Matadouro
2 A arte de não saber meditar
Ao decorrer da semana, Bob foi tido como desaparecido. Todos pelas ruas estão comentando e palpitando o suposto sumiço. Sequestro ou fuga? Ou simplesmente teria morrido em algum lugar? O que mais ouvia-se do pessoal de Woodstown eram especulações sempre quando "desaparecia" alguém da cidade. Porém, mal sabiam eles que todos passaram pelo meu abatedouro.
Eu sempre resolvo o que fazer com cada pessoa de modo diferente, para não gerar suspeitas e problemas para mim. Porque a última coisa que quero é policiais caçando um assassino em série pela cidade. Então armo cenas de óbito diferente uma das outras, como acidentes de carro com o corpo estraçalhado, casa queimada com o corpo em cinzas, ataques de animais, overdose, afogamento, suicídio e assim vai. Apenas preparo a cena do crime como se tudo não passasse de um lindo acidente. Mas minha marca registrada, meu doce padrão é arrancar a cabeça e empalhar para pendurar na parede da sala. Algumas vezes até tive que desenterrar corpos para conseguir a cabeça de volta e assim ninguém desconfiar. E meus planos nunca falharam ou deram errados, sempre foram bem sucedidos. Porque uma coisa eu digo: não pode haver padrão. Apesar de todas as minhas vítimas serem caçadores de animais, elas não tiveram nenhuma ligação entre elas, nem mesmo nas mortes como havia falado, tem que parecer que tudo foi uma consequência natural. E assim feito. O corpo de Bob, ou o que restou dele vai ser posto em um saco plástico e arremessado, com peso extra, para o fundo do rio. Posso até mandar uma carta para a família dizendo que ele foi covarde e fugiu para ser babaca em outro lugar, como sempre foi. Certeza que a família dele vai até acreditar. Mas isso eu decido depois.
Paro a caminhonete perto do rio. Ironia pensar que ele vai ser desovado do mesmo modo que o filhote de veado. Esquecido no lago. Retiro o corpo da traseira e coloco sobre o ombro e carrego até a canoa tragada no píer. Esse rio é muito usado para pesca e canoagem, entretanto a esta hora da manhã não há um ser vivo além de mim. Remo até o meio do rio e pego a corda e amarro um bloco de cimento nela. Jogo o bloco e o corpo que afundam instantaneamente até o fundo.
— Te vejo no inferno, seu desgraçado.
Ando pelo centro da cidade com minha velha caminhonete. Manhã de sábado totalmente calma e quieta, com sol ameno no meio das nuvens, brisa leve e refrescante. Já se passara uma semana desde o ocorrido com o Bob, eu merecia se distrair e nada melhor do que visitar um velho amigo. Sempre me sinto bem em passar um tempo com Joel depois de uma caçada.
Paro a caminhonete na vaga defronte a loja de artigos religiosos de Joel. Entro no recinto e ouço o badalar do sino em cima da porta indicando minha chegada. Ando por entre as prateleiras lotadas de estátuas de santos, velas de vários tamanhos, crucifixos, candelabros, livros empoeirados, bíblias, incensos, quadros e pinturas, entre outros que enchiam todo espaço possível das prateleiras. Cheiro de incenso de camomila enche o lugar.
A frente do balcão do caixa está um senhor quase careca, com uns fios de cabelos distribuídos pela cabeça, esquelético com ossos quase saltando da pele, veste uma manta branquinha e mantém os olhos baixados na leitura de algum livro caindo aos pedaços. A visão dessa cena trouxe para mim uma nostalgia, apego e saudade de quando as coisas eram mais fáceis e simples, me fez parar e ficar observando aquela cena por alguns segundos.
— Estava esperando por você... Kurt! — diz ele ainda de olhos abaixados, mas vejo que estampa um sorriso no rosto.
— É sempre bom ver meu velho amigo... Joel! — digo. O velho homem levanta seus olhos e começa a me analisar por alguns segundos, do pé a cabeça.
— Você, sempre do mesmo jeito, não é? E olha o tamanho desses músculos. Anda malhando? E precisa arrumar esse cabelo de vez em quando... — diz Joel com seu tom calmo e leve. Fazia meses que a gente não se via de verdade.
