Match Point

13 ARCO 2 DOMINE! – Capítulo 12 – Fique forte


Notas iniciais
Olá, meus queridos leitores! Bem-vindos a mais um capítulo dessa jornada emocionante. Espero que o Capítulo 12 – Fique Forte toque o coração de vocês tanto quanto tocou o meu ao escrevê-lo. Preparem-se para momentos intensos, lembranças que voltam com força e decisões que mudam tudo. Desejo uma leitura cheia de emoções! 💛 Beijos, Bia

NICK

O céu estava pintado de tons quentes de laranja e dourado, as nuvens finas tingidas pelo nascer do sol. O ar da manhã era fresco, e o som abafado dos tênis de Nick contra o asfalto quebrava o silêncio suave da cidade despertando. Ele estava em sua habitual corrida matinal, o suor começando a se acumular na nuca enquanto o ritmo da respiração se ajustava ao esforço.

Era sempre o mesmo caminho. O mesmo trajeto até o colégio, as mesmas ruas, as mesmas esquinas. Mas, naquela manhã, uma obra inesperada bloqueava seu percurso usual. Cones laranjas e fitas de isolamento se espalhavam pela rua, máquinas pesadas ainda inertes antes do início do expediente.

Nick olhou ao redor, hesitante. Ele poderia simplesmente dar meia-volta e refazer seu caminho, mas optou por seguir um desvio que evitava há anos. Suas pernas seguiram automaticamente, como se não tivessem consciência do que estavam prestes a fazer. E então, ao virar a esquina, lá estava ela.

A casa onde cresceu.

Ele diminuiu o ritmo, os passos ficando mais pesados. O peito se apertou de um jeito estranho. Mesmo sem querer, seus olhos correram por cada detalhe da estrutura que um dia chamou de lar.

A casa era uma construção antiga, de dois andares, com a pintura branca agora desbotada e descascando em algumas partes. As janelas grandes de madeira, que antes eram cheias de vida, agora estavam fechadas, imóveis, vazias. A varanda da frente, que costumava ser cercada por vasos de plantas que sua mãe cuidava com carinho, estava despida, sem cor, sem propósito. O balanço que ficava pendurado havia sumido, restando apenas as correntes enferrujadas balançando levemente com a brisa da manhã.

A grama do jardim, antes bem aparada, agora crescia sem ordem, invadindo as pedras da calçada. O portão de ferro, que antes rangia cada vez que ele entrava correndo da escola, continuava ali, mas estava levemente torto, como se tivesse sido negligenciado por tempo demais.

Era estranho. Ele se lembrava de cada detalhe daquela casa como se ainda morasse ali. O cheiro do café que sua mãe preparava de manhã, as risadas que ecoavam pela sala nos dias bons. Mas agora tudo parecia distante, quase como se não fosse real. Como se aquela casa fosse apenas um fantasma do que já foi um dia.

Nick sentiu a respiração falhar por um instante.

Seus olhos foram para a janela do segundo andar. Seu antigo quarto. Ele conseguia se lembrar do pôster de vôlei que ficava grudado na parede, das bolas espalhadas pelo chão, do pequeno IPod que ele usava para ouvir música baixinho à noite.

Ele se aproxima de uma janela de onde ficava a sala, e no reflexo do vidro. No reflexo, ele viu algo que o fez engolir em seco. Não era apenas ele, Nick, o capitão do Karasuno, refletido ali. Era Nicholas. O Nicholas que ele costumava ser. Aquele garoto cheio de ambição, mas também cheio de falhas. Um garoto que queria tanto ser perfeito que não enxergava o que estava ao seu redor. O Nicholas que ele havia enterrado, mas que sempre retornava, como ondas quebrando contra a rocha, implacáveis e inevitáveis.

Nicholas tinha apenas dez anos, e já carregava um peso que parecia grande demais para alguém tão jovem. O mundo ao seu redor era feito de estilhaços invisíveis, e ele caminhava por eles descalço, sem nunca saber quando um novo corte abriria em sua pele.

Ele estava ali, sentado no chão frio da sala, os joelhos dobrados contra o peito, um prato de biscoitos ao lado, esquecidos. A televisão estava ligada em um canal de esportes, exibindo uma partida de vôlei. O som das jogadas e da narração se misturava com o ruído abafado da tempestade que se formava no outro cômodo. Mas ele não ouvia nada além daquilo.

