Master of Tides

5 A Sortuda dos Heartphilia


Notas iniciais
Meu deus, como eu estava com saudades daqui! Pois é, meu povo, eu sei, estou alguns meses sem aparecer e em breve atualizarei minhas outras fics também! Por algum motivo, que até agora eu desconheço, não estava conseguindo escrever absolutamente nada nesses últimos meses! Mas bom, chega de enrolação, boa leitura! (:

Hargeon, X793

Maravilhoso era pouco para descrever o quão bonito estava aquele dia para a jovem que olhava sorrateiramente pela janela enquanto lavava a louça. Da casa do alto da colina, o mar parecia ainda mais cintilante com aquela vista, e aquela brisa leve, somado ao calor, tornava a vista ainda mais tentadora.

— Vai ficar com torcicolo de tanto olhar pela janela, Lucy!

Num movimento rápido, pega pelo susto e se arrependendo subitamente pela ligeira dor no pescoço, Lucy olhou com o rosto corado para a senhora que a fitava segurando o riso enquanto batia uma massa de bolo numa tigela.

— Quando terminar, pode ir à cidade e me trazer algumas coisas? Quero preparar algo especial para o aniversário da Michelle, tem alguma sugestão?

— Hum... Michele adora sobremesas, que tal um cheesecake de mirtilo?

— Ótima ideia! Mas acho que estamos sem mirtilos...

— Sem problemas. Navios de Seven chegaram ontem, eles tem as melhores frutas, com certeza vou encontrar mirtilos no porto! – os olhos de Lucy brilharam com a possibilidade de ir a um de seus lugares favoritos da cidade.

— O porto, ham? – as feições da senhora se fecharam. – Lucy, preciso te lembrar do que aconteceu da última vez? – um arrepio a percorreu imediatamente. Lá vinha mais uma bronca. – Quantas vezes tenho que te dizer que você não é mais uma criança? – a senhora deu início ao discurso mais conhecido por Lucy. – É inconveniente ficar correndo pra cima e pra baixo como um cabrito e se jogar em qualquer curso d’água que veja como um sapo! A senhorita é uma jovem de classe, o que seus pais pensariam se a vissem agindo assim?! Está na hora de começar a agir como uma jovem ajuizada. Que tipo de exemplo acha que está dando para sua prima? Chegando em casa toda molhada, ora essa, os tecidos ficam transparentes e justos! – a senhora olhou novamente para Lucy, a analisando com cuidado.

A senhora fingiu não perceber o aborrecimento nas feições de Lucy, sua sobrinha-neta. Era a mesma bronca de sempre. Por mais que tente colocar vestidos longos na menina, com laços e babados como os de Michelle, eles não conseguiam esconder as curvas de seu corpo. Os comentários a respeito da bela loira de espírito alegre e inocente se espalhavam facilmente.

— Definitivamente você não é mais uma criança... – a velha suspirou, vendo a expressão levemente entristecida no rosto da loira. – Só tenha mais juízo, está bem?

— Sim, tia Speto...

[...]

O caminho até a cidade era longo, mas não importava para a jovem que cantarolava uma canção qualquer a caminho do porto. Normalmente realizaria as tarefas que sua tia pedia e imediatamente corria para o porto para ficar observando o mar antes de voltar para casa, mas naquele dia decidiu fazer as coisas com calma. Havia economizado um pouco e por ser aniversário de sua prima, decidiu procurar com cuidado um presente que Michelle fosse gostar e depois passaria no porto para comprar os mirtilos. Lucy prosseguia atenta a cada vitrine, a revigorante brisa bagunçando seus cabelos longos e um brilho nos olhos castanhos a cada possível presente que encontrava.

Por onde passava, olhares se desviavam para a loira. Era uma jovem inegavelmente bonita, tão bela quanto a mãe, era o que pensavam os que conheceram Layla Heartphilia. Os mesmos cabelos dourados lisos, os mesmos olhos chocolate, o mesmo sorriso, a semelhança era inacreditável, era uma pena a mãe ter morrido tão jovem e de uma maneira tão trágica.

