento natural vencê-lo. Não enquanto estivesse de pé naquela quadra, respirando, lutando.

“Você tá bem?” A voz firme de Iwaizumi o trouxe de volta, sua mão tocando suavemente o ombro do capitão.

“Se tiver que bater...” Oikawa estendeu lentamente o punho cerrado na direção do amigo.

“...bata até quebrar!” Iwa respondeu com intensidade, encostando o punho no dele com firmeza.

Eles se ergueram juntos e retornaram às suas posições. Oikawa avançava sem o sorriso confiante que normalmente adornava seu rosto. Agora, sua expressão era dura, determinada, resoluta. Seus olhos encontraram os de Niko, que do outro lado da rede também exibia um olhar firme, seguro, implacável. Depois, ele viu Charlie — o Tampinha — com um sorriso provocador, quase desafiador.

O Karasuno estava jogando a 150%, e isso não assustava Oikawa; pelo contrário, era exatamente o que ele precisava. Um desafio real, algo que extraísse o melhor que ele tinha. Eles não ganhariam esse set tão facilmente.

O saque foi do Tagarela Irritante, forte e profundo. Matsukawa tentou recebê-lo, mas falhou, lançando uma bola torta para o fundo da quadra. Num movimento ágil, Oikawa recuperou, fazendo um levantamento rápido e preciso para Kindaichi. O corte saiu violento, mas o bloqueio do Karasuno surgiu imponente à sua frente, repelindo a bola para trás.

Porém, o libero do Karasuno reagiu de forma inacreditável, enviando a bola perfeitamente para Niko. Charlie disparou imediatamente para a direita, como um raio vestido de preto e laranja.

“Não!” Oikawa gritou com firmeza, detendo o bloqueio do Seijoh a tempo.

O Tampinha saltou sozinho, livre no ar, executando o corte que Watari conseguiu defender com precisão cirúrgica. A bola subiu novamente até Oikawa, que ergueu um levantamento ágil para Iwaizumi. Como se desafiado pela velocidade da jogada anterior, Charlie correu para o centro com uma rapidez sobrenatural, pulando para o bloqueio junto com Niko. Iwa cortou com força, mas a bola foi repelida novamente.

O capitão do Karasuno conseguiu recepcionar e, num movimento rápido, lançou a bola de volta para as mãos de Niko.

“Pra mim!” O grito do Tampinha cortou o ar novamente, sua voz determinada como nunca.

Ele voltou a disparar pela direita, novamente livre do bloqueio. Saltou incrivelmente alto, disparando um corte brutal. Watari, entretanto, defendeu novamente com a destreza de um verdadeiro guardião. A bola foi parar novamente nas mãos de Oikawa, que olhou em choque ao perceber Charlie já posicionado no bloqueio outra vez.

“De onde vinha aquela velocidade?” Pensou Oikawa

Ele levantou agora para Kindaichi, tentando confundir o bloqueio adversário, mas o Ace do Karasuno e Charlie bloquearam novamente. A defesa adversária era uma parede sólida, e mais uma vez o libero do Karasuno recebeu com perfeição, mandando novamente para Niko.

“Manda pra cá!” o Tampinha gritou, correndo novamente com ímpeto feroz.

Iwaizumi não aguentou a pressão. Seu corpo reagiu por instinto, saltando desesperadamente para bloquear.

“Iwa, não!” Oikawa exclamou, mas já era tarde demais.

Iwaizumi subiu, e teria feito um bloqueio perfeito se Charlie não tivesse sido mais esperto. Com um toque suave, quase poético, ele fintou com a ponta dos dedos, fazendo a bola passar delicadamente sobre o bloqueio do Seijoh. Watari se lançou num mergulho heroico, mas a bola tocou gentilmente o chão, marcando o ponto decisivo.

24x25. Match Point para o Karasuno.

Charlie aterrissou desequilibrado, rolando pelo chão até parar, ofegante, com os olhos brilhantes. Oikawa permaneceu estático, com as mãos na cintura, observando a cena em absoluto silêncio.

Aquele garoto era impressionante.

Oikawa percebeu que agora estava em uma situação limite. Aquela partida não era apenas técnica, não era apenas pessoal — era uma prova de resistência, determinação e coração. O Karasuno estava disposto a se entregar por inteiro, ultrapassando qualquer limite que existisse. Mas Oikawa também estava.

Ele ergueu os olhos para a rede, encarando Niko e o Tampinha. Pela primeira vez, desde o início daquele confronto, ele sorriu novamente, desafiador e seguro.

Oikawa podia estar cansado, mas não derrotado. Aquela partida ainda não havia terminado.


NICK

Só um ponto. Uma mísera, frágil unidade era tudo o que separava o Karasuno da tão sonhada final. Parecia tão simples — quase cruelmente simples —, mas a realidade na quadra era diferente. Porque do outro lado da rede, firme como uma muralha de determinação, estava Oikawa.

Nick observou o adversário com atenção profunda. Sua respiração estava pesada, os ombros subiam e desciam lentamente, denunciando o cansaço extremo que consumia seu corpo. Mesmo assim, ele não se curvava completamente, recusando-se a aceitar a derrota iminente. A figura de Oikawa, ligeiramente curvado com as mãos apoiadas sobre os joelhos, trouxe à tona memórias distantes, quase esquecidas.

Nick recordou-se das noites frias, retornando tarde do treino, quando passava pela velha Quadra do Rio e via Oikawa ali sozinho. Incansável, repetindo saques sem fim, até as pernas tremerem, até os braços quase não suportarem mais. Sempre exausto, mas nunca vencido. Aquela cena, tantas vezes observada em silêncio, moldou em Nick uma profunda admiração, um respeito sincero e silencioso que agora ressurgia em seu peito.

Um orgulho inesperado cresceu dentro dele. Aquele garoto franzino, teimoso e incansável havia se tornado um jogador completo — um líder, um capitão verdadeiro, alguém que carregava seu time com esforço, precisão e coração. Oikawa não era mais apenas alguém talentoso; ele era alguém que dava tudo de si pela vitória, que lutava até a última gota de suor escorrer pelo rosto.

E Nick queria ser assim também. Ele estava tentando ser assim, embora em seu passado tivesse sido alguém completamente diferente — arrogante, egoísta. Hoje, enfrentando Oikawa, ele percebia o quanto havia mudado. Talvez estivesse se tornando exatamente o tipo de jogador que sempre admirou secretamente.

Do outro lado, os olhos cor de mel de Oikawa brilhavam intensamente, carregados pela obsessão da vitória. Agora, aquele olhar se fixava intensamente em Harry, que caminhava lentamente para a linha de saque. A tensão pairava pesada no ar, palpável, como se pudesse ser tocada pelos dedos.

Harry respirou fundo, lançou a bola ao ar e a acertou com firmeza. Ela viajou rápida e precisa, cruzando a rede em um instante. Mas Watari estava lá, sempre pronto, recebendo com uma maestria que desafiava qualquer esforço do Karasuno. A bola subiu perfeitamente em direção às mãos seguras de Oikawa.

E Oikawa, como sempre fazia nos momentos mais críticos, não hesitou. Com um movimento instantâneo e preciso, levantou a bola com perfeição absoluta. Nick acompanhou com o coração acelerado enquanto a bola subia lentamente, quase suspensa no tempo.