Os gritos do pai eram como lâminas afiadas rasgando o silêncio da casa. Cortavam o ar com violência, preenchendo cada canto, cada espaço vazio, como se quisessem sufocá-lo. A voz da mãe era um contraste doloroso. Trêmula. Entrelaçada com soluços. Pedia, implorava, mas Nicholas sabia que não adiantava. Ele conhecia aquela cena como quem conhece o próprio reflexo no espelho. O tom, as palavras, os momentos de silêncio pesado antes de um novo ataque verbal. Era como um roteiro que já tinha sido ensaiado e repetido inúmeras vezes, sem nunca mudar o final.

Nicholas odiava aquilo.

Odiava o som das vozes. Odiava a sensação de impotência, como se fosse apenas uma sombra na casa em que vivia. Odiava a raiva que queimava em seu peito, sem ter para onde escapar.

Ele puxou uma almofada e a pressionou contra os ouvidos com toda a força, como se pudesse silenciar o mundo. Como se pudesse abafar a realidade, empurrá-la para longe. Mas os gritos perfuravam tudo, como se estivessem dentro dele, como se fizessem parte do seu próprio sangue. Ele apertou os olhos, desejando desaparecer. Mas desaparecer nunca era uma opção.

No canto da sala, uma bola de vôlei repousava esquecida, um lembrete silencioso de que existia algo além daquelas paredes. De que existia um lugar onde ele poderia respirar, onde os gritos eram substituídos pelo som das jogadas, dos saques, do impacto da bola contra o chão. Mas ele ainda não estava lá. Ainda estava preso ali e não havia escapatória.

Foi então que ele olhou para a televisão. Os jogadores de vôlei na tela se moviam com uma graça que parecia de outro mundo. Os cortes, os levantamentos, os bloqueios – tudo parecia sincronizado, como uma dança. O som do narrador, que ele mal conseguia ouvir, parecia ecoar em um universo distante. Mas era o suficiente. Aquele jogo, com sua energia e precisão, parecia oferecer uma saída, uma porta para longe daquilo tudo.

Nicholas aumentou o volume no controle remoto, tentando abafar os gritos com os sons do jogo. Ele se concentrou nos jogadores, observando cada movimento com atenção quase obsessiva. Era como se ele pudesse se esconder ali, na quadra da televisão, longe da sala onde ele realmente estava.

O som de passos pesados ecoou pelo chão de madeira da casa, cada batida se aproximando rápido demais. Nicholas sentiu seu corpo enrijecer antes mesmo de ver a sombra se projetar contra a parede. Ele já sabia. Já conhecia aquele ritmo, aquela fúria contida que não demoraria para explodir.

Então, seu pai entrou na sala.

A porta foi empurrada com força, batendo contra a parede. Nicholas sentiu um arrepio na espinha, mas não se moveu. Manteve os olhos fixos na televisão, fingindo que não notava o cheiro forte de álcool que já impregnava o ar. Mas não adiantava.

"Você tem que parar de ver esses jogos de fagot!" a voz do pai cortou o ar como um trovão.

Nicholas nem teve tempo de reagir. Um segundo depois, sentiu o impacto do pé do pai contra seu corpo, um golpe seco que o arrancou do sofá. Ele caiu no chão, os joelhos raspando contra o tapete, as mãos instintivamente buscando apoio no chão frio.

Seu coração martelava contra o peito. Ele piscou algumas vezes, a visão embaçada pelo choque da queda. Quando finalmente levantou a cabeça, encontrou os olhos do homem que deveria ser seu protetor. Mas não era. Nunca fora.

O pai o encarava com um sorriso torto, os olhos vermelhos de bebida e raiva.

“Vai brigar comigo, mon amour?” ele zombou, erguendo os punhos no ar como se aquilo fosse um jogo, como se estivesse se divertindo.

Nicholas sentiu algo quebrar dentro dele. A raiva queimava sob sua pele como brasas acesas. Ele sentia isso há anos, sempre tentando engolir, sempre tentando esquecer. Mas, naquele momento, algo diferente aconteceu. Algo que não conseguia mais controlar. Ele se levantou rápido, os punhos cerrados, o rosto ainda vermelho pela queda. Ele tremia, não de medo, mas de indignação. De cansaço.

"Vou," respondeu, e sua própria voz o surpreendeu.

Seu pai arqueou uma sobrancelha, e por um breve segundo Nicholas pensou ter visto um lampejo de surpresa em seu rosto. Mas foi passageiro. O homem apenas riu, um som grave e curto, e então, com um movimento rápido, ergueu a mão e acertou Nicholas com um tapa forte no rosto.

