Master of Tides
10 Uma garota de espírito livre
Notas iniciais
“Eu sei que você é Lucy Heartphilia, e sei que está sendo caçada.”
Lucy foi dormir com essa fala do capitão em sua cabeça. Ou melhor, tentou dormir. As memórias da conversa de agora a pouco ainda estavam muito nítidas em sua mente. Era um choque de realidade, uma informação muito forte para ser digerida de uma vez. Uma realidade nova, e ainda não sabia o que fazer com aquela confusão de sentimentos em seu peito.
As palavras do capitão ecoaram em sua cabeça. O tempo parou a sua volta. Uma avalanche de memórias invadiu sua mente, confusas, mas tão claras ao mesmo tempo. Um terrível calafrio percorreu sua espinha. Isso não podia ser verdade, podia?
— Não... Espera! O que está dizendo?! Como sabe meu nome? E do que está falando?!
— É certo que não há nenhum cartaz a seu respeito, você não é uma fugitiva comum, não é, Lucy? Que nomes você tem usado para escapar?
— Do que está falando?! Não estou fugindo de ninguém! E como sabe meu nome?!
— É claro que está! Por que estava naquele vilarejo, vestida como uma camponesa, e não em sua mansão, como deveria estar?
— Natsu! – ele agora via o desespero em seu olhar. – Do que está falando?!
— Você... Realmente não sabe?
O olhar de Lucy dizia tudo.
Natsu suspirou. Aquela conversa seria mais complicada do que esperava.
— Eu sei que você é Lucy Heartphilia porque eu te reconheci naquele dia no porto. Você não mudou muito desde que era criança, sabia? Pode não acreditar, mas eu também já andei no meio da realeza.
‘Enquanto era corsário de Hisui, fui forçado a participar de alguns eventos idiotas da nobreza. Era irritante ficar no meio daquelas pessoas vazias que apenas lhe interessavam exibir suas posses, aquilo me deixava louco, então, tentando fugir de um baile da família real, passei por uma sala onde havia um retrato seu com a rainha Hisui de quando eram crianças. Eram amigas, certo? Ela me falou brevemente sobre você, quando me pegou no flagra. Disse que era uma garota cheia de energia e que sonhava em conhecer o que havia além do horizonte e das estrelas. Encantador, não? Uma garota de espírito livre. E quando perguntei de você hoje em dia, ela me disse que não sabia, que não tinha notícias de você há anos, mas que diziam que você estava viajando o mundo a fim de estudos com seu tutor. Ela estava feliz, achava que você estava realizando seu sonho.’
Havia lágrimas se acumulando nos olhos de Lucy. Aquele era um momento delicado. A garota ainda estava assustada e confusa, e agora, com saudades de uma amiga que há muito não via. Natsu engoliu em seco, não tinha certeza de como continuaria aquela história.
— Antes de eu continuar, quer me contar como foi parar naquele vilarejo?
Lucy deixou as primeiras lágrimas caírem. As memórias a atingiram em cheio, a saudade de tia Spetto e Michelle, as lembranças da infância, adolescência... Lucy respirou fundo e tomou coragem. Tinha medo do que estava por vir, mas teria de ir até o fim agora. Estava exposta.
— Você conhece a história da minha família, não? Sabe do naufrágio que matou meus pais e que quase me matou também, estou certa? – Natsu concordou num aceno. – Alguns meses depois, meus empregados estavam mais agitados que o normal, eram meses difíceis, eu era apenas uma criança, não entendia as palavras dos advogados dos meus pais. Então, minha governanta, tia Spetto, me convidou para morar com ela e sua sobrinha neta Michelle. Elas sempre foram como uma família pra mim, sempre considerei Michelle como uma prima e eu não gostava de ficar sozinha naquela mansão, então aceitei prontamente. – Lucy fez uma pausa para enxugar uma lágrima. – Ela disse que ficaria tudo bem, mas que eu não podia dizer quem eu realmente era a partir de então, disse que se as pessoas soubessem que uma nobre como eu, morando em um vilarejo como Magnólia poderia causar um tumulto desnecessário, eu poderia ter uma infância normal se obedecesse. Eu não questionei na época, na verdade, nunca questionei, mas confesso que de uns tempos para cá eu vinha pensando no assunto. – suspirou – Desde então, eu sou Lucy Ashley. Ou Lucky, para meus amigos de infância e agora vocês.