A história da tragédia dos Heartphilia era famosa por toda Fiore. Uma família certamente poderosa no reino, dona das principais ferrovias nacionais. E tamanha fortuna possuía apenas uma herdeira: Lucy Heartphilia. Dotada de uma beleza e simpatia tão extraordinária como a da mãe e tanto poder, a pequena Heartphilia era conhecida como Lucky entre a nobreza de Fiore, e mais sortudo ainda seria o rapaz que se casasse com ela. Apesar da inveja de alguns nobres, os Heartphilia eram uma família feliz, até aquele dia fatídico.

Quando Lucy tinha seis anos, a família embarcou numa viagem de negócios para Seven, onde negociariam sua primeira linha férrea no país, mas nunca chegaram ao destino. Uma estranha tempestade se formou sem aviso em alto mar, com ondas ganhando volume e força de maneira tão rápida que não houve tempo para tomar qualquer medida. Uma onda gigante se formou próxima ao navio dos Heartphilia e o virou com sua força. Os gritos de desespero foram silenciados repentinamente, juntamente com toda e qualquer esperança e vida, que foram ceifadas daquele navio que perecia, com uma única exceção.

Lucy Lucky Heartphilia milagrosamente sobreviveu ao naufrágio, fazendo jus ao seu apelido. Foi realmente um milagre a menina ter sido encontrada com vida em meio aos destroços que boiavam perto do local do naufrágio. Seu corpo jazia desacordado com hipotermia em um pedaço de madeira que flutuava, com um prego exposto perigosamente perto de sua cabeça, que juntamente com a mão direita, eram as únicas partes do corpo que não estavam submersas. Definitivamente era um milagre a menina ainda estar viva. As únicas coisas que ela se lembra, depois dos gritos desesperados e de ter caído na água em um solavanco, foi de acordar em um navio da marinha, cercada por marinheiros preocupados e com um colar no pescoço que não se lembrava de ter visto antes.

Colar cujo pingente de formato estranho era carregado por Lucy desde então, era um sinal de boa sorte, segundo ela.

Neste momento, a garota ignorava os olhares masculinos sobre seu corpo e pagava pela rosa que daria à prima mais tarde, além de gostar muito de doces, Michelle era uma garota muito delicada e rosas eram as suas favoritas. Satisfeita com o presente, a garota seguiu para o porto, onde alguns mercadores negociavam seus produtos ali mesmo, enquanto os navios eram carregados com mantimentos para uma próxima viagem.

As coisas estavam bastante agitadas por lá, muitos comerciantes montaram suas barracas, quase que brigando pela atenção dos clientes. Lucy aproveitou a oportunidade para pechinchar alguns produtos para levar para casa, garantiria refeições variadas por uma semana se conseguisse fazer bons negócios. Quem sabe uma fita nova para o cabelo?

Com o canto do olho, Lucy percebeu uma discussão entre dois rapazes há alguns metros dela, mas não ligou, não era uma cena incomum naquele porto, ainda mais quando navios estrangeiros estavam ancorados.

— O que vai levar hoje, jovem senhorita? – o mercador perguntou olhando mais necessariamente para seu decote quando percebeu que ela olhava com interesse os frascos. – Este é o último frasco de molho de pimenta thai dragon, o melhor de Seven! Vamos aproveitar a oportunidade, mocinha?

— Claro! – os olhos da garota brilharam. – Quanto é?

— 1.000 jewels.

Ela gelou. Como um molho de pimenta poderia ser tão caro?!

Lucy jogou o cabelo para o lado e se posicionou de modo que seu decote ficasse um pouco mais evidente e forjou sua melhor cara de inocente.

— Quanto é mesmo, meu bom senhor? – e piscou para ele.

[...]

— Minha beleza vale apenas algumas moedas?! – a loira resmungava enquanto carregava algumas sacolas, incluindo o molho de pimenta em uma delas. – “Lucky” Heartphilia aonde!? Aposto que aquele molho nem deve ser tão raro assim...

Lucy não reclamava de verdade, sabia que tinha feito uma boa compra, apenas costumava conseguir um desconto um pouco maior nas poucas vezes que apelava para isso, quando achava que um produto estava caro demais. Pelo menos conseguiu os mirtilos que queria para o cheesecake de Michelle, e de quebra, conseguiu dar uma boa olhada no mar, como gostava de fazer sempre tinha a oportunidade.

Já se encontrava em uma região pouco movimentada do porto, pronta para tomar os rumos para casa, o barulho das ondas já lhe dando uma sensação de saudade.

