Match Point
12 ARCO 2 DOMINE! – Capítulo 11 – Por que a gente é assim?
Notas iniciais
NICK
Nick estava deitado em sua cama, o quarto mergulhado em uma penumbra tranquila, quebrada apenas pela luz azulada do celular que iluminava seu rosto. Lá fora, a chuva caía em um ritmo constante, gotas finas batendo contra a janela, deixando trilhas escorridas pelo vidro. O som suave da água contra o telhado preenchia o silêncio do quarto, criando um fundo melancólico para seus pensamentos.
As paredes, pintadas em um tom suave de cinza, eram decoradas com pôsteres de jogadores de vôlei famosos e de times internacionais. Perto da escrivaninha, havia uma estante lotada de troféus reluzentes, com placas gravadas em sua base, exibindo os anos de competições juvenis que Nick havia vencido. Medalhas estavam penduradas em um gancho improvisado na lateral da estante, os metais brilhando levemente sob a luz suave do abajur desligado.
No vidro embaçado da janela, reflexos distorcidos de luzes da rua piscavam e desapareciam, misturando-se com a água escorrendo. Nick deixou o celular deslizar de suas mãos até o peito, fechando os olhos por um momento. A chuva lá fora parecia mais pesada agora, como se o céu compartilhasse do peso que ele sentia em seus ombros.
No chão, ao lado da cama, estavam um par de pesos para exercícios e uma garrafa d’água esquecida. Era um pequeno lembrete das horas que ele dedicava ao treino, mesmo fora da quadra. No canto, próximo ao armário, havia uma mochila esportiva semiaberta, com pedaços do uniforme do Karasuno aparecendo, e um par de tênis desgastados descansava ao lado dela.
Ao lado da cama, na mesinha de cabeceira, uma foto desbotada mostrava dois garotos na Quadra do Rio, sob o céu alaranjado do entardecer. Nick, mais jovem, segurava uma bola de vôlei contra o peito, seu sorriso aberto e despreocupado, os cabelos loiros bagunçados pelo vento. Ao seu lado, um garoto de cabelos castanhos claros e olhos quentes como mel ria travesso, o braço jogado de forma despreocupada sobre os ombros de Nick, como se nada no mundo pudesse separá-los. O concreto rachado da quadra, as linhas desgastadas e o reflexo do sol no rio ao fundo pareciam eternizar aquele momento. A foto estava ali—esquecida, mas nunca apagada, um vestígio de algo que Nick nunca soube se queria lembrar ou esquecer.
Ao lado do porta-retratos, havia um pequeno caderno com anotações de estratégias de vôlei e rabiscos aleatórios. Era evidente que aquele era um espaço que refletia sua paixão pelo esporte – e, ao mesmo tempo, uma extensão de quem ele era. Tudo estava em um equilíbrio bagunçado, como a própria mente de Nick naquele momento.
Nellie, sua fiel Border Collie de pelo marrom e branco, estava esparramada ao lado dele, com a cabeça descansando preguiçosamente sobre suas pernas. De vez em quando, ela levantava uma orelha ou abria um dos olhos castanhos curiosos, como se checasse se Nick estava bem. Ele passava os dedos distraidamente pelo pelos macios dela, mas sua mente estava longe dali, em um lugar onde troféus, medalhas e jogos não importavam.
Tudo o que ele conseguia pensar era em Charlie.
Ele podia quase vê-lo na tela do celular, como se cada detalhe do rosto de Charlie estivesse gravado em sua memória. Seu cabelo castanho bagunçado, que parecia sempre estar fora do lugar, mas de um jeito que o deixava perfeito. Seus olhos azuis acinzentados, cheios de profundidade, como um mar tranquilo que escondia algo mais intenso logo abaixo da superfície. O sorriso... Aquele sorriso. Não era só sobre como ele mostrava os dentes ou como seu rosto se iluminava; era o jeito que fazia Nick se sentir visto, como se estivesse sorrindo apenas para ele.
Nick pensava no beijo, naquele instante diante da rede, no jogo contra o Date Tech. O ginásio cheio, os gritos da torcida, mas, por um momento, tudo desapareceu, deixando apenas os dois. Foi rápido, impulsivo, mas inegavelmente certo. Ele nunca tinha beijado um garoto assim antes. Pelo menos, não daquele jeito. Um arrepio percorreu sua espinha, trazendo consigo um eco distante, uma lembrança vaga que ele não tinha certeza se queria revisitar. Mas Charlie... Com Charlie, foi diferente. Foi real. Não era como ele imaginava – era muito melhor.
Ele não conseguia entender. O que aquilo significava? O que ele sentia? O que ele era? Sua mente estava em completo caos, cada pensamento colidindo com o próximo antes que ele pudesse sequer organizá-los. Ele sempre gostou de garotas, não gostava? Já teve crushes, já ficou nervoso perto delas, já sentiu aquele frio na barriga. Mas o que sentia por Charlie... era diferente. Mais forte. Mais intenso. Mais real.
E se aquilo fosse um erro?
Seu peito apertou. Ele tentou afastar a dúvida, mas então outro pensamento tomou conta de sua mente—e se eles viram? Seu estômago revirou. É claro que tinham visto. Todo o ginásio estava olhando. Eles estavam no meio da quadra, sob os holofotes. Seu coração começou a acelerar. Imagens dos rostos na arquibancada surgiram em sua cabeça como flashes rápidos e sufocantes. Cristian. Harry. Ben. A treinadora. Eles estavam lá. Eles viram.