A dor foi instantânea. A cabeça de Nicholas virou para o lado, e ele cambaleou para trás, caindo novamente no chão. Mas não chorou. Não gritou. Apenas apertou os olhos, sentindo as lágrimas quentes se acumulando, mas se recusando a deixá-las cair.

"Nãoooo!" A voz da mãe cortou o silêncio pesado, e logo depois o som de passos apressados ecoou pela casa. Ela apareceu na sala em questão de segundos, os olhos arregalados de desespero. Mas o pai não se virou para ela. Apenas ergueu uma mão, um gesto de desprezo.

"Fique aí, sua putain," ele disparou, o tom cortante.

Nicholas sentiu o peso do pé do pai pressionando seu peito, prendendo-o contra o chão. O ar começou a faltar, sua respiração se tornando curta, desesperada. Mas o que doía mais não era o corpo.

Era o olhar.

O olhar do homem acima dele, como se ele não fosse nada. Como se fosse apenas um fardo, algo descartável. Nicholas não tentou empurrá-lo, não gritou. Apenas olhou para o teto e se perguntou se um dia conseguiria fugir daquela casa.

“Você é muito fraco! Somente os últimos de pé são os vencedores. Apenas os mais fortes. Se quer ser um deles, FIQUE FORTE!” disse o pai, pressionando o pé com mais força antes de tirá-lo e se jogar no sofá como se nada tivesse acontecido.

Nicholas permaneceu no chão por alguns segundos, o peito subindo e descendo com dificuldade. Ele virou a cabeça para a televisão, onde o levantador do time ajustava a bola com perfeição para o corte de um atacante. Aquilo parecia tão longe da realidade que ele vivia. Um mundo onde tudo fazia sentido, onde as pessoas trabalhavam juntas e ninguém o empurrava no chão.

Sem pensar, ele se levantou e saiu correndo, seus passos rápidos ecoando pela casa enquanto ele ignorava os gritos da mãe chamando seu nome. A porta bateu com força atrás dele, o som reverberando como um trovão que anunciava sua fuga. Nicholas não sabia exatamente para onde estava indo – ele só sabia que precisava sair dali.

Nicholas correu com tudo, como se o movimento pudesse afastar a dor. O mundo ao redor se tornou um borrão até que ele alcançou o parque, onde o rio murmurava suavemente e a luz dourada do entardecer pintava as árvores com sombras longas. No fundo, a velha quadra de concreto, com linhas desgastadas pelo tempo, ainda estava ali. E no centro dela, um garoto. Ele jogava uma bola de vôlei para o alto, os cabelos castanhos claros brilhando sob o sol, errando mais do que acertando, mas sem desistir. Nicholas reconheceu de imediato. Uma dor afiada apertou seu peito, um eco de algo que ele tentou enterrar. E quando o garoto parou, a bola esquecida no ar, e seus olhos cor de mel se encontraram com os dele, Nicholas sentiu o tempo se partir ao meio. O passado e o presente colidiram. E, por um instante, ele não sabia mais onde estava.

O presente o puxou de volta com força, como uma rajada de vento frio cortando sua pele. Nick piscou rápido, tentando dissipar a névoa da memória que ainda pairava sobre ele. Seu peito subia e descia de maneira irregular, e só então percebeu que estava prendendo a respiração.

Ele olhou para o relógio. “Droga.” Estava atrasado para o treino.

Seu corpo reagiu antes mesmo de sua mente processar, e ele disparou pela rua, deixando a casa para trás. Cada passo parecia ecoar dentro dele, como se ainda estivesse correndo de algo que nunca conseguia alcançar. Ele sabia. Sabia que não deveria ter vindo por aqui.

O asfalto molhado refletia o céu opaco da manhã, enquanto o vento arrastava folhas secas pela calçada, sussurrando histórias que ele preferia esquecer. Mas as lembranças não se dissipavam — voltavam como ecos insistentes, misturando-se ao som apressado de seus passos.

"Os últimos de pé são os vencedores. Apenas os mais fortes. Se quer ser um deles..." Nick cerrou os punhos, sentindo o peso invisível que carregava se cravar em seus ombros. O frio da manhã mordia sua pele, mas não tanto quanto aquelas palavras que nunca o abandonavam. “Fique forte!" Ele respirou fundo, como se tentasse se ancorar no presente, e acelerou o ritmo. O ginásio já estava à vista, o agora chamando por ele. Mas o passado... O passado nunca sabia ficar para trás.