— Sua tia te ama, ela só estava tentando proteger você.
— Me proteger exatamente do que, Natsu? – O nervosismo novamente presente em sua voz.
Era agora. Ninguém gostava da dar más notícias.
— Quando Hisui me contou do que ela achava que você estava fazendo hoje, eu sabia que ela provavelmente nunca te veria de novo. Já sabia sobre você antes mesmo de ver seu retrato. ‘Se a herdeira legítima não aparecer até ter completado 25 anos, todos os bens da família Heartphilia se tornarão propriedade do banco.’ Pelos meus cálculos, está com 23 agora, certo? Você tem um inimigo, Lucy, e essa pessoa te quer morta. O senhor de Shirotsume, Duque Everlue, está de olho na sua herança há muito tempo, e a quer a qualquer custo.
Estas palavras a balançaram. Tudo fazia sentido. Uma simples garotinha, herdeira de uma fortuna, é claro que alguém iria querer tirar proveito disso. Aquele maldito Everlue, sempre tentando bajular seu pai, frequentando a mansão e eventos sociais. Nunca gostara daquele homem, tão vil e asqueroso, e agora sabia de sua verdadeira face. Ele era o verdadeiro motivo de esconder sua identidade. Ele era o verdadeiro motivo da preocupação de tia Spetto. Agora que as peças do quebra-cabeça de sua vida estavam se encaixando, só faltava mais uma.
— E qual o seu papel nessa história, Natsu?
— Eu sou um dos homens que recebeu a proposta de te encontrar e te matar.
Foi então que o coração de Lucy falhou uma batida e o tempo parou. Estava diante de seu assassino. Então esse era seu objetivo, o motivo por qual foi arrancada de sua terra, sua família... Por dinheiro. Gray, Jellal, Zeref, Loki... Todos estavam errados, Natsu Dragneel era apenas um pirata, afinal.
— Eu recusei a proposta.
Ham?
— Posso ser muitas coisas, mas não sou um assassino, Lucy. Jamais mataria uma pessoa inocente por um motivo tão mesquinho quanto esse.
— Mas então por que-
— Naquele dia, no porto, reconheci um dos homens que recebeu a mesma proposta, e ele aceitou. Você estaria morta se eu não tivesse te abordado.
Lucy estava pasma com toda aquela informação.
— O que? Um mísero molho de pimenta não é motivo para raptar alguém. Me desculpe, foi a única desculpa que consegui inventar na hora. – Lucy observava o rosado agora com o queixo caído, ainda sem saber o que dizer. – Mas quando eu vi em seus olhos o anseio por aventura, por liberdade, eu simplesmente não podia deixar você para trás para ser morta, principalmente depois de me mostrar que é corajosa e que sabe lutar.
Lucy ainda estava atônita. Então, tudo aquilo foi... Para lhe salvar?!
— Então... Tia Spetto e Michelle-
— Estão seguras. Eles sabem da sua aparência, mas não sabem nada sobre quem a abrigava, realmente pensam que está viajando com um tutor. É por isso que não pode voltar à Magnólia. Se for pega, não será apenas o seu fim, mas de quem estiver te protegendo também.
Lucy engoliu seco com um amargor na garganta. Ela estava sendo sempre salva por alguém. Durante todos esses anos, sempre houve alguém se sacrificando por ela, protegendo-a. Tia Spetto, Loki, Natsu... Que patético. Até quando seria um fardo para as pessoas a sua volta?
— Eu não vou deixar que aquele desgraçado chegue até você, Lucy, não se preocupe. Você tem muito que viver ainda.
Ah, agora havia aquela sensação estranha no peito. Um misto de vergonha e gratidão. Um calor crescia gradualmente em si. Depois de tudo o que ouviu, esta afirmação a fez feliz. Ainda estava muito confusa, tudo o que conhecia, tudo o que acreditava então havia desmoronado diante de seus olhos e uma nova realidade surgia em sua frente, mas se sentiu segura naquele momento. Não estava sozinha. E nesse misto de sentimentos, uma dúvida surgiu em sua mente:
— Mais alguém sabe sobre isso?