O que eles pensaram? O que estão pensando agora? Estão rindo dele? Estão cochichando entre si? A ideia de ser analisado, de ser julgado, fazia o coração de Nick disparar ainda mais. Ele tentou respirar fundo, mas a sensação de que tinha cometido um erro irreversível o consumia.
E se alguém falasse sobre isso?
E se os cochichos nos corredores começassem? Se as piadas, as olhadelas, os apelidos maldosos voltassem a acontecer? A pressão crescia dentro dele como uma maré alta prestes a engoli-lo por inteiro. Ele queria escapar. Queria se esconder. Mas não havia para onde correr.
E então veio outro pensamento, um que bateu em seu peito com tanta força que ele sentiu que ia sufocar. Charlie.
Nick sabia exatamente o que significava ser o centro das atenções na escola. Ele sabia o que era ter olhares presos em si, ser analisado, julgado, comentado. Mas, para Charlie, isso nunca foi apenas desconforto. Foi um pesadelo.
Ele se lembrava das risadas que não tinham graça nenhuma, dos cochichos maldosos que cortavam como lâminas. Das piadas que começavam baixinho e logo se transformavam em ecos pelos corredores. Ele se lembrava do jeito que Charlie abaixava a cabeça, do aperto silencioso que tomava seu corpo, da forma como ele começou a evitar certos lugares, certas pessoas. Como ele foi diminuindo, se fechando, tentando desaparecer para que ninguém notasse sua existência.
E agora, se tudo começasse de novo?
Nick cerrou os punhos, os músculos tensionados ao ponto de doer. Ele queria protegê-lo. Precisava protegê-lo. Mas e se ele estivesse fazendo exatamente o contrário? E se, ao invés de tirar Charlie daquele pesadelo, estivesse arrastando-o de volta para dentro dele?
O pensamento cravou fundo, queimando como ácido. Ele queria manter Charlie seguro, queria garantir que ninguém jamais teria o direito de arrancar aquele sorriso tímido e precioso do rosto dele. Mas e se estar com ele fosse exatamente o que jogaria Charlie de volta no inferno?
Nick fechou os olhos, sentindo a pressão esmagadora contra seu peito. E, então, uma outra lembrança surgiu, uma que ele não queria revisitar.
Um vento frio soprava pela quadra à beira do rio. Nick se lembrava—um garoto de cabelos castanhos claros e olhos cor de mel o encarava, os ombros tensos, os punhos cerrados.
"Me desculpa, por favor..." A própria voz de Nick soava distante, como um eco perdido no tempo.
Nick abriu os olhos no presente, o peito subindo e descendo rapidamente. Ele não podia cometer os mesmos erros. Não podia deixar que Charlie passasse por aquilo. Não podia ser o motivo da dor de alguém de novo. Não outra vez. Mas e se já fosse tarde demais? Eu não sou mais aquele garoto. Mas e se Charlie ainda sofrer por minha causa?
Nellie, percebendo a inquietação de Nick, levantou a cabeça e o cutucou levemente com o focinho. Ele a acariciou de maneira distraída, tentando encontrar algum alívio no gesto automático. Não era como se pudesse voltar no tempo. O beijo já tinha acontecido. Agora, ele precisava descobrir como seguir em frente.
Suspirando, deslizou o celular sobre o peito e ficou olhando para o teto. Nellie se remexeu ao seu lado, ainda atenta a cada mínima mudança em seu humor. Nick passou os dedos pelo pelos macios dela, como se isso pudesse aliviar o nó apertado em seu estômago.
Desde o beijo, tudo parecia estranho entre eles. Nick não teve coragem de ligar para Charlie, nem de mandar uma mensagem. Mas o silêncio de Charlie também o incomodava. Ele não recebeu nenhuma ligação ou mensagem, nem mesmo uma indireta nas redes sociais. Isso significava que Charlie estava esperando por ele? Ou talvez... talvez Charlie não tivesse gostado?
“Será que foi um erro?” sussurrou Nick para si mesmo, enquanto Nellie levantava a cabeça por um momento, olhando-o com curiosidade antes de se deitar novamente.
Nick fechou os olhos, tentando afastar os pensamentos, mas eles voltavam com mais força. “Será que ele acha que eu não gostei?” A pergunta reverberava em sua mente. Era tudo tão confuso. Ele sentia que precisava de respostas, mas ao mesmo tempo tinha medo de encontrá-las.
Ele abriu os olhos e olhou para o celular novamente, hesitando por um instante. Talvez devesse mandar uma mensagem. Só algo simples, só para saber se Charlie estava bem. Mas e se isso piorasse as coisas? E se ele dissesse a coisa errada? E se Charlie estivesse esperando exatamente por isso?
Ele suspirou mais uma vez, acariciando Nellie distraidamente, sentindo o peito apertar de incerteza. A única coisa que ele sabia, com toda a clareza, era que Charlie tinha mudado tudo. Frustrado, Nick jogou o celular na cama, o que fez Nellie erguer a cabeça, olhando para ele com curiosidade. Ele suspirou, acariciando-a entre as orelhas.
“O que você acha, Nellie? Eu estou enlouquecendo?” perguntou, enquanto a cachorra abanava o rabo, como se aprovasse qualquer decisão que ele tomasse.
