"É o que precisa ser feito, Kurt."

"Mas papai, por favor não faça isso. Nós podemos resolver isso de outro jeito. Tem que haver outro jeito!" Ponho a cabeça entre minhas mãos e enxugo as lágrimas que escorrem.

"Você é jovem demais para entender. Sei que parece difícil essa decisão. Porém você precisa ser forte. Precisa entender que nossa família vem em primeiro lugar, nossa sobrevivência. Nem sempre podemos ter tudo nessa vida. As vezes, temos que abrir mão."

"Mas não é justo você fazer isso, pai. Por favor."

"Já está decidido, Kurt. Tudo ficará bem."

— Você está bem? Ou está em algum tipo de transe, sei la.

Dou uma chacoalhada de cabeça para espantar os pensamentos incessantes. A cena que acabara de presenciar me deixou impactado, até um pouco nauseado. Trouxe lembranças do passado, momentos que estou mais que disposto a esquecer.

— Não, está tudo bem. — minto.

Percebo que quem está dirigindo agora não sou eu. Alaska mantinha sua atenção total no volante. Talvez com medo de mais algum animal querer se estabanar em minha caminhonete. Entretanto, a rodovia parecia completamente solitária.

Nenhuma palavra foi trocada depois disso até chegar no Canalhas. Quando desço do carro posso avaliar melhor o estrago feito pela anta no veículo. O capô do carro está amassado e o vidro do para-brisa totalmente destruído. Apenas batendo o olho, parece que só preciso trocar essas duas partes. Sem mais estragos.

— Capô e para-brisa. Sei quem pode te ajudar nisso. Fica tranquilo. — diz Alaska aparecendo ao meu lado e demonstrando um sorriso torto.

Concordo com a cabeça. Ambos entramos no bar, estava com o mesmo tanto de pessoas de ontem a noite. Fomos direto para uma mesa mais afastada dos demais. Em seguida, sentamos um para frente do outro e nos encaramos.

— Você não vai falar nada?

— Vou sim. Moça você pode trazer duas cervejas para a gente? Obrigado. — digo, para uma garçonete que passara por mim.

— Mas você entendeu o motivo de eu ter feito aquilo, não é? Saiba que é isso que fazemos, matamos para porque precisamos. — diz Alaska, talvez com uma pontada de empatia na sua voz.

— Como faço para entrar no Matadouro? — digo severamente, ignorando sua pergunta. Vejo um sorriso se estampando em sua boca, ela estava esperando uma reprovação vinda de mim, ou pelos menos saber que tudo ia ficar bem.

— Vou ser franca com você. Não será fácil entrar no grupo como foi da última vez. Sr. Killer ficou furioso por Bob não ter cumprido sua missão e ter fugido. Ele não quer que isso se repita nunca mais... — diz Alaska, interrompida pela garçonete que deixa duas garrafas de cerveja na mesa e indo embora. — O processo de seleção será diferente agora. Ele quer pessoas que sejam realmente leais a suas ordens. Você vai ter que fazer por merecer para conseguir entrar. Mas posso te dizer que no final valerá a pena. É muita grana envolvida.

— Quando vai ser a reunião de vocês? Quero poder falar com esse Sr. Killer o mais rápido possível. — digo, mas na verdade quero mesmo é matá-lo o mais rápido possível.

— Teremos uma reunião importante hoje a meia noite. Sr. Killer disse quer explicar como vai ser o processo de seleção. Pode vir comigo se quiser, talvez você consiga conversar com ele e tentar já entrar na seleção. Não sei qual será o critério de avaliação dessa vez. É bem difícil tentar decifrar o que ele está pensando, na verdade. Mas não custa você tentar. Seria bem legal ter você conosco. — diz Alaska, com um sorriso incentivador.

— Certo. Preciso muito desse dinheiro. — digo, não é nenhuma mentira. Seria ótimo no meio disso tudo eu conseguir um bom dinheiro para ajudar Joel com a sua loja. Já que estou na chuva, por que não se molhar?

— Tenho certeza que você conseguirá, se sua força de vontade for do tamanho da sua ganância. Algo me diz que você lidará muito bem, Kurt. — consagra Alaska, dando um longo gole em sua cerveja.

— Mas preciso saber mais sobre o grupo. Como realmente vocês lucram com tudo isso? — pergunto. Estou disposto a tirar todas as informações que conseguir da Alaska.