CHARLIE

Charlie estava parado no centro do ginásio, os pés firmes sobre as linhas que ele conhecia tão bem, respirando fundo enquanto o silêncio o envolvia como um abraço antigo. O brilho frio dos refletores refletia no chão polido, desenhando sombras delicadas ao seu redor, e cada pequeno som — o ranger de seus tênis, o eco de sua própria respiração — parecia amplificado, preenchendo o espaço vazio.

Ali, naquele lugar de tantas memórias, ele sentiu algo que nunca havia experimentado em nenhum outro lugar: pertencimento verdadeiro.

Aquele ginásio não era apenas uma quadra. Era um portal para todas as versões de si mesmo que ele tinha sido. O garoto cheio de dúvidas que duvidava se pertencia àquele time. O jogador que enfrentou o Muro de Ferro, provando não apenas para os outros, mas principalmente para si mesmo, que ele era capaz de ultrapassar seus próprios limites.

E foi ali, no meio de uma arquibancada lotada e em meio a gritos e adrenalina, que sua vida mudou de vez. O beijo de Nick.

A lembrança o atingiu com a mesma força e doçura de antes, como um raio de luz suave atravessando as janelas altas do ginásio. Seu coração acelerou, mas não de nervosismo — era nostalgia e gratidão entrelaçadas. Um momento em que ele percebeu que o mundo podia ser maior do que todas as expectativas que tinham para ele, que podia ser mais do que seus próprios medos.

Ele olhou ao redor, as linhas da quadra se estendendo como mapas traçados no chão, e sentiu tudo voltar de uma só vez. Cada jogo, cada treino, cada derrota que o moldou, cada vitória que o fortaleceu. O ginásio era um lugar onde ele havia se reconstruído pedaço por pedaço, onde sua insegurança havia sido desafiada e sua coragem se tornara real, mesmo que por breves instantes.

Mas agora, parado ali, as mãos enfiadas nos bolsos, ele sentia algo diferente. Não era mais apenas um lugar de desafios e vitórias. Era um lar.

Charlie respirou fundo, tentando se concentrar na rede à sua frente, mas um arrepio subiu por sua espinha ao ouvir um som familiar.

"Charlie."

O nome soou como uma lâmina cortando o silêncio, um eco de um passado que ele preferia esquecer. Charlie se virou devagar, e ali estava ele.

Ben.

O coração de Charlie acelerou, não de saudade, nem de surpresa. Mas de uma raiva contida que ele vinha segurando há tempo demais.

"O que você quer, Ben?" Charlie diz ríspido.

Ben parecia hesitante, os ombros levemente curvados, as mãos dentro dos bolsos do casaco. Não estava com o uniforme do Karasuno, nem com o jeito convencido de sempre. Estava ali como um estranho, e talvez sempre tivesse sido.

"Eu queria me desculpar com você."

Charlie levantou o olhar devagar, o brilho dos refletores refletindo em seus olhos claros. Uma risada seca e vazia escapou de seus lábios. Não havia raiva, não havia dor — apenas distância, uma distância que ele não tinha mais interesse em encurtar.

"Eu não preciso das suas desculpas, Ben."

Ben hesitou, o peso das palavras de Charlie se assentando entre eles como uma muralha invisível. Ele desviou o olhar por um instante, mas não pôde deixar de reparar na postura de Charlie — firme, quase inabalável. Seus ombros estavam eretos, o queixo levemente levantado, e havia uma força tranquila em seus olhos, algo que ele nunca tinha visto antes.

"Eu sei." A voz de Ben saiu baixa, quase um sussurro, como se tivesse sido arrancada dele. "Você está tão diferente. Mais... forte."

Ben não estava falando só de força física, e ambos sabiam disso. Era algo maior, mais profundo. A confiança que transbordava de Charlie agora era palpável, e Ben sentiu um aperto no peito ao perceber que ele não tinha mais o poder de balançá-lo, de colocá-lo em dúvida.

Charlie manteve o olhar firme, mas havia uma calma inesperada em sua expressão. Não era vingança, não era superioridade. Era simplesmente o resultado de tudo o que ele tinha enfrentado e superado.

Charlie estreitou os olhos.

"Não graças a você."

Ben respirou fundo, desviando o olhar por um momento, como se precisasse de força para continuar. Quando voltou a encarar Charlie, seus olhos estavam carregados de algo que ele talvez quisesse parecer arrependimento, mas não era o suficiente para apagar o que ficou para trás.

"Eu sei que errei muito, Charlie."

Charlie cruzou os braços, mantendo o silêncio. Seu olhar não vacilava, esperando por mais, como se a paciência fosse um teste para ver até onde Ben poderia ir.

"Eu gosto muito de você. Você sabe disso, né?" disse Ben, a voz um pouco mais baixa, tentando suavizar o peso das palavras.