Depois de alguns momentos, Nick pegou o celular novamente. Ele abriu o chat com Charlie, o polegar pairando sobre o teclado. Ele queria dizer algo – qualquer coisa. Mas as palavras pareciam presas.
"Não paro de pensar em você..." ele começou a digitar, mas apagou.
"Aquele beijo foi..." Apagou de novo.
"Quer ir comigo tomar um sorvete?" Ele digitou, mas antes que pudesse pensar mais, apagou de novo.
A frustração explodiu.
"Por que eu sou assim?!" ele gritou, jogando a cabeça contra o travesseiro.
E então, um trovão cortou o céu.
O som ecoou pelo quarto, grave e vibrante, fazendo as janelas estremecerem levemente. Logo depois, a chuva começou a cair mais forte, pesada, batendo contra o vidro como se o próprio mundo estivesse transbordando junto com ele. O cheiro da terra molhada invadiu o quarto, e cada gota que escorria pelo vidro parecia marcar o ritmo acelerado do coração de Nick.
Nellie, alarmada pelo tom de voz dele e pelo estrondo do trovão, levantou as orelhas, inclinando a cabeça com curiosidade. Nick riu, mas foi um riso vazio, nervoso, carregado da confusão dentro dele. Ele passou a mão pelo pelos dela, tentando se acalmar, mas não conseguia.
Finalmente, ele respirou fundo e digitou algo simples.
"Oi." Apenas isso.
Mas não enviou.
Nick ficou ali, encarando a tela brilhante do celular enquanto a chuva castigava a rua lá fora. O peso em seu peito crescia, sufocante. Ele sentia um impulso queimando em sua pele, um desejo incontrolável de se mover, de fazer algo.
Antes que pudesse racionalizar, já estava se levantando. Pegou seu casaco às pressas, passou a mão pelos cabelos bagunçados e saiu porta afora, ignorando a chuva que o atingiu no momento em que cruzou a soleira. As gotas geladas escorriam por seu rosto, molhando seus cílios, encharcando suas roupas em segundos. Mas ele não se importou.
Nick começou a correr.
CHARLIE
O quarto de Charlie era um reflexo perfeito de sua personalidade: um espaço que misturava criatividade, introspecção e uma pitada de caos organizado. As paredes eram pintadas de um cinza escuro que parecia tornar o ambiente mais acolhedor, quase como um casulo, e decoradas com pequenos pôsteres de bandas indie que só ele parecia conhecer. Uma prateleira mal organizada no canto estava lotada de livros de literatura, caixas de discos e alguns jogos de tabuleiro que ele raramente usava, mas guardava com carinho.
No meio do quarto, bem em frente à janela coberta por cortinas pesadas, estava sua bateria eletrônica. Os pads reluziam sob a luz suave do abajur em sua mesa de estudos, cuja superfície estava abarrotada de cadernos rabiscados, partituras mal dobradas e canetas soltas. Uma caneca com o logo de uma banda indie, com um pouco de chá esquecido no fundo, estava posicionada no canto da mesa, quase perdida na desordem. Ao lado dela, havia um prato com um sanduíche parcialmente comido, suas bordas secando pelo tempo. Charlie o tinha largado ali horas atrás, sem vontade de terminá-lo.
A cadeira giratória ao lado parecia ter sido empurrada às pressas, de um jeito que deixava claro que Charlie não havia planejado parar de tocar tão cedo. Tudo naquele canto transparecia urgência e caos, mas também uma intimidade que fazia o quarto parecer mais do que apenas um espaço físico – era um reflexo de sua mente naquele momento.
No chão, um tapete felpudo e gasto marcava o espaço onde Charlie frequentemente se sentava para mexer no celular ou fazer anotações. No canto próximo à cama, uma pilha de roupas limpas – ou quase limpas – estava equilibrada de forma precária, como se fosse uma tentativa de organização que ele nunca terminara. O ambiente carregava aquele cheiro familiar de lavanda suave, da vela que ele às vezes acendia para se concentrar, misturado ao leve aroma da bateria usada frequentemente.
Agora, o quarto estava mergulhado em um isolamento perfeito. As luzes estavam baixas, e Charlie estava sentado diante de sua bateria eletrônica, os fones de ouvido cancelando qualquer som do mundo exterior. A cada batida que desferia nos pads, sentia seu corpo liberar um pouco mais da energia acumulada. As baquetas em suas mãos pareciam uma extensão de seus próprios pensamentos, e as batidas rápidas e intensas ecoavam dentro de sua mente, acompanhando o ritmo acelerado do que sentia.
Sem perceber, a chuva lá fora aumentava, batendo contra o vidro da janela em um ritmo irregular. O mundo parecia pequeno do lado de dentro, abafado pelo som das gotas misturado à percussão que preenchia o quarto. Mas Charlie não notava. Seu corpo tocava, mas sua mente estava longe dali, presa em pensamentos que nem a música mais alta conseguia silenciar.
Nick, Nick, Nick, Nick.
Cada golpe era como uma tentativa desesperada de organizar o turbilhão de memórias que o dominava. O beijo. Aquele instante que parecia ter congelado o tempo. O ginásio cheio, as vozes da torcida se transformando em um som distante, quase como um sussurro abafado. Só havia Nick. Seu olhar caloroso e firme, tão profundo que fazia Charlie sentir como se ele pudesse enxergar cada pedaço seu, até os que ele tentava esconder.