— Conseguimos dinheiro de muitos jeitos. Sr. Killer tem fazendas com vários gados, rebanhos. Essas são lugares secretos, nós caçadores não temos acessos a nenhuma informação sobre, esse é um trabalho para os pastores do grupo. Nosso trabalho é estritamente caçar, vendemos a carne, o couro, a pele, faturamos bem com essas opções. Porém, temos um ponto em que podemos faturar muito mais: o contrabando. Somos ricos com os mais diversos animais em nossa flora da cidade, e o melhor de tudo é que temos muitos animais em risco de extinção em nossas florestas, esses a gente consegue um preço bacana quando vendemos... Como eu havia dito, Kurt. Estamos no topo da cadeia alimentar. Temos que saber como aproveitar isso.

Fico estagnado com a parte do contrabando. Pior que matar esses pobres animais é torturá-los e vendê-los ainda vivos. Esse grupo simplesmente fazem de tudo para aproveitar da inocência dessas pobres vidas. Como conseguem?

— E A Máfia? Ouvi falar um pouco sobre ela. Bob estava encarregado de fazer um acordo com a mesma não é? — questiono Alaska.

— A Máfia é o próximo projeto do Sr. Killer, ele quer expandir seu comercio para outros continentes e conseguir um preço melhor per capita. Então, ele queria que Bob entrasse em acordo com um dos representantes da A Máfia para entrarmos em um acordo. Creio que o Sr. Killer vá focar nisso quando recrutar os novos integrantes do grupo.

Era muita informação digerida de uma vez só, muito mais grave e além do que eu possa imaginar. Não posso deixar que tudo isso passe em branco. Tenho informações valiosas, posso usar isso para aos poucos prosperar. Tenho que me infiltrar no Matadouro para conhecê-los melhor, conhecer cada um dos integrantes. Não estou conseguindo conter essa sede de sangue, quero matá-los todos logo.

Fico até meia noite com Alaska no bar. Ela me conta todos os detalhes do grupo, tudo que eu precisaria saber para tentar me sair bem de primeira. Chega a tão esperada hora, de eu finalmente encontrá-los e conhecer o tão famoso Sr. Killer que eles tanto falam.

Pegamos a rodovia novamente, de volta para Woodstown. Todavia antes de chegar na cidade, Alaska aponta para seguir em uma estrada de terra dentre as árvores. Esse caminho escuro, era rodeado por altas árvores, sem caminhos alternativos. Percorremos em linha reta. Paramos só quando chegamos perto de um barracão abandonado em um espaço aberto. Na frente dele há carros e motos. Reconheço quatro das motos que estão ali, são dos malucos que estavam no bar ontem.

— Chegamos. Acho que a reunião já deve estar começando.

Abrimos a enorme porta do barracão. Lá dentro há pouca luz, a escuridão toma todo o lugar, exceto no meio do recinto, onde há uma fogueira com um bando de pessoas em sua volta. Conforme vou acompanhando Alaska, percebo que aquele lugar deve servir apenas como um esconderijo momentâneo para os membros do Matadouro. Está tudo muito sujo e desorganizado. Parece que foram empurradas todas as coisas para o canto, apenas para abrir o espaço no centro para aquela reunião em exato.

Ao chegar perto do grupo envolta da fogueira, posso analisar as pessoas presentes ali. Reconheço os quatro esquisitos do bar, estes conversam entre si mais distantes dos restantes na fogueira. A luz produzida pelo fogo quase nem atingia-os, não consigo ver suas faces, mas aposto que estão viradas para mim. O restante que se mantinham mais perto da fogueira, eram quatro homens e uma mulher. Eles parecem estar apreensivos e se mantinham em silêncio a espera de algo acontecer.

— Ora, temos mais um amigo por aqui. Qual o seu nome rapaz?

Não tinha visto o Sr. Killer sentado em uma cadeira atrás da fogueira. Ele me observa com um sorriso receptivo. Seu cabelo é comprido, negro e escorrido; usa um casaco longo e botas; também posso jurar que há um risco já cicatrizado em sua bochecha, constituía em uma linha tênue vermelha. Seu olhos verdes são penetrantes.

— Me chamo Kurt.

— Ele gostaria de participar da seleção, Sr. Killer. — interrompe Alaska se aproximando do Sr. Killer. Não acompanho-a, fico parado no meu lugar.

