Matadouro
4 Encontro que acaba em morte
No caminho, direto a delegacia de Woodstown, o silêncio reina e, pode-se dizer também, o meu nervosismo. Recapitulo todas as cenas que eu tive com o Bob Jordan e se caso deixei brecha para que a polícia suspeitasse de mim. Porém, ao meu ver, tudo ocorrera perfeitamente. Nosso primeiro contato foi na loja de ferramentas, breve e ligeiro. Durante a semana, pós nosso encontro, sei que me escondi e mantive uma distância segura para poder espioná-lo da casa ao trabalho. Já no dia em que ele caçou ao lado do seu filho na floresta, eu me mantive em total espreita e atenção ninguém me viu segui-los. Mais tarde no encontro na doca, parei meu carro escondido e fiz a operação de sequestrá-lo totalmente com sucesso, sem alarmar ninguém, pois não tinha uma alma por lá além de mim e de Bob. Então, onde eles conseguiram me pegar?
Na delegacia eles me deixaram esperando na sala de esperas, sentado em uma cadeira almofada, a qual já começara a umedecer as nádegas devido a minha transpiração de ansiedade. Minhas pernas balançavam freneticamente, o calcanhar subindo e descendo do chão. Já estava no meu terceiro copo de água quando um policial me chamou para entrar na sala do xerife.
A sala é cubícula e mal iluminada, com apenas uma lâmpada amarela acessa no teto sobre a mesa. O ambiente é intimidador. Sentado atrás da mesa central, está o xerife Gordon com seu uniforme e distintivo, meio calvo e inexpressivo, lia umas fichas na mesa.
— Pode se sentar, senhor Kurt. — diz Gordon, subindo seus olhos da ficha para mim. — Desculpe incomodá-lo a essa hora da noite, mas temos algumas perguntas para fazer ao senhor. E o quanto antes melhor.
Sento na cadeira defronte ao xerife. Enxugo as mão molhadas na calça e digo:
— Sem problemas. Só estou um pouco cansado...
— Não se preocupe. Vai ser bem rápidas as perguntas. Prometo liberá-lo o quanto antes. — diz Gordon, retirando uma foto da gaveta e estendendo para mim pegar. — Você conhece esse rapaz?
Pego a foto, me esforço para não mostrar minhas mãos tremulas. Na imagem há um homem de mais ou menos quarenta anos, sentado em uma poltrona, com uma cerveja ao lado e um sorriso no rosto. Bob Jordan. Parece que a foto foi tirada em sua casa. Em alguma comemoração especial.
— Se eu não me engano, vi esse homem na loja de ferramentas a duas semanas atrás. Conversamos bem pouco. O que houve com ele? — digo, devolvendo a foto ao xerife e me postando de desentendido para com a situação.
— Ele foi tido como desaparecido a uma semana atrás. Sua mulher e filho estão desesperados por qualquer notícia dele. Durante essa semana, estamos recolhendo o máximo de informações que conseguirmos, para ver se algo leve para a resolução de seu desaparecimento. — diz Gordon, firmemente olhando para mim.
— Desculpe o descaso da minha parte, mas o que isso tem a ver comigo?
— Estamos recapitulando os passos de Bob Jordan antes de seu desaparecimento e, como o senhor já disse, vimos que você o encontrou na loja de ferramentas. Temos uma gravação que mostra você conversando com Bob e ajudando-o com o desinfetante. Correto? — pergunta Gordon, olhando as anotações em seus papéis.
— Isso, vi que ele estava em dúvida de qual desinfetante escolher. Tenho experiência e sabia o melhor, apenas mostrei para ele...
— Entendo. Porém, nesse encontro dos senhores, vemos pela câmera que o senhor mantinha-se de olho no Bob. Até no estacionamento vemos o senhor parado olhando fixamente para ele. — diz Gordon analisando cada centímetro da minha expressão a receber a notícia.