Charlie conseguia se lembrar da sensação exata do toque de Nick em seu rosto. Os dedos fortes, mas delicados, roçando sua pele como se estivessem com medo de quebrá-lo. Foi um toque que o fez se sentir visto, seguro, mas também vulnerável de uma forma que ele nunca tinha experimentado antes. Os polegares de Nick tinham parado por um breve momento em suas maçãs do rosto, como se ele estivesse gravando aquele instante na memória, hesitando por uma fração de segundo antes de puxá-lo para mais perto.
E então, os lábios de Nick tocaram os seus. Era leve, hesitante, quase como se ele estivesse testando, perguntando se aquilo era permitido. Mas, ao mesmo tempo, havia tanta certeza naquele gesto que Charlie não conseguiu evitar se entregar completamente. A sensação era nova, diferente de tudo o que ele já tinha imaginado. Não era apenas um beijo. Era um universo inteiro de emoções que explodiram dentro dele – calor, nervosismo, felicidade, e aquele tipo de alegria que parecia tão intensa que quase doía.
A maneira como Nick o elogiou logo depois, com uma sinceridade que transbordava em cada palavra, ainda ecoava na mente de Charlie. “Você foi incrível.” Ele havia dito aquilo com uma convicção que fez o coração de Charlie disparar. Era mais do que as palavras; era o jeito que Nick olhou para ele enquanto falava, como se estivesse reafirmando que Charlie era tudo aquilo e mais. Ele nunca tinha sido olhado daquele jeito antes. Aquele momento era como um filme em sua mente, passando em câmera lenta toda vez que ele fechava os olhos.
Ele queria congelar aquele instante. Repeti-lo. Guardá-lo para sempre. O beijo, o toque, o olhar de Nick... tudo aquilo parecia tão surreal, como se fosse algo emprestado de uma vida que não era a dele, algo bom demais para pertencer ao mundo de Charlie Spring. Mas por mais que ele tentasse reviver aquele momento em sua mente, o que vinha junto com a memória era o medo – um medo esmagador que parecia devorá-lo de dentro para fora.
Será que Nick gostou? pensou, batendo as baquetas nos pads com força. Por que ele gostaria? Ele é... perfeito. Ele é o capitão do time, ele é carismático, ele é... hétero! A palavra bateu em sua mente como uma martelada. Ele já tinha visto Nick com garotas – rindo, abraçando, até flertando casualmente. Charlie engoliu em seco, tentando afastar a lembrança. Mas... e se ele for bi? Uma fagulha de esperança acendeu dentro dele, pequena, frágil, mas suficiente para fazê-lo respirar fundo por um momento.
Não. Ele apagou essa fagulha tão rápido quanto veio. Nick era o cara mais hétero do mundo. Era óbvio. Era impossível. Eu me enganei... não foi? Ele parou de tocar, segurando as baquetas nas mãos como se fossem a única coisa que o mantinha ancorado. Mas, então, o jeito que Nick o olhou voltou à sua mente. Aqueles olhos verdes fixos nos seus, cheios de algo que ele não conseguia decifrar completamente, mas que parecia tão intenso, tão... sincero. E o toque. O jeito que Nick segurou seu rosto, como se fosse algo precioso. E o beijo – suave, mas certo, como se Nick soubesse exatamente o que estava fazendo.
Charlie se afundou em pensamentos, sua cabeça uma bagunça de dúvidas. Se ele não gostou, por que ele me olhou daquele jeito? Por que ele me beijou daquele jeito?
Mas, então, veio o silêncio. Por que ele não ligou? Por que não mandou uma mensagem? Será que ele se arrependeu? A ideia de que Nick pudesse estar arrependido foi como um soco no estômago. Será que ele está com nojo de mim? Será que ele está com raiva por eu ter estragado tudo?
E se... e se Nick estivesse sofrendo? A possibilidade o fez parar de respirar por um momento. Seu estômago revirou, e o meio sanduíche que tinha comido mais cedo parecia querer sair. Charlie apertou as mãos contra o colo, sentindo a bile subir só de imaginar.
Nick não pode passar pelo que eu passei! Não pode! Eu não suportaria isso.
Sua mente o levou de volta ao passado, para os corredores da escola, para os risos cruéis, para as palavras que o cortaram como lâminas. Ele pensou em Harry e Ben. E se eles estivessem zoando Nick agora? E se Nick estivesse sendo machucado por minha causa? Charlie começou a tremer, o pânico crescendo em seu peito. Ele olhou para o prato com o sanduíche mordido na mesa e sentiu uma náusea ainda mais forte.
Não! Não posso deixar isso acontecer. Eu não quero estragar a vida dele. Ele merece ser feliz. Ele merece ser perfeito. Ele merece... alguém melhor do que eu. O pensamento bateu como um soco no estomago.
O peso desse pensamento o fez desabar de volta na cadeira. Ele largou as baquetas no chão e enterrou o rosto nas mãos. Lágrimas começaram a escorrer silenciosamente por seu rosto enquanto ele sussurrava para si mesmo:
“Porque tudo que eu toco se destrói?”
Ele olhou para a bateria, para as paredes do quarto, para o prato na mesa. Tudo parecia vazio. Ele tentou buscar algum conforto na lembrança do beijo, mas até isso agora parecia distante, como algo que não era mais dele. O que Nick estava pensando? Será que ele estava bem? Será que ele o odiava?
Charlie respirou fundo, tentando afastar o nó na garganta, mas era como se ele estivesse preso em um ciclo de culpa e desejo. Ele queria acreditar que havia algo entre eles, algo real. Mas como acreditar quando tudo que ele tocava parecia desmoronar?
Charlie tirou os fones e deixou-os de lado. O quarto ficou incrivelmente silencioso, mas sua mente não. Ele olhou ao redor, para o espaço que tantas vezes era seu refúgio, mas que agora parecia sufocante. Ele se levantou, andando de um lado para o outro, tentando organizar os pensamentos. Mas não havia ordem possível quando o coração estava tão bagunçado quanto seu quarto. Charlie parou em frente à prateleira, os dedos deslizando distraidamente pelas lombadas dos livros e discos, sem realmente absorver nada. Sua mente estava em outro lugar.
Seus olhos foram para a janela, e ele abriu um pedaço da cortina, observando a chuva que caía pesada sobre a rua deserta. As luzes fracas das casas vizinhas piscavam sob o reflexo molhado do asfalto, e a água escorria em pequenos riachos pela calçada.
Mesmo com a chuva o mundo parecia calmo, quase sereno, mas dentro de si, Charlie sentia tudo, menos calma. Seu peito estava um turbilhão de incertezas e desejos conflitantes. Ele queria Nick ali. Queria que ele dissesse alguma coisa, qualquer coisa. Uma mensagem. Uma ligação. Um sinal de que aquele beijo tinha sido tão especial para ele quanto tinha sido para Charlie.
Ele fechou os olhos e suspirou, sentindo o coração pesar.
“Por que eu sou assim?” murmurou para si mesmo, batendo as baquetas com mais força na bateria. O barulho encheu o quarto por alguns segundos, mas logo foi abafado por um som inesperado.
A campainha.
Charlie congelou. O coração disparou, e suas pernas se moveram antes que ele pudesse pensar. Ele desceu as escadas apressadamente, cada passo parecendo ecoar pelo corredor. Quando abriu a porta, o ar frio da chuva entrou junto, trazendo um arrepio imediato à sua pele.
Nick estava ali.
Todo encharcado, os cabelos loiros escuros grudados na testa, os ombros tremendo levemente. A camiseta estava completamente colada ao seu peito, e gotas de chuva escorriam de seus cílios. Ele parecia nervoso, hesitante, mas seus olhos estavam fixos em Charlie, cheios de algo que ele não conseguia decifrar.
"Desculpa não ter mandado mensagem depois do jogo," Nick respirou fundo, engolindo seco. "Eu queria conversar pessoalmente."
Charlie piscou, incapaz de processar o que estava acontecendo.
"Tá bom," ele respondeu, ainda boquiaberto, mas logo voltou à realidade. "Entra, vai ficar doente aí fora."
Nick hesitou por um segundo antes de passar pela porta, os sapatos encharcados deixando marcas de água pelo chão subindo até o quarto de Charlie. “Obrigado,” murmurou, encolhendo os ombros, tentando se aquecer. Nick deu um passo hesitante para dentro e, assim que cruzou a porta, ouviu uma voz calma e levemente irônica.
"Oi, cara do vôlei."
Nick quase deu um pulo, assustado. Ele virou a cabeça e viu Tori a irmã mais velha de Charlie, encostada no batente da cozinha, segurando um copo de chá. Seus olhos observavam cada detalhe dele, avaliando-o com uma expressão impassível. Tori não disse mais nada. Apenas olhou para ele, depois para Charlie, e tomou um gole longo de chá, os olhos nunca desviando. Então, lentamente, um minúsculo sorriso de aprovação apareceu em seu rosto. Charlie sentiu o rosto esquentar.
Nick soltou uma risada nervosa. "Oi, Tori... Eu não te vi aí."
"Eu sei." Ela deu de ombros, como se tudo aquilo fosse absolutamente normal, e voltou para a cozinha.
Nick olhou para Charlie, que ainda estava corado, sem saber o que dizer. Charlie estendeu a mão e segurou o pulso de Nick.
"Vamos lá para cima," Charlie murmurou, o calor de sua mão parecendo aquecer o frio que ainda grudava em Nick.
O silêncio caiu entre os dois. Apenas o som suave da chuva batendo contra a janela preenchia o quarto, criando um ritmo constante e calmante. A luz fraca da luminária ao lado da cama deixava o ambiente aconchegante, mas carregado de uma tensão que nenhum dos dois conseguia ignorar.
Nick coçou a nuca nervosamente, um hábito que Charlie já conhecia bem. Seus olhos vagaram pelo quarto — as estantes cheias de livros, a cama arrumada com a colcha azul, o pequeno quadro na parede com uma frase que ele não conseguia ler direito. Tudo ali era tão Charlie.
“Sobre ontem, no jogo...” começou Nick, a voz vacilando.
Antes que ele pudesse continuar, Charlie se adiantou, as palavras saindo rápido demais, como se precisassem escapar antes que ele desmoronasse.
“Eu sinto muito, me desculpa.”
Nick franziu as sobrancelhas, confuso.
“Eu não tava pensando direito no que eu tava fazendo,” continuou Charlie, sentindo as lágrimas arderem em seus olhos. “Foi uma burrada o que eu fiz e... eu não quero que isso te afaste dos seus amigos, ou que você se sinta desconfortável perto de mim. Se quiser, eu...”
“Charlie” diz Nick suavemente
“Eu... eu... eu... posso sair do time, se isso ajudar,” sussurrou, a voz falhando com hesitação.