— Não. E não contarei a ninguém, a não ser que queira, e tão pouco te forçarei a revelar sua identidade para os outros. Você é um membro da minha tripulação agora, Lucy. Você é livre para escolher quem quer ser.
Lucy arregalou os olhos.
— Natsu...
O capitão se levantou e estendeu a mão para a garota que ainda o encarava sem palavras. Quando ela aceitou o convite, ele a puxou contra si, apoiando-a pela cintura para que não forçasse o ferimento da perna. Lucy corou bastante com a atitude de Dragneel ao juntar os corpos. O que era aquilo, de repente? Seu coração estava a mil.
— N-Natsu?!
— Lucy – ele girou seu corpo, de modo que ela tivesse a mesma visão que ele: o horizonte. – É isso que você quer?
Seus olhos se encheram de brilho pelo fascínio da visão diante de si e perdeu o fôlego. A vastidão do oceano, iluminado pelo brilho da lua e tomado pela infinidade daquele mar de estrelas. A visão era ainda mais bela pela proa. Era magnífica.
— Isso tudo é seu, Lucy. É nosso. A liberdade é nossa. Não aceite nunca que alguém a tire de você, entendeu?
— ...Sim.
Ah cara, como dormir depois disso?
[...]
Pela manhã, o trabalho no Red Lizard havia voltado ao normal, ou quase. Lucy ainda estava tendo dificuldades para realizar algumas tarefas, mas graças a seu estado atual, estavam pegando mais leve com ela. Pelo menos as roupas novas facilitavam a locomoção. Ainda assim, todo cuidado era pouco. Loki estava desesperado atrás dela, se oferecendo para ajuda-la em absolutamente tudo!
— Está tudo bem, Loki. Não se preocupe, eu consigo andar sozinha.
— Mas Lucky! Não se esforce tanto! Seu ferimento não está doendo? – ele não a chamou pelo nome, já que Sting e Rogue estavam por perto.
— Já disse que estou bem, Zeref me deu um analgésico ainda há pouco. Ele disse que estou me recuperando incrivelmente rápido! – Lucy ofereceu um sorriso gentil ao amigo de infância. Precisava tranquiliza-lo. Pelo visto, ele ainda se culpava pelo que aconteceu em Margaret. – Obrigada por se preocupar comigo, mas está tudo bem. O que aconteceu não foi sua culpa, eu devia ter tomado mais cuidado, tia Spetto sempre falava isso, não? Além do mais, não sou tão frágil assim e você, melhor do que ninguém, sabe disso, não é? – ela piscou para ele, que corou um pouco em reflexo – Se eu precisar de alguma coisa chamarei por você imediatamente, está bem?
— Certo.
Loki se dirigiu ao convés para dar continuidade às suas tarefas quando um grito vindo de onde Lucy estava o fez dar meia volta imediatamente.
— KYAAAAA!!
— LUCKY!
Loki, Gray, Jellal, Sting e Rogue correram em socorro à loira e encontraram-na caída no chão, apontando desesperada para os barris de saquê.
— Tem um corpo! Tem um corpo bem ali!
— Um corpo? Do que está- Gray entrou entre o emaranhado de barris. – WAA!
— Mas que barulheira é essa? – uma moça, caída entre os barris, levantou, visivelmente de ressaca, abraçada com duas garrafas vazias. Suas roupas repletas de medalhas e detalhes, bem como o pescoço, mãos e braços cheios de acessórios chamavam bastante atenção e destacavam sua beleza. – É impossível dormir desse jeito.
O que uma cigana fazia a bordo?!
— Mas o que está acontecendo aqui? – atraído pela confusão, o capitão adentrou no recinto. – Cana?!
— Bom dia capitão! Cana Alberona se apresentando!
— Para tudo! Vocês se conhecem?! – Sting perguntou surpreso enquanto Rogue ajudava a morena a se levantar.
Loki amparava a loira, que se levantava com certa dificuldade pelo ferimento, o que não passou despercebido por Cana, que olhou de soslaio para o capitão com um sorriso travesso.