Charlie sentiu uma onda de náusea subir pelo estômago. Aquela frase — "eu gosto muito de você" — costumava ser uma promessa vazia, uma prisão disfarçada de afeto. Agora, ela soava mais como uma tentativa desesperada de agarrar o que já estava fora de alcance.

"Você tem maneiras bem diferentes de demonstrar isso." A resposta saiu mais fria do que ele esperava, mas não havia como voltar atrás.

Ben mordeu o lábio, apertando os punhos dentro dos bolsos, como se segurasse alguma coisa que estava prestes a escapar de suas mãos. O silêncio entre eles cresceu, denso, até que ele falou de uma vez, sem pausa para respirar:

"Eu vou sair do Karasuno. E do Truham." As palavras saíram apressadas, como se precisasse se livrar delas o mais rápido possível. "Eu não queria ir embora sem o seu perdão."

Perdão.

A palavra se enroscou na garganta de Charlie como um nó sufocante, apertando, bloqueando o ar, pesando como uma pedra no fundo de um poço escuro. Ele piscou e então tudo voltou.

O frio do corredor escuro onde eles se escondiam, o cheiro das paredes úmidas misturado ao gosto amargo do medo. Os beijos apressados e clandestinos, abafados pelo silêncio, onde ele tentava se convencer de que aquilo era suficiente. De que aquilo era amor.

Os olhares desviados no dia seguinte, como se nada tivesse acontecido. Como se ele não existisse. O nome doce que Ben sussurrava ao telefone de madrugada, carregado de promessas vazias que derretiam seu coração. O mesmo nome que ele cuspia com veneno diante dos amigos, transformando Charlie em uma vergonha pública, um erro, um segredo sujo. E as mãos... as mãos firmes demais, os toques que não pediam permissão. O desconforto que ele aprendeu a ignorar porque, se reclamasse, Ben o soltaria. E Charlie não queria ser solto.

Porque ser solto significava ficar sozinho.

O medo de ser descoberto. O medo de ser rejeitado. O medo de nunca ser amado por ninguém além dele. Charlie sentiu algo se partir dentro de si, algo profundo e antigo, como uma rachadura que havia crescido lentamente e agora finalmente cedia. Uma raiva densa queimava seus pulmões, subindo como uma maré revolta, inundando seus sentidos.

Por que levou tanto tempo para perceber?

Por que ele deixou aquilo acontecer?

Por que, durante tanto tempo, ele acreditou que merecia aquilo?

Os olhos de Charlie estavam fixos em Ben, mas ele não o via mais. Ele via todas aquelas versões de si mesmo — o garoto inseguro, o garoto silencioso, o garoto que aceitava menos do que merecia porque tinha medo de não receber nada.

Ben estava ali, na sua frente, pedindo perdão. Mas perdão para quem? Para Charlie? Ou para ele mesmo?

O coração de Charlie pulsava rápido e forte contra o peito. Sua respiração era curta, e ele sentia o tremor nas mãos. Ele nunca quis ser cruel, nunca gostou de sentir ódio, mas naquele momento, tudo que conseguia sentir era raiva. Raiva de Ben. Raiva de si mesmo. Raiva pelo tempo que perdeu tentando ser suficiente para alguém que nunca quis enxergá-lo de verdade. Ele respirou fundo, tentando encontrar estabilidade, uma linha de pensamento clara. Mas tudo continuava girando ao seu redor, veloz e caótico.

"Você controlou a minha vida, Ben."

A voz de Charlie saiu firme, mas havia algo quebrado nela, algo que vinha direto das profundezas do peito, arrancado com dor. Ben piscou, surpreso, o impacto das palavras atingindo-o com força, mas Charlie não lhe deu espaço para reagir. Não mais.

"Eu não percebi o quanto você me manipulava, o quanto me humilhava, o quanto me usava."

Cada palavra pesava como uma lâmina afiada, cortando o ar entre eles. Charlie deu um passo à frente, seus olhos fixos nos de Ben, que abriu a boca, talvez para negar, talvez para se defender, mas nenhum som saiu.

Charlie não parou. Ele não podia parar agora.

"Eu pensava que merecia isso. Que eu merecia você."

As palavras saíram rasgadas, cheias de uma dor antiga. Dizê-las em voz alta foi como arrancar uma ferida que ele vinha ignorando há tempo demais.

"Eu me machuquei."

A voz de Charlie falhou. A garganta apertada, a respiração vacilante. Seus dedos roçaram instintivamente o pulso, tocando a cicatriz invisível que carregava todos os dias, um lembrete silencioso de tudo que ele suportou em silêncio.

