Matadouro
3 Tatuagem de minotauro
Chego por volta das vinte e duas horas no bar Canalhas. Por ser sábado, o mesmo está razoavelmente cheio. E o público é exatamente como eu havia comentado. Motoqueiros grandões e fortões, barbudos e cheios de tatuagens por todas as partes do corpo, precisamente esse é o esteriótipo do lugar. Eu não me destoou dos demais, pelo contrário, sou como eles. Tenho barba lenhador, cabelo preto raspado nas laterais, possuo tatuagens até além que consiga contar e visto uma jaqueta preta de couro especial para ocasião. Passaria até despercebido de olhares se não fosse a minha cara nova que entrara no bar. Pareço um peixe fora d'água, todos se conhecem, todos são amigos uns dos outros, todos vão ao bar frequentemente, menos eu. Eu sou a carne nova no pedaço.
Percorro por entre as mesas a caminho do balcão para pedir uma bebida, quando ouço um grupo com quatro homens conversando entre si e, uma palavra específica me chamou a atenção.
— ...temos que seguir um compromisso, uma vez que juntamos aos Matadouros...
Tento passar por entre o grupo o mais demorado possível, mas acaba que consigo ouvir apenas esse pedaço da conversa. Porém, foi o bastante para me chamar a atenção. Sei aonde consigo mais informações sobre o tão misterioso Matadouro. São com esses quatro caras que conversavam com o Bob naquele dia do bar, e coincidentemente eles estão aqui.
Pego uma cerveja preta no balcão e uma porção de batatas. Faço com que todo o processo seja o mais rápido possível para eu tentar sentar perto daquele grupo de motoqueiros e tentar ouvir o máximo de informações possíveis. E consigo sentar na mesa ao lado deles, tento prestar muita atenção.
— ...mas você acha que ele não foi capaz de completar a missão? — diz um dos caras. Este é diferente dos demais na sua fisionomia. Tem um corpo magro sem músculos e não possui barba e tatuagens como os demais. Posso dizer que dali do bar ele é o que menos se encaixa com o cenário. Entretanto, mantém as sobrancelhas arqueadas formando um olhar feroz e desafiador. Ele tinha cara de louco.
— É a única explicação para seu sumiço. — diz outro cara em resposta, o mesmo que falara quando passei por eles. E lembro da voz dele, era o mesmo que cobrara Bob sobre sua tarefa naquele dia. Este outro é o mais macabro do grupo, tem cabelo e barba negros feito carvão, uma tatuagem tribal que sobe do pescoço e acaba em sua têmpora. Todavia o que mais me espantara é seus olhos completamente negros e sem vida, parecia duas bolas pretas. — Bob Jordan, tinha apenas uma tarefa dada pelo Sr. Killer, apenas uma, fazer um acordo com a A Máfia para conseguirmos manter uma negociação constante com a gente, era missão dele isso. Sr. Killer deixou claro que se ele não conseguisse, era melhor nem voltar, estaria morto...
— Mas por quê foi dada essa tarefa a Bob? Podia ser qualquer um de nós. Poderia ter sido você, Olho Negro. — diz um terceiro do grupo entrando na conversa. Este tem uma leve semelhança comigo, só que seus pelos são loiros e desarrumados.
— Uma boa pergunta, Craig. Talvez o Sr. Killer confia muito e coloca expectativas demais em Bob. Achava até que ele não iria decepcioná-lo. Não sei direito. Porque não perguntamos para a florzinha dele? — ironiza o homem de olhos negros virando o olhar para o homem sem barba e que aparenta ser louco. Dá uma gargalhada, acompanhada de seus amigos, menos pelo cara sem barba que parece cansado dessas brincadeiras e diz:
— Nunca vejo graça nisso. E para suas informações, eu não sei mais do que vocês. Ele não me conta coisas só por que sou seu filho, ele me trata como trata vocês. — diz o louco sem achar a menor graça.
— Calminha, Hunter, era só uma brincadeira. Agora vai lá pegar mais cerveja para nós, vai querido. — continua Olho Negro fazendo cara de bondoso em ar irônico, continuando a debochar dele.
Hunter levanta com raiva e vai até o balcão.
— Esse cara é um maluco. Tenho certeza que se ele não fosse filho do Sr. Killer não estaria no nosso grupo. Acho que ele bota fé demais nesse garoto. — diz Craig, analisando Hunter de costas no balcão.
