Master of Tides

9 Um voto de confiança


Notas iniciais
Olá pessoas, tudo bem? (: Antes de mais nada, gostaria de dar um aviso: Esse capítulo está meio pesado. Não sei bem o que cada um considera pesado, mas beleza, tá avisado haha Hiro Mashima pode até cagar com algumas histórias, mas tem outras bem interessantes, alguém aqui já leu os mangás de Mashima En? ;) Ao longo da fanfic, pretendo colocar umas participações especiais de alguns personagens do Mashima que ganharam meu coração e que merecem um pouco mais de atenção! Nesse capítulo teremos algumas participações especiais, espero que gostem! Boa leitura!

Margaret, 19h30

Estava um tanto escuro demais para um início de noite para o gosto de Lucy. E que lugar era aquele que estava? Estava estranhando seu entorno, ouvira falar tanto que Margaret era uma cidade agitada, mesmo à noite, então, qual era o motivo de tanta calmaria? A garota vagava pela periferia da cidade ainda com suas roupas rasgadas e massageando os pulsos avermelhados.

Horas antes

Não demorou muito para retomar a consciência depois que Jellal a nocauteou. Sua cabeça latejava, assim com seu estômago parecia rodopiar livremente em sua barriga. Na tentativa de massagear o local atingido, sentiu as correntes gélidas em seus pulsos e começou a berrar todos os xingamentos que conhecia quando percebeu que estava acorrentada e no porão do navio. Por que fizeram isso?!

— Mas que droga Natsuuuuu!!!

Lucy caiu de joelhos no chão enquanto as primeiras lágrimas começaram a escorrer, mas não eram por tristeza e sim por ódio e pela dor de cabeça que se intensificou. Aquele era o seu limite. Aquelas algemas em seus pulsos eram a prova de que não podia permanecer nem mais um minuto sob os “cuidados” do capitão, precisava fugir. Ainda havia uma chance. Estava sim com correntes nos pulsos, mas não estava presa a nada e já que estava em tais condições no porão, significa que não deveria haver ninguém no navio para impedi-la, ela só precisava encontrar uma maneira de escapar.

Ao tatear melhor o ambiente escuro, encontrou um pedaço de ferro jogado, sem utilidade nenhuma no momento, ela o pegou e começou a cutucar o alçapão, descobrindo, para sua surpresa, que este não estava trancado. Jellal deve ter dado essa chance a ela.

Como as correntes eram razoavelmente longas, havia uma certa liberdade de movimentos, o que facilitou bastante para que a loira conseguisse se pendurar pela abertura e se arrastar pelo alçapão, mas caramba, como aquelas algemas incomodavam! Seus movimentos faziam com que o metal atritasse contra sua pele, causando uma grande irritação. Foi então que Lucy percebeu outra coisa: as algemas estavam largas em seu pulso! Não o bastante para que as removesse com facilidade, mas se encontrasse algo escorregadio para passar nos pulsos, conseguiria remove-las e nada mais restringiria seu caminho para a liberdade!

Então, antes de partir, Lucy seguiu em direção à cozinha do navio deserto.

Atualmente

Era um grande alívio se livrar daquelas correntes infernais, ela estava finalmente livre dos piratas e agora poderia arrumar uma maneira para voltar para casa! Michelle e tia Spetto deveriam estar desesperadas atrás dela, estava com tantas saudades... Era uma pena não poder se despedir de Loki, mas precisava fazer isso... Só que, de alguma maneira, Lucy não conseguia ficar tranquila, havia algo errado. O que havia com aquela cidade, com tão poucas pessoas na rua há essa hora? Quer dizer, ainda não estava tarde, estava? Havia algum toque de recolher? E por que tantos cartazes espalhados pelas paredes?

Lucy se aproximou de um dos cartazes, tentando identificar algo de útil, mas a má iluminação da rua não ajudava nem um pouco.

— Ei mocinha! O que está fazendo aqui fora?

Um homem de aproximadamente trinta anos que parecia ter saído de um livro de contos infantis abriu a porta. Usava calças e mangas listradas, um colete preto cuja gola e lapela a lembrava um bizarro girassol, possuía um queixo bastante saliente e um curativo no nariz, para completar, um chapéu de bruxo. Os gestos exagerados, juntamente com o traje bizarro fez com que um calafrio percorresse seu corpo, sério Lucy, qual é o segredo para atrair essas figuras?

— É perigoso sair à noite, sabia? Não viu os cartazes? Há muitas mocinhas desaparecidas, deveria ter mais cuidado.