"Por tanto tempo, eu achei que o problema fosse comigo." Charlie engoliu em seco, sua voz oscilando, mas ele a manteve firme. "Que se eu fosse mais forte, se eu falasse menos, se eu fosse alguém diferente... você finalmente olharia para mim sem vergonha."

Ben abaixou a cabeça, os olhos marejados. Seu corpo parecia diminuir diante das palavras de Charlie, mas Charlie não sentia pena. O que ele sentia era peso. Um peso que havia carregado sozinho por tempo demais, queimando em seu peito como um incêndio lento, impossível de apagar.

Ele deu mais um passo à frente, agora a centímetros de Ben, a raiva queimando em cada palavra.

"Você cravou uma voz na minha cabeça. E toda vez que algo bom acontece, ela sussurra que eu não mereço. Que eu não sou suficiente." As lágrimas encheram os olhos de Charlie, mas ele não piscou. Ele não desviou o olhar.

"Você me destruiu por dentro. E agora você aparece aqui, querendo o meu perdão... só para que você possa dormir tranquilo?"

Ben hesitou, os ombros tensos, engolindo em seco, como se estivesse prestes a dizer algo. Mas nada veio.

"Olha para mim." A voz de Charlie cortou o ar como uma ordem. Carregada de algo pesado, irreversível.

Ben levantou o rosto lentamente. Seus olhos brilhavam com lágrimas contidas, seus ombros pareciam se curvar sob o peso das palavras. Mas Charlie manteve o olhar firme, sem desviar, sem hesitar.

"Que bom que você percebeu o lixo de pessoa que foi comigo."

O golpe foi direto, e Ben piscou, como se as palavras o tivessem atingido no estômago. Charlie respirou fundo, o peito subindo e descendo devagar, como se recuperasse o controle, como se saboreasse o momento de finalmente deixar sair tudo aquilo que o corroía por dentro.

"E eu espero, de verdade, que você se torne alguém melhor."

Ben assentiu devagar, a garganta visivelmente travada, mas ainda assim não encontrou palavras. Charlie deu mais um passo à frente, e seu olhar se tornou ainda mais afiado, cortante como vidro quebrado.

"Mas uma desculpa não apaga o que você fez comigo." Sua voz veio carregada de força, de uma raiva contida, mas incendiária, como uma brasa viva esperando para explodir. "Mas se é isso que você quer para me deixar em paz e eu nunca mais te ver..." Charlie parou por um segundo, o silêncio absoluto do ginásio fazendo cada palavra pesar como chumbo.

"...Pegue-a." Charlie jogou as palavras em Ben com desdém.

A respiração de Ben falhou. Seus olhos estavam arregalados, a boca levemente aberta, mas ele continuava imóvel, paralisado pelas palavras.

"Assim eu posso seguir em frente," continuou Charlie, a voz baixa, mas implacável. "Mas você..."

Charlie se inclinou um pouco mais, sua presença agora avassaladora, esmagadora.

"...vai carregar isso para sempre."

O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Ben não respondeu, não se mexeu. O peso das palavras de Charlie parecia tê-lo reduzido a pó. O impacto foi imediato. O silêncio entre eles tornou-se denso, esmagador, como se o próprio ginásio tivesse prendido a respiração.

Ben desviou o olhar, os olhos vagando pela rede, pela bandeira do corvo balançando no alto, como se procurasse uma resposta — qualquer coisa que pudesse ampará-lo naquele momento. Mas não encontrou nada. Porque não havia nada. Não mais.

Por um instante, seus ombros caíram, como se o peso do mundo inteiro tivesse se assentado sobre eles. Ele apertou os lábios, respirando fundo, mas o ar parecia falhar em seus pulmões.

"Ok," murmurou, quase sem voz.

Seu aceno de cabeça foi pequeno, quase imperceptível, um gesto vazio, mais para si mesmo do que para Charlie, como se estivesse aceitando o fim que já conhecia.

Então, Ben se virou e começou a andar.

Charlie ficou parado, ouvindo os passos ecoarem pelo ginásio, cada batida no chão soando como uma lembrança do passado se desfazendo, um fantasma antigo finalmente se afastando.

Mas então, no meio do corredor, o som parou.

O silêncio veio primeiro.

Denso. Carregado. Sufocante.

E depois, um soluço abafado.

Charlie sentiu o impacto como um soco no peito. Não de pena. Não de alívio. Mas de algo mais profundo, mais complexo, algo que não tinha nome. Algo que doía e libertava ao mesmo tempo.