— Exatamente. Não vejo a hora desse garoto sumir. Ele é um elo fraco para nós. Estamos cada vez mais crescendo e conquistando, ele precisa nos acompanhar. E agora se conseguirmos esse acordo com A Máfia, vamos prosperar muito mais, vocês vão ver... — diz Olho Negro.
Ouço os outros dois concordarem. E noto que o quarto membro da mesa não abriu a boca nenhuma vez. Por um momento até tinha esquecido de sua presença, se não fosse por sibilos e sons que ele emitia. Se não for apostar demais, aposto que ele é mudo.
Vejo que minha cerveja acabara sem ao menos eu perceber. Aproveito esse momento de pausa na conversa entre o grupo e corro ao balcão para pegar outra bebida. Noto que Hunter mantém a cabeça baixa, balançando em negativo. Parece que sua boca não para de se mexer murmurando palavras inaudíveis. Era um comportamento muito estranho.
Estou voltando a mesa novamente quando escuto ele sussurrar entredentes: "Porque eu deixo eles fazerem isso comigo... Ér, você não pode deixar Hunter... Não pode... Não p..."
Olho para trás novamente, para o garoto com a cabeça abaixada, que agora começou a bater a mesma no balcão. De repente, este acorda de seu transe, ergue a cabeça, pega as quatro garrafas de cerveja e se dirige novamente para a mesa, como se nada tivesse acontecido e sem ninguém ver essa cena. Eu fico parado com a cerveja na mão, vendo essa ação toda se desenrolar. Craig estava certo, Hunter é maluco de verdade.
De volta a mesa, tomo um gole generoso de minha cerveja.
— ...ouvi dizer que quatro pessoas já foram pré-selecionadas para a prova. Desta vez o Sr. Killer quer apenas os melhores para o grupo. Não quer um fracote igual o Bob Jordan. Que foge quando não consegue cumprir seus afazeres. — diz Hunter. Nem parecia que a uns minutos atrás estava totalmente desequilibrado e paranoico.
— Ele sempre sabe o que faz. Espero que os novos integrantes do Matadouro, fazem jus ao nome que carregarem. Como havia dito, estamos entrando em uma fase importante agora, precisaremos dos melhores. — diz Olho Negro dando uma batida no ombro em sinal de respeito. Ao tirar a mão, vejo que há uma tatuagem de um minotauro. Olho para os ombros dos demais, todos tem a mesma tatuagem.
Então é isso. Matadouro é um grupo, cujo esses quatro homens esquisitos fazem parte. Porém, um grupo de quê? E Bob fazia parte do mesmo, que inclusive nenhum dos integrantes parece saber o que houve com ele. Acham que ele fugiu por não ter completo a missão de fazer um acordo para com A Máfia. Porém, talvez ele até conseguiria se eu não tivesse matado-o. Bob parecia levar as coisas dele muito a sério e morrer não parecia ser parte do plano dele, ele conseguiria esse acordo.
Levo até um susto quando o celular dos quatro na mesa tocam ao mesmo tempo. Vejo todos atenderem sem dizer nada, apenas colocando o celular no ouvido. Sem dizerem nada também, os quatro desligam a chamada e se entreolham.
— O chefinho precisa da gente. — diz Olho Negro.
Permaneço no bar depois que os quatros partem com suas motos estrada a fora. Sento junto ao balcão e peço uma dose forte de uísque. Preciso de uma dose queimando para ajudar a descer tudo isso que eu acabara de ouvir
Minhas suspeitas não estavam positivas. Um grupo de caçadores, seria isso mesmo? Pois era o que Bob era, um caçador querendo tornar seu filho um igual. Porém, essa suposição me preocupava. Nunca lidei com um grupo antes. Sempre lidei com casos independentes. Pessoas que caçavam por prazer ou algum motivo específico, não por fazerem parte de uma quadrilha. Se tudo isso que estou pensando é verdade, então minha caçada vai ser mais complicada que eu imaginara. Vai ser um baita desafio.
Porém não é o bastante, preciso saber mais sobre o Matadouro. Como eles se organizam, como tudo funciona, quantos deles tem no grupo. Tenho tantas perguntas em minha mente. Precisava ir mais fundo se quisesse aceitar essa caçada.
— Duas doses, por favor!
Olho para o lado a tempo de ver uma linda mulher, loira com rabo de cavalo, usando um boné, camiseta regata colada ao corpo e calça jeans rasgada no joelho, pediu duas doses ao bartender, com um gesto. Fico impressionado o tamanho da beleza, sua pele é branca em contraste com suas tatuagens pretas que cobrem todo seus braços. Mantém uma expressão indecifrável enquanto pede as doses.