Então, Iwaizumi surgiu. O Ace do Aoba Jōsai avançou com uma ferocidade impressionante, saltou alto e, com brutalidade, desferiu um golpe destruidor. A bola explodiu contra o chão do Karasuno com um som seco, reverberando pelo ginásio.

Ponto do Seijoh.

Aquele ataque, em um momento tão delicado e decisivo, impressionou Nick profundamente. Bastava um erro, um mínimo deslize, e o Seijoh estaria eliminado. Mas mesmo diante dessa pressão esmagadora, a confiança deles era impenetrável, absoluta. E isso, Nick reconhecia com admiração, fazia toda a diferença.

25x25.

“Ai que merda!” exclamou Harry, frustrado, olhando para o outro lado da quadra onde o Seijoh comemorava brevemente, antes de recuperar a concentração.

Nick acompanhou, silencioso, os passos firmes de Oikawa em direção à linha de fundo. Era sua vez de sacar novamente. A pressão daquele instante pesava sobre todos, e Oikawa parecia carregar todo aquele peso sozinho, com um olhar que dizia claramente que ele não pretendia parar ali.

Ele não estava pronto para ceder. Não ainda. Não agora. Não enquanto seu corpo ainda estivesse em pé.


OIKAWA

Oikawa caminhou lentamente até a linha de fundo, cada passo dado com uma firmeza externa que contrastava com a fragilidade escondida por dentro. O peso daquele momento apertava seu peito, fazendo cada respiração doer, como se os próprios pulmões resistissem a continuar. Era um instante decisivo, e cada movimento parecia lhe custar um fragmento da alma.

O silêncio se espalhou pela quadra, intenso, absoluto, como se o tempo tivesse decidido parar e assistir. Era como se todos os olhares, todos os corações, todas as expectativas, estivessem presos naquele único gesto. A bola em suas mãos parecia mais pesada que nunca, e ele a apertava com tanta força que podia sentir seus dedos formigarem. Era um contato reconfortante e doloroso ao mesmo tempo, uma maneira de se ancorar à realidade, mesmo enquanto tudo dentro dele tremia.

Ele fechou os olhos lentamente, e o mundo ao seu redor sumiu. O ginásio desapareceu, as luzes brilhantes se apagaram, o murmúrio das torcidas ficou distante, irrelevante. Na escuridão atrás das suas pálpebras, só havia silêncio, um vazio profundo onde ele podia ouvir com clareza o ritmo acelerado do próprio coração.

Ali, naquele espaço vazio e protegido, ele era apenas Tooru. Não Oikawa, não o capitão, não o levantador genial, não o jogador pressionado pela expectativa de todos. Apenas Tooru, o garoto que treinava sozinho nas quadras vazias, que lia livros sobre vôlei até adormecer, que carregava nas costas uma história de batalhas silenciosas, cicatrizes invisíveis que ninguém conhecia.

Lentamente, como se executasse um ritual sagrado, Oikawa ergueu a bola até tocar suavemente a testa. Era um gesto que fazia desde criança, uma prece particular, silenciosa, dita não para qualquer divindade distante, mas para si mesmo, para o garoto que um dia prometeu nunca parar de lutar.

Sua voz soou trêmula, quase um sussurro, uma oração dita com reverência e vulnerabilidade:

“O talento é algo que se faz florescer, instinto é algo que se refina...”

Houve uma pausa, o tempo suficiente para ele respirar fundo mais uma vez, sentindo o ar preencher lentamente seus pulmões.

“Se vai bater, bata até quebrar.”

As palavras escaparam com intensidade calma, cheias de significado. Não era mais sobre vencer ou perder. Era sobre se entregar completamente, sem reservas. Era sobre bater com força até que não restasse mais dúvida, até que não restasse mais medo.

E naquele instante, sozinho no escuro da sua mente, Oikawa percebeu que não havia mais nada a temer. Ele estava ali, pronto, inteiro, disposto a entregar cada pedaço de si, mesmo que fosse a última coisa que fizesse naquela quadra.

E então, como se puxado por uma força irresistível, ele estava de volta à Quadra do Rio. Tudo ao seu redor emergiu com uma nitidez dolorosa, impregnado por lembranças vivas demais para serem apenas passado. O frio cortante penetrava sua pele, fazendo-o tremer novamente. Seus dedos congelavam lentamente, agarrados àquela bola velha, desgastada, marcada por centenas de saques solitários.

Ele podia ouvir nitidamente o som suave das águas correndo ao lado da quadra, calmas e indiferentes, testemunhas silenciosas de cada esforço. Bem à sua frente estava aquela mesma garrafa pet amassada, cheia de areia—um alvo humilde, mas implacável. Cada saque que errava parecia zombar dele, cada tentativa fracassada era como um grito abafado dentro do peito.

Naquele pequeno pedaço de terra, escondido e esquecido pelo mundo, Oikawa moldara sua força através da solidão e do cansaço extremo. Era ali que ele havia travado suas batalhas mais difíceis, sozinho, enfrentando vozes cruéis que nunca se cansavam de ecoar na sua mente, sussurrando friamente que ele jamais seria suficiente, jamais seria grande. Palavras cortantes, afiadas como lâminas, destinadas a derrubá-lo.

Mas aquelas mesmas vozes nunca entenderam. Cada crítica transformou-se em combustível, cada dúvida era lenha que incendiava seu espírito obstinado, que jamais aceitou desistir. Naquela quadra esquecida pelo resto do mundo, Oikawa aprendeu a sobreviver ao fracasso, a renascer após cada queda.

No início, eram necessários oitenta saques até finalmente acertar aquela garrafa maldita. Depois, cinquenta. Com o tempo, vinte. Hoje, sua precisão era absoluta, perfeita. Mas cada saque preciso havia custado sangue, suor e lágrimas. Não houve atalhos, nunca houve presentes fáceis do destino. Cada pedaço da sua habilidade fora construído meticulosamente pelas próprias mãos, mãos que carregavam cicatrizes invisíveis, marcadas por dores que ninguém mais conhecia.

Com um suspiro profundo, ele lentamente abriu os olhos. Seus olhos agora brilhavam com uma intensidade quase selvagem, repleta de força, desejo e obstinação. A vitória nunca fora uma amiga que se aproximasse suavemente—ela era algo que ele precisava arrancar à força, lutar até que suas mãos estivessem exaustas, até que o coração quase desistisse. Nunca lhe foi oferecida uma vitória fácil; ele sempre precisou conquistá-la.

“Nós vamos vencer” murmurou com firmeza, deixando aquelas palavras vibrarem no silêncio absoluto da quadra, como uma promessa sagrada feita a si mesmo. “Vamos subir ainda mais.”

Em um movimento perfeitamente fluido, Oikawa lançou a bola ao alto, sentindo cada músculo de seu corpo se contrair em perfeita harmonia, como uma máquina calibrada durante anos para não falhar. Cada fibra do seu ser estava envolvida naquele único gesto. Era mais que um saque—era sua alma colocada ali, no ponto de impacto, pronta para desferir um golpe letal e certeiro.

Avançou dois passos com precisão absoluta, o braço desenhando um arco violento, impecável. A palma da mão tocou a bola com uma força quase selvagem, e naquele instante ele sentiu algo familiar: certeza. A bola rasgou o ar como um raio fulminante, voando numa trajetória agressiva para o fundo da quadra adversária. Naquele microssegundo, Oikawa acreditou que tudo estava no lugar certo, exatamente onde deveria estar.