Preciso pensar em uma boa resposta. Tenho que me fazer de vítima. Ser o inocente da situação e Bob ser o culpado, de alguma forma. Mas preciso pensar. Tenho que tirar o meu da reta. Por fim, tenho uma ideia e digo:
— Porque achei estranho, em seu cesto de compras, haviam cordas, dardos tranquilizantes, sacos plástico, fitas crepes, entre outras coisas que não me recordo. Me preocupei na hora, pois achei que Bob poderia ser um caçador. Fiquei de lado e observei para ver quais itens ele ainda pegaria. No final, pegou um canivete e foi ao caixa. No estacionamento, vi que em seu porta-malas havia uma espingarda, quando ele o abriu para guardar as sacolas. Entretanto, não poderia denunciá-lo com base apenas em itens como estes, não poderia julgá-lo apenas com isso de prova. Então nem notifiquei a polícia, pois achei que não era nada demais, que era bobagem da minha cabeça, pois ouvi ele dizendo que estava de mudança. Mas pelo visto não era, este sumiço todo só pode indicar apenas uma coisa: ele deve ter saído para caçar. — digo, mais normalmente e confiante possível.
— E como você tem essa total convicção? — pergunta Gordon curioso.
— Não é meio que óbvio? Ele saiu para caçar, não contou a família porque a mesma não sabe de suas atividades e até reprovariam-o. Todavia, a julgar por esse longo período de desaparecimento. Alguma coisa aconteceu com ele. Ataque de animal? Pode até ser... — digo, mantendo uma expressão pensativa. E a julgar pela cara de Gordon, ele está caindo nessa ladainha toda.
— Bem, acho que é tudo, senhor Kurt. Já tomei muito do seu tempo. Obrigado por esclarecer e nos ajudar no processo. Desculpa atrapalhar o senhor, dares continuação a investigação. — diz Gordon, estendendo a mão e expressando um sorriso de gratidão. Eu retribuo os gestos.
Saio da sala e fecho a porta atrás de mim. Deu certo. Tenho certeza que deu certo. Dei um fim a este caso. Eles não vão procurar caçadores desaparecidos. Eles têm repulsa por eles. Esse caso vai ser arquivado rapidamente, tenho certeza.
Ando por entre o corredor a saída, com um sorriso gratificante no rosto.
Em casa, retiro toda a minha roupa e entro no banho. A água morna relaxa os nervos e tranquiliza minha pele. Deixo a água cair sobre o meu rosto por minutos. Gosto de quando tudo está ao meu controle.
Na cama, deito e me cubro. Olho no meu celular e vejo uma mensagem de voz. Era de Alaska: "Você chegou bem, ursinho carinhoso? Espero poder vê-lo em breve, ou melhor, o que acha de sairmos amanhã? Aguardo respostas."
Gravo uma resposta em mensagem de voz também: "Adoraria, vê-la amanhã, Alaska que não é país. O que acha de um cinema às vinte horas da noite?"
Adormeço logo em seguida. Durante a noite, tenho vários pesadelos e visões perturbadoras. Todas conectadas a Bob Jordan e todas acabando com eu indo para a cadeia para sempre. No outro dia acordo às dez horas da manhã, totalmente cansado e transtornado. Não consigo ficar mais um minuto enfurnado nessa casa. Saio na minha caminhonete, ouvindo Creed, em rumo a loja de Joel. Queria poder conversar com ele, para tentar me acalmar um pouco. Poder me apoiar em seus conselhos e meditações.
Porém, quando chego na frente de sua loja. Joel discute com um homem todo engravatado e gesticula gestos agressivos na calçada. Estaciono o carro e corro ao seu encontro imediatamente.
— ...não foi me dado o prazo suficiente. Preciso de mais tempos, oras! — diz Joel para o homem engravatado.
— O que está acontecendo, Joel? — digo, chegando na conversa.
— Ele quer me despejar hoje mesmo. Isso é um cumulo. Não tive tempo algum. Eles não podem fazer isso, Kurt! — diz Joel olhando para mim, em seus olhos cheios de lágrimas. Me doeu ver ele assim. Nunca tinha visto Joel chorar ou muito menos ser tirado do sério.
— Calma. Acho melhor você entrar, sentar e tomar um pouco de água. Eu resolvo, pode deixar. Por favor, se acalme, o.k.? — digo, colocando as mãos em seus ombros. Joel, concorda e sai devastado para dentro da loja. Sinto muita pena dele, queria poder ajudar de verdade. — Você poderia me explicar exatamente o que está acontecendo? — digo ao homem que esperava pacientemente.