— Fique a vontade para me analisar. — digo, mexendo em umas correspondências que havia em cima do balcão. Bato o olho em uma em específico, no topo superior direito da carta, há um símbolo da construtora mais famosa da cidade.
— Não mexa nisso! — diz Joel saltando da cadeira e tirando as correspondências de minha mão, em um gesto rápido e limpo. — Ninguém disse para você que é feio ficar mexendo nas coisas dos outros, rapaz?
— Você ainda está sendo pressionado quanto a venda da casa? — pergunto. A um tempo atrás, Joel recebeu um aviso da construtora de que o seu edifício teria que ser demolido para construção de um novo estabelecimento comercial se ele não comprasse o edifício pelo valor proposto. Foi emitida a ordem de despejo para daqui alguns meses desde então.
— Eu estou tratando disso já. Preciso dar uma proposta a eles sobre e fazer eles esquecerem essa palhaçada e tudo voltar ao normal. — diz Joel guardando os envelopes e cartas na gaveta.
— Mas onde o senhor vai arranjar o dinheiro? Pelo o que eu sei, o movimento da loja não proporciona grandes lucros, e...
— Não se preocupe, Kurt. Sempre cuidei dos meus problemas tão bem. O que foi plantado para mim, não pode ser colhido pelos outros. — diz ele com um sorriso no rosto. Sempre com suas frases motivadoras. Claro que também ele não daria o braço a torcer, mas deu para ver no fundo dos seus olhos o desespero para com a situação.
Joel foi como um pai para mim. Ele cuidou de mim, me acolheu, me criou desde os dez anos de idade e fez com que eu crescesse assim como o sonho dele de ter essa loja, vi tudo se acertar e se concretizar. Sempre foi o sonho dele abrir uma loja para transmitir aquilo que gostava e acreditava. Um sonho que com muita luta e suor virou realidade. O apego sentimental que ele tem por essa loja é indescritível, foi tantos anos de dedicação. Sei que ele não quer perder esse lugar tão fácil assim, vai fazer de tudo para mantê-lo do jeito que é. Sinto que se acontecer alguma coisa com esse lugar, ele não iria aguentar. E eu não deixaria que isso acontecesse. Joel é muito importante para mim.
— Podemos ir já? — diz Joel pegando minhas mãos e abrindo um leve sorriso. Nem preciso perguntar para onde, pois sei exatamente onde ele está querendo me levar. Sempre que me vê, Joel quer descarregar minhas energias negativas, restaurar minha alma, fazer com que eu encontre paz de espírito e mente. Ou seja, nós dois tiramos um tempo para meditar. Nunca reluto mesmo achando que não faz diferença para mim, apenas faço.
Sigo Joel, subindo a escada em espiral atrás do balcão. No primeiro pavimento há o depósito da loja, com pilhas e pilhas de caixas amontoadas com todo tipo de pó e ácaros que existem. O cômodo era pequeno e com o pé direito muito baixo, apenas servia como uma despensa mesmo. Sinto cheiro de mofo e bolor quando passo por esse andar. Já no segundo pavimento é a sua moradia. Quarto, banheiro, cozinha e sala, todos os ambientes pequenos mas muito bem organizados com todo o capricho, por ele mesmo.
Esqueci de mencionar, Joel mora sozinho desde que sua jovem esposa morreu de câncer a muitos anos atrás, antes mesmo dele me acolher. Joel menciona ela as vezes e é nítido o orgulho dele ao falar de como sua esposa foi corajosa e lutadora. Após esses anos Joel não amou mais ninguém. Diz que eles vão se encontrar ainda em outra vida e quando isso acontecer, o amor que ele sentia por ela não terá sido apagado, substituído, ou muito menos diminuído. As vezes me deparo com Joel tentando me explicar e contar suas experiências sobre o amor e toda vez me diz que um dia eu irei encontrar alguém que terei uma sintonia tão grande, que ambos pensaremos de maneiras iguais e que faremos as mesmas coisas de que gostamos e que não importa, sendo nessa ou em outra vida, esse laço nunca se quebraria. Porém, difícil de me posicionar quanto ao amor, pois o que eu realmente amo fazer é completamente inaceitável na visão de outros. Ninguém entenderia meu estilo de vida e minha paixão pela caça. Não é como Joel que encontrou Liza em um retiro espiritual e que ambos buscavam encontrar seu centro de espírito e seu lugar no mundo (coisas de gente maluca mesmo). Fico pensando se alguém no mundo tem essa mesma sede de sangue como eu, ou se aceitaria o que eu faço, pensaria como a mim...
