Matadouro
6 Que a Sorte Esteja Sempre ao Seu Favor
O desafio era o seguinte, trazer a maior caça que conseguir em apenas cinco dias. Está aí uma coisa que seria fácil para os demais caçadores. Não há dificuldade nenhuma para eles em fazer isso, estão em sua zona de conforto. Eles estarão preparados para encarar este desafio. Porém, eu não caço animais. Eu nunca fiz isso, e pretendia nunca fazer. Seria muito mais fácil participar dos "Jogos Vorazes" em que eu teria que matar os demais participantes (lembrando que os mesmos seriam caçadores) do que matar animais, os quais tanto defendo.
Mas eu sabia aonde eu estava me metendo. Sabia que não seria tão fácil assim, que não seria só pedir "por favor" para entrar no Matadouro. Todavia, não imaginava que já haveria uma tarefa a ser cumprida. E está tarde demais para correr atrás, vou ter que aceitá-la e dar o melhor de si para conseguir completá-la. Preciso estar preparado, tanto fisicamente quanto psicologicamente. Fazer isso pelo Joel, priorizar em minha cabeça que tudo isso vai haver um sentido. Preciso me focar nisso.
A reunião com o Sr. Killer foi rápida e objetiva. Ele acaba de explicar os quesitos do desafio. E vou fazendo uma lista mentalmente para tentar não esquecer tudo... A prova é individual. Não posso levar absolutamente nada comigo a não ser a roupa que estiver no corpo. Não posso entrar em contato com outras pessoas (lembrando que a prova é secreta e ilícita) ou os demais participantes. E que tenho apenas cinco dias para levar o corpo de um animal morto para a beira do rio principal, onde um grupo do Matadouro vai estar esperando por nós em um barco. Após as explicações da tarefa acabarem, o Sr. Killer libera todos nós dizendo:
— Ah, e mais uma coisa! O desafio vai começar as oito horas da manhã de amanhã. Estejam muito bem descansados... — diz, com uma risadinha e mais um gole de seu vinho.
Vou até meu carro seguido de Alaska. Ela vinha tentando me decifrar, olhando atentamente as minhas expressões durante toda a conversa do Sr. Killer. E chego a conclusão que eu a deixo confusa.
— Você precisa ir se preparar. Vou ficar com os demais aqui. Nossa reunião vai acontecer agora. Deve ser sobre como preparar vocês amanhã. — diz Alaska tentando acompanhar meus passos. Ela vendo que eu não digo nada. Complementa: — Está tudo bem, Kurt?
Abro a porta do motorista e antes de entrar olho no fundo dos olhos de Alaska e digo firmemente:
— Te vejo as oito horas aqui.
Apesar de faltar apenas sete horas para o início da prova, o tempo parece correr muito devagar. Talvez seja minha crise de ansiedade atacando novamente. Entretanto, tenho em mentes que preciso me preparar o máximo possível. Tenho que pensar em cada detalhe que eu possa usar ao meu favor. Esse tempo não pode ser em vão.
Durmo da uma às cinco da manhã. Mesmo não tendo descansado completamente, sinto que recuperei parte da energia que precisava. Tomo um banho demorado, faço com que a água me tranquilize por alguns minutos. E depois preparo uma refeição farta, com um lanche e leite. Sinto que como o suficiente para poder suportar o dia. Tomo por fim uma xícara de café no sofá da sala. Sentado observando, posso ver que ainda jazia ali a cabeça de Bob Jordan, seus olhos abertos e vidrados, encima da lareira. Um dia dessa semana que se passara, eu conseguira tirar um tempo para taxidemizar a cabeça de Bob. Adoro fazer essa parte do trabalho, pois sinto que consigo eternizar minha obra-prima, e olhando-o me sinto calmo e em paz.
Vou para meu quarto planejar meu traje, tenho que escolher algo com que eu possa usar ao meu favor. Olho o guarda-roupas analisando cada uma das peças. Decido colocar uma camiseta básica preta de manga longa, por cima uma jaqueta e por fim um casaco de frio. Apesar de estar fazendo calor por agora, sei que as noites serão longas e friorentas, e são as únicas coisas que posso levar daqui. Olho para o relógio de cabeceira. Falta meia hora. Pego meu relógio de pulso e vou para minha caminhonete estacionada lá fora.
A caminho do Matadouro, vou pensando nas estratégias e nas atitudes que vou ter que tomar quando estiver sozinho na floresta. Primeiramente preciso priorizar minhas necessidades... Água e comida. Preciso me manter o mais perto possível de algum riacho ou lago que achar, para não se preocupar com a sede e que também, consequentemente, em seu entorno haverá grandes árvores de frutas devido a umidade do solo, não teria que me preocupar. Porém, caso não ache algo parecido, tenho que de alguma forma montar arapucas para capturar animais menores (vou deixar isso como última opção, além de não saber montá-las, não quero ter que matar mais animais além do que eu terei que matar no final). E por fim, vou ter que me preocupar em fazer um abrigo para passar a noite. Conforme vou seguindo meu caminho, tenho que prestar atenção e ver se consigo achar materiais para utilizar em meu favor para com o abrigo. Se caso tiver êxito nessas prioridades, sei que conseguirei passar pelas primeiras noites tranquilo.