— Por que você está olhando com essa cara? Seu copo está vazio a tempos! — continua ela, me examinando e indicando meu copo com a cabeça. Realmente, com os pensamentos em outro lugar, esquecera que já tinha tomado minha dose fazia tempo.
— Ér... Obrigado, eu acho... Meu nome é Kurt. — digo, ainda surpreso e meio que desnorteado com o olhar dela sobre mim.
— O meu é Alaska. Sim... Como o país. Todo mundo me faz essa pergunta. Já dou a resposta antes, para a pessoa não ter que perder tempo em perguntar. — diz ela, rindo de seu próprio comentário.
— E qual a sua ligação com o Alaska, Alaska? — digo, retribuindo com um sorriso e um arquejo de sobrancelha.
— Bem, nasci e morei lá quando era bem pequena. Depois de alguns anos de vida, meu pai se mudou para cá. Vivo nessa cidade deste então. Entretanto, tenho muitas saudades de lá. Parece um sonho de criança em que tudo era maravilhoso por lá. Porque a vida parecia tão mais fácil... — diz ela examinando a dose que acabara de chegar. Quando ela percebe que está tocando em assunto pessoal demais, ela se interrompe. — Me desculpe, você não quer saber disso. Claro!
— Não. Você é uma pessoa interessante, Alaska. Para começar esse seu apelido, super interessante. — digo, fitando-a no fundo dos olhos. Ela parece se incomodar e desvia o olhar.
— Não tão interessante quanto esse ursinho carinhoso tatuado em seu braço, Kurt. — zomba ela, apontando para uma tatuagem no braço que fiz a muito tempo atrás. Havia perdido uma aposto com Joel uma vez. Eu teria de parar de roer as unhas durante uma semana, sendo que não consigo ficar nem um dia sequer. E como consequência por minha derrota, tive que tatuar aquilo que ele escolheria. Acabei com um ursinho carinhoso rosa no braço. Conto essa história para ela e acrescento: Nunca aposte nada assim com alguém que você sabe que não vai conseguir cumprir...
Ela gargalha. Eu a acompanho.
— Você é uma pessoa super interessante também, Kurt. — completa ela, após as risadas. — E posso jurar que nunca te vi por aqui, você não tem cara de frequentar lugares assim.
— É minha primeira vez por aqui mesmo. Ainda estou tentando me acertar em Woodstown, faz pouco tempo que moro por aqui. Tenho muitos problemas a lidar ainda. — minto. Sei que ela parece ser uma pessoa bacana, mas não posso me abrir para qualquer pessoa, minha vida é complicada demais para isso.
— Sei como é mudanças e tentar por a vida nos trilhos de novo. Minha mãe morreu em um acidente de carro no Alaska, meu pai entrou em um limbo só dele, estava em uma depressão arrasadora. Recebi uma proposta para trabalhar aqui no hospital como enfermeira padrão. Precisamos recomeçar, não tinha mais jeito. Eu preciso cuidar melhor do meu pai, que nem sair da cama ele sai mais. Então sei como é lidar com vários problemas. — diz ela, quase como um desabafo sobre tudo aquilo. — Ai me desculpa, voltei eu a te contar coisas da minha vida.
— Não precisa se preocupar. Eu te entendo super, sei como é ter alguém que depende da gente. — me vem Joel na hora, e o olhar dele sobre mim. — Meu amigo, que cuidou de mim desde sempre, está prestes a perder tudo que tem e eu nem sei o que fazer para ajudá-lo. Nem sei por onde começar.
— Essa vida é foda, não é mesmo? — questiona Alaska virando seu shot de uma vez.
— Bota foda nisso... — digo também virando meu shot de uma vez.
Ela parece ser diferente das demais mulheres da cidade, algo nela transmitia força e bravura. Como se não tivesse nada em sua vida que a amedrontasse. Porém é estranho ela vir conversar comigo, sendo que o bar estava lotado de homens, e ela a única mulher. O que será que ela viu de diferente em mim? Só sei que algo nela me intriga e me instiga a cada vez mais querer conhecê-la.
A gente conversou durante várias horas, virando vários shots de tequila um atrás do outro. Quando percebo já se passa da uma hora da madrugada. O bar já caiu pela a metade no número de pessoas presentes. Porém, conversando com ela, nem percebi isso e como as horas tinham passado voando.
