Match Point
3 ARCO 1 VOE! - Capítulo 3 – Primeiros Passos
Notas iniciais
As mensagens de Ben eram uma constante nas noites de Charlie. Ele esperava por elas, mas o que recebia era sempre uma incerteza. Durante o dia, Ben o ignorava, ria das piadas de Harry e não parecia o mesmo garoto que mandava mensagens carinhosas. Naquela manhã, a última mensagem de Ben ainda ecoava em sua mente: "Nos vemos depois do treino?".
Com o coração pesado, Charlie chegou ao ginásio, onde o time do Karasuno já estava reunido. As arquibancadas estavam vazias, mas a energia no ambiente era contagiante. O campeonato regional se aproximava, e todos pareciam estar mais focados do que nunca. Charlie pegou as bolas e foi para o seu lugar de sempre, ao lado da quadra, de onde assistia e observava cada detalhe dos treinos. Seu papel era pegar as bolas que saíam do jogo e lançá-las de volta, mas ele fazia muito mais do que isso: ele estudava as jogadas, os movimentos e as estratégias.
Nick liderava o treino com uma presença natural e confiante. Com uma camiseta regata, ele deixava à mostra seus braços musculosos e a forma como eles se moviam com precisão a cada levantamento. Nick era o cérebro do time, controlando o ritmo do jogo e armando as jogadas com uma facilidade impressionante. Charlie observava a forma como ele fazia os levantamentos com um toque preciso, colocando a bola exatamente onde o atacante precisava. Nick comandava com firmeza e sabia tirar o melhor de cada jogador.
"Vamos lá, pessoal! Quero ver mais foco! O campeonato regional está chegando e precisamos melhorar a nossa defesa!" Nick gritava, enquanto a bola ia de um lado para o outro da quadra.
Os jogadores se moviam com agilidade. Cristian, o líbero do time, defendia com precisão. Sua antecipação era incrível, conseguindo se posicionar antes mesmo que a bola fosse cortada. Harry e Ben, os cortadores principais, se destacavam pela força e técnica nos ataques. Harry sempre usava a força bruta, enquanto Ben tinha um corte mais sutil e calculado, enganando o bloqueio adversário.
Charlie estava fascinado. Ele assistia cada movimento com olhos ávidos, anotando mentalmente os detalhes que o ajudariam a se tornar um jogador melhor. Quando a bola escapava da quadra, ele rapidamente a pegava e a devolvia com um passe certeiro, imitando os movimentos que via Nick fazer. Estava claro que ele não queria ser apenas um assistente.
No meio do treino, Harry lançou sua provocação de costume. "Ei, Charlene, vai continuar só assistindo? Ou será que um dia vai ter coragem de entrar em quadra?" Ele ria, e, como de costume, Ben riu junto. Era como se ambos fizessem questão de lembrá-lo do lugar que ele ocupava.
O riso de Ben doeu mais do que ele gostaria de admitir. Parecia que, por mais que trocassem mensagens e conversassem em particular, aquilo nunca mudaria. Charlie desviou o olhar, tentando manter o foco em sua função e nas jogadas do time.
Enquanto isso, Nick não deixava a intensidade do treino diminuir. "Mais uma vez! Cristian, quero você defendendo essa bola como se fosse uma final!" Ele gritou, lançando uma bola alta que parecia destinada a cair rente à linha.
Cristian correu, se jogando no chão e esticando o braço para receber a bola de maneira impecável. Ele a mandou de volta com um passe perfeito para Nick, que rapidamente fez um levantamento preciso para Harry, que cortou com toda a força. A bola passou pelo bloqueio, mas Cristian estava lá novamente, como uma muralha impenetrável, defendendo o corte mais uma vez.
O nível do time era impressionante, e isso só fazia Charlie desejar ainda mais estar entre eles. Ele queria estar do outro lado da rede, suando e se esforçando para conquistar a vitória, ao invés de apenas assistir. Era como se houvesse uma barreira invisível impedindo-o de cruzar essa linha.
Quando o treino finalmente terminou, Charlie esperou até que todos saíssem do ginásio. Ele já sabia o que faria a seguir. Cristian, como sempre, se aproximou e o chamou para a quadra secundária.
"Você está com a cabeça cheia de novo?" Cristian perguntou com um sorriso de canto de boca. "Vamos ver se treinar um pouco ajuda a clarear as ideias."
Charlie sorriu de volta, aliviado por ter alguém que parecia compreendê-lo. Os treinos com Cristian eram o ponto alto do seu dia, onde ele podia extravasar suas frustrações e sentir que realmente estava jogando. Cristian jogou a primeira bola no ar, e Charlie correu para se posicionar, saltando e cortando com força. A bola bateu com um som seco no chão do outro lado da quadra.
“Você está melhorando, sabia?” Cristian exclamou, pegando a bola e jogando novamente para o alto. “Esses cortes estão ficando cada vez mais rápidos.”
Charlie se concentrou, canalizando toda a raiva e frustração que sentia para dentro dos golpes. A cada corte, ele tentava não pensar em Ben, em Harry ou em qualquer coisa que o fizesse duvidar de si mesmo. Só queria se perder naquele momento.
Do outro lado do ginásio, pela fresta da porta, a treinadora Singh observava. Ela havia notado Charlie antes, mas nunca o vira tão intenso e focado como naquele momento. Assistiu por alguns minutos, sem interromper, deixando-o mostrar o que era capaz de fazer quando ninguém o estava julgando.
Depois de algumas rodadas, Cristian parou para respirar. “Você precisa entrar no time, Charlie. Estou falando sério. Esses cortes... você tem potencial para ser um dos melhores. Vou falar com a técnica Singh sobre você. Não é certo ficar só pegando bolas.”
Charlie sentiu um misto de surpresa e felicidade. "Você acha mesmo?" ele perguntou, a insegurança evidente em sua voz.
“Eu não acho, eu sei,” Cristian respondeu com firmeza, olhando diretamente nos olhos de Charlie. “Você tem o que é preciso. E não deixe ninguém te fazer pensar o contrário. Sei que o que o Harry e o Ben falam pode ser difícil, mas você não é definido por essas provocações.”
Essas palavras atingiram Charlie como um golpe suave no coração. Durante o treino, ele havia sentido uma sensação de pertencimento que há muito não experimentava. Queria acreditar em Cristian, mas a dúvida ainda o corroía. E, então, veio à mente a lembrança das mensagens de Ben.
Mais tarde, enquanto caminhava para fora do ginásio, Charlie viu que havia uma nova mensagem de Ben.
"Desculpa pelo que aconteceu mais cedo. Sabe que o Harry só estava brincando. Vem me ver?"
Ele hesitou. Por mais que quisesse se afastar, havia algo em Ben que o prendia, como se ele fosse a única pessoa que poderia fazer Charlie se sentir desejado. Quando chegaram à praça onde haviam combinado de se encontrar, Ben sorriu ao vê-lo se aproximar, o mesmo sorriso que fazia com que Charlie se esquecesse de tudo o que aconteceu antes.
"O-oi," Ben disse, sua voz doce, como se não houvesse nada de errado.
Antes que ele pudesse responder, Ben o beijou, um beijo intenso, cheio de urgência. Charlie hesitou por um instante, mas a sensação de ser querido, mesmo que por breves momentos, o fez ceder. Ele correspondeu ao beijo, tentando afastar o pensamento de que talvez estivesse se machucando ao se entregar.
Quando se separaram, Ben segurou o rosto de Charlie e sussurrou, “Está tudo bem?”
Charlie assentiu, mas não conseguia esconder a confusão em seus olhos. Ele queria acreditar que Ben sentia algo por ele, mas os sinais eram tão contraditórios. Ben parecia ser duas pessoas diferentes: uma que mostrava carinho e outra que ria de suas inseguranças e o humilhava junto com os outros.
Enquanto caminhava para casa, a sensação de vazio tomou conta de Charlie. Ele se lembrava das palavras de Cristian, do incentivo para entrar no time e se valorizar. Queria muito acreditar que merecia mais, mas sempre voltava à mesma questão: quem mais o amaria se não Ben? Mesmo que aquela relação fosse cheia de dor e incertezas, ele preferia se agarrar a isso a enfrentar a solidão.
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