Chego ao barracão do Matadouro. Há os mesmos carros e motos que estavam ali ontem a noite, talvez todos já tivessem chegado. Olho para o relógio e vejo que faltam ainda dez minutos. Saio do carro. Noto uma coisa que não tinha visto quando cheguei, mais afastado do barracão, há um helicóptero. Me aproximo dele e vejo que todos já estão ali, os membros e os concorrentes ao Matadouro.
Observando mais atentamente os participantes da prova, vejo de imediato que eles não estão tão amedrontados quanto imaginei ontem a noite, parecem confiantes e firmes. Olham para mim como se fossem me devorar. Até seus músculos são intimidantes e chamativos. Eram muito jovens. Menos um deles que já era calvo e baixinho, porém suas tatuagens sobressaltavam devido aos seus músculos. Todos eles se mantinham calados.
No outro grupo presente estava os membros do Matadouro que conversavam entre si, nem percebendo a minha chegada. Porém, alguém sai do meio deles e vem ao meu encontro de imediato. Era Alaska toda felizona.
— Que demora! Eu pude jurar que você iria arregar, Kurt! — ironiza Alaska, dando um largo sorriso. Olho para além dela, para tentar ver se os membros do Matadouro me olhavam e zombavam daquela cena. Porém, os mesmos se mantinham em conversa concentrados. Foram apenas os concorrentes que me olharam torto e pareciam que iam me comer vivo mais ainda, se isso fosse possível. Devem estar pensando que sou o queridinho, algo assim.
— Falei que te encontrava as oito, não falei? — digo, dando outro sorriso e ignorando os maus olhares.
Sr. Killer encerra a conversa com os membros e se dirige à olhar para os participantes. Alaska volta para seu lugar. Me junto com os outros.
— Bem, como vocês podem ver, hoje vocês vão dar uma voltinha de helicóptero. Será o seguinte, cada um de vocês terá um paraquedas e a cada vinte minutos de distância, um de vocês irá saltar. Lembrando que... — Sr. Killer faz um aceno de cabeça para os outros membros. Cada um deles, fica parado na frente de um participante. Alaska por coincidência fica na minha. — ...vocês não poderão levar nada daqui, a não ser as suas roupas, como eu já havia falado. — cada um dos membros começa a apalpar os participantes para ver se eles não levavam algo a mais.
— Ei devolve, preciso disso! — protesta um deles, tentando agarrar uma bombinha de ar das mãos de Olho Negro. O mesmo dá um riso de canto de boca, parecendo ter pego doce de criança.
— Meu caro rapaz, imagina se um dia, por infeliz que seja você perder sua bombinha de ar no meio de um retiro de caça, o qual você teria que passar várias semanas fora. Como você conseguiria sobreviver? — diz Sr. Killer, se aproximando e pegando o aparelho das mãos do Olho Negro. — É isso que eu busco, meus queridos. Quero ver o quanto vocês podem sobreviver se precisarem daqui para frente.
Enquanto isso Alaska apalpa minha manga do casaco e sente meu relógio. Faz com que eu erga a manga para ter certeza do que é. Ela abaixa rapidamente e dá uma piscadela para mim. Acho que ela recebeu ordens de não deixar passar até mesmo relógios de pulso, mas como foi por mim ela deixou passar. Olho para o lado e vejo o homem calvo-baixinho olhando para mim. Sua vistoria já havia sido acabada. Então ele mantinha o olhar para o meu relógio coberto, e quando se ergueu a olhar para mim, acenou a cabeça em negativo. Com certeza ele teria visto toda aquela cena que acabara de acontecer e não estava nem um pouco feliz com isso.
É colocado em nossas costas o paraquedas e cada um dos membros explicam para cada um dos participantes como acioná-lo. Alaska me explica que no momento certo precisarei puxar uma corda presa no paraquedas, assim ele irá abrir. Sem segredos.
Os cincos participantes, incluindo eu, sobem no helicóptero acompanhados apenas de Olho Negro. E em questão de segundos já estávamos no ar. O piloto se mantinha na cabide sem dizer uma palavra, apenas seguindo as ordens que recebera.
Tentei, quando subi no helicóptero, pegar um lugar mais perto da porta aberta para poder olhar para baixo e tentar ver algum rio, ou algo que me ajudasse antes de descer. Mas a mata era densa demais, o único rio que eu via era o principal, mas parece que eles não estão nos levando para perto dele.