Então é por isso que as ruas estão tão desertas. Droga Lucy, onde você foi se meter?

— Me desculpe senhor, eu não sabia, obrigada pela informação!

— Não sabia? A senhorita por acaso é estrangeira?

A figura se aproximou dela e arregalou os olhos ao prestar mais atenção na garota.

— Meu deus, o que houve com você? Está ferida?

— Ahn... Um homem tentou me assaltar e eu acabei revidando. Eu sei que não deveria me arriscar tanto assim, não sei o que eu tinha na cabeça.

— Ora querida, pelo menos você está viva. Vamos, entre! Você precisa de um banho e de repouso! Arranjarei roupas novas pra você e não se preocupe, pode passar a noite aqui e partir amanhã quando for mais seguro.

— Ah, é muita gentileza senhor, mas acho que vou recusar, eu não conheço o senhor...

Ele rodopiou e fez uma pose como se fosse algum artista de circo.

— Gorgocchi Epa. Tem certeza, querida? Não é seguro andar por aí sozinha à noite, ainda mais com um assassino à solta, olhe para as garotas nos cartazes, elas são muito parecidas com você!

Lucy olhou em volta e estremeceu ao constatar que aquele homem esquisito falava a verdade, mas passar a noite com um estranho como ele?

— O senhor disse que tem um assassino à solta...?

— É o que as pessoas dizem. Não encontraram nenhum corpo ainda, mas as garotas não param de desaparecer e não houve nenhum pedido de resgate, até onde eu sei. Pobrezinhas.

Não é como se tivesse dinheiro para ficar em uma pousada, na verdade, não possuía nada consigo além das roupas rasgadas, e sobrevivera dias nas mãos de piratas, quão pior aquilo poderia ser? Passar a noite na rua definitivamente não era uma opção agora que sabia disso.

— Certo, obrigada pela oferta, vou aceita-la, prometo que não vou dar trabalho.

— Oh, não se preocupe com isso senhorita, qual é o seu nome?

— Lucy Ashley.

— Lucy, é? É um belo nome. Vamos entrando, o jantar está quase pronto.

[...]

— LUCKY!!!

— LUCKY!!!

Natsu e Gray corriam pelas ruas de Margaret procurando pela garota. Jellal estava logo atrás perguntando informações aos moradores que estavam nas ruas. Passavam por becos e olhavam qualquer lugar que fosse suspeito para eles.

— Como isso foi acontecer, Fernandez?!

— Eu não sei! Era pra ela ficar desacordada por um bom tempo! E eu a acorrentei também, aquela garota é mais forte do que parece!

— Eu espero realmente que seja, ou você já era, Jellal!

O imediato se surpreendeu com o capitão, há tempos não o via tão sério. O que aquela garota realmente representava pra ele?

— LUCKY!!

— Capitão, isso é realmente útil? – Gray interveio – Digo, esse nem é o real nome dela.

— Apenas ela poderia responder a esse nome.

— Mas capitão-

— CONTINUE PROCURANDO PORRA!

— NATSU, PARA!

Fullbuster o imobilizou no chão, pegando Dragneel desprevenido. Pressionava com força e habilidade os braços contra as costas e a cabeça contra o solo. Gray era um exímio lutador e às vezes Natsu se esquecia disso.

— Você precisa se acalmar, Natsu. Desse jeito jamais vamos encontra-la. Bota essa cabeça pra funcionar. Você a conhece melhor do que eu, tente pensar como ela. O que ela faria nessa situação?

Natsu suspirou derrotado, ele estava certo. Respirou fundo por alguns segundos, acalmando o ritmo acelerado de seus batimentos cardíacos. Agora conseguia enxergar com mais clareza detalhes do entorno que não viu enquanto estava tomado pelo desespero. O que Lucky faria? O que ela faria? Não a conhecia bem o suficiente para pensar como ela... Mas conhecia alguém que sim.

— Encontre Loki.

— Esse é o capitão que conheço.

— Encontre também alguém que conheça essa cidade como a palma da mão.

— Entendido.

[...]

— O jantar estava delicioso, muito obrigada!

— Fico feliz que tenha gostado senhorita Lucy, não sou muito bom cozinheiro, sabe? É ótimo quando consigo agradar alguém.

— De verdade, estava muito bom! – Lucy agora lavava a louça enquanto Gorgocchi terminava de tirar a mesa. – O vinho também estava ótimo!

— Oh, você gostou do vinho? Eu mesmo o fiz, é uma receita especial, estava com medo que você não gostasse...

— É mesmo?! Me desculpe perguntar, mas, por que não bebeu também?

— Ah, eu gostaria, mas no momento estou tomando um remédio e não posso ingerir álcool, entende?

— O senhor está bem?

— Estou ótimo, não se preocupe.

— Ah! Obrigada por me deixar usar sua banheira, e essas roupas serviram perfeitamente!

No lugar dos trapos rasgados que anteriormente eram seu vestido, Lucy agora usava uma regata vermelha, juntamente com uma saia florida verde com duas grandes fendas laterais, um par de botas. Também usava um par de braceletes e um colar de dentes de urso que Gorgocchi insistiu que ficavam incríveis com a roupa. O fato de serem peças bem ousadas em comparação com suas antigas roupas não incomodou a loira nem um pouco, na verdade, a deram a sensação de liberdade que sempre almejou ter.

— Era o mínimo que eu podia fazer por você, querida, você estava um trapo!

— É, pois é...

Lucy estrava extremamente agradecida ao homem estranho. Desde que pisara naquela casa fora muito bem tratada, estava desesperada por um banho, mas um banho de água quente parecia surreal demais! Sentia tanta falta de coisas tão simples quanto isso! E era maravilhoso poder ter uma refeição sem os olhos inquisidores de Gajeel a julgando. Sentia-se incrivelmente bem. Revigorada. Leve. Limpa. Estaria em perfeito estado se não fosse aquela dor incômoda nos pulsos graças às correntes. O atrito com o ferro deixou marcas nada discretas, que a cada minuto pareciam mais nítidas, aquilo demoraria pra sair.

— Aliás, se me permite perguntar, de quem são essas roupas?

Por um breve momento, o ar ficou denso no ambiente, os olhos do homem estavam nublados, e tão logo aquele sorriso estava de volta, como se Lucy nunca tivesse feito aquela pergunta infeliz. Todos os sentidos gritaram em alerta.

— Não se preocupe com isso.

Uma sensação estranha se apossou de seu corpo. De repente já não tinha mais forças e seu corpo caiu flácido no chão, sua visão nublando cada vez mais, a consciência lutando pra não se esvair.

— O que... você...

Lucy visualizou sua taça de vinho vazia enquanto o homem lhe olhava com um sorriso diabólico. Ele a drogou.

— Oh, querida Lucy, por que você teve de perguntar?

[...]

Mesmo fora do horário de expediente, ele não deixava de estudar, agora com mais curiosidade do que nunca. Revirava cada livro que possuía que tivesse qualquer informação sobre Tenroujima. Ainda não sabia que resposta daria aos dois irmãos de criação, mas depois do que vira, valia a pena pesquisar sobre o assunto. Já havia uma pequena pilha de livros separada quando batidas na porta quebraram sua concentração. As batidas incessantes fizeram o homem se dirigir desconfiado à entrada. Não costumava receber visitas, ainda mais à noite.

— ABRE LOGO ESSA PORTA, ZEREF!

— Gray?

Se deparou com o rapaz ofegante ao abrir a porta.

— Como descobriu onde moro? – recebeu um olhar torto em resposta – Ok, pergunta idiota, o que está fazendo aqui?

— Preciso da sua ajuda. Conhece bem essa cidade, não é?

[...]

A luz no ambiente era fraca, com apenas alguns castiçais espalhados pela sala fechada iluminando o local. Uma mesa de madeira encostada na parede, com alguns objetos de metal que ela não conseguia enxergar. Sem janelas, apenas uma pequena escada de madeira que deveria levar a uma porta ou alçapão. O lugar fedia a podridão. Aos poucos Lucy recobrava a consciência, e não se lembrava de muita coisa. Como chegou ali? Onde estava?

Não estava deita, mas sim ereta em uma cadeira desconfortável, tentou se levantar, mas se viu amarrada à mesma. As cordas tinham nós firmemente presos em seus pés, pulso e tronco, tornando impossível qualquer tentativa de fuga no estado em que estava, seus pulsos queimavam onde já estavam machucados e sentia algumas partes de seu corpo dormentes devido à força com que estava amarrada. O que estava acontecendo?

— Oh, já acordou, querida Elena?

— E-Elena...? Não... M-Meu nome é Lucy. – sua voz saiu em um fio.

— Elena, meu amor, por que você teve que fazer isso comigo? – o homem continuou, ignorando completamente o protesto de Lucy. Sua voz transbordava perigo. — Por que escolheu aquele cara e destruiu minha vida? POR QUÊ, ELENA??

— J-Já disse, não sou Elena... – ela tentou novamente, com um pouco mais de força. – Meu nome é Lucy.

Paff! Em resposta, teve um tapa deferido em seu rosto.

— POR QUE VOCÊ SE CASOU COM AQUELE HOMEM, ELENA??!!

Mais um tapa, dessa vez mais forte, forte o suficiente para derrubá-la com a cadeira e tudo. Lucy gritou com o peso da mobília esmagando sua perna ao atingir o chão.

— OH SIM! ISSO! QUE SOM MARAVILHOSO! GRITE, MINHA AMADA ELENA! GRITE! NINGUÉM IRÁ ESCUTÁ-LA AQUI! AHAHAHAHA!

— P-Pare... Por favor...

— Oh, Elena, está chorando?

Gorgocchi a puxou pela cabeça, colocando novamente o corpo da garota e a cadeira na posição em que estava antes. Lucy estava mais consciente agora, e conseguiu ver um espelho diante de si. Estava com as mesmas roupas que ele a deu, marcas avermelhadas em torno das cordas que amarravam seu corpo e uma grande marca de mão em seu rosto, no lugar onde ele a bateu. Além disso tudo, usava agora um par de tranças que não havia feito antes, ele mexeu em seu cabelo enquanto estava desacordada. Ao lado do espelho, havia uma foto de uma garota vestindo exatamente as mesmas roupas, os mesmos acessórios e o mesmo penteado que ela usava agora. Não eram idênticas, mas poderiam ser irmãs, assim como as outras garotas nos cartazes de desaparecidos. Gorgocchi era o assassino. E era louco.

[...]

Natsu estava mais racional agora. Já tinha ciência do desejo da garota de fugir, já era esperado, mas temia não ser uma mera coincidência o desaparecimento de Lucky em uma cidade onde uma série de garotas parecidas com ela sumiam misteriosamente. Continuou sua busca pela loira na periferia da cidade. Algo lhe dizia que deveria procurar naquela direção.

A lua cheia saiu de seu esconderijo de trás das nuvens, dando uma iluminação pálida às ruas desertas. Natsu seguiu em frente, procurando qualquer sinal da loira, qualquer coisa que lhe dissesse que estava no caminho certo. Foi então que Natsu viu um brilho incomum vindo de um ponto da rua e se aproximou para ver melhor. Não soube como deveria reagir ao reconhecer as algemas jogadas naquela rua. Esboçou um sorriso trêmulo, de um alívio de saber que ela esteve ali, mas suas mãos tremiam de pavor, já que ela devia estar vulnerável em um lugar suspeito. Como sabia que aquelas eram as algemas que Jellal usou para prender Lucky? Por uma pequena marca que ele fez na mesma em um dia em que estava completamente entediado.

Com a algema em mãos, Natsu olhou em volta, e desamarrou o cachecol de seu pescoço, deixando que escorregasse até o chão enquanto ouvia a voz da cigana ecoar em sua mente: se apresse e proteja-a antes que seja tarde demais!

Com essa mensagem em mente, Natsu se pôs novamente em busca da garota, chamando mais uma vez por ela.

[...]

— VAMOS ELENA! GRITE! GRITE! SE ARREPENDA! IMPLORE POR SUA VIDA! DEIXE-ME VER MAIS DESSE DESESPERO NO SEU LINDO ROSTO, ELENAAAA!

Gorgocchi gargalhava enquanto desferia chutes na garota caída. Seu corpo já estava todo marcado e ela acabara de tossir sangue pela terceira vez, mas para a infelicidade do homem, Lucy mal gritava, tudo o que saía de sua boca, além do sangue, era um reflexo dos golpes, nada além disso. De que adiantaria gritar? Ninguém a ouviria ali, seria apenas para satisfazer aquele sadomasoquista que não se contentaria com nada menos do que sua morte.

— NÃO ESTÁ ADORANDO ISSO, ELENA?! SE LEMBRA DAQUELA VEZ EM QUE VOCÊ ME DEU UM CHUTE NA CARA BEM NA FRENTE DE MEUS SUBORDINADOS?! VOCÊ DESTRUIU MINHA VIDA NAQUELE DIA, MEU AMOR! EU, QUE SEMPRE TE ADMIREI, QUE OBSERVEI VOCÊ, QUE AMEI VOCÊ, E VOCÊ, COMO RETRIBUI? COM UM CHUTE NA CARA E SE CASANDO COM AQUELE MALDITO BAUM SANCTI!!

Então ele parou de chutá-la e agora a encarava com um rosto sério.

— Ei, não vai mesmo gritar, garotinha?

Houve silêncio por um momento, seguido dos passos de Gorgocchi.

— Você vai gritar por bem ou por mal, ELENA!

Gorgocchi então cravou uma faca na perna esquerda de Lucy, que automaticamente gritou, causando risos histéricos no assassino. Aquele maldito gostava de torturar suas vítimas antes de mata-las de maneira lenta, tudo isso porque ele não pode superar um fora? É isso mesmo? Pobres garotas, o que elas tiveram de passar antes de não aguentarem mais as torturas deste monstro?

— ISSO, MINHA QUERIDA! QUE BELO SOM!

Sentia tanto ódio, oh, mas tanto ódio! Seu sangue fervilhava. Como queria arrancar aquele sorriso sádico daquele rosto. Como queria fazê-lo pagar pelo que estava fazendo com ela. E pelo que fez com outras garotas inocentes. Pelo sofrimento de cada uma delas, até a última lágrima.

Um som repentino interrompeu as gargalhadas histéricas de Gorgocchi. Vidro sendo quebrado, alguém invadiu a casa.

— QUEM ESTÁ AÍ?!

Por reflexo, Lucy gritou sem perceber:

— NATSU!!!

Foi imediato. O alçapão foi quebrado e um homem furioso invadiu o porão, avançando para cima do assassino com socos violentos. A intensidade aumentava a cada golpe, até que o homem estivesse ferido o suficiente para ser inofensivo naquele momento. Então, os olhos de Natsu caíram sobre a garota quase desacordada no chão, coberta por machucados, arranhões e uma faca cravada em sua perna. Seu coração falhou uma batida. Não conhecia Lucky muito bem, nem mesmo passara muito tempo com ela, mas cada membro da tripulação era como um familiar para Natsu e jamais perdoaria alguém que fizesse mal à sua família.

— LUCY!

Natsu se virou para atacar novamente o torturador, mas foi surpreendido ao vê-lo de pé, com a mão limpando o sangue de sua mandíbula, e com uma foice apontada para si.

— Eu não vou deixar você tirar Elena de mim, PIRRALHO!

— MALDITO!!

Natsu sacou a adaga de seu bolso e avançou para cima de Gorgocchi como uma besta. Desviava com facilidade dos golpes do assassino e atacava com agilidade, mas Gorgocchi se mostrou habilidoso com a lâmina também, tendo uma ótima defesa.

A luta estava acirrada, Gorgocchi se mostrava mais forte do que aparentava, conseguindo pequenos cortes superficiais em Natsu. Lucy lutava contra a dor alucinante que estava sentindo, calafrios passavam incessantemente por seu corpo enquanto tentava se manter consciente. Ainda não conseguia acreditar que Natsu realmente estava ali por ela. Seria um sonho, seu inimigo ser seu salvador agora? Não conseguia pensar em nada do que aconteceu abordo do Red Lizard, apenas conseguia se sentir grata por ele estar ali por ela. O que teria acontecido se ele não a tivesse encontrado?

— NATSU! LUCKY! TEM ALGUÉM AQUI?! – outras vozes ecoaram aos ouvidos de Lucy.

— GRAY! RÁPIDO!

Tudo parecia estar girando aos olhos de Lucy, sua percepção já estava afeada, seria a perda de sangue? Conseguiu ver quatro vultos correndo ao porão, reconhecendo Loki e Gray, não conseguiu ver direito o terceiro homem pela iluminação fraca e não reconheceu o quarto.

— LUCKY!

Loki correu a seu socorro enquanto Gray e Jellal (agora o via melhor, por se aproximar da luz) se juntavam a Natsu na luta contra Gorgocchi.

— Lucky! Fique acordada, por favor! – Loki implorava enquanto cortava as cordas que a prendiam na cadeira, aparando seu corpo quando seu peso caiu livre das amarras.

— Loki...

— Precisamos estancar o sangramento rápido. – o quarto rapaz se aproximou dela, rasgando parte do tecido de seu casaco, pronto para improvisar uma atadura.

— Quem-

— Shh – ele a silenciou. – Economize energia.

— Zeref, depressa!

A essa altura, Gorgocchi já havia sido derrotado pelos três rapazes e ao ver que Natsu continuava a soca-lo, prestes a mata-lo, Lucy gritou:

— PARA!

Os três congelaram seus movimentos, mas ainda seguravam firme Gorgocchi. Natsu virou lentamente seu olhar para ela, inicialmente inconformado por ela ordenar isso, mesmo depois do que aquele homem fizera a ela, mas se freou ao se deparar com aquela chama em seu olhar, olhos com sede de sangue, uma garota que não conhecia.

— Lucky-

— O que fez com os corpos?