— Sou Rick, dono da construtora. Acho que você já sabe disso. Enfim, eu tenho ordem de demolir esse edifício o mais rápido possível para dar andamento a construção. Não podemos adiar a negociação por mais tempo, se ele não tem o dinheiro para comprar o lote, teremos que tirar Joel daí. Me desculpe, não tenho mais o que fazer. Esse é um ótimo ponto comercial do centro, e Joel já está sendo notificado a um bom tempo. Isso iria acontecer mais cedo ou mais tarde. — diz Rick.
— Mas não tem como vocês darem o prazo de pelo menos uma semana? Para que Joel tenha como arranjar algum lugar e retirar todos os seus pertences? Por favor, Rick. — digo.
— Posso dar esse prazo, sim. Porém, só de uma semana. Me desculpe, Kurt, sei que está sendo difícil para ele, sei que rola um apego sentimental, mas a equipe de construção está me pressionando para poder terminar o quanto antes. — diz Rick, explicando a situação.
— Eu entendo. E agradeço pela compreensão.
Entro na loja, depois da minha conversa com Rick terminar e encontro Joel sentado no sofá da sala no primeiro pavimento, chorando de soluçar. Quando vê que chego no recinto, para na hora, levanta a sua cabeça a me encarar e diz:
— Não acredito que está realmente acontecendo, Kurt. Juro que estou tentando segurar a barra, mas só de pensar que irei perder tudo. Não sei se consigo. Cada centímetro desse lugar me faz lembrar Liza...
Sento ao seu lado no sofá e o abraço. Sua cabeça repousa em meu ombro. Sinto as lágrimas percorrem a minha camisa. E fico ali, confortando aquele que cuidou de mim tantas vezes. Eu queira poder fazer de tudo para ajudá-lo. Queria mesmo.
Passo o almoço e a tarde com Joel, até me esqueço de meus pesadelos da noite passada. Vim com intuito da tranquilidade de Joel, mas o mesmo se mantinha devastado e quem precisava de um apoio e conforto era ele. O que eu podia mesmo fazer era dar toda atenção e companhia que puder.
Recebo a confirmação do encontro com Alaska. Seria no cinema às vinte horas como combinado. Vou para casa e me preparo para este encontro. Visto uma camisa xadrez escura, com uma calça jeans velha que estava jogada na cadeira e coloco uma bota preta. Uma vestimenta bem casual que costumo usar.
Passo pegar Alaska na casa dela e vamos direto ao cinema. Ela parece estar super empolgada, usando uma calça jeans branca e uma camiseta do AC/DC; seu cabelo loiro solto e esvoaçado; usava apenas um lápis preto de olho como maquiagem. Ao meu ver, estava linda demais.
— Qual filme nós vamos ver? — pergunta ela analisando as opções nos cartazes, já na frente do cinema. — Esse aqui: "Missão Paixão" parece ser bem legal. Uma assassina que se apaixona pela vítima. Parece fugir de padrões, o que acha?
— Perfeito para mim! — digo, dando um sorriso.
Durante o filme, o silêncio impera entre nós, apenas assistimos, sem nada a dizer. O filme se entende por duas horas de pura ação e suspense, com muito sangue e matança, mas que no fim há uma pitada de romance. Comparo isso com a minha vida. Será que depois de tudo que vou passar em minha vida, acabarei com Alaska em um felizes para sempre? Foi só no carro que voltamos a nos falar.
— Eu gostei do filme até, achei o final surpreendente. Odeio filmes clichês. — diz ela, sentando no banco do carro.
— Acho que para um filme de ação e romance, se saiu bem também. — digo, dando partida no carro. — Onde vamos agora? — Olho no relógio, era apenas nove e quarenta da noite.
— Não sei você, mas eu estava muito afim de beber. — diz ela, dando um soquinho em meu ombro.