— Ora ora, capitão...
— O que está fazendo aqui? Como entrou a bordo? – Natsu perguntou, interrompendo qualquer tipo de insinuação de Cana.
— Estou aqui desde que partimos de Margaret, oras. Três dias e só agora perceberam? São uns tapados mesmo. Não se preocupem, vim para ajudar.
— É mesmo? – Jellal perguntou desconfiado. – Tem certeza de que não está aqui pelo nosso estoque de bebida? Porque parece que alguns de nossos barris novos estão vazios.
— É O QUE?!
Todos os homens presentes olharam chocados e perturbados para a morena, que lhes ofereceu um sorriso amarelo em resposta. Lucy não sabia o que era mais absurdo, todos os homens estarem mais preocupados com bebida a ter uma estranha a bordo ou o fato daquela mulher ter dado conta sozinha de três barris de vinho, além das oito garrafas que ela parece ter trazido por conta própria.
— Certo, podem parar de me julgar, faz mal para minha ressaca.
— Está de brincadeira?! – Jellal estava com uma veia saltada em sua testa, bem como Gray e Sting. Aquela mulher era um perigo para seu precioso álcool!
— Estou falando muito sério. – a morena retomou a compostura, lhes dando um olhar duro de arrepiar a espinha. – Precisamos conversar, capitão.
[...]
Algumas horas se passaram desde que o capitão se trancou em sua cabine com Cana, Gray, Jellal e Zeref. A curiosidade da tripulação apenas aumentava com o passar do tempo, não era como pudessem evitar, uma mulher estranha aparecendo do nada, em um navio em alto mar era no mínimo muito suspeito. Sem falar que ela reduzira drasticamente o estoque de álcool em tão pouco tempo.
Lucy ajudava Sting com as velas, dando corda enquanto ele ajustava os tecidos frouxos, dando nós com uma velocidade e facilidade incrível. Não estava se forçando muito e era agradável poder ver o mar tão livremente, ainda mais vendo o sol se escondendo da linha do horizonte, deixando uma camada alaranjada e as primeiras estrelas visíveis no manto escuro que começava a se erguer acima desta linha, era lindo, mas agradeceria muito se o loiro parasse de falar. Às vezes ele se empolgava demais.
—... E ela apareceu aqui do nada! Viu o jeito como estava vestida? É uma cigana! Será que vai usar algum tipo de magia no navio? Estou louco pra ver!
— Acho pouco provável. – respondeu a loira já ficando entediada com a conversa. – Está curioso para saber se ela vai lhe revelar seu futuro?
— Hum... Acho que eu prefiro não saber do meu futuro. Admiro muito essa filosofia do capitão de aproveitar a vida ao máximo e é o que farei. Se souber meu futuro, provavelmente não aproveitarei meu presente.
Lucy se admirou com a resposta. Talvez Sting não fosse tão cabeça de vento assim, ou talvez fosse exatamente o contrário. É difícil explicar, mas estava começando a se sentir mais à vontade com a tripulação, esse jeito de pensar lhe agradava. Ela fechou os olhos por um momento, sentindo a brisa passar por seus cabelos e relaxando ao vento. Apesar de ser uma brisa comum com qualquer outra, aquilo era uma sensação totalmente diferente para Lucy, agora que estava começando a aceitar sua nova realidade, sua nova vida, para Lucy, aqueles eram ares de liberdade e ela gostava muito da sensação.
— Ei Lucky! – Sting desceu até ela por uma corda. – O pessoal está se reunindo perto da cabine do capitão, vamos lá ver!
— Certo.
— Precisa de ajuda com a sua perna?
— Não se preocupe, estou bem.
— Se você diz, vamos lá!
O capitão se aproximou do grupo acompanhado de Jellal, Gray, Zeref e Cana. Seus olhares eram indecifráveis, continham uma mistura de incertezas, surpresas e empolgação. Boas notícias estavam a caminho?
— Pessoal, esta moça é Cana Alberona, está se juntando à tripulação à partir de hoje! – Natsu anunciou com certa satisfação. – Não deixem ela se aproximar das bebidas e estaremos bem!
— Ei! – ela protestou, mas logo retomou a compostura. – É um prazer. Conto com vocês!
— Ótimo, mais uma mulher a bordo. – Gajeel murmurou mal humorado.
Lucy fingiu não ter ouvido o comentário infeliz de Gajeel e se aproximou de Cana a fim de cumprimenta-la. Eram as únicas mulheres no navio, deveriam se unir.
— Seja bem vinda, Cana! Pode me chamar de Lucky!
— Loirinha! – a morena a encarou com os olhos arregalados e um brilho lascivo contido neles, o que apavorou a loira. – Olha só para o tamanho desses melões!
Não bastava o comentário indiscreto que todos ouviram, a morena fez questão de agarrar os seios de Lucy! Na frente de todos! O que obviamente causou vários sangramentos nasais nada discretos nos homens e um constrangimento imensurável para a loira, claramente expresso em seu rosto completamente vermelho.
— LUCKY! – Loki correu para salvá-la das garras de Cana mesmo com o rosto completamente tingido de um vermelho escarlate e seu sangramento nasal ter tomado um fluxo assustador, ele arrancou sua camisa e jogou por cima dos ombros da loira, puxando-a contra si e tirando-a de vista dos olhos da tripulação. – Como se atreve?!
— Ora ora, não sou eu quem está forçando a loirinha contra o peito nu. Eu sabia, são todos uns pervertidos!
— N-Não é isso!
A loira já estava fora de orbita com a situação.
— Ok, o show acabou! – Jellal se intrometeu corado antes que aquilo piorasse e tirasse de vez a sanidade da tripulação. Não podia negar, aquilo fora sexy demais! Ainda mais pelo grito vindo da loira ter soado mais como um gemido para os ouvidos de alguns. – Voltem ao trabalho imediatamente! E você, Loki! Tome vergonha na cara e vista alguma coisa!
Cana apenas ria e pegou seu violino que sempre trazia junto de si.
— Precisam mesmo voltar ao trabalho agora, senhor Imediato? – Cana ria divertida. – Já está escurecendo e sou uma tripulante nova, que tal uma festinha de boas vindas?
[...]
Naquela noite, Lucy descobriu o quanto a tripulação do Red Lizard era festeira. Cana tocava uma música animada em seu violino e acompanhava o próprio ritmo com passos improvisados. Alguns marujos apreciavam o show com uma bebida em mãos, ora batendo palmas, ora bebendo, rindo, contando histórias e até mesmo dançando, para o caso dos mais bêbados. Algumas coisas chamaram atenção da loira na ocasião, como Sting, que havia se juntado a Cana com uma flauta, demonstrando que também tinha talento para música e Natsu tentando fazer com que Zeref bebesse consigo.
A noite estava divertida, mas Lucy ainda estava um tanto tímida para acompanha-los naquela atmosfera descontraída, porém não queria ficar de fora, então servia comida e bebidas para os rapazes e participava de algumas conversas. Não, não estava bebendo, além de um pouco traumatizada com álcool pelo caso de Gorgocchi, Lucy era realmente fraca com bebidas, decidiu que não iria exagerar. Ainda estava constrangida pelo que aconteceu, apesar da morena ter se desculpado com ela. Agora ela subia para o convés com uma bandeja com petiscos em mãos e Gray acenou animado para ela quando a viu.
— Oi Lucky! Vem aqui!
Enquanto alguns dos rapazes se entretinham com comida, bebida e a música de Cana e Sting, Gajeel e Jellal estavam em uma disputa acirrada de queda de braço e quem estava por perto fazia suas apostas.
— Quem você acha que vai ganhar?
— Hum... É difícil dizer, ambos parecem bem fortes e ambos estão bêbados, mas Jellal me parece mais sóbrio.
— Acaba com ele, Jellal! – Loki gritou.
— Desgraçado! – Gajeel gritou para o ruivo. – Quando eu acabar com esse molenga aqui, você será o próximo!
— Quem você está chamando de molenga?! – Jellal se aproveitou do breve segundo de distração de Gajeel e o derrotou.
Gajeel encarava seus punhos incrédulo enquanto Jellal comemorava com Gray e Loki, o resto dos rapazes, insatisfeitos, jogavam moedas nos três pelo resultado das apostas. Lucy se aproximou de Gajeel com um pedaço de carne, na esperança de que ele se animasse, era uma festa, não? Era hora de deixar os ressentimentos para trás.
— Mais sorte na próxima.
Mas ele a empurrou bruscamente.
— Saia do caminho, inútil.
— Ei! Gajeel! – Gray gritou em protesto. – O que pensa que está fazendo?!
Lucy ficou imóvel no chão por um momento. A dor do ferimento começava a se fazer presente e pra piorar, lá estavam eles de novo, Loki, Gray, ambos posicionados em frente a ela, prontos para defende-la, Zeref correu de onde estava para se unir a eles. De novo. As palavras do capitão então ecoaram em sua mente:
“Nunca a vi como uma garotinha indefesa, Lucky, achava que poderia se defender sozinha desses caras.”
Não se preocupe capitão, ela pensou, você está certo. Hora de retribuir sua confiança.
— É tão ruim assim me ter por perto, Gajeel? – Lucy encontrou sua voz firme, se levantando e abrindo caminho até o mestre de armas. – Qual é o problema? É tão difícil pra você ser legal com alguém?
— Cala a boca, vadia.
— Gajeel! – Zeref gritou. – Como se atreve a tratar uma dama desse jeito?!
Gray e Loki ameaçaram intervir, mas Lucy os parou antes que o fizessem.
— Não é cansativo estar constantemente com raiva de alguém?
Parando para pensar, talvez essas palavras não fossem apenas para Gajeel, mas para ela também. Estava cansada de toda aquela situação, e depois da conversa da noite anterior, não queria mais se consumir com isso. Ela podia sentir o olhar do capitão firme em si, mesmo encarando Gajeel de frente e isso a deu um pouco mais de confiança.
— Não me provoque. Uma garotinha mimada que precisa sempre ter alguém a defendendo não deveria estar aqui.
— Então por que não luta comigo?
O navio se silenciou.
Cana quase derrubou seu violino, Sting realmente deixou cair sua flauta, e apenas o som do mar era ouvido. Natsu estava orgulhoso da loira, mas também apreensivo, ela finalmente mostrou sua verdadeira personalidade, mas seria essa a hora certa? Se ela realmente tinha o mesmo treinamento que Loki, como assumia, ela se daria bem, mas aquele ferimento na perna era um problema.
O sorriso que Gajeel abriu era de apavorar.
— Com prazer, Bunny Girl.
— Lucky! Não faça isso! – Zeref interveio, mas a loira apenas lhe deu um sorriso gentil.
— Não se preocupe Zeref, eu vou ficar bem.
— Não está um pouco confiante demais? – Gajeel desdenhou e partiu para cima da loira com um soco.
Lucy distribuiu o peso de seu corpo para não forçar a perna e desviou do ataque de Gajeel, aproveitou para puxar seu braço, jogando o corpo do marmanjo para frente e lhe desferindo um soco na nuca, que o desnorteou um pouco, mas rapidamente se recuperou. Gajeel então sacou sua espada, e Jellal jogou uma para a loira que a agarrou com habilidade.
Uma luta acirrada começou, Gajeel era bom de briga, seus movimentos eram bem calculados e fortes, enquanto Lucy defendia cada ataque, compensando sua falta de força com técnica e agilidade. Era complicado lutar com uma perna machucada, e Gajeel se aproveitava disso para força-la a se movimentar, em contra partida, Lucy era leve e usava o peso e força de Gajeel contra ele.
A tripulação assistia apreensiva, mas independente do resultado, o respeito por Lucky crescia mais e mais entre eles ao vê-la encarando Gajeel sozinha e conseguir se manter firme perante ele mesmo ferida. Lucky havia provado sua coragem, seu valor, estava feito, agora faltava apenas convencer Gajeel.
Então a tripulação arfou: Gajeel derrubou a loira e chutou sua espada para longe.
— Tenho que admitir, Bunny Girl, você é mais forte do que aparenta, mas não o suficiente para me vencer. Não puxe briga com alguém mais experiente que você.