A garota fez um esforço sobre humano para se levantar, com a ajuda de Loki, que a encarava surpreso, assim como todos no recinto. Cambaleante, ela se dirigiu sozinha até seu torturador, sem nenhum tipo de apoio, ainda com a lâmina cravada em sua perna e um brilho mortal em seus olhos.

— Onde estão os corpos?!

Mesmo com o rosto completamente desfigurado da surra que levara de Natsu, Gray e Jellal, aquele homem ainda teve a audácia de sorrir para Lucy.

— Nunca vai encontrá-los, mocinha.

Perdendo o resto de paciência que lhe sobrava, Lucy arrancou a lâmina de sua perna, sem expressão nenhuma e a pressionou contra a garganta de Gorgocchi, um pequeno fio de sangue começa a escorrer.

— Quantas?

— Dezenas.

Então o corpo de Gorgocchi cai inerte no chão frio. Não, Lucy não cortou sua garganta, não se transformaria em uma assassina como ele. Morto, as garotas permaneceriam desaparecidas para sempre; Vivo, daria a chance das famílias darem uma despedida digna para suas filhas, então, usando o resto da força que tinha e ignorando completamente todas as dores no corpo, Lucy lhe desferiu um chute no rosto, assim como sua paixão não correspondida fez com ele outrora. E então, suas forças se esvaíram, caindo desacordada, sendo socorrida por Natsu antes que seu corpo atingisse o chão.

— Lucky...

Novos barulhos chegaram aos ouvidos dos rapazes e rapidamente Zeref atirou a peruca de Natsu que encontrou caída na rua para o dono enquanto os oficiais revistavam a casa e os encontraram no porão.

Não foi fácil explicar a situação, Zeref inventou que a garota era sua prima que havia acabado de desaparecer e que os rapazes eram os únicos que encontrou nas ruas que aceitaram ajudar nas buscas. Natsu não foi reconhecido pelos soldados graças ao rápido disfarce, mas ficou intrigado com a conveniência de sua chegada naquela hora. Decidiu ir para o lado de fora da casa para respirar ar puro enquanto Gorgocchi era preso e Lucky recebia tratamentos de primeiros socorros. Ficara feliz de seu sinal ter sido recebido por seus amigos, agora que tinha seu cachecol novamente em mãos, mas como os soldados descobriram?

Foi então que um barulho de medalhas chamou sua atenção. No fim da rua, a cigana se escondia parcialmente atrás de uma parede com um sorriso vitorioso nos lábios. Então era isso. Cana o seguiu e alertou os soldados mais próximos quando Natsu descobriu o paradeiro da garota.

— Como descobriu que ela estava aqui? – Gray se juntou a Natsu na escadaria do prédio.

— Encontrei as algemas dela perto daqui. Esses prédios parecem abandonados há algum tempo, menos esse aqui, além de que a vedação parecia um pouco reforçada demais pra uma simples residência. O lugar perfeito pra matar alguém.

Ficaram em silêncio por um momento, até que Natsu decidiu se pronunciar de novo.

— Lucky estava vestida igual àquela garota da foto, que cara doente.

— Provavelmente foi o mesmo com as outras. É tão difícil assim superar um pé na bunda?

— Me pergunto quem será essa tal de Elena.

— Elena Arteria. – Zeref se juntou a eles. – Já foi uma de minhas alunas. Uma garota bem cabeça dura, mas muito talentosa. Se casou há mais ou menos um ano e deixou o país. Acho que os desaparecimentos começaram pouco depois disso.

— E você nunca ligou os pontos, imbecil?!

— Não é como se eu saísse muito pela cidade. – se defendeu. – Não reparava muito nos cartazes e não conhecia nenhum dos nomes das vítimas. Mas tem razão, se eu tivesse me atentado a esse fato, isso tudo poderia ter sido evitado.

— O que importa é que acabou, a cidade pode dormir em paz agora. – Gray se levantou e se espreguiçou. – E eu também. Vou voltar pro navio. Alguém devia falar com o Loki, ele ainda está se culpando pelo que aconteceu com a Lucky, não sou bom com palavras, então, quer fazer as honras capitão?

— Lucky? – Zeref questionou.

— Nossa garota.

— É, combina com ela.

[...]