“Não!” Nick diz suavemente, mas Charlie pareceu não ouvir “Charlie?” insistiu Nick, a voz mais firme agora.
Charlie abaixou a cabeça, incapaz de encará-lo.
“Eu não devia ter te beijado,” ele admitiu, as lágrimas finalmente escapando. “Eu não quero perder sua amizade. Você foi a melhor coisa que aconteceu comigo.”
Nick deu um passo à frente, hesitante, e então outro. Até estar bem na frente de Charlie. Até que a distância entre eles fosse tão pequena que Charlie pudesse sentir o calor que emanava do corpo dele.
“Eu não quero te perder por causa dessa besteira,” Nick sussurrou.
Ele ergueu as mãos, ainda frias da chuva, e tocou suavemente os ombros de Charlie. O toque foi delicado, cuidadoso, como se estivesse tentando provar que ele estava ali, que não ia fugir. Charlie sentiu a respiração vacilar.
“Charlie,” Nick chamou, a voz quase um sussurro, e, lentamente, suas mãos deslizaram até o rosto dele, os dedos roçando suavemente sua pele. Ele ergueu o rosto de Charlie com delicadeza, como se o mundo pudesse desmoronar se fosse brusco demais.
Seus olhos se encontraram novamente — o verde profundo dos de Nick e o azul acinzentado dos de Charlie, como uma planície infinita que se perdia no céu, onde terra e horizonte se fundiam em um único instante eterno. Por um momento, o tempo pareceu parar. Não havia chuva lá fora, nem mundo lá fora, apenas a vastidão tranquila dos olhares que se reconheciam, que se buscavam e se encontravam de novo, como se tivessem nascido para aquele exato segundo.
Nick hesitou apenas por um instante.
E então, ele o beijou.
Diferente do primeiro, esse beijo era mais lento, mais doce, como se ambos estivessem descobrindo um segredo precioso. Cada segundo era cuidadosamente saboreado, cada toque era uma promessa silenciosa. Era como se estivessem tentando convencer a si mesmos de que aquilo era real, de que não havia pressa — apenas o momento, infinito e único.
Charlie prendeu a respiração por um breve instante antes de se render, os joelhos fraquejando levemente. Ele se ergueu na ponta dos pés, os dedos buscando a barra da camisa molhada de Nick, como se precisasse de algo sólido para se ancorar. A textura fria e úmida do tecido contrastava com o calor que crescia entre eles, e Charlie não queria soltar.
As mãos de Nick deslizaram suavemente dos ombros de Charlie até suas costas, puxando-o para mais perto, até não haver mais espaço entre eles. Seus peitos se tocaram, suas respirações ofegantes se misturaram no ar aquecido do quarto, e o mundo lá fora desapareceu.
Quando seus lábios se separaram, Nick não se afastou. Ele permaneceu ali, o rosto tão próximo que Charlie podia sentir o toque leve de sua respiração. Seus olhos se encontraram, verdes e azul acinzentado, entrelaçados em um silêncio cheio de significado.
Nick o olhava como se tentasse ler uma resposta que só poderia ser encontrada no olhar de Charlie — uma verdade delicada e inabalável, escondida ali, na profundidade serena de seus olhos.
“Caramba,” Nick murmurou, os olhos cheios de lágrimas.
Charlie não disse nada. Ele apenas esperou. Nick recuou um passo e desmoronou na cama, enterrando o rosto nas mãos.
“Eu... eu sinto muito,” começou, sua voz trêmula. “Me desculpa mesmo por não ter mandado mensagem, por ter te deixado esperando. Eu estava confuso, surpreso, e... e agora estou tendo uma baita crise gay.”
Charlie prendeu o riso, mas havia tanta ternura naquele momento que ele apenas se aproximou e se sentou ao lado dele.
Nick continuou. “E não é como se eu não quisesse... beijar você.” Ele fez uma pausa, engolindo seco. “É só que... eu estou muito confuso.”
Charlie respirou fundo. Ele entendia. Mais do que qualquer pessoa, ele sabia como era aquele nó sufocante no peito, aquela sensação de estar perdido em meio a um mar de incertezas. Sabia como o medo podia ser paralisante, como as perguntas sem resposta podiam consumir tudo.
Nick virou-se lentamente para ele, os ombros tensos, os olhos carregados de um turbilhão de emoções que pareciam prestes a transbordar. Mas, pela primeira vez naquela noite, Charlie viu além do nervosismo habitual nos olhos dele.
Ele viu medo.
“Eu não sei o que fazer...” Nick admitiu, a voz baixa, quase um sussurro, como se dizer aquilo em voz alta fosse arriscado demais, uma confissão que deixava tudo à mostra.
Charlie sentiu o coração apertar. Ele sabia exatamente o que Nick estava sentindo. O medo de errar. O medo de se perder. O medo de que aquilo que era tão precioso escorresse por entre os dedos. Então, com toda a delicadeza do mundo, ele ergueu o rosto de Nick com a ponta dos dedos. Seu toque era leve, mas firme. Os olhos de Charlie encontraram os dele, cheios de uma ternura calma, mas inabalável.
E ele sorriu.
“Nada,” respondeu, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
Nick piscou, confuso, seus lábios se entreabrindo como se quisesse questionar aquilo.
“Vamos apenas viver nossas vidas,” Charlie continuou, a voz serena, mas cheia de um carinho tão profundo que parecia envolver cada palavra. “Sem pressão, sem expectativas. Só nós dois. Aqui. Agora.”
Nick o encarou por um longo momento, a respiração ainda entrecortada, os olhos fixos nos de Charlie, como se buscasse uma âncora naquela tempestade interna.
E então, algo mudou.
O peso nos ombros de Nick pareceu se dissolver aos poucos. O medo deu lugar a algo mais suave, mais leve. Ele fechou os olhos por um instante, respirando fundo, sentindo as palavras de Charlie penetrarem cada canto de sua mente.
Quando abriu os olhos, ele sorriu. Um sorriso real. Livre.
Sem hesitar, ele puxou Charlie para um abraço apertado, sentindo a segurança que precisava naquele toque, naquele instante. As batidas de seus corações pareciam sincronizadas, cada uma mais forte que a outra, preenchendo o quarto com uma energia impossível de ignorar.
NICK
Nick se preparava para ir embora, os tênis ainda úmidos das poças no hall de entrada. Ele se sentia estranho, como se estivesse deixando para trás algo que não queria soltar. Charlie estava parado ao lado da porta, segurando um guarda-chuva laranja e preto, as cores vibrantes destacando-se no ambiente meio apagado pela luz fraca do corredor.
“As cores do Karasuno,” comentou Charlie, com um sorriso amável, tentando aliviar o clima.
Nick estendeu a mão para pegar o guarda-chuva, mas seus dedos roçaram levemente as costas da mão de Charlie. Aquele toque foi rápido, mas o suficiente para fazer Nick sentir algo que ele não conseguia nomear – um calor estranho, um conforto misturado com nervosismo.
“Obrigado. É perfeito,” respondeu Nick, um pouco baixo, mas sincero, enquanto segurava o cabo do guarda-chuva com mais firmeza do que o necessário.
Charlie hesitou por um momento, como se quisesse dizer algo mais, mas em vez disso apenas murmurou: “Então... até amanhã no treino.”
“Até,” respondeu Nick, abrindo um sorriso pequeno, mas genuíno.
Ele abriu o guarda-chuva e deu um passo para fora, a chuva imediatamente começando a pingar sobre o tecido colorido. O som das gotas batendo na lona fina era ritmado, quase reconfortante. Ele começou a caminhar pela calçada, sentindo a brisa fria que acompanhava a chuva.
A rua estava quase deserta, as luzes amareladas dos postes refletindo nas poças d'água que se acumulavam no asfalto. Cada passo de Nick fazia pequenas ondas se espalharem ao redor de seus pés. As árvores do outro lado da rua balançavam suavemente com o vento, e o céu parecia pesado, carregado de nuvens. Era um fim de tarde que parecia refletir exatamente como ele se sentia: confuso, perdido, mas de alguma forma estranhamente calmo.
O guarda-chuva era pequeno demais para ele, e as gotas de chuva molhavam seus ombros e escorriam pelo seu rosto, mas ele não se importava. Ele tinha demorado tanto para entender o que estava acontecendo entre ele e Charlie, e agora que finalmente tinha dado um passo, tudo parecia ainda mais complicado.
Ele olhou para o reflexo da luz dos postes na água que corria pela sarjeta, criando pequenos rios que pareciam seguir um caminho inevitável, mas incerto. Talvez seja isso, pensou. Talvez eu seja como essa chuva. Incontrolável, meio caótica, mas inevitavelmente atraída para algum lugar.
Nick apertou o cabo do guarda-chuva, tentando organizar os pensamentos. Ele gostava de Charlie. Isso era inegável. Mas o que isso significava para ele? Para os dois? Ele sempre achou que sabia quem era, o que queria, mas agora parecia que todo o seu mundo tinha virado de cabeça para baixo. Charlie havia mexido com ele de uma maneira que ninguém mais tinha conseguido.
Ele pensou no jeito que Charlie sorria – não o sorriso educado que ele dava para todos, mas aquele sorriso pequeno e tímido que parecia reservado para ele. Pensou no som da voz dele, suave, mas cheio de algo que o fazia se sentir visto. E o beijo... O beijo era algo que ele não conseguia parar de reviver em sua mente. O calor, a suavidade, o jeito como o mundo tinha desaparecido por alguns segundos.
A chuva começou a cair com mais força, as gotas batendo com insistência no guarda-chuva, mas Nick não parou. Ele olhou para frente, para o vazio da rua, e sentiu algo diferente daquela confusão que vinha carregando. Talvez fosse esperança. Talvez fosse medo. Mas, pela primeira vez, ele percebeu que estava disposto a descobrir.
“Nick!” Ele escutou ao longe, a voz misturada ao som das gotas de chuva batendo no asfalto. “Nick!” Dessa vez mais perto, e ele virou para trás, com o coração acelerado.
Era Charlie.
Ele vinha correndo pela calçada, completamente encharcado, os cabelos grudados na testa, a camisa colada ao corpo. Era impossível não achar a cena engraçada – Charlie quase tropeçando em uma poça d'água – mas, ao mesmo tempo, havia algo de profundamente doce naquela imagem. Algo que fez o coração de Nick apertar.
“Oi,” disse Nick, a voz baixa, mas cheia de curiosidade e expectativa.
“Oi,” respondeu Charlie, ofegante, as mãos pousando nos joelhos por um momento enquanto ele recuperava o fôlego.
Nick franziu a testa, preocupado. “Eu esqueci alguma coisa?”