A última parada é o terraço do edifício. Este lugar foi pensado exatamente sobre medida para Joel e Liza. Um lugar lindo, sendo até difícil descrever. No centro de tudo há um enorme gazebo de madeira todo branquinho, com trepadeiras e samambaias infiltrando por entre as grades. No entorno desse gazebo há um jardim com várias espécies de flores, e várias árvores de porte pequeno. Só a paisagem daquele lugar já transmitia paz a quem a visse. Os passarinhos cantam e voam pelas árvores enquanto o vento chacoalha suas folhas e galhos. A vista e o som daquele lugar se contrastava com os prédios e casas cinzas em sua volta.
— Esqueci o quanto esse lugar é maravilhoso! — digo vislumbrado, como se fosse a primeira vez.
Joel dá um sorriso e prossegue para dentro do gazebo. Meditar é algo que parece funcionar para ele, consigo ver o quanto calmo e tranquilo é suas ações, e em quanto a mim, sou uma tempestade em uma calmaria, sou completamente o oposto disso. E meditar não me ajuda em nada. Bem, talvez para refletir e pensar. Sei que isso não é o objetivo da meditação que tem como intuito se desligar completamente, mas minha cabeça não para de trabalhar sequer um minuto.
Sentamos um diante do outro no chão do gazebo. Joel cruza as pernas, ereta a coluna, fecha os olhos e trabalha na respiração: inspira e expira . Copio seus passos.
— Quero que primeiro sinta cada detalhe a sua volta. Sinta o chão gelado sobre seus pés, o calor dos raios de sol sobre seu rosto, a brisa refrescante do vento sobre seus cabelos, o canto dos pássaros sobre seus ouvidos, a vibração da cidade sobre seu ser. Desligue sua mente e sinta com sua alma. Deixe seus sentidos te levar além de seu corpo, sinta sua alma saindo para outro mundo. Abrace o mundo, Kurt... — diz Joel com voz baixa e leve.
Cada um tem seu modo de meditação, seu porto seguro. Joel acredita que sua alma pode ir além de seu corpo e se conectar com todos os sentidos e natureza. Pra mim, isso não faz sentindo. Talvez não faço algo direito ou não consigo me concentrar, não sei. Todavia, meu porto seguro não é calmaria e tranquilidade, acho que é bem longe disso. Gosto de me estabilizar emocionalmente na adrenalina, no momento da caça. Mas também acho que consigo desligar minha mente e sentir com a alma quando estou caçando. Consigo ver essa ligação da meditação que Joel tanto fala quando estou no meio de uma caça, sinto o mundo mais vibrante e uma paz espiritual. Talvez aqui estou apenas no ambiente errado para meditar...
Me veio Bob Jordan na cabeça, como eu terminaria sua história? Já havia se livrado do corpo no lago, e desmontado seu carro peça por peça durante a madrugada. Acho melhor deixar a polícia procurar por ele e aos poucos esquecer do caso e se conformar que talvez ele tenha fugido apenas e deixado sua família e pertences para trás. Fiz tudo certo como tinha que ser, não teria como eles me incriminarem. Apenas vou deixar as coisas rolarem para ver o que isso tudo vai virar.
Mas ao decorrer da semana uma coisa ainda me deixara intrigado, fico pensando naquele pedaço de papel que achei no bolso da calça de Bob. Um papel preto escrito "Matadouro" em letras vermelhas. O que isso significa? Como irei descobrir seu significado?
Paro para refletir sobre a semana que Bob teve, da casa ao trabalho, nada demais. Porém, no sábado ele foi ao bar Canalhas antes de sair para caçar o filhote de veado e ele estava conversando com quatro homens que cobravam algo dele. Alguma tarefa que ele tinha que cumprir. Será que foi de lá que vinha o cartão? Tenho que descobrir mais sobre isso.
Irei ao bar hoje a noite.
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