Dois dias se passaram desde o incidente com Gorgocchi, Lucy ainda estava desacordada, mas fora de perigo, para o alívio de Loki, Gray e Jellal. A tripulação ficou chocada com o estado da loira quando foi trazia ao Red Lizard cheia de bandagens e curativos, com exceção de Gajeel, que fazia questão de afirmar o quanto a garota era fraca, mas até mesmo ele teve que calar a boca quando Loki e Jellal contaram o que aconteceu naquele porão. A garota era imprudente, mas era mais forte do que parecia, não a subestimaria tanto agora. Loki fazia questão de passar o máximo de tempo que podia com ela, ainda se culpava pelo que aconteceu à amiga, mesmo com Natsu conversando com ele a respeito. A compensaria pelo que passou quando estivesse melhor.

Era bom ter Zeref abordo também. Além de um grande conhecimento aparentemente sobre tudo, estava se mostrando um bom médico. Aos poucos os olhos de Lucy foram se abrindo e se depararam com o rapaz trocando um curativo em sua testa.

— Oh, já acordou? Como se sente? É uma garota muito forte, estou impressionado.

Ela ainda estava um pouco atordoada e a claridade do ambiente incomodava os olhos, sem falar na dor de cabeça quase insuportável.

— Quem... é-

— Zeref Dragneel. Irmão de criação de Natsu e Gray. Você é famosa Lucky, hum?

— S-Sim.

Após alguns segundos tentando se acostumar com a claridade, Lucy continuou.

— Minha cabeça dói.

— Isso é normal, depois do que você passou. Não se preocupe, seus ferimentos mais sérios já foram tratados, vai ficar bem.

— Natsu te arrastou pra cá também?

Zeref sorriu com a pergunta.

— Digamos que foi mais você quem me arrastou para cá do que ele.

— Como assim? AI! – sobressaltou ao sentir uma fisgada na perna quando se mexeu.

— Calma, não faça movimentos bruscos. Natsu me fez uma oferta tentadora, mas foi a preocupação dele com você quem me convenceu. Devia ter visto como ele ficou desesperado enquanto te procurava, chegou a assustar até Jellal! Me fez perceber que, mesmo sendo um pirata, ele ainda é uma boa pessoa, por isso decidi me juntar a vocês.

— Eu... não entendo. Estou grata por ele ter me salvado, mas... Me traz para cá contra minha vontade, fica indiferente se estou sendo bem tratada ou não, depois age com gentileza, para depois mandar me acorrentarem no porão, aí salva minha vida. Natsu é estranho.

— É mesmo? Parece que terei que ter uma conversinha com meu irmão então. Agora descanse, Lucky. Aliás, seu apelido faz bastante jus a você, se ele tivesse demorado mais para te encontrar, provavelmente não teria sobrevivido.

Lucy não respondeu o comentário, ainda incerta de como se sentir a respeito do capitão, mas segurou Zeref pela barra da camisa antes que ele se levantasse.

— Obrigada por cuidar de mim.

[...]

Zeref entrou a toda velocidade e marchou até a mesa de Natsu com chamas nos olhos que fizeram o rosado rever toda sua vida num piscar de olhos, quase caindo de sua cadeira pelo susto.

— QUE PORRA É ESSA?!

— QUE?!

ZEREF XINGANDO!?

— Que história é essa de que Lucky não está aqui por vontade própria?! E tudo o que ela me falou! O que você fez, Natsu?!

— Ah... Isso...

Natsu coçava a nuca enquanto tentava encontrar uma maneira de explicar a situação ao irmão. Tinha seus motivos, mas não podia revelar ainda, nem mesmo a Zeref ou Gray, por enquanto. Pensava bem em suas palavras para que não falasse o que não deveria.

— Olha Zeref, preciso que confie em mim, vou te contar na hora certa, eu prometo. E não se preocupe, sei que exagerei quanto a ela.

— Depois do que vi em Margaret, quero acreditar que você é uma boa pessoa, mas ouvir isso dela me fez querer arrancar suas tripas, Natsu. É bom que seja um ótimo motivo, mas preciso que me fale algo convincente agora para que não socar sua cara agora mesmo.

— Certo, calma! Me escute e então pode me socar no momento que quiser. No momento em que pus meus olhos nela, senti que já a tinha visto em algum lugar e sabia que Magnólia não era o lugar dela. Ela tinha alegria no olhar, mas também um reprimido desejo por aventura. Por mais. E depois que vi seu potencial, decidi que a levaria comigo. Eu tive que fazer isso. E por mais que ela se mostre irritada aqui, ainda não me arrependo de minha decisão. Eu vejo o jeito como ela olha para o oceano quando está no convés, os olhos dela são mais vivos do que naquele vilarejo portuário. Zeref, sei que estou sendo duro com ela e vou fazê-la muito feliz aqui, mas antes, vou torna-la forte.