Charlie respirou fundo, a água escorrendo pelo seu rosto, mas não parecia incomodá-lo. Ele deu dois passos para frente, se aproximando de Nick, até que seus olhos estivessem alinhados. Havia algo diferente no olhar dele – uma mistura de determinação e nervosismo.
“Sim. Esqueceu,” disse Charlie, com a voz um pouco trêmula, mas cheia de emoção.
Antes que Nick pudesse perguntar o que era, Charlie levantou as mãos, frias e molhadas, e as colocou suavemente em seu rosto. O toque foi como um choque delicado, uma corrente elétrica que percorreu cada fibra do corpo de Nick, descendo pela barriga e o fazendo prender a respiração. Não era frio — era algo mais intenso, mais profundo, algo que ele não sabia nomear, mas sentia vibrar em cada batida do coração.
Os olhos de Charlie encontraram os dele.
Por um segundo — um segundo que pareceu um universo inteiro — eles apenas se olharam. O verde de Nick refletia a luz suave da chuva, enquanto o azul acinzentado de Charlie parecia esconder tempestades e calmarias, segredos que só poderiam ser descobertos ali, naquele momento, naquele silêncio cheio de tudo.
A chuva caía como um véu fino, pingando suavemente do céu escuro, envolvendo tudo em uma cortina de brilho úmido. Sob o minúsculo guarda-chuva que mal cobria suas cabeças, o mundo parecia diminuir até não restar nada além deles dois. O som das gotas batendo no tecido acima era quase uma melodia, ritmada e constante, mas distante, como se pertencesse a outra realidade.
E então, sem hesitar, Charlie o beijou.
Os lábios de Charlie estavam quentes, mesmo sob a chuva fria que escorria pelo rosto de Nick, misturando-se com a água que já encharcava suas roupas. O toque era suave no começo, hesitante, mas logo se tornou mais firme, mais cheio de intenção. Não havia dúvidas naquele beijo — apenas entrega.
Nick fechou os olhos, e tudo ao redor desapareceu. Cada gota de chuva parecia deslizar pela sua pele, mas ele mal sentia o frio. O calor de Charlie era tudo o que existia, irradiando como uma âncora, prendendo-o naquele momento, naquele segundo perfeito.
Era um beijo cheio de ternura, mas também de intensidade. Charlie estava colocando tudo naquele gesto — o nervosismo, a dúvida, mas, acima de tudo, o carinho profundo que ele guardava. Era um beijo que dizia mais do que qualquer palavra poderia.
O guarda-chuva pequeno inclinava-se levemente, deixando a chuva escorrer por suas bordas e respingar sobre eles, mas nenhum dos dois parecia se importar. A chuva fazia parte da cena, como se fosse cúmplice, lavando o mundo ao redor e deixando apenas eles.
Nick deixou o momento tomá-lo por completo, uma sensação de liberdade crescendo dentro dele. Seus dedos, gelados, encontraram a cintura de Charlie, puxando-o para mais perto, como se não quisesse nunca mais soltá-lo.
A chuva continuava a cair, iluminada pela luz tênue do poste próximo, transformando cada gota em uma estrela cadente que brilhava por um segundo antes de desaparecer. O vento soprava suave, balançando as árvores ao redor, mas ali, sob o minúsculo guarda-chuva, Nick e Charlie eram intocáveis.
Quando seus lábios finalmente se separaram, ambos estavam ofegantes, mas sorrindo. O olhar de Nick encontrou o de Charlie, os olhos verdes brilhando sob a luz suave, cheios de algo que ele nunca tinha sentido tão forte antes. Charlie respirou fundo, ainda segurando o rosto de Nick com as mãos. Ele abriu um sorriso pequeno, tímido, mas tão sincero que fez o coração de Nick bater ainda mais rápido.
“Até mais,” disse Charlie, e, sem dar tempo para que Nick respondesse, se virou e começou a correr de volta pela calçada.
Nick ficou parado por um momento, observando Charlie se afastar. Ele viu o jeito que a água escorria pelas roupas dele, os passos que respingavam pequenas poças para todos os lados. Ele deveria chamá-lo de volta? Deveria correr atrás dele? Uma ponta de saudade começou a apertar no peito, mesmo que Charlie ainda estivesse à vista.
Nick abriu um sorriso sem perceber, um sorriso que parecia iluminar a tarde fria. Ele segurou o guarda-chuva laranja e preto mais firme, o som da chuva se misturando com os pensamentos que borbulhavam em sua mente. Ele não sabia o que era aquilo. Ele não sabia o que queria, nem como explicar o que estava sentindo. Mas, de uma coisa, ele tinha certeza: Charlie era especial.
E, enquanto a chuva continuava a cair, Nick se deu conta de algo mais. Talvez não precisasse entender tudo agora. Talvez fosse o tipo de coisa que, como a chuva, simplesmente acontecia. Cada gota, cada passo, levando-o para onde ele precisava estar. E, no fundo, ele sabia que Charlie era parte desse caminho.
A rua parecia se estender diante dele, reflexos da luz dos postes dançando nas poças d'água, como se a noite o quisesse dizer algo. Ele olhou para o guarda-chuva pequeno demais, a água ainda escorrendo por seus ombros, e soltou uma risada curta, nervosa, mas cheia de uma felicidade estranha.
Enquanto caminhava, o som da chuva preenchendo o silêncio, Nick sussurrou para si mesmo, como se fosse uma verdade óbvia que ele acabara de descobrir: “Definitivamente, eu gosto do Charlie.”
Fale com o autor