— É um prazer te-lo aqui. A reunião estava prestes a começar. Pode se juntar aos outros, rapaz. — diz Sr. Killer apontando para os cinco que estão em silêncio e imóveis um do lado do outro. Me posto ao lado de um homem esquelético, calvo e com roupas velhas. Consigo sentir o medo que o mesmo transmite. Ele tremelica da cabeça aos pés. Logo em seguida, Sr. Killer continua:

— Vocês com certeza devem saber onde se meteram, não é? O nosso grupo secreto existe desde a época do meu avô. E foi seguido de geração a geração. Surgindo após a lei da proibição da caça. Meu avó que vivia disso não queria por um fim nessa história. Além de ser seu único ganha-pão, era o que ele sabia fazer de melhor. Com a ajuda de seus outros amigos caçadores na época, conseguiram criar o Matadouro e assim, dar progresso ao seu trabalho. No começo não foi fácil, até eles se adaptarem e tudo voltar a andar nos trilhas novamente. A polícia e até mesmo a polução de Woodstown abominam a caça desde a sua proibição. Então ficava difícil agir secretamente, para não sermos julgados ou até criminalizados por fazermos nossos trabalhos. Então por isso que eu quero que saibam onde vocês estão se metendo. Que fique bem claro. Aqui vocês estão sendo expostos a rejeição e a criminalidade. Tudo tem que ser completamente secreto. E busco também a dedicação de vocês, não quero ver ninguém desistindo da causa. Alguém tem algum problema com isso?

O homem calvo do meu lado treme mais que vara verde. Sua cabeça está abaixada enquanto ele ouve as palavras de Sr. Killer. No momento que a pergunta é lançada, ele levanta no ar sua mão trêmula direita.

— Eu... Eu quero ir embora, senhor. P... Por favor, eu posso ir? Isso foi um erro, me desculpem... — diz o homem. Juro que vejo uma lágrima escorrendo em seu rosto.

— Sem problemas, meu jovem. Não guardarei ressentimentos. Pode ir embora sim, fique a vontade. Melhor... Olho Negro, você poderia acompanhar esse senhor até seu carro? — diz Sr. Killer com toda paciência do mundo, dando uma piscadela para o Olho Negro. Vejo que o homem calvo se acalma e ameniza a tremedeira, se sentindo aliviado.

Olho Negro pega no ombro do rapaz e acompanha-o até a saída do barracão. Vejo que o grupo dos esquisitões do bar, riem até de sair lágrimas dos olhos. Alaska me encara e balança a cabeça. De imediato não entendo o que ela está querendo dizer. Porém logo em seguida saco seu sinal. Ela está tentando me dizer para não fazer isso, para não ceder como esse outro homem fez. Ela não está me incentivando e encorajando, ela está me alertando...

Ouço um barulho de tiro quebrar o silêncio. O grupo do bar ri ainda mais agora vendo a cara que os outros quatro concorrentes que sobraram fazem. Se antes eles não estavam com medo, com certeza agora estão. Não podemos sair daqui agora, temos que ouvir o que o Sr. Killer tem para dizer.

— Algum de vocês ainda quer sair? Pode falar, não tenha medo! — questiona o Sr. Killer. Silêncio impera no recinto agora. — Ótimo.

Noto que ele bebe alguma bebida no cantil pendurado em seu pescoço. E continua falar enxugando a boca:

— Onde eu parei... Ah, sobre a formação do grupo. Pois bem, tudo ocorreu bem ao passar dos anos desde a formação inicial. Após meu avó morrer, meu pai assumiu total posição. Tudo estava dando realmente certo. Eu cresci e vi todo o império crescer. Meu pai conseguir expandir. Porém, houve um dia, que gostamos de chamar do "Dia da Caça" em que os policiais descobriram todos os esquemas do Matadouro. Houve uma perseguição, dia e noite, para com todos os membros do grupo da época, todos foram aniquilados, inclusive meu pai. Simplesmente porque houve uma denúncia de um traidor infiltrado no grupo na época. De um dia para o outro tudo se acabou. Tudo que adivinha do meu avó, se perdera, tudo por causa de um simples filho de uma puta. Com o fim da nossa família, minha mãe não aguentou a pressão e se suicidou. Éramos vistos como uma escória da cidade. Foi um tempo difícil. Acabei parando em um orfanato de merda. E enquanto eu crescia, naquele lugar sozinho e desamparado, só me restava meu sonho de recuperar e reconstruir todo o império que um dia foi do meu pai e do meu avó. O Matadouro ressurgiu e com ele minha vontade de crescer e prosperar. Recrutei escondido o máximo de pessoas que consegui. Que são esses meus amigos. — aponta Sr. Killer para o grupo do bar e para Alaska. — Eles fazem o Matadouro caminhar, fazem meu sonho virar verdade. Só que tivemos um probleminha recentemente. Meu irmão, decidiu não fazer uma tarefa o qual havia sido designado e desapareceu, assim, abrindo mão do grupo. No fundo sempre soube que ele era covarde. Se escondia sempre no rabo da saia de sua família, fazendo com que a mesma seja sempre as suas desculpas para com o grupo. Sabia que mais cedo ou mais tarde ele abriria mão de tudo. Por isso rapazes, não quero pessoas como meu irmão. Quero pessoas ambiciosas e leais para com o Matadouro.