O primeiro participante já se posta em pé, era o cara da bombinha de ar, devido a escolha de Olho Negro. O homem olha para baixo e se segura firme na borda da porta. Sinto que ele tem medo de pular. Olha para trás e fecha os olhos.
— Vamos logo, não temos o dia todo! — diz Olho Negro sem paciência. Após ver que o homem não reage, ele da um empurrão no mesmo que desprende da porta gritando e cai do helicóptero.
Sou o segundo a ser escolhido por Olha Negro para pular. Porém, não faço onda como o primeiro participante fez. Vou para porta e olho para baixo. Sinto um calafrio correndo por minha espinha. Era alto demais. Mas no segundo seguinte pulo e me entrego para a gravidade fazer o resto.
O percurso foi razoavelmente rápido, fecho os olhos por conta do vento incessante em meu rosto. Consigo abrir o paraquedas e caio numa pequena campina com um baque que me faz cair de joelhos. Finalmente minha prova começara.
Amontoo o paraquedas em um bolinho e coloco em minhas costas. Isso daria uma boa cobertura para minha tenda mais tarde. Vejo uma abertura entre as árvores e imagino que ali podia indicar um caminho. Percorro por aquele caminho durantes minutos incontáveis, decido não ficar olhando muito para o relógio, pois minha crise de ansiedade só me prejudicaria. Ando pelo o que me parece a manhã e a tarde toda. Não encontro absolutamente nada além de árvores e pinheiros altos. Parece que eu estava dando volta em círculos.
Sento em uma rocha por um momento, descalço minhas botas e ponho meu pé no chão macio, os mesmos já estão latejando devido a caminhada. Algo está errado, não consigo achar sequer algum animal por aqui. Algo está acontecendo e eu não estou me ligando. Mas o que será que estou deixando passar?
Caminho por mais algumas horas, finalmente olho em meu relógio e vejo que já são seis horas da tarde. E até agora nada de achar água e comida. Preciso montar acampamento antes que anoiteça, essa virou minha prioridade agora.
Encontro uma pedra grande e plana com duas árvores em sua volta. Pego o paraquedas e amarro entre elas, faço com que o pano fique o mais esticado possível aos poucos metros da pedra lisa, como se fosse uma coberta para quando eu me enfiar no meio. Consigo achar umas folhas de bananeiras para me cobrir depois. Vou atrás de lenhas para a fogueira, consigo achar alguns ganhos secos deixados por ai. Por fim, achei mais fácil do que imaginaria montar esse acampamento. Olho para o resultado de tudo e me contemplo.
Mas pelo visto me enganei.
Sento perto da fogueira com a barriga roncando sem parar, clamando por alguma coisa que desça pela minha garganta. Durante meu caminho até aqui, não consegui achar nada, nem plantas e frutas. Nada. Precisava desesperadamente comer.
Começo a analisar meu entorno. Não tem nada além de folhas pedras. Porém, eu vejo um tronco oco tombado logo a frente. Quando desviro, vejo ninho de larvas e minhocas. Já vi em séries de sobrevivência, pessoas comendo isso para amenizar a fome. Mas será que estou com tanta fome assim? Pego uma larva em minha mão. Mato com um aperto de dedos em sua cabeça e ponho tudo na boca. Cuspo logo em seguida devido ao gosto azedo e pegajoso. Me conformo que não vou comer nada por hoje.
Ao cair da noite, o vento trepida o pano do paraquedas e a fogueira não parece dar conta do seu trabalho de fazer meu corpo esquentar. Sinto também minha barriga roncar cada vez mais e minha boca secar. Foi a pior noite que já tivera na vida.
— Olha quem eu encontrei, minha gente.
De imediato acho que estou sonhando, mas me levanto rapidamente e vejo que já amanheceu. E percebo que o dono da voz está de pé me encarando com o braços cruzados. Demoro um tempo pra reconhecê-lo. É o homem calvo-baixinho que me vira com o relógio no pulso, cujo foi passado despercebido por Alaska.
— Sai daqui, não podemos ser vistos juntos. A prova é individual! — digo.
— E você liga muito para as regras não é mesmo? — ironiza calvo-baixinho dando uma cuspida no chão.
— Não é da sua conta.
— Como não? Estou servindo uma causa. Tenho que defendê-la e ser o mais justo possível para com ela. E vejo que você está escondendo coisas junto daquela menina loira lá. Vai saber o que vocês estão tramando pelas costas do grupo. Não é justo. Como o Sr. Killer dissera, apenas fica quem é merecedor. Não é seu caso, seu desertor. Temos que acabar com pragas como você...
O homem calvo-baixinho tira de seu bolso um toco de madeira comprido que parece ter sido afiado para ter uma parte pontuda. Sei o que ele está querendo fazer, me matar porque acha que estou sendo ajudado pela Alaska e tendo vantagem com isso. Ele está com medo de perder.
Eu corro.
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