Zeref estava sem palavras diante de Natsu Dragneel. Chegara a formar o punho, mas baixou em algum momento antes que percebesse. Não parava nunca de se surpreender com o irmão. Ainda não sabia o que pensar sobre isso, mas só tinha apenas um pensamento em mente: Natsu era interessante. E estranho.

[...]

Já era noite quando Lucy finalmente conseguiu se levantar. Usava muletas agora para não forçar o ferimento da perna e se dirigiu ao convés do Red Lizard. A noite estava maravilhosamente estrelada naquele dia e não conteve o sorriso ao admirar aquela obra de arte magnifica, a luz da lua sendo refletida no mar manso. Pela primeira vez, pode se sentir realmente feliz por estar naquele navio, ou não teria a oportunidade de ter aquela vista espetacular. Respirou fundo fechando os olhos quando a brisa marítima agitou seu cabelo e seu vestido novo, o decote em canoa e a saia com aquela fenda lateral a faziam se sentir muito mais a vontade consigo mesma do que aqueles vestidos cheios de babados que sua tia lhe forçava a usar.

Tão logo a brisa diminuiu e Lucy abriu os olhos novamente, avisando a figura que tanto hesitava em encontrar, mas precisavam conversar, não é? Juntando toda a coragem que tinha, a garota se dirigiu ao capitão do navio.

— Natsu?

— Oh Lucky? Que bom que já consegue andar. Como se sente?

— Não vai me repreender por eu ter tentado fugir?

— Preciso?

— ...Não.

— Desculpe ter forçado tanto a barra com você. Eu ia deixar você sair, acompanhada lógico, mas depois que trouxesse roupas pra você. Não podíamos chamar atenção e suas roupas, no estado que estavam, faziam exatamente o contrário. Sei que não iria aceitar numa boa se eu simplesmente tivesse mandado ficar no navio.

— Obrigada por ter ido atrás de mim e me salvado mesmo assim. Sei que fui descuidada, mas me senti forçada a isso. Eu não te entendo Natsu, em um momento você é terrível, depois é legal comigo, então me trata como uma escrava, depois é legal comigo novamente, o que está acontecendo?

Natsu suspirou.

— Eu precisava ver até onde você ia. Você se mostrou bastante paciente, isso é bom, mas esperava ver um pouco mais cedo mais da guerreira que conheci no porto e me frustrava toda essa passividade com que você aceitava que te tratassem. Nunca a vi como uma garotinha indefesa, Lucky, achava que poderia se defender sozinha desses caras.

— Eles são muito mais fortes do que eu. Gajeel acabaria comigo em um segundo se eu tentasse alguma coisa.

— Mas você me enfrentou. E enfrentou um psicopata mesmo com uma faca cravada na perna. E o que a faz pensar que algum desses caras pode comigo?

Lucy ficou estática por um momento.

— Nenhum... deles?

— Talvez Gray tenha ganhado algumas vezes, mas você nunca ouviu isso de mim, tudo bem?

Lucy riu com o comentário bobo. Era a primeira vez que se sentia a vontade para rir com o capitão. A sensação era boa, mas ainda havia algo a incomodando.

— Natsu... Eu quero voltar à Magnólia, minha família está esperando.

— Não pode.

— Mas por que? Ainda não entendo o motivo de eu estar aqui. Meus parentes devem estar muito preocupados comigo!

— Você não pode voltar à Magnólia!

— O que está dizendo? Por quê?!

Natsu ficou em silêncio, seus olhos agora estavam vagos, o brilho havia desaparecido. Não queria ter essa conversa, não agora.

— Natsu... Você me chamou de Lucy antes naquele porão. Por quê? – perguntou apreensiva.

Natsu arregalou os olhos. Não havia se dado conta disso, como pode ter sido tão descuidado?! Agora era tarde demais.

— Eu sei o seu segredo, Lucy Heartphilia.

Notas finais
Wow, capítulo meio tenso, não? Os personagens citados nesse capítulo pertencem à One-Shot Magic Party, do segundo volume de Mashima En. Inicialmente eu queria fazer o Gorgocchi fiel ao personagem maluco do mangá, mas minha melhor amiga estava me bombardeando com músicas do KLB e não resisti rs Vidaaaa devolva minhas fantasiaaas, meu sonho de viver a vidaaaaa, devolva meu aaaaar, aí surgiu esse Gorgocchi psicopata de coração partido. Se alguém se interessar, segue um link da one-shot, só não achei ela em português: https://mangadex.org/chapter/136651/1 E aí gente, segredos parcialmente revelados! Teorias? Até o próximo capítulo!