Sei de quem ele está falando. Bob Jordan. Então eles eram irmãos? Então toda aquela conversa na campina que ele havia tido com o filho faz sentido. Óbvio que agora com o Sr. Killer dizendo com mais detalhes entendo a revolta deles para com as leis ante-caça. A cidade fez eles perderem tudo, fizeram eles perderem a família. Mas nada justifica, isso tinha que ter ficado no passado e eles terem na mente um novo recomeço. Mas no final eles acham que o Bob desaparecera e os abandonara. Ingênuos.

— O que presamos de mais importante no Matadouro é o compromisso para com a causa. Como eu disse, vocês não são obrigados a estarem aqui. Quero que vocês deem seu melhor sempre. Isso que buscamos. Uma vez que vocês fazem parte do grupo, suas vidas pertencem a mim. — continua Sr. Killer, dando um sorriso agradável. — Hunter, traga o menino aqui. — diz ele, se virando para encarar seu filho.

Hunter sai da roda e vai buscar um menino que está amarrado e mordaçado em um canto sozinho e escuro. Não consigo ver bem seu rosto, mas aparenta ter uns dez anos de idade.

— Como eu estava dizendo. Vocês podem até fugir daqui, se esconder, se acovardar. Porém não posso garantir que a quem você ama, continue estando vivo. Lembrem-se mesmo, não há nada que vocês possam fazer a partir de agora. — diz Sr. Killer se levantando da cadeira e pegando o menino pelo colarinho da camiseta e fazendo-o ajoelhar no chão, perto demais da fogueira.

Com a luz refletida no rosto do menino, eu o reconheço na hora. Era Jimmy! Filho de Bob, o qual descumpriu a missão do pai em não matar o filhote de veado na campina. O menino está todo apavorado e enlouquecido se debatendo para tentar sair. Vejo semelhança para com o filhote que Bob matara. Gostaria que o mesmo estivesse vendo essa cena agora.

— Estou com o filho de Bob aqui. Meu sobrinho. Acho bom ele ter a pachorra de dar as caras agora, não vou ter muita paciência de deixar esse menino vivo não. E que sirva de lição para todos vocês. Que a partir de agora, não tentem nenhuma gracinha. Não vou fazer o mesmo erro de meu pai e por tudo a perder... — diz Sr. Killer, ele faz com que o menino se levante novamente, e entrega-o de volta para Hunter. E continua:

— Não fiquem com essas caras. Não é assim também. A gente adora dar uma boa festa de vez em quando.. É divertido. Bem, chega de enrolação, pessoal. Vou explicar como vai ser o desafio que vocês terão que fazer para entrar no Matadouro. Estive pensando e cheguei na conclusão que quero um bom time de caçadores. Quero fazer render. E nada melhor que qualificar os novos integrantes através de uma prova. É bem simples pessoal. Vocês vão ser postos na floresta a uma certa distância da cidade. Vocês não podem se cruzar ou ficarem juntos. A prova é individual. Vocês terão cinco dias para cumprir a proposta que é trazer morto o maior animal que vocês conseguirem caçar. Porém, vocês vão ter que sobreviver na floresta sem nenhuma ajuda externa. Terão que se alimentar e sobreviver por conta própria. Quero testar suas habilidades de caça e de sobrevivência durante esses dias que se seguem. Está aí um desafio a altura. Quero ver vocês dando o seu melhor e caso não conseguir completar a tarefa, nem precisam voltar. Entendidos? Alguma dúvida? — pergunta Sr. Killer, analisando cada um dos candidatos. Ninguém se manifesta. — Ótimo! Que vença o melhor!