Master of Tides
15 Palavra ou Guerra
Notas iniciais
— Eu não gosto nada disso, Invel.
De braços cruzados, a futura rainha observava de longe a tripulação trabalhar em seu navio. Mas não era necessariamente para os marujos que a albina olhava, mas sim para uma dupla em particular. Natsu e Lucy treinavam com espadas na praia. Faziam duelos breves e então o rapaz os parava, sempre colocando a garota em check, para dar alguma orientação de movimento e então continuar de onde pararam. Estes estrangeiros não são inofensivos, são uma ameaça em potencial para o povo de Galuna.
— Em breve partirão majestade. Meus homens estão acompanhando os reparos, trabalham rapidamente. Além disso, os irmãos Strauss estão de olho neles. Qualquer movimento diferente, nós saberemos.
— Muito bem. Mas ainda não gosto da ideia de estarem aqui, ainda mais de Yukino estar tão interessada neles.
— Acha que ela tentará envolve-los em nossa questão?
— Yukino não entende. Acha que eles podem ser a solução, mas ela não sabe de nada, e prefiro que continue assim. Eles são de Fiore, acredita? Isso não pode ser coincidência.
— Ordenarei que reforcem a vigilância, tanto para os estrangeiros quanto para a princesa Yukino, a segurança dela deve vir em primeiro lugar.
Sorano se virou para o conselheiro e suspirou, agora com um ar mais temeroso.
— Acha que estou sendo super protetora, colocando vigias para minha irmã?
— Majestade, é para o bem dela, não se preocupe com isso.
— Obrigada por compreender, Invel.
— Sempre farei de tudo por Galuna, minha princesa.
[...]
De uma pequena caverna, do alto do vulcão adormecido, os irmãos Strauss observavam a tripulação trabalhando, bem como o capitão e a jovem loira treinando golpes na praia. Seus olhos em fendas enxergavam perfeitamente cada detalhe a quilômetros de distância, desde as movimentações no convés do navio até os movimentos que os dois faziam com as espadas. Eles são bons.
Lisanna estava impressionada com o empenho dos dois em batalha, estavam treinando desde que o sol nasceu sem interrupções e não aparentavam estar cansados, pelo menos não o quanto uma pessoa normal estaria com esses exercícios. Elfman já estava mais interessado nos movimentos dos mesmos, ambos tinham uma resposta incrível a cada ofensiva, era empolgante de se ver. Já Mirajane observava tudo com um semblante sério e braços cruzados.
— O que acham?
— O capitão tem uma ótima balestra, mas a loirinha tem uma boa resposta. Estou empolgado, quero lutar com eles!
— E que energia! Eles são interessantes, gostei! Aquele capitão é uma gracinha, não acha?
— Elfman, Lisanna, não se esqueçam de que esses estrangeiros são de Fiore. Não confio neles. Aquele maldito rei deve tê-los enviado para cá, devem ser espiões, não baixem a guarda.
— Sim irmã. – ambos responderam em uníssono, sérios.
— Elfman, quero que fique de olho na tripulação, Lisanna, você fica de olho na loirinha, eu cuido do capitão. Qualquer movimento estranho me informe imediatamente. Lembrem-se: nosso dever é proteger o sangue da lua a qualquer custo.
— Sim!
[...]
Parece que o treino de Natsu e Lucy era o grande evento do dia. Era visível que a população estava interessada no que eles faziam. Algumas crianças assistiam ao longe empolgadas com o que viam, até tentavam imitar, sem grande sucesso. Moradores que passavam por lá, em algum momento viravam o rosto para a partida, ora aprovando, ora repudiando, a atenção era toda deles. E os galunianos não eram os únicos observando o treino. Loki, especificamente, não conseguia tirar os olhos de Lucy.
Vê-la lutando e se defendendo com tanto empenho o deixou nostálgico. Lembrava de quando treinavam juntos, quando eram crianças. De quando passavam horas nas colinas de Magnólia correndo com suas espadas de madeira e levando bronca do velho Makarov pelo modo desajeitado como levavam os treinos. Da primeira vez que Lucy o derrotou. Foi pouco antes de se separarem.
“- Ahá! Finalmente você está onde eu