Mas então, em um piscar de olhos, o impensável aconteceu.

Cristian, o líbero do Karasuno, acompanhou a trajetória da bola com uma calma assustadora. Com uma frieza absoluta, ele deu um único passo curto para o lado, deixando que ela passasse ao seu lado como se fosse algo insignificante. Oikawa acompanhou a bola com o olhar arregalado, cada fração de segundo dilatando-se em câmera lenta enquanto ela caía para fora da quadra, desviando-se por centímetros fatais.

Ponto para o Karasuno.

O coração de Oikawa congelou no peito, como se uma mão invisível tivesse apertado seu pescoço e impedido qualquer reação. Ele ficou ali, imóvel, incapaz de abaixar o braço, incapaz de compreender o que acabara de acontecer. A bola parada no chão, do lado errado da linha, era uma traição cruel, algo que nunca deveria ter ocorrido. Jamais com ele.

Ele havia apostado tudo naquele saque—suas memórias dolorosas, suas promessas internas, seu orgulho inabalável. Tudo isso agora jazia aos seus pés, estilhaçado como um espelho que nunca mais refletiria quem ele era antes daquele erro.

25x26. Mais um Match Point para o Karasuno.

“O quê?” A palavra escapou de seus lábios, trêmula, quase inaudível, uma confissão involuntária de choque absoluto. O ginásio explodiu num rugido avassalador, os gritos da torcida adversária vibrando como facas afiadas, perfurando-o sem piedade. Enquanto isso, a torcida do Seijoh silenciou, como se um vazio tivesse sugado a vida dos seus pulmões.

Oikawa nunca errava em momentos como aquele. Jamais falhava sob pressão. Ele era o jogador dos momentos decisivos, aquele que todos confiavam para carregar o peso do jogo nos ombros. Mas agora, algo dentro dele estava irremediavelmente abalado.

E ele sabia exatamente por que tinha errado.

Era por causa de Niko.

A presença dele ali, naquela quadra, era perturbadora. Não era só seu velho amigo—era um lembrete constante de quem Oikawa costumava ser, um reflexo das inseguranças que julgara superadas. A forma como Nick havia retornado, sua liderança calma, sua conexão implacável com Charlie, tudo isso corroía lentamente a confiança que Oikawa construíra com tanto esforço. Cada lance certeiro dos dois era uma sombra imensa que pairava sobre ele, ameaçando engolir a frágil certeza de que ele sempre fingiu ter.

Naquele momento, Oikawa sentiu-se novamente como o garoto solitário na Quadra do Rio, vulnerável, assustado, frustrado—mas desta vez, não havia como voltar atrás. O erro estava feito, cruelmente exposto diante dos olhos de todos, uma ferida aberta que sangrava seu orgulho e abalava suas certezas mais profundas.

Pela primeira vez, em muito tempo, ele sentiu medo. Não apenas de perder, mas de encarar quem havia se tornado ali, naquele instante insuportável de fraqueza.

Ele ainda encarava as próprias mãos quando sentiu o toque familiar.

“Acorda, babacão!” Iwaizumi empurrou seu peito, o olhar firme, sem espaço para dúvidas.

“De-de-de-desculpa...” Oikawa murmurou, fragilizado, quase irreconhecível.

“Manda pra mim!” Iwaizumi exigiu com intensidade, aproximando-se, encarando profundamente Oikawa. “Confie no seu Ace.”

Naquele instante, todo o time do Seijoh se reuniu ao redor dele. Não havia recriminação, não havia reprovação — apenas apoio inabalável.

“NÓS CONFIAMOS EM VOCÊ, CAPITÃO!” As vozes soaram fortes, como um escudo impenetrável erguido à sua volta.

Aquelas palavras eram novas para Oikawa. Era ele quem dizia aquilo antes de cada jogo, quem sustentava o time. Pela primeira vez, era o time que o sustentava. A emoção o invadiu com força brutal, e um sorriso verdadeiro surgiu em seus lábios.

“DOMINE A QUADRA!” Oikawa rugiu, com uma intensidade renovada, renascendo das cinzas.

A bola veio para o Seijoh, Watari recebeu com perfeição, lançando-a diretamente para Oikawa. Sem hesitar, levantou-a para Iwaizumi, que atacou como um trovão, cravando-a no chão do Karasuno.

26x26.

“NÓS NÃO VAMOS DEIXAR!” berrou Iwaizumi, e o ginásio vibrou com sua voz.

O jogo estava empatado de novo e o coração do Seijoh, ainda que vacilante por um segundo, voltava a bater mais forte do que nunca. A batalha se prolongou, um duelo épico, cruel, extenuante. Cada ponto parecia uma batalha completa.

27x26 para o Karasuno

27x27

27x28 para o Seijoh

28x28

28x29 para o Seijoh

29x29

30x29 para o Karasuno

30x30

31x30 para o Karasuno

31x31

Os dois times estavam no limite absoluto das forças. Cada saque era uma aposta, cada recepção um teste de resistência. O ginásio parecia pulsar junto com os corações dos jogadores, acelerado, tenso. As pernas tremiam, os músculos queimavam e cada respiração parecia um sacrifício. O set ultrapassara a marca insana dos trinta pontos; era uma batalha épica que exigia cada grama de força física e emocional dos atletas.

Karasuno lutava bravamente para ficar de pé, e até mesmo o Seijoh, conhecido por seu preparo físico invejável, mostrava sinais claros de desgaste. Mas ninguém cedia. Nenhum lado queria desistir.

Mais uma vez, Oikawa voltou à linha de saque. Por fora, mantinha os passos firmes, seguros, mas dentro do peito carregava uma dor silenciosa, insistente, pelo saque errado que ainda ecoava dolorosamente em sua mente. Ele sentia o peso daquela falha, arrastando-se por dentro como uma corrente fria. Apertando a bola com as duas mãos, bateu-a no chão lentamente.

Uma. Duas. Três vezes.

Cada batida era um confronto direto com as vozes que tentavam diminuí-lo desde sempre.

"Você não tem talento!"

Bam! A bola quicou firme no chão, abafando aquela voz cruel, diminuindo-a lentamente.

"Vôlei não é pra você."

Bam! Oikawa bateu mais forte. A voz foi perdendo força, como uma memória que se afasta.

"Você é um inútil em quadra!"

Bam! Respirou profundamente, sentindo parte da tensão ir embora junto com aquele suspiro.

E então, aquela última voz, cruel, cortante:

"Você não é mais meu amigo, seu viadinho!"

Essa doía sempre, de um jeito profundo, visceral. Fechou os olhos com força, tentando apagar essa lembrança. Naquele instante, sentiu-se vulnerável. Mas então uma presença calorosa surgiu em sua mente com clareza absoluta.

Iwaizumi.

Não apenas um companheiro de time, mas alguém que sempre esteve ao seu lado, firme, sólido, como uma rocha que jamais o deixava cair sozinho. Quantas vezes Iwaizumi havia estendido a mão para levantá-lo? Quantas vezes ficara com ele depois dos treinos, em silêncio, sem cobrar nada além da presença?

Lembrou-se dos sorrisos discretos, do jeito como Iwa sempre dizia "eu confio em você" sem precisar abrir a boca. Das vezes em que ele insistia, com uma teimosia doce e bruta: "Você não precisa carregar tudo sozinho, Tooru. Eu tô aqui com você."

Oikawa abriu os olhos lentamente, deixando-se mergulhar naquela sensação de conforto, de pertencimento. Sentiu as vozes diminuindo, perdendo força, sumindo no fundo da mente. Elas não tinham poder algum contra o carinho, contra a certeza daquela conexão inabalável.

Ele mudou o foco.

Agora pensava no Seijoh. Em Iwa. Nos companheiros que haviam chegado até ali, lutando lado a lado com ele. Onde eles estavam agora? Bem ali. Todos juntos. Todos ao seu redor. Por ele. Por todos.

"DOMINE A QUADRA!"

A bola tocou o chão com uma força nova, carregada de confiança renovada.

"Confiamos em você, Capitão."

Essas palavras eram reais. Ele podia ouvi-las em cada olhar, cada sorriso discreto dos seus companheiros. A torcida sumia, o barulho externo desaparecia aos poucos. Só existia ele e aquele momento.

"Se vai bater, bata até quebrar."

Oikawa respirou fundo outra vez, sentindo-se mais leve. As dúvidas se dissipavam como fumaça levada pelo vento.

"Quem não é capaz de derrotar o adversário diante de si, não tem como vencer o que está além."

Lentamente, abriu os olhos. E então, sem aviso prévio, surgiu aquele sorriso inconfundível—confiante, quase insolente, cheio de determinação.

A atmosfera do ginásio mudou imediatamente. O Seijoh percebeu, sentindo uma energia nova irradiando do seu capitão. O Karasuno também notou, percebendo claramente que algo dentro de Oikawa havia despertado. Ele não estava mais ali apenas para jogar. Não estava ali para provar nada para as vozes do passado. Estava ali por ele mesmo, por Iwa, por seu time. Por tudo o que haviam construído juntos. Ele estava pronto para dominar.

Oikawa levanta a bola e a mira para Niko. Ele estava de volta a Quadra do Rio. As bolas derrubadas, as corridas com Nick, as conversas. Ele joga a bola para o alto. Tudo desaparece, a torcida, o Seijoh, o Karasuno. Somente restou Oikawa, a rede e na posição onde estava Niko, Oikawa ve uma garrafa plástica. Tudo era mais fácil, na Quadra do Rio. Seus pés correm para frente, Oikawa sente o cheiro de terra molhada. Ele pula como nunca pulou antes sentindo a brisa que vinha do rio. A bola voou como nunca antes, talvez algum recorde de velocidade foi quebrado. A bola ia na direção de Niko que a recebe mal e ela sobe com muita velocidade e volta para o Seijoh.

Watari a recebe ainda com a força do saque, mas a bola sobe perfeitamente. Oikawa analisa o Karasuno. Nick o encarava tentando analisá-lo.

Mas aquele ponto já era do Seijoh!

Oikawa lança para o lado oposto, uma jogada nunca feita nesse jogo. Kunimi um jogador apagado, salta pela direita e crava a bola em paralela na diagonal.

“Como você sabia que eu estaria ali?” Kunimi diz afoito pelo ponto

“Foi puro instinto Kunimi” Iwa responde por Oikawa

Kunimi sempre foi criticado por Niko por ter pouca energia e não dar tudo de si na quadra. Vê-lo pular daquele jeito e marcar um ponto crucial bem na frente dele, deve ter doido. Oikawa olha para Nick e percebe uma veia saltada do lado direito.

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Missão cumprida!

32x31 para o Seijoh conseguiu a virada!

Era Match Point para o Seijoh novamente, e a bola estava nas mãos de Oikawa.

"No próximo cruzado aberto do Tampinha," disse Oikawa com firmeza, encarando Kunimi, Kindaichi e Iwa, "bloqueio triplo na direita." Em seguida, virou-se calmamente para a linha de fundo.

A quadra ficou silenciosa, tensa. Oikawa pegou a bola e lentamente levou-a ao rosto, fechando os olhos por um breve instante.

"Niko..." pensou ele, num tom íntimo, carregado de sinceridade, "considerando como você evolui rápido, eu sei que um dia não serei mais capaz de te vencer ou sequer acompanhar seus passos." Sentiu um aperto na garganta e engoliu seco, aceitando pela primeira vez o que era inevitável. "Você vai me superar, Niko, e provavelmente eu jamais voltarei a te alcançar."

Abriu os olhos lentamente, girando a bola entre as mãos com um sorriso confiante.

"Mas hoje não."

Lançou a bola para cima com decisão feroz. O Karasuno se preparou instintivamente, esperando um saque potente, devastador. Porém, no último instante, inspirado por Tao, Oikawa desacelerou o braço, tocando a bola de leve, enviando um saque flutuante surpreendente e traiçoeiro. O ginásio inteiro prendeu a respiração.

A bola caiu curta, inesperadamente suave. Daichi correu desesperado e conseguiu levantá-la, com precisão improvável. Niko posicionou-se rapidamente, perfeito como sempre, e fez o levantamento impecável para o Tampinha.

Os olhos atentos de Oikawa viram tudo em câmera lenta, como se o tempo estivesse à sua disposição. O pequeno atacante do Karasuno disparou em direção à rede com velocidade impressionante, fechando os olhos no instante em que subiu para o corte.

"Te peguei" sussurrou Oikawa, sorrindo com satisfação.

"Não, Charlie!" ecoou a voz desesperada da treinadora Singh, num aviso que chegou tarde demais.

Charlie cortou violentamente, com força e convicção absolutas—mas o bloqueio já estava armado, esperando-o como um muro intransponível. Kunimi, Kindaichi e Iwaizumi subiram juntos, perfeitamente sincronizados, e a bola chocou-se contra as mãos sólidas de Iwa, retornando rapidamente para o lado do Karasuno.

O som seco e definitivo do bloqueio ecoou pelo ginásio, silenciando todos os corações presentes.

Cristian, Daichi e Niko se lançaram desesperadamente ao chão, buscando salvar aquela bola impossível, mas ela escapou entre eles, inclinando-se impiedosamente para o piso.

"Niko..." pensou Oikawa enquanto assistia à bola despencar lentamente, "...inevitavelmente seu talento irá ultrapassar tudo que sou capaz de alcançar. Você evolui com uma rapidez assustadora, e eu não poderei te seguir por muito mais tempo."

A bola tocou o chão, certeira, cruel, entre os corpos estendidos e exaustos dos jogadores do Karasuno. Nick levantou lentamente o olhar, derrotado, encontrando Oikawa de pé, imponente e decidido do outro lado da quadra.

"Mas hoje," concluiu Oikawa, o coração ardendo com orgulho, triunfo e alívio,

"O ESFORÇO E O TRABALHO DURO VENCERAM O TALENTO NATURAL."

33 a 31. O Seijoh havia vencido a batalha, indo triunfante para a grande final.


NICK

Nick estava jogado no chão, o rosto colado ao piso frio da quadra, ao lado de Daichi e Cristian. A respiração saía trêmula, irregular, como se o mundo estivesse colapsando ao redor. Charlie, de joelhos em frente à rede, olhava fixamente para o vazio — os olhos arregalados, o peito arfando. Tudo ao redor girava, como se o tempo tivesse perdido o compasso.

Do outro lado da quadra, o Aoba Jōsai se abraçava em um círculo apertado, aos gritos, como se estivessem flutuando em outra realidade. A alegria deles parecia cruel diante do silêncio pesado que sufocava o Karasuno.

Nick tentava se levantar, mas o corpo parecia feito de chumbo. A mente ainda se recusava a aceitar. Eles tinham perdido. Tinham chegado tão perto... e falharam.

Daichi foi o primeiro a se erguer. Lentamente, como se cada músculo do corpo estivesse sendo arrancado do chão pela força de uma vontade que lutava para não se despedaçar.

“Em fila, pessoal.” Sua voz saiu fraca, falhando no final. “Se levantem.”

Ele ofereceu a mão para Nick, que o encarou por um momento. Seus olhos estavam vermelhos, vazios. Ainda em choque, ele aceitou o gesto e se colocou de pé. Mas as pernas tremiam. Sentia como se fosse desabar a qualquer instante.

Charlie continuava de joelhos, estático, diante da rede. Imóvel. Nick queria ir até ele, abraçá-lo, dizer que estava tudo bem. Mas suas pernas não obedeciam.

Daichi cruzou a quadra, abaixou-se ao lado de Charlie e o puxou suavemente pelos ombros. Charlie ergueu o rosto, as lágrimas escorrendo sem controle, os lábios trêmulos.

“Me desculpe, capitão...” A voz dele era um sussurro quebrado. Nick sentiu o coração se despedaçar ao ouvir aquelas palavras.

“Você não errou.” A voz de Daichi voltou firme, com raiva contida — não de Charlie, mas do peso injusto daquela culpa. “Então não peça desculpas.”

Charlie assentiu, se levantando devagar, os joelhos frágeis. Os corvos se alinharam em frente ao Aoba Jōsai. Era hora de agradecer pelo jogo. Um ritual. Mas para o Karasuno, aquilo parecia mais um funeral do que uma despedida esportiva.

Os times começaram a se cumprimentar e agradecer pelo jogo, como manda a tradição. Mas do lado do Karasuno, não havia força nem dignidade naqueles passos. Era como atravessar uma tempestade de dor em pleno ginásio iluminado. Metade dos jogadores chorava abertamente, o rosto vermelho, os olhos inchados. Os que não choravam, estavam com o olhar perdido, segurando as lágrimas com os dentes cravados nos lábios.

Nick caminhava como se estivesse sonâmbulo, o corpo pesado, a cabeça baixa. Quando chegou diante de Kindaichi e Kunimi, seus antigos companheiros de time no juvenil, sentiu o estômago revirar. Os dois exibiam expressões que misturavam alívio com escárnio, um prazer amargo de quem esperou por esse momento.

“E aí, Nick... onde está a coroa do Rei?” provocou Kunimi, com um sorriso torto, cruel.

“Vossa majestade tá quietinha agora, hein?” completou Kindaichi, cruzando os braços com falsa reverência. “Tá caladinho...”

As palavras perfuraram Nick como agulhas no peito. Ele mordeu o interior da bochecha com força, tentando não reagir. Seu maxilar travou. Ele queria gritar. Queria esmurrar o chão. Mas tudo o que conseguiu fazer foi encarar o vazio entre os dois, como se cada palavra deles rasgasse algo dentro dele que já estava em frangalhos.

E então, uma voz cortou o ar, firme como aço.

“CHEGA!!!”

Oikawa havia escutado. Ele se aproximou, o olhar cortante, cheio de autoridade. Parou ao lado dos dois com os ombros retos, o semblante sério — não o mesmo de sempre, não o provocador debochado. Aquela era a voz do capitão.

“Kindaichi. Kunimi. Isso foi baixo. Vocês venceram o jogo. Não humilhem quem lutou de verdade.” A voz dele não era alta, mas soava como uma rajada de vento frio que faz todos prenderem a respiração.

Os dois se calaram na hora, os rostos sem cor. O sorriso escorregou de suas bocas, e ambos olharam para o chão, constrangidos. Oikawa passou entre eles e parou diante de Nick.

Os dois ficaram frente a frente por um segundo longo demais.

Nick manteve os olhos no chão, incapaz de levantar o rosto. O orgulho ferido, o peso da derrota, tudo ardia demais. Esperava o deboche. Esperava a ironia. Mas nada veio.

Oikawa apenas estendeu a mão. E Nick, ainda tremendo, apertou-a de volta.

O aperto foi firme. Longo. Significava mais do que palavras jamais conseguiriam dizer.

Os olhos de Oikawa estavam fixos nos dele agora. E, pela primeira vez, Nick levantou o olhar. Não havia ódio ali. Não havia zombaria. Havia algo que ele não sabia como nomear — talvez respeito, talvez reconhecimento... ou talvez, apenas um silêncio entre dois jogadores que sabiam o quanto aquela batalha havia custado.

Mas nenhum dos dois disse uma palavra.

E, ainda assim, entenderam tudo.

O Karasuno se alinhou diante da sua torcida. Os rostos estavam molhados, os olhos vermelhos, e os ombros curvados pelo peso de uma dor que não se expressa em palavras. Ainda assim, como um ato de respeito, de gratidão e de orgulho silencioso, eles se curvaram.

A torcida do Karasuno se levantou. Um por um, como se tivessem ensaiado aquela reverência. E então vieram os aplausos. Primeiro tímidos, contidos. Mas logo, como uma onda que varre tudo, o som das palmas se espalhou por todo o ginásio do Seijoh.

Era uma ovação.

Não só da torcida de Karasuno. Mas também dos adversários. Dos técnicos. De famílias, de desconhecidos, até mesmo de alguns que vestiam azul.

Eles haviam perdido..., mas lutaram com uma alma que conquistava até os que torciam contra.

O som das palmas se tornou ensurdecedor. Mas, mesmo diante daquele mar de reconhecimento, nenhum sorriso surgiu nos rostos do Karasuno.

Não havia espaço para alegria.

As lágrimas continuavam a rolar. Cristian chorava com o rosto enterrado nas mãos. Tao tremia sem conseguir controlar o que sentia. Asahi mantinha os olhos fixos no chão, como se o peso do mundo estivesse em seus ombros. Charlie encarava a rede como se ela tivesse se tornado um abismo, e Nick... Nick permanecia parado, olhando para a arquibancada, com os olhos cheios de lágrimas que não caiam — apenas queimavam.

A ovação continuava. Mas, dentro deles, só havia o silêncio de um sonho que escorregou entre os dedos.

Nick e o Karasuno caminharam em silêncio absoluto até o vestiário. Cada passo era um peso, cada respiração um esforço. O chão parecia mais distante, o mundo mais escuro. O barulho abafado dos tênis arrastando no piso ecoava junto aos soluços mal contidos e aos assobios desesperados dos narizes entupidos pelo choro. Ninguém tinha forças para falar. Nem ânimo para encarar os próprios companheiros.

Assim que a porta do vestiário se fechou atrás deles, o colapso veio.

Nick caiu de joelhos como se suas pernas tivessem desistido de sustentá-lo. Seu corpo inteiro sacudia com os soluços que finalmente escaparam. A camisa colada ao peito, o rosto escondido nas mãos. As lágrimas desciam com violência, como se lavassem tudo aquilo que ele não soube proteger.

Charlie se jogou ao seu lado logo em seguida. Seu corpo se encostou ao de Nick sem hesitação, como se precisasse daquele contato para não se despedaçar completamente. Ele tremia. Não havia mais contenção. Apenas um garoto em frangalhos, derrotado, esmagado por dentro.

Cristian não disse nada. Apenas se afundou no banco, com os cotovelos apoiados nos joelhos e a cabeça entre as mãos. Seus ombros tremiam em silêncio. A frustração queimava como ácido.

Asahi se posicionou diante do espelho. Ficou parado ali, olhando seu próprio reflexo como se não o reconhecesse. Seus olhos estavam vermelhos, o rosto rígido, os punhos cerrados. Era o tipo de dor que não transbordava em lágrimas — era uma dor que gritava por dentro.

Nick levantou o rosto, os olhos completamente tomados pelas lágrimas. Encarou Charlie, sua garganta travada, o peito comprimido.

“Me desculpa” — sua voz saiu arranhada, falha, tremendo de tanta dor — “Eles conseguiram prever minha jogada.”

Charlie fechou os olhos com força, uma nova onda de lágrimas escorrendo. Sua voz era baixa, partida, como se cada palavra fosse arrancada do fundo do peito.

“Não peça desculpas.” Ele balançou a cabeça, sem coragem de encarar Nick. “Fui eu que fechei os olhos. Eu estraguei tudo.”

“Não fale isso.” Nick segurou a mão de Charlie com força, apertando como se aquele gesto fosse a única âncora que ainda os mantinha de pé no meio da ruína. O calor daquele toque dizia tudo que as palavras não conseguiam. Eles estavam destruídos. Mas estavam juntos.

A treinadora Singh entrou no vestiário e, por um instante, seus passos pararam. O que ela viu diante de si a atingiu como um soco no estômago.

O Karasuno estava em pedaços.

Corpos largados pelo chão, soluços engasgados, olhos vermelhos, mãos tremendo. Era como se a alma de cada jogador tivesse sido arrancada dentro de quadra. Não havia postura. Não havia honra na derrota — apenas um vazio sufocante, um luto coletivo. E isso... a fez arder por dentro.

Seu semblante se transformou de imediato. Não era tristeza o que tomava conta de sua expressão. Era fúria. Mas não contra o placar, nem contra o Aoba Jōsai. Era contra aquilo que estavam se tornando. Contra o olhar perdido de Nick no chão. Contra o choro resignado de Charlie. Contra o silêncio de Cristian, a apatia de Asahi, os punhos trêmulos de Daichi.

A derrota não a abalava — ela já tinha visto muitas. Mas ver seus corvos, aqueles que treinaram, suaram e cresceram sob sua orientação, completamente despedaçados por um único jogo… aquilo era inaceitável. Ela não suportava vê-los se renderem ao fracasso como se ele os definisse.

Talvez fosse raiva, talvez fosse dor. Mas naquele momento, Singh não era apenas treinadora. Ela era a figura que se recusava a deixar que o Karasuno se afundasse mais do que já tinha. Ela seria a mão que puxaria cada um deles de volta.

"Vocês foram incríveis hoje."

Sua voz saiu limpa e suave, mas era como um trovão seco sem chuva. Ninguém se moveu. Ninguém respondeu.

"Mas nós perdemos..." Charlie murmurou, sua voz um sussurro quebrado, como se temesse dizer em voz alta o que todos sentiam.

“Realmente nós perdemos...” A treinadora deu um passo à frente, os olhos afiados como flechas, varrendo o vestiário, encarando cada jogador com algo mais poderoso do que bronca: verdade. “...mas foi uma partida que valeu a pena, não acham?”

Silêncio.

Um silêncio que sangrava.

“Perder prova que você é fraco?”

Ela se virou para Nick, e a pergunta o atingiu como um saque de Oikawa em cheio no peito.

“Por acaso perder não é difícil para vocês?” Ela andava devagar, como uma sombra viva, firme como um comandante de guerra diante dos soldados caídos. “Depois de ficar de joelhos no chão, não é preciso se levantar de novo?”

Ela parou bem no meio deles.

“Se vocês pensam em continuar de joelhos, aí sim é porque vocês são fracos de verdade.”

Nick fechou os olhos, e por um segundo, viu flashes do jogo. O bloqueio triplo. O chão se aproximando. Charlie ajoelhado. Cristian em silêncio. O sabor do erro. Mas, dentro daquele caos, a voz dela ecoava como um tambor.

Com um grunhido abafado, Nick fincou os pés no chão e, mesmo com as pernas trêmulas, ergueu o corpo como quem desafia a gravidade. Seus olhos ainda estavam marejados, mas agora brilhavam com algo mais forte do que a dor: convicção.

Charlie o viu, e como se fosse puxado por uma força invisível, também se ergueu. Suas mãos ainda tremiam, mas seus pés estavam firmes. Um a um, os outros começaram a levantar.

Cristian soltou um suspiro profundo, empurrou os joelhos e se colocou de pé, encarando a treinadora com os olhos vermelhos.

Asahi saiu de frente do espelho, limpando os olhos com as costas da mão, mas mantendo o olhar firme.

Daichi levantou com os punhos cerrados, como se um peso inteiro saísse de suas costas.

Harry engoliu em seco e levantou a cabeça, seguido por Tao, que se levantou com a expressão endurecida pela primeira vez.

Suga ajeitou a postura, inspirou fundo, e ficou de pé com a dignidade de um veterano que ainda tinha mais a ensinar.

Todos de pé.

Todos em silêncio, mas agora não mais quebrados.

A treinadora sorriu. Um sorriso confiante, feroz, orgulhoso.

“VOE KARASUNO!” ela gritou, com a força de um trovão rasgando as nuvens.

“VOE KARASUNO!” o time respondeu em uníssono, a voz trêmula, embargada, mas carregada de alma.

E ali, no vestiário ainda úmido de lágrimas e suor, algo nasceu de novo. Eles haviam caído. Mas agora, estavam prontos para voar.

Na volta para casa, o silêncio dentro do ônibus pesava como se cada assento carregasse um pedaço da dor que o Karasuno sentia. A empolgação da ida — as risadas, as apostas bobas, as músicas no fone de ouvido compartilhado — parecia pertencer a outro mundo. Agora, restavam olhares vazios, corpos exaustos e uma quietude tão densa que doía.

Nick estava no último banco, encostado na janela, com Charlie ao seu lado. As luzes da estrada refletiam no vidro, criando desenhos estranhos e passageiros de sombras que iam e vinham com o balanço do veículo. Ninguém dizia uma palavra. O som abafado do motor era a única coisa viva naquele ambiente de luto.

Charlie olhava fixamente para as mãos apoiadas no colo. Os dedos ainda suavam. Nick, por outro lado, desviava o olhar para o chão, a garganta apertada por tudo o que gostaria de dizer e ainda não sabia como. Mas então, movido por algo maior que o silêncio, ele esticou os dedos e entrelaçou os seus nos de Charlie.

Charlie olhou para ele, surpreso, e viu ali um par de olhos vermelhos, marejados, mas firmes.

"Char... não quero que se culpe," Nick disse, a voz baixa, um sussurro que parecia prestes a se quebrar. "Por favor."

Charlie balançou a cabeça, e os olhos também se encheram. "Como não me culpar?" ele disse, num sopro de tristeza. "Eu fui tão idiota... cortei com os olhos fechados, Nick."

Nick apertou a mão dele com mais força, como se dissesse me escuta. "Não fale assim. Eu levantei a bola pra você porque confio em você. Porque aquela era a melhor jogada. Porque você sempre foi minha melhor jogada."