É incrível como se sentia à vontade na água, principalmente estando ao mar. As pessoas estranhavam isso, sendo ela uma sobrevivente de um trágico naufrágio, a menina não deveria ter pavor da água? Nem mesmo na época do acidente esta temeu o mar, na verdade, o verdadeiro conforto surgiu após o mesmo. Incomum. Não era atoa que algumas pessoas a chamavam de estranha.

— Ei, estranha! – uma voz gritou atrás dela. Mas será possível!? Dessa vez não tinha feito nada que as pessoas pudessem julgar como impróprio ou estranho. E não, o que fez pra pechinchar a pimenta não conta.

— Qual é?! O que eu fiz de estranho dessa vez?! – a menina virou irritada para o indivíduo que acreditou estar falando com ela.

Mas quando se virou, Lucy se surpreendeu. Um rapaz de cabelos rosados estava há poucos centímetros dela, a encarando irritadiço. Logo o reconheceu como um dos rapazes que estava discutindo no porto. Aparentemente era forte e muito bonito, mas cabelos rosados? E ele a chamava de estranha?

— O que você quer?

— Foi você que comprou o último molho de pimenta, não foi?! Passa ele pra cá! – ele tá falando sério?

— Nem pensar! Essa desgraça me custou quase 1.000 jewels, nem ferrando vou entregar ele assim pra você!

— Está mesmo me desafiando, garota? Eu não estou no melhor dos meus humores hoje, então anda logo com isso.

— Não!

O ar ficou denso entre os dois. Um vinco surgiu na testa do rosado e num movimento rápido tentou arrancar a sacola das mãos da moça, mas seus reflexos foram mais rápidos e esta desviou. Isso realmente estava acontecendo? Por uma garrafa de molho de pimenta? Por que simplesmente não entregava o frasco e ia embora? Apenas dizia para a tia que foi assaltada quando perguntasse do dinheiro... A tia jamais permitiria que voltasse ao porto.

Lucy se virou para gritar por socorro, mas o rapaz a prensou contra seu corpo e tapou sua boca.

— É bom não tentar nenhuma gracinha, princesa.

“Princesa”. Isso irritou profundamente a loira. Constantemente a chamavam assim antigamente por ser delicada e acreditarem ser incapaz de se defender sozinha.

Um pequeno brilho fez Lucy piscar e acordar para a realidade. Seu sangue ferveu e com uma cotovelada no estômago, ela rapidamente se desvencilhou do rosado, largando a sacola de compras em um canto qualquer.

Como ela se atrevia!

— Ora sua... – Ele levou a mão ao bolso direito, mas arregalou os olhos ao dar falta do objeto que sempre carregava consigo.

— Procurando por isto? – a loira girava entre os dedos o punhal que outrora o rapaz furtara de uma banca enquanto o vendedor estava distraído.

— Quando foi que você-

— Vai embora! – ela falou com uma voz firme. – Eu te desarmei, vai embora logo antes que eu grite.

O rosado abaixou a cabeça e não conteve o riso, o cabelo cobrindo seus olhos, impedindo a loira de ver sua expressão.

— O que tão engraçado?!

— Você é estranha. – ele levantou o rosto com um sorriso determinado. – Gosto disso. Mas é uma tola se acha que esta é minha única arma. Vamos ver até onde você vai.

De um outro bolso, ele tirou uma adaga e avançou para cima da loira.

— O que?!

— Estou empolgado!

Ele desferiu uma série de golpes que foram defendidos por Lucy com uma certa dificuldade. Maldito vestido, era difícil se movimentar com tamanha quantidade de pano limitando seus movimentos. Num ato completamente inesperado pelo rapaz, ela rasgou as mangas do traje e uma parte da saia, revelando os braços e as pernas bem torneadas da loira.

Impressionado com a visão, o rosado soltou um assobio, o que irritou ainda mais a jovem.

Avançando para cima dele naquela luta sem sentido, esta conseguiu fazer um pequeno corte no rosto dele aproveitando que ainda não tinha se recuperado de vez da distração e seus movimentos não estavam rápido o suficiente.

O pequeno corte o fez perceber que não lutava com uma garota estúpida qualquer. Ok, ela era realmente estúpida por estar mesmo lutando com ele, Natsu Dragneel, mas isto era interessante, era a primeira vez que um civil revidava e conseguia se manter de pé diante dele, ainda mais uma garota. Interessante.