Ben tentou sufocar o choro, mas outro soluço escapou, trêmulo e desamparado.

Charlie não se moveu. Ele ficou ali, imóvel, fechando os olhos enquanto soltava o ar lentamente, como se estivesse deixando ir alguma coisa que carregava havia tempo demais.

Não sabia dizer se aquilo o fazia se sentir melhor. Mas havia uma certeza silenciosa crescendo dentro dele. Uma força nova, crua e real.

Ele não era mais a sombra de quem um dia tentou se esconder. Não era mais um reflexo quebrado das expectativas de outra pessoa.

Ele era Charlie Spring.

E, pela primeira vez, ele não precisava ser nada além disso.

NICK

Nick entrou no ginásio ainda ofegante, o ar frio da manhã se misturando ao calor que subia pelo seu corpo. O silêncio era quase sagrado, diferente de tudo que aquele lugar costumava ser. Não havia gritos de jogadores, nem o som das bolas quicando ou o eco apressado dos passos sobre o piso polido. Apenas o leve ranger de seus tênis e a respiração irregular preenchiam o espaço vazio.

Ele parou por um instante, os olhos vagando pela quadra, até que o viu.

Charlie.

Um feixe de luz atravessava as janelas altas, pousando suavemente sobre ele, tingindo o chão de dourado. A luz iluminava seu rosto de uma forma quase etérea, desenhando suas feições com uma delicadeza quase intocável. Como se ele fosse parte daquele lugar, como se o ginásio fosse seu santuário e ele, uma extensão silenciosa de tudo o que acontecia ali.

Por um segundo, Nick prendeu a respiração. O tempo parecia esticar-se, cada batida de seu coração marcada pelo movimento sutil de Charlie, como se ele estivesse carregando algo invisível, algo que Nick não conseguia ver, mas podia sentir.

Havia uma tensão no corpo de Charlie — uma rigidez nos ombros, uma maneira hesitante de segurar as próprias mãos, como se estivesse tentando se ancorar. Sua respiração era pesada, quase audível, e o brilho tranquilo do feixe de luz contrastava com o turbilhão que parecia se passar dentro dele.

Nick se aproximou devagar, seus passos medidos, quase silenciosos, como se temesse quebrar o instante, como se aquele momento fosse frágil demais para ser tocado de qualquer forma brusca.

Charlie não se virou, mas Nick sabia que ele o sentia ali. Era como se houvesse uma conexão invisível entre os dois, uma corrente de eletricidade estática que vibrava no ar ao redor deles, tornando cada movimento mais denso, mais real.

“Oi.”

Charlie ergueu os olhos lentamente, forçando um sorriso pequeno, quase imperceptível, mas havia algo diferente nele.

“Oi.”

Foi então que Nick reparou. Os olhos vermelhos, as pálpebras levemente inchadas. Ele estava chorando.

O peito de Nick apertou. Ele se aproximou mais, instintivamente, baixando o tom de voz, como se estivesse entrando em território sagrado.

“O que foi?”

Charlie inspirou fundo antes de responder, os ombros subindo e descendo devagar, como se estivesse tentando se livrar de algo pesado dentro dele. Algo que ele carregava há tempo demais.

“Finalmente me livrei do Ben.”

As palavras saíram como uma confissão, um corte limpo, cheio de alívio, mas também de cansaço. Era o tom de alguém que havia acabado de soltar um peso enorme das costas, mas que ainda sentia as marcas profundas de onde ele esteve.

Nick ficou em silêncio, o nome de Ben ecoando em sua mente como um alerta. Uma onda de raiva subiu dentro dele, quente e densa. Seu maxilar travou. Ele não sabia todos os detalhes, mas sabia o suficiente. Sabia que Ben havia deixado feridas em Charlie — feridas que talvez nunca cicatrizassem completamente.

Charlie inspirou de novo, os olhos fixos no chão, e então começou a contar tudo. A conversa. As palavras de Ben. A resposta que finalmente conseguiu dar.

Nick ouviu cada palavra, seus olhos não saindo do rosto de Charlie. Ele esperava ver um traço de desespero, de tristeza profunda, mas, para sua surpresa, o que viu foi força.

Mesmo com as lágrimas ainda marcando seu rosto, Charlie parecia mais alto, mais firme, como alguém que tinha atravessado uma tempestade e agora pisava em terra firme. A cicatriz ainda estava lá, mas começava a fechar.

Havia um brilho nos olhos de Charlie — não de dor, mas de algo novo. Algo que parecia liberdade.

Nick ficou em silêncio por um segundo, apenas observando. Ele queria dizer algo, queria prometer que tudo ficaria bem, mas sabia que não precisava.

Porque naquele momento, apesar das lágrimas, Charlie já parecia inteiro de novo.

Nick tocou de leve o ombro dele, um gesto simples, mas cheio de significado.

“Estou orgulhoso de você,” ele sussurrou, a voz baixa, mas cheia de certeza.

Charlie respirou fundo e, pela primeira vez em muito tempo, o peso não voltou. Ele sorriu, pequeno, mas genuíno, e isso foi tudo que Nick precisava. Sem pensar duas vezes, ele o puxou para um abraço, firme e quente, como se quisesse envolvê-lo com tudo o que não conseguia dizer em palavras.

Charlie não hesitou. Seu corpo se encaixou no de Nick de forma tão natural, tão perfeita, que parecia ser o seu lugar desde sempre. Como se aquele abraço fosse a última peça de um quebra-cabeça que ambos nem sabiam que estavam montando.

Nick fechou os olhos, apertando os braços ao redor dele. Queria protegê-lo do mundo. Queria guardá-lo em uma redoma de vidro para que nada mais pudesse machucá-lo. Para que as cicatrizes, as dores, as lembranças ruins nunca mais o tocassem.

Mas, como um espinho de uma rosa, algo perfurou seus pensamentos. A lembrança veio como um soco. O cheiro de álcool. O olhar frio de desprezo. O peso esmagador do pé do pai sobre seu peito.

“Os últimos de pé são os vencedores. Apenas os mais fortes. Se quer ser um deles, fique forte.”

Nick apertou Charlie com mais força, tentando afastar o fantasma daquela voz. Mas, dessa vez, algo mudou.

Ele percebeu, de repente, que não estava mais segurando Charlie para mantê-lo seguro. Dessa vez, ele estava sendo segurado. Charlie o envolveu com cuidado, seus braços firmes, um toque silencioso que dizia “eu estou aqui.” E pela primeira vez, Nick deixou-se ser amparado. Uma lágrima escorreu pelo seu rosto antes que ele pudesse impedir. Mas ele não tentou escondê-la. Não dessa vez. Quando o abraço se desfez, Charlie ergueu os olhos, confuso, procurando alguma resposta no rosto de Nick.

“O que aconteceu?” perguntou, a voz suave, carregada de preocupação e carinho.

Nick não conseguiu responder. Não sabia como. Não havia palavras suficientes para explicar. Mas então Charlie levantou a mão, os dedos tocando seu rosto suavemente, secando a lágrima solitária que havia escapado. O toque era quente, delicado, mas, acima de tudo, real.

Nick sentiu a garganta apertar, mas respirou fundo. E naquele momento, tudo pareceu se encaixar.

“Acho que, juntos, somos fortes o bastante.”

As palavras saíram baixas, quase um sussurro. Mas, no fim, ele sorriu. Um sorriso pequeno, cansado, mas cheio de algo novo.

Charlie não disse nada. Apenas sorriu de volta, e o brilho tranquilo em seus olhos carregava a resposta que Nick precisava. Eles não precisavam de mais palavras. Apenas a certeza de que estavam ali. Juntos. Invencíveis, de um jeito que nunca tinham sido antes.

Nick estendeu a mão e entrelaçou seus dedos aos de Charlie, apertando suavemente. A luz da manhã atravessava a janela, iluminando o ginásio vazio ao redor deles, como se estivesse testemunhando algo maior.

Eles não estavam mais fugindo. Não estavam mais se escondendo. Passo a passo, estavam vencendo seus medos — e dessa vez, estavam prontos para o que viesse.

Notas finais
Obrigada por mais uma vez mergulharem nesse capítulo comigo! 🌟 Foi um capítulo pesado e intenso, mas também necessário para mostrar o quanto nossos personagens estão se fortalecendo. Estou muito feliz por compartilhar cada passo dessa evolução com vocês. Mal posso esperar para saber o que acharam! E, para deixar um gostinho de quero mais, confiram um trecho do próximo capítulo: Capítulo 13 – Os Corvos sem Asas: "Agora sim, o Karasuno tá com moral," Harry arregalou os olhos e começou a rir. "Quem são esses caras?" Tao murmurou para Charlie, ainda um pouco incrédulo. Nick soltou uma risada baixa ao seu lado, e Charlie não conseguiu conter um sorriso ao ver a energia do time mudar completamente. Nos vemos no próximo capítulo! Beijos e até lá, Bia 💖