Entendo exatamente o que ela quer dizer com isso. Ela quer ir no bar Canalhas, onde nos conhecemos. Eu dou uma piscada a ela e rio também. Eu havia gostado de ter ido lá ontem e eu preciso saber o máximo possível sobre o Matadouro, e o porque da tatuagem de minotauro. E ontem tive sorte naquele lugar, quem sabe não aconteça de novo. Tenho que aproveitar o máximo de tempo e de informação que conseguir com Alaska.
Na estrada fico impaciente olhando para a tatuagem em seu ombro. Preciso perguntar agora. Não aguento mais esperar e aqui, longe de ouvintes, só eu e ela, parece o momento oportuno.
— Alaska, pode ser que seja uma pergunta inconveniente e tal, mas porque você e aqueles outros quatros homens que estavam no bar ontem, possuem uma tatuagem de minotauro no ombro? — questiono olhando para ela, que parece receber a pergunta indiferentemente.
— Essa é a marca do nosso grupo, Matadouro. Eu entrei a menos de um ano no grupo. Foi no momento que eu mais estava precisando. Foi quando encontrei o Sr. Killer, e ele me deu essa oportunidade, me acolheu. Assim, pude me sustentar a mim e a meu pai, rola uma boa grana com isso. Abracei a causa na hora.
— Eu estou precisando de dinheiro também. — penso alto. Penso que talvez conseguiria até com essa brincadeira dinheiro para a loja de Joel. Então tem mais coisas em jogo. — Há bastante pessoas no grupo?
— O grupo ainda é pequeno. Temos o Sr. Killer como líder e operador das decisões, eu que sou a mais novata, e os veteranos: aqueles homens que você deve ter visto no bar ontem, são eles: Craig, Olho Negro, Staley (devia ser o homem mudo) e por último Hunter, filho do Sr. Killer. Depois da perda de Bob, sei que o Sr. Killer vai precisar de novos integrantes. Sei que vai haver novo recrutamento em breve. você poderia tentar entrar também, se caso esteja precisando de tanto dinheiro assim.
— Mas o que o Matadouro faz exatamente? — digo. A pergunta que eu talvez já saiba da resposta, só queria saber e ter uma confirmação.
— Essa é uma questão delicada, porque talvez você não vai gostar do que vai ouvir. Você quer saber mesmo? — questiona Alaska.
— Quero sim, pode confiar. Ficará entre nós!
— Que isso morra aqui, Kurt. Então, nós ganhamos dinheiro através de...
Tudo acontece em frações de segundos. Primeiro, vejo uma anta no meio da estrada, consigo vê-la através do farol sobre ela. Segundo, não dá tempo de frear, nem de esquivar, o carro se colide com a anta em um impacto estrondoso. Terceiro, a anta bate contra o para-brisa do carro, quebrando o vidro, e o pobre animal voa sobre o carro logo em seguida. Todas as etapas aconteceram em menos de cinco segundos.
Saio do carro desesperado e meio desnorteado. Vejo que nada acontecera com a Alaska também, pois ela sai do carro logo em seguida. Ambos vamos até a anta deitada ensanguentada no meio da pista. Ela ainda jazia viva e se debatia devido as dores que o impacto causara. Não acredito que eu fizera isso, mesmo por acidente.
— Precisamos matá-la, agora!
— O quê? — digo, incrédulo.
— É o que você ouviu. Não podemos deixar ela agonizando até morrer esgotada de sangue. Temos que matá-la agora. — diz Alaska o mais normalmente possível.
— Eu não consigo... Eu não... — estremeço com as palavras em choque.
— Você precisa ser forte caso você queira fazer parte do Matadouro. Precisa entender que estamos no topo da cadeia alimentar, Kurt. Primeiro a nossa sobrevivência e nossos desejos. Depois a vida dessas coisas. — diz Alaska, indicando com a cabeça a anta. — É isso que você precisa aprender para poder entrar no Matadouro.
Alaska tira de sua calça um revólver, que antes eu nunca imaginaria que estivera ali, e aponta para a anta estilhaçada no chão. Ela aperta o gatilho, o som estremesse meus ouvidos e ecoa por entre a noite afora. A anta morre rapidamente, com sangue jorrando pelo buraco na cabeça produzido pela bala.
— É isso que nós fazemos, Kurt.
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