Charlie desviou o olhar, tentando conter um soluço. "Mas se eu tivesse aberto os olhos..."

"Se," Nick repetiu, com um suspiro cansado. "Quantos 'se' a gente pode dizer nessa partida? “Se” eu não tivesse sido substituído. “Se” eu tivesse passado melhor. “Se” eu tivesse percebido que o Oikawa estava armando uma armadilha. Se... se... se..."

Ele se inclinou um pouco, o rosto mais próximo de Charlie.

"A verdade é que perdemos. E dói, sim. Dói como o inferno. Mas essa não vai ser a última vez que vamos perder, Char. E também não vai ser a última vez que vamos lutar. O esporte é assim. A gente cai. A gente sangra. Mas a gente levanta. E um dia... a gente vence."

Charlie engoliu em seco, os olhos brilhando, e encostou a cabeça no ombro de Nick. Ficou ali, calado por um tempo, sentindo o calor do outro, o conforto, o silêncio que dessa vez não era sufocante, mas necessário.

"Eu queria tanto estar na final..." ele murmurou, quase como uma criança que perdeu algo muito importante.

Nick puxou-o para mais perto, envolvendo-o com o braço. "No Torneio de Primavera, a gente vai estar lá. Eu prometo. E quando estivermos, vai ser por tudo isso que a gente sentiu hoje."

Charlie ergueu o rosto. E então, num gesto tímido, quase inseguro, Nick se inclinou e tocou os lábios dele com os seus. Um beijo leve, salgado pelas lágrimas, aquecido pelo cansaço e pelo afeto. Era um beijo silencioso, mas dizia tudo. Dizia eu tô aqui. Eu acredito em você. A gente vai conseguir juntos.

E naquele instante, mesmo com o coração ferido e o corpo moído, o mundo ficou um pouco menos pesado. Porque apesar da dor... eles ainda tinham um ao outro.

Ao chegar no ginásio do Karasuno. A sala estava silenciosa, mas a energia pesada da derrota pairava sobre o Karasuno como uma nuvem carregada. Quando a treinadora Singh abriu a porta e eles se depararam com um banquete cuidadosamente preparado pelo Clube de Culinária, ninguém se moveu. Os olhos de todos correram pelo buffet farto, o cheiro delicioso da comida pairando no ar, mas o peso da derrota ainda era forte demais para que qualquer um deles sentisse fome.

“Cortesia do Clube de Culinária,” a treinadora anunciou, os braços cruzados, o tom neutro.

O silêncio foi imediato, quase sufocante. Os corvos se entreolharam com hesitação nos olhos, como se tivessem sido pegos invadindo um lugar que não lhes pertencia. A comida parecia um prêmio entregue ao time errado.

“Podem aproveitar,” ela insistiu, mas ninguém se moveu. Era como se os pés estivessem colados ao chão. O cheiro era um insulto à dor que eles sentiam.

Asahi foi o primeiro a balbuciar algo, sua voz rouca de tanto gritar em quadra. “Não somos dignos disso, Treinadora Singh…” Ele olhava para a comida como se ela o acusasse.

“Esse era o banquete da vitória...” Daichi completou, a cabeça baixa. A culpa transbordava em cada palavra. “E nós não vencemos.”

A treinadora suspirou. Seus olhos passaram por todos — dos mais jovens aos veteranos — e em cada rosto, ela viu a mesma coisa: um time em pedaços.

“Vocês não aprenderam nada?” A pergunta soou suave, mas carregada. Imediatamente, os ombros se curvaram. Nenhum jogador conseguiu encará-la. As palavras pesaram mais do que qualquer bronca.

Ela começou a andar entre eles, e parou em frente a Harry. O garoto, que durante o jogo oscilou entre a raiva e o medo, abaixou a cabeça. Os olhos tremiam.

“Quantas recepções você errou hoje?”

Harry mordeu o lábio com força, tentando conter as lágrimas. “Mais do que eu queria...” sussurrou.

“Mas você se recuperou e fez aquele corte incrível.” A treinadora sorriu, genuinamente.

Harry levantou os olhos, surpreso. Aquela lembrança — um momento em que, por um segundo, ele tinha brilhado — era o que restava agora. “Não vejo isso como derrota.” E naquele instante, um lampejo de orgulho nasceu em seu peito.

Ela se virou para Cristian. “Você é um dos poucos líberos da região que conseguiu pegar um saque curvo do Oikawa.”

Cristian arregalou os olhos. Não tinha pensado naquilo. Lembrava apenas da dor nos braços e do som ensurdecedor do impacto. Mas ela tinha notado.

“Não vejo isso como derrota.” Um sorriso pequeno escapou, tímido. Seu peito, antes apertado, respirava um pouco mais fundo.

Ela se dirigiu a Asahi. “Nosso poderoso Ace!”

Asahi ergueu a cabeça, olhos ainda marejados, como se não merecesse o título naquele dia.

“Tenho certeza de que as mãos de Oikawa ainda estão doendo com aquele corte mortal. Ele jamais se esquecerá disso.”

Asahi piscou, e pela primeira vez desde o apito final, seus lábios se curvaram num sorriso leve. “Não vejo isso como derrota.”

Chegou a vez de Daichi. A treinadora parou em frente ao capitão.

“Daichi…” Ela o olhou como quem vê um irmão mais velho tentando segurar o mundo nas costas. “O que seria do Karasuno sem sua liderança?”

A mão dela tocou o ombro dele com carinho. “Você motivou esse bando de corvos hoje.” Ele assentiu, engolindo em seco. “Não vejo isso como derrota.”

E então, ela parou diante de Charlie. O garoto já estava chorando de novo antes mesmo de ouvi-la falar. Seus olhos estavam vermelhos e seu queixo tremia.

“O Seijoh ainda está procurando até agora aquele cruzado.”

Charlie soltou uma risada baixa, embargada, envergonhada. “Sério?”

“Com certeza.” Ela sorriu. “Não vejo isso como derrota.”

Charlie apenas assentiu, limpando as lágrimas, como se tivesse recebido uma benção silenciosa.

A treinadora foi até Tao. O garoto parecia pequeno no banco, as pernas balançando nervosas.

“Aquele saque flutuante foi fenomenal. E foi sua estreia contra o Aoba Jōsai, em uma semifinal duríssima.”

Tao arregalou os olhos, o coração acelerando com aquelas palavras. “Não vejo isso como derrota.” Ele sorriu, pequeno, mas verdadeiro.

Ela se aproximou de Suga. O veterano estava com os braços cruzados, mas por dentro, desmoronando.

“Suga! Você desmontou as estratégias deles e manteve o time calmo. Você foi essencial hoje.”

Suga desviou o olhar, emocionado. “Não vejo isso como derrota.” Sua voz saiu baixa, mas cheia de alívio.

E então, ela parou diante de Nick. O vestiário ficou em silêncio absoluto. Nick respirava com dificuldade, as mãos trêmulas nos joelhos. Ele não conseguia erguer os olhos.

“Nick.”

A voz dela foi tão suave que pareceu abraçá-lo.

Ele ergueu a cabeça. Os olhos estavam vermelhos, os cílios molhados.

“Estou tão orgulhosa de você.”

Ela tocou seu ombro, depois o centro de seu peito, bem onde o coração batia forte.