Depois de mais uma sequência de golpes, Natsu estranhou algo nos movimentos dela, algo lhe parecia familiar.

— Onde aprendeu a lutar desse jeito?

Ela nada respondeu, e observando atentamente as posições e movimentos dela, Natsu desferiu um ataque alto e um baixo seguidos, sendo defendidos por ela. Conhecia estes movimentos. Natsu então fingiu um ataque pela esquerda, onde os reflexos dela eram mais lentos, e agarrou o pulso direito, que segurava a arma, na hora que ela ia defender, a desarmando. Ele a girou, prensando-a novamente contra seu corpo, as costas dela batendo contra seu peito e manteve a mão dela presa às costas e com sua mão livre, segurou a adaga contra seu pescoço.

— Você é interessante, garota. Qual o seu nome?

Ela novamente não respondeu.

— Não vai falar, é?

Novamente sem resposta.

— Muito bem, você tem bastante sorte por eu não querer te matar, ou já seria um cadáver. Sabe que eu não estava lutando a sério, não é? Vou te chamar de Lucky até que decida me dizer. É fofo, não? Você vem comigo.

Logo seu suposto apelido?!

— Ficou louco?!

Ainda mantendo os pulsos da jovem presos contra as costas, ele retirou a adaga do pescoço, mas encostou a arma em suas costas, deixando claro que qualquer movimento suspeito, teria a lâmina cravada em seu corpo.

— Vamos logo, Lucky. Não temos o dia todo.

Segurando-a bem firme com uma mão, arrancando-lhe um gemido de dor, Natsu largou da arma por um segundo para pegar a sacola que a loira havia largado. Agora que conhecia seus movimentos, sabia como lidar com ela e não desistiria de seu molho de pimenta.

— Oba, mirtilos! Espero que seja uma boa cozinheira, Lucky!

— Não acredito que isso está acontecendo...

— E uma rosa... Não me diga que foi cantada pouco antes de nos encontrarmos, que coisa fofa.

Os olhos da loira aguaram ao pensar na prima, era para ser o presente dela.

— Pode ficar com este molho estúpido, apenas me dê a rosa e me deixe ir embora, preciso ver uma pessoa importante hoje.

— Ah Lucky... – usou seu tom canalha enquanto a conduzia de volta para o porto. – Não devia ter lutado comigo. Depois que me mostrou seu potencial, não posso simplesmente deixa-la ir embora. Sinto muito, mas não verá mais seu namorado.

— Por favor... – sussurrou.

Ela sentiu a lâmina pressionar suas costas.

— Não me provoque, estamos quase chegando.

Lucy então reparou que seguiam em direção a um navio. Havia poucas pessoas no porto, a maioria dos vendedores já havia recolhido suas barracas e partido, as poucas pessoas a circular não aparentavam notar que a garota estava sendo conduzida com uma adaga pressionando suas costas, e os que olhavam, reparavam em basicamente em seu corpo, já que estava com os braços e pernas expostos pela roupa rasgada. Sentiu-se terrivelmente humilhada e as lágrimas insistiam em se formar em seus orbes, mas não as derramaria. Por que insistiu em vir para o porto? Por que não se contentou em buscar produtos em uma venda qualquer? E pior, por que insistiu numa briga por um mísero frasco de molho de pimenta? Quão estúpida podia ser?!

As palavras de sua tia avó começaram a ecoar em sua cabeça. Ser mais ajuizada. Você não é mais uma criança. Suspirou só de lembrar. Ela mesma se meteu nessa situação, ninguém a salvaria. Precisava encarar as consequências de suas atitudes, sairia dessa.

Ele apertou seu pulso para que andasse mais rápido, então ela passou a reparar melhor no navio em sua tripulação. Definitivamente não eram da marinha, os trajes eram despojados demais para serem oficiais de qualquer coisa. Também não conseguia identificar de onde eram pelas cores do navio. Não eram de Seven, ou de Minstrel, ou Bosco, muito menos de Fiore... Será que...

— Você... é um pirata?! – sussurrou.

— Bem vinda à tripulação do Red Lizard, senhorita Lucky.

Notas finais
Uhul! Finalmente Natsu e Lucy se encontraram! Mas não foi bem da maneira mais agradável, não é? Desculpem o sumiço, esses últimos meses foram bem hard pra mim e ainda não me recuperei totalmente deles, mas bora! E então, o que acharam? (: