Master of Tides
4 Uma conversa e uma garrafa de rum
Notas iniciais
Crocus, 7 meses após o naufrágio do Zirconis Fiore
— Aqui está a última caixa, mestre Bob!
— Fabuloso! Coloque-a junto das outras e podemos partir!
O moreno terminou de carregar a carroça com os caixotes pesados e tomou as rédeas ao lado de seu mestre que carregava um sorriso mais do que satisfeito no rosto.
— Quem diria que Caracole produzia bebidas tão boas?! E tão fáceis de vender!
— O movimento melhorou bastante desde que começamos a vendê-las na taverna. – concordou o moreno também bastante satisfeito.
— A Blue Pegasus nunca esteve tão bem, e não é pra menos, com um barman como você, não tem como a casa não ficar cheia. – Mestre Bob olhou sugestivamente para o rapaz ao lado que sentiu um calafrio super desconfortável.
— Obrigado... eu acho.
Mestre Bob era um ótimo empregador. Comandava muito bem uma taverna próxima ao porto de Crocus e era muito querido pelos funcionários e clientes, sendo sempre muito gentil e amável com todos, o único problema era que amava até demais, soltando comentários um tanto constrangedores.
Após chegarem ao estabelecimento e organizar as mercadorias no estoque e no balcão, o moreno logo tomou suas últimas tarefas antes da taverna abrir ao público. Revirou os olhos ao ver Hibiki e Jenny aos beijos em um canto quando deveriam estar se preparando para a noite que teriam. Esta noite seria cheia, estava acontecendo um festival na cidade, logo, havia uma grande quantidade de turistas e deveriam aproveitar esta oportunidade para faturar o máximo possível. Pensando nisso, ele terminou de polir os copos com um sorriso confiante.
— Parece mais animado que o normal, isso tem a ver com aquela garota que você levou pra casa na noite passada? – Hibiki finalmente pareceu se lembrar de suas obrigações, provocando o rapaz enquanto ajeitava as cadeiras.
— Eu nem lembraria dela se você não tivesse comentado agora.
— Ora, que maldade. Não é assim que se trata uma garota, meu amigo.
— Eu dei a ela o que ela queria e ela me deu o que eu queria, ponto, cada um seguiu seu rumo, não era nada demais. E quem é você pra falar alguma coisa? Com quantas você não fica em uma noite?!
— Oras, você sabe que faz parte do meu trabalho, mas que meu coração já tem dona.
— Vocês e este relacionamento estranho... O que espera, se envolvendo com uma prostituta?
Hibiki apenas deu um suspiro, se apoiando no encosto da cadeira enquanto observava o colega a dar os últimos retoques no salão antes de abrirem as portas.
— Algum dia uma garota vai derreter seu coração de gelo, guarde minhas palavras, Fullbuster.
[...]
Apesar de haver duas garotas agarradas aos braços de Hibiki e três rapazes disputarem a atenção de Jenny, a troca de olhares entre os dois era bastante presente, ainda que muito discreta. Eram muito populares na taverna, mas naquela noite definitivamente quem estava ganhando a atenção do público era o moreno. Bom de conversa e habilidoso no preparo de drinks, sem falar na beleza extraordinária que o jovem possuía, uma rodinha havia se formado próxima a ele no balcão principal.
— Você é o melhor, Gray! – uma garota com um decote nada discreto praticamente gritou depois da sua terceira caneca de rum. – Me pergunto o que estas mãos podem fazer, além de preparar ótimos drinks.
— Podem fazer muitas coisas, senhorita. – respondeu num tom galante, sem nem mesmo encara-la de volta e já foi o suficiente para a moça suspirar. – Que tal mais uma rodada?
— Claro! – ele não perdia a oportunidade de ganhar mais dinheiro.
Diferente do amigo de infância, Gray não seguiu o caminho da pirataria. Ambição era o que não faltava para o jovem, mas gostava de ganhar seu dinheiro de maneira honesta. Após se separarem na adolescência, Gray realizou pequenos trabalhos, até que em um dia em que ajudava a descarregar um navio no porto de Hargeon, conheceu seu atual empregador e desde então trabalha como barman na taverna Blue Pegasus.
Assim que serviu mais duas bebidas, notou uma estranha movimentação nas portas da taverna. Há de se desconfiar quando uma pessoa encapuzada adentra em um estabelecimento, não?
A figura se moveu até a mesa mais afastada e esperou, sem que ninguém mais se aproximasse. Gray estranhou e com um pedido de licença, logo se afastou da roda indo em direção à figura misteriosa.
— Deseja alguma coisa?
— Estou procurando por meu amigo, Gray Fullbuster.
Aquele timbre não lhe era estranho, mas não se lembrava de ter um amigo que andasse encapuzado por aí.
— Hã? O que você quer?
— Uma conversa e uma garrafa de rum.
— Hã?
O encapuzado ergueu levemente o rosto, permitindo que Gray visualizasse o sorriso confiante do mesmo.
— Desgraçado!
Gray rapidamente olhou em volta para saber se estavam sendo vigiados e rapidamente se voltou para o estranho.
— O que você tem na cabeça, imbecil?! Desaparece por anos e resolve dar as caras logo quando está nos cartazes de procurado!?
— Ei! Eu não tenho nada a ver com aquilo! – ergueu o rosto indignado para Gray, que arqueou uma sobrancelha em resposta, claramente não acreditando numa palavra proferida. – Preciso falar com você, é importante.
— Sério? Será que você não veio atrás de mim porque sentiu saudades? – Gray sorriu com seu tom mais vigarista e sarcástico possível, recebendo uma careta em resposta. – Não é uma boa hora, não está vendo que estou trabalhando?
— O que eu tenho pra dizer é mais interessante do que ficar servindo bebidas a noite inteira.
— Eu não tenho tempo pra isso, volte outra hora.
— Ora ora, encontrou um amigo, Grayzinho? – Ninguém menos do que Mestre Bob apareceu naquela hora, fazendo ambos estremecerem. O encapuzado abaixou mais o rosto, evitando que Bob o visse, mas segurou o quanto possível a risada. “Grayzinho”, obviamente não se esqueceria dessa. – Que tal uma garrafa de rum pra vocês dois, por conta da casa?
— Mestre Bob, eu realmente-
— Aceitamos, muito obrigado, Mestre bob! – o encapuzado respondeu rapidamente.
— Mestre Bob!
— Não se preocupe, Grayzinho, você tem trabalhado muito ultimamente, pode tirar o resto da noite de folga.
— Mas...
— Já trago a bebida de vocês!
Assim que Mestre Bob sumiu em meio aos clientes, o encapuzado não segurou a risada.
— Grayzinho?! — gargalhou mais um pouco, irritando o colega. – Você sempre foi meio striper, não sabia que realmente ganhava a vida fazendo esse tipo de coisa!
— Cale a boca, cabeça de fósforo, ao contrário de você, eu sou uma pessoa decente, e se você se diz inocente, o que está fazendo nos cartazes de procurado, Natsu?!
— Aqueles idiotas...
Dois meses após o naufrágio do Zirconis Fiore, Natsu finalmente retorna a Fiore escondido em um navio mercante vindo de Bosco. E por que escondido? Apesar de ser um corsário sob proteção da Família Real de Fiore, não possuía mais os documentos que o comprovassem, perdidos no naufrágio, apenas as roupas do corpo, a espada e uma bolsa que resgatara do entulho que se acumulou na praia, para carregar os objetos achados na fortaleza. Agora não era nada além de um estrangeiro sem documentos, ou seja, não era seguro.
Após aportar em Crocus, Natsu tentou seguir até o castelo para falar com a rainha, mas ao se aproximar, foi rapidamente abordado por soldados, que por pegá-lo de guarda baixa, o prenderam facilmente.
— Posso saber por que diabos eu estou sendo preso?! Meus crimes já foram perdoados pela própria rainha, não?! Eu exijo vê-la agora!
— É acusado de pirataria e traição. Por guiar um navio real para uma emboscada, onde se juntou a seus colegas piratas, você é o responsável pela morte da princesa Mary de Minstrel e do duque Jerome.
— Está falando sério?! Uma tempestade que afundou o navio! Não traí o reino e muito menos me uni a piratas! Me soltem agora!!
— Apenas fique quieto, Dragneel. – um soldado de aparência cansada falou, enquanto o conduzia até a carruagem.
— Dragnel?
Naquele mesmo momento, a carruagem real passava pelo local, trazendo a rainha Hisui de volta ao castelo. Ela estranhou a movimentação do lado de fora e não pensou duas vezes antes de descer da carruagem quando reconheceu os cabelos rosados.
— Hisui, que merda é essa?!
— Mais respeito com a rainha de Fiore! – um dos soldados lhe deu um soco no estômago, fazendo o rosado cair de joelhos, sem fôlego.
A rainha ficou chocada com tal atitude do soldado, mas ainda estava mais surpresa por vê-lo novamente. Então Natsu estava vivo? Isso significa que...
— Dragneel...
— Eu solicito uma audiência, vossa majestade. – Natsu murmurou, ainda sem ar e com uma voz bem mais grossa que o normal.
— Concedida...
— Mas majestade! Este homem é perigoso! Não podemos permitir que este circule pelo castelo!
— Mantenham-no algemado então, mas tragam-no ao castelo, gostaria de esclarecer as coisas com ele.
Contrariados, os soldados obedeceram, escoltando a rainha e o prisioneiro até a sala do trono, onde deixaram os dois sozinhos a pedido da rainha, mas se mantiveram alertas para o caso de alguma coisa acontecer.
— Natsu... – a rainha não sabia por onde começar.
— De onde tiraram que armei a morte daqueles nobres?! E me acusando de traição?! Eu fui fiel ao reino desde que você honrou nosso acordo e retirou minhas acusações, que merda é essa?!– Natsu estava possesso, aquilo era um absurdo! Como é que a rainha podia permitir isso?!
— Escute com atenção, Natsu. – Hisui estava séria, de uma maneira que Natsu jamais havia visto, percebeu que havia algo realmente errado e que estava incomodando a rainha, então calou-se imediatamente. – Assim que puder, quero que fuja e vá para longe, eu não posso mais te proteger. Nunca mais volte a Crocus.
— Do que está falando?
— Eu sei que o que aconteceu não foi sua culpa! — Hisui segurava o choro. — Mesmo com todo o seu sucesso, a nobreza nunca confiou em você, Natsu... – Hisui suspirou, era difícil dizer aquilo. – Dar tanto poder e liberdade a um pirata deixou a política interna de Fiore instável e a confiança na família real diminuiu. Temia que algum tipo de golpe acontecesse, por isso fiz questão de exaltar o seu sucesso, mostrar a eles que você não foi uma escolha errada... – ela engoliu em seco, segurando as lágrimas. – mas a morte de Mary e Jerome foi a gota d’água para eles. Seu passado por si só e a maneira desleixada como tratava a nobreza foi mais do que suficiente para que todos acreditassem que o naufrágio fosse obra sua. Como se não bastasse, há um novo Comodoro, logo, toda a marinha tem o seu apoio e este simpatiza com a ideia da nobreza contra você. Eu sinto muito Natsu, estou de mãos atadas...
— Hisui...
E sem nenhum aviso, a rainha abraçou o prisioneiro, segurando com força as lágrimas que estavam quase escorrendo. Natsu estava chocado com tudo o que ouvira, mas a atitude da garota o surpreendeu ainda mais. Apenas não retribuiu o ato por estar algemado.
— Me desculpe por isso, Natsu. – ela lhe lançou um olhar triste e sincero. – Por favor, fique bem. Vou sentir sua falta.
Ao ouvir passos se aproximado do salão, Hisui se afastou rapidamente de Natsu e se virou de costas para a entrada, para que a pessoa que entrasse não visse seus olhos marejados.
— Majestade! – o homem que adentrou no salão arregalou os olhos ao ver a figura rosada sentada numa cadeira diante da rainha. – O que este homem está fazendo aqui?! Ele deve ir para a cadeia imediatamente!
— Não se preocupe, José. Eu apenas queria trocar uma palavra com este traidor antes que o levassem. Ele é todo seu agora, pode leva-lo.
A voz da rainha soou mais dura e fria do que o normal. Apenas Natsu notou a dor presente na fala. Pouco antes dos soldados retirarem o rosado do salão, Hisui lançou um último olhar para Natsu, repleto de dor e mágoa. Como rainha, esta fora a decisão mais difícil que tivera que tomar.
— Sabe que é um tanto difícil de acreditar nessa história, não é? – Gray deu um gole do rum e continuou. — Pra começar, você, próximo assim da rainha?! E você nunca foi a pessoa mais honesta do mundo, Natsu.
— Eu não minto pra você, Gray. Sabe disso.
— Sei. – Gray suspirou, tomando mais um gole. – Não fazia muito sentido, se você realmente tivesse cometido traição, não teria voltado.
— Exatamente, mas não vim aqui para falar disso. – o rosado tomou um gole do rum e continuou. – Se lembra da história que Makarov nos contou quando éramos crianças?
— Pelo amor de Deus, Natsu! Você ainda acredita naquele tesouro?! Vê se cresce, aquele tesouro não existe! É apenas uma história inventada para que idiotas como você se lançassem ao mar e se esquecessem de proteger suas terras!
— O tesouro é real!
— O papai noel também. – desdenhou. – Você veio até aqui só pra isso?
Natsu então revirou uma bolsa por baixo da capa e colocou um objeto em cima da mesa, diante de Gray, que arregalou os olhos imediatamente ao reconhecê-lo.
— Isso...
— É a chave desenhada da página que Makarov nos mostrou quando criança. Estava junto a isso. – Natsu então entregou o diário a Gray, que arregalou ainda mais os olhos ao analisar o conteúdo das páginas amareladas.
— Isso... Não é possível... Como conseguiu isso?!
— Em uma fortaleza abandonada em Bosco.
— Na história, o bisavô de Makarov teve o diário e a chave roubados em Bosco...
— Olhe para esse diário, olhe para esta chave, isso não é prova o suficiente de que esta história é real? Gray, temos um tesouro em mãos!
— Isso é loucura, Natsu!
— Claro que é loucura, mas qual a graça de uma vida sem loucuras? E então, topa entrar nesta aventura comigo?
Gray ficou pensativo por um momento. Aquilo era muita informação para absorver de uma vez, sem falar que era insano! Largar tudo por uma aventura incerta... Mas então pensou em sua vida e no que poderia ganhar se conseguissem. Como dito antes, era homem ambicioso e não desejava ser um simples barman pelo resto de sua vida...
— Eu topo.
— É isso aí, Grayzinho! – Natsu ergueu a caneca na direção do amigo de infância, oferecendo-lhe um brinde.
[...]
— E então, onde está seu navio?
Gray seguia Natsu, ainda protegido pela capa, pelas ruas de Crocus, mais precisamente em direção ao porto. Já era tarde da noite e as ruas estavam praticamente desertas, quanto mais o porto.
— Esta é uma questão que ainda precisa ser resolvida.
— O que? Está me dizendo que não tem um navio?!
Natsu apenas sorriu na cara dura em resposta.
— Seu idiota! Como pensa em sair em uma aventura dessas sem ao menos ter um navio?! Pior ainda foi eu ter aceitado!
Este seria o início de uma longa viagem.
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