— Olha hora! Preciso ir, Kurt. Tem alguém me esperando em casa. — diz ela examinando o relógio. Me bate um inquietação. Será que ela namora, ou pior, casada e o marido está esperando por ela em casa? Talvez ele nem saiba que ela esteja aqui, saiu escondida dizendo que ia dar uma volta com as amigas. Desculpa, tenho muita imaginação.
— Seu namorado?
— Claro que não, lerdo! Meu pai, esqueceu? Moro com ele. — diz Alaska sem paciência, mas ao mesmo tempo, achando engraçado.
Menos mal penso. Porque ela tinha mexido comigo de alguma forma. Talvez é isso que Joel sempre fala sobre o amor. Talvez é essa química que o momento e a conversa nos proporcionou no nosso primeiro contato, e que me deixou com medo de perdê-la para outro alguém. Nunca sentira isso por mais ninguém.
— Ah, sim. Então vamos, vou indo nessa também.
Pago a conta no caixa. Uma velhinha carrancuda, com metade da arcada dentária faltando, olha para mim severamente enquanto me devolve o troco e diz: "Volte sempre, rapaz".
— Foi bom te conhecer, cara do ursinho carinho.
— Foi bom te conhecer, Alaska que não é país.
Já no estacionamento, ambos sorrimos e apertamos as mãos. E algo que vejo me espanta, eu não tinha reparado antes por ela sentar de lado e mostrar apenas seu ombro esquerdo. Porém, em seu ombro direito há o minotauro que os demais caras do grupo Matadouro também tinham. É exatamente igual aos deles.
— Matadouro! — penso alto, mas não tão perceptível para ela conseguir entender.
— O que foi que disse? — questiona ela sem entender o que eu havia falado.
— Ér... Apenas falei que adorei sua tatuagem de minotauro. É meu ser mitológico favorito. — digo, tentando disfarçar o que eu acabara de dizer.
— É o meu também!
O choque do susto ainda passa por uma onda entre meus ossos do corpo. Então Alaska, a mulher que eu acabara de conhecer e de ter involuntariamente sentimentos, estes antes que nunca tivera, também faz parte do grupo Matadouro?
— Então podemos marcar outro dia para a gente se ver, o que acha? — pergunta Alaska, anotando seu número de celular em um pedaço de papel. — E a propósito, meu nome verdadeiro é Sarah.
— Com certeza, Sarah!— digo, pegando o papel de sua mão.
Essa história está ficando cada vez mais intrigante!
Quase chegando em casa, ainda na estrada vejo luzes azul e vermelha piscando. Vou dirigindo com calma, até ver que é uma viatura de polícia estacionada na frente da minha cabana.
Paro o carro. Vejo, por meio dos faróis apontados para a porta da cabana, que há dois policiais parados na frente. Desligo o motor, desço do carro e ando na direção deles. Enquanto percorro o espaço que nos separa, penso no porque deles estarem ali no meio da noite querendo falar comigo. Será que o real motivo é por causa de Bob Jordan? Será que desta vez cometi alguma burrada e deixei escapar algum indício que foi eu desta vez? Não pode ser, eu fiz tudo certo. Não poder ser, não pode!
— Boa noite, senhor. — diz um dos policiais apontando uma lanterna para minha cara. — Desculpe incomodar a essa hora, mas temos algumas perguntas a fazer para o senhor. Íamos deixar eu notificado embaixo da sua porta, mas como vimos você chegando, podemos conversar pessoalmente.
— Do que se trata exatamente? — pergunto apreensivo.
— Bob Jordan, senhor. — diz o outro policial, analisando alguma coisa em sua prancheta. Ouvir esse nome, era a última coisa que eu gostaria de ouvir. Meu destino está feito. Desta vez fui pego. Nunca cheguei nesse ponto, porém, parece que desta vez minha caçada deu errado. Está na hora de entregar as cartas e se render. Imagino a cara de Joel quando minha cara estampar nos jornais. A decepção dele, seu desprezo, isso me mataria. E se eu corresse? Talvez eu conseguiria fugir antes mesmo deles perceberem que minha parede da sala há milhares de cabeças, inclusive a de Bob Jordan, e que eu sou o real motivo das pessoas terem morrido e sumido. Não foram acidentes, foram eu. Eu. Mas é idiotice, eu não conseguiria correr e estaria me pondo como culpado, ficaria preso até Deus sabe quando. Estou encurralado. Estou desesperado.
— Se puder e não for te atrapalhar, gostaria que o senhor viesse conosco, senhor Kurt.
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