“Podemos ter perdido no placar, mas você, mais do que qualquer um, venceu aqui.”

Nick tentou segurar, mas foi impossível. Seu rosto desabou, e ele soltou um soluço abafado. Charlie imediatamente se aproximou, pousando uma mão em sua perna. Nick segurou sua mão com força, apertando como se ela fosse sua âncora.

A treinadora, então, se virou para todos.

“Não há vergonha em perder. Porque perder mostra que há espaço para crescer.”

Ela olhou um por um, demorando o olhar em cada rosto, como se quisesse gravá-los na memória.

“E Oikawa... e o Aoba Jōsai não têm ideia do que os esperará no Torneio de Primavera.” As palavras dela soaram firmes demais talvez até como uma ameaça.

O silêncio foi quebrado por um leve murmúrio de concordância. Algo nas palavras dela reacendeu a faísca que cada um carregava dentro de si.

“Agora quero todo mundo sentado e comendo!” ela decretou, com um sorriso que não aceitava objeção.

E, dessa vez, ninguém hesitou.

O cheiro era irresistível, preenchendo a sala com um aroma defumado e levemente adocicado. O churrasco estava disposto em travessas grandes sobre uma longa mesa de madeira coberta com uma toalha branca. O calor ainda subia das carnes suculentas – cortes macios de frango dourado, pedaços generosos de costela bovina caramelizada no ponto certo, linguiças bem temperadas que estalavam levemente ao serem cortadas. O cheiro do alho e das ervas misturava-se ao perfume do carvão que ainda impregnava os pratos recém-grelhados. Ao lado, uma travessa de arroz soltinho, saladas frescas e coloridas, farofa crocante com pedaços de bacon, vinagrete brilhando sob a luz e uma porção de pão de alho, ainda quente e cremoso.

Os jogadores começaram a se servir, ainda um pouco hesitantes, mas aos poucos enchendo seus pratos com porções generosas. Harry pegou um pedaço grande de costela e um punhado de arroz, murmurando um:

“Isso tá com uma cara incrível.”

Cristian encheu seu prato com linguiça e farofa, enquanto Asahi pegava uma porção equilibrada, como sempre fazia. Suga, rindo baixinho, encheu seu prato de vinagrete e um pedaço de pão de alho, comentando que não resistia a acompanhamentos. Daichi se serviu de tudo um pouco, comendo em silêncio, mas seu rosto parecia menos tenso. Aos poucos, a aura pesada da derrota começou a se dissipar. A mesa ainda estava mais silenciosa do que o normal, mas pequenos murmúrios começaram a surgir.

No meio daquilo tudo, Nick se serviu normalmente, mas quando olhou para o prato de Charlie, notou que ele havia pegado o mínimo possível — uma pequena porção de arroz e um pedaço de frango quase intacto. Estava empurrando os grãos no prato com o garfo, sem foco, como se esperasse que o apetite voltasse por milagre.

“Tá tudo bem?” Nick perguntou, com a voz baixa e carregada de ternura.

Charlie desviou o olhar, os ombros caídos. “Só estou sem fome,” murmurou, com um meio sorriso que não alcançava os olhos.

Nick não respondeu de imediato. Apenas o observou. Seus olhos não pediam respostas, apenas conexão. Sem dizer nada, deslizou a mão por cima da mesa e apertou a de Charlie com firmeza, entrelaçando os dedos. O toque quente fez Charlie erguer os olhos, e, naquele instante, algo dentro dele — mesmo em pedaços — começou a se alinhar novamente.

Cristian, que assistia à cena com atenção silenciosa, pegou um pedaço de pão de alho e o colocou no prato de Charlie. “A gente precisa de toda a energia possível, cara,” disse ele, com um meio sorriso leve, mas sincero.

Charlie soltou uma risada fraca, breve, mas honesta, e pegou o pão de alho. Sabia, com absoluta certeza, que não estava sozinho. Mesmo na derrota, mesmo na dor.

Aos poucos, a conversa ao redor da mesa começou a retomar vida. Vozes antes embargadas ganhavam som, as expressões antes tensas começavam a se suavizar. Harry comentou sobre a força absurda de Ushijima. Cristian riu lembrando do momento em que seu corte fez Oikawa cambalear para trás. Suga balançou a cabeça e disse que o técnico deles devia cobrar terapia depois daquele jogo. Risos brotaram. Baixos, tímidos, mas reais.

Charlie, ainda com a mão entrelaçada à de Nick, afastou o prato, deixou o pão de lado e se levantou, andando até uma das janelas altas do ginásio. O ar da noite tocou seu rosto. Do lado de fora, a lua se escondia por entre nuvens densas, mas uma leve brisa balançava os galhos das árvores ao longe.

Foi quando ele viu.

Um corvo negro, solitário, pousado no parapeito externo da janela. Seus olhos pequenos e escuros se encontraram com os de Charlie, e, por um instante, tudo pareceu congelar. Era como se aquele animal soubesse. Como se entendesse. Como se o encarasse não com pena, mas com força.

O corvo bateu as asas uma vez, depois mais uma, e voou. Cortou o céu escuro com a leveza dos que sabem para onde vão.

Charlie acompanhou o movimento com os olhos até perdê-lo no horizonte.

Então, ele sorriu. Foi pequeno, discreto, quase imperceptível. Mas foi o suficiente.

Dentro do peito, a dor ainda existia. A derrota ainda doía. Mas agora, havia algo mais. Algo que crescia devagar, como brasas reacendendo no fundo do peito.

Aquilo não era o fim.

Não seria sua última queda. Mas também, definitivamente, não seria sua última vez de se levantar.

Charlie voltou para a mesa, sentou-se ao lado de Nick, e dessa vez, pegou o garfo com firmeza.

A jornada dos corvos ainda estava só começando.

Notas finais
Obrigada a todos que chegaram até aqui. De verdade. Encerrar o Arco 2 foi um dos maiores desafios da minha jornada com Match Point. Foram semanas intensas, noites em claro, reescritas infinitas... e um peso emocional que ainda tá aqui comigo. A decisão de fazer o Karasuno perder esse jogo foi extremamente difícil. Eu queria fugir do que já vimos no anime, queria dar um destino diferente aos nossos corvos — mas no fim, percebi que às vezes o caminho mais duro é o mais necessário. Como disse a treinadora Singh... "Perder significa que há espaço para crescer." E eu prometo: eles vão crescer. Muito mais. O Arco 3 se chamará CONCRETO! Talvez alguns já imaginem o porquê desse nome — e sim, ele carrega um significado bem especial. Esse próximo arco vai ser sobre reconstrução. Sobre reerguer os pedaços e entender que perder não é o fim. Vai focar principalmente em Nick e Charlie, no que ficou ferido e no que precisa florescer. Ainda não tenho uma data certa pra começar a postar o Arco 3. Se tudo der certo, talvez ainda esse mês — mas não é uma promessa, tá? Criar um arco narrativo longo, coeso e com alma dá muito trabalho, e eu espero que vocês entendam e fiquem comigo mais um pouquinho. PS.: Estou pensando em escrever um capítulo extra mostrando a final do Seijoh contra o Shiratorizawa. O que acham? Quero saber se vocês têm vontade de ver esse confronto que promete ser épico. Obrigada por tudo. Por cada leitura, comentário, palavra de apoio. De coração: vocês tornam essa histór