E Gajeel deu as costas à ela, com um sorriso debochado em seu rosto, seu maior erro. Lucy aproveitou o momento de distração do moreno para dar-lhe uma rasteira. Com movimentos rápidos, Gajeel se viu já imobilizado no chão, com a loira sentada sobre suas costas e a espada que ele antes empunhava, contra seu pescoço agora. Lucy tentava não demonstrar muito, mas já estava no seu limite, se ele revidasse, estaria acabada.
— Não dê as costas para um oponente que não está completamente derrotado.
Gajeel estava estático. Não acreditava que cometera um erro tão bobo. Usara força demais também e agora seu corpo sentia as consequências e aquela espada estava perigosamente perto de sua garganta. Está bem, ela poderia ficar com a vitória, por ora.
— Está bem Bunny Girl, você ganhou essa, agora saia de cima de mim.
A tripulação comemorava a vitória da loira e esta caiu esgotada ao lado dele, finalmente respirando aliviada. O cansaço e a dor na perna não eram nada perto da sensação incrível que tomara conta de seu corpo. Ela podia ver no olhar daquelas pessoas, não apenas derrotara Gajeel, como conquistara o respeito deles, se sentia finalmente um membro da tripulação, e isso a fez feliz demais. Nada a prendia mais, não se sentia mais uma escrava, agora era uma mulher livre, uma pirata, tripulante do Red Lizard, que sensação maravilhosa, a liberdade era sua e se sentia muito bem.
— Foi uma boa luta, Gajeel! – ela virou o rosto sorridente para ele, seu corpo ainda jogado no chão.
— Tch, não pense que isso muda muita coisa entre nós, loirinha. – ele respondeu sem olhá-la, frio. – Não estou aqui para brincar de amigos. – Levantou e saiu sozinho sem olhar para trás.
Ela não esperava uma grande mudança de atitude dele, visto que era seu relacionamento mais complicado do navio, mas não se deixou abater pela atitude, uma luta de cada vez, e já tinha dado um grande passo hoje.
— Parabéns Lucky!
Gray, Loki, Jellal, Cana, Sting, Rogue e Zeref se aproximaram da loira para parabeniza-la, mas foi Natsu quem a ajudou a levantar-se. Estava orgulhoso dela, mas nada verbalizou. Não era necessário, ambos entendiam bem os sentimentos um do outro agora e a comunicação pelo olhar era mais do que suficiente. “Bem vinda à tripulação, Lucy Heartphilia.”
— Parabéns pela vitória, Lucky, mas não seja tão imprudente! E se... – blábláblá, a loira ouviu um longo sermão de Zeref que a fez pensar o quanto ele era parecido com tia Spetto. Ela não pode evitar de sorrir e sentiu vontade de brincar um pouco.
— Obrigada por cuidar de mim, mamãe.
Natsu e Gray engasgaram tentando conter a própria risada.
— Não me lembro de ter dado a luz a você. – Zeref respondeu prontamente enquanto trocava o curativo da perna.
Foi aí que Natsu e Gray explodiram em gargalhadas. Como nunca viram isso antes?! Zeref sempre foi uma “mãe” para os dois, sempre cuidado deles, usariam isso para sempre!
A festa continuou, agora havia mais motivos para comemorar e assim foi até a madrugada. Logo Cana e Lucy constataram que a tripulação não sabia pegar leve quando se tratava de festas, mas não tinha problema, ambas gostaram disso, estava tudo certo, e Cana se jogou no momento sem pensar duas vezes. Cantaram, dançaram, riram, comeram, beberam, até desmaiarem no convés mesmo. Naquele ponto, praticamente todos dormiam encostados em algum lugar, menos uma pessoa: Cana Alberona. A morena observava a tripulação dormindo calmamente, com um pequeno sorriso no rosto. Isso, aproveitem enquanto podem, pois esses momentos alegres não durariam para sempre. Sentada no beiral da proa, passou a observar a lua que se refletia no mar calmo e cantou para si mesma:
Bondosos olhos da deusa luar
Guarde o caminho, o lar e o ar
E se o céu se cobrir de escamas e dor
Olhe por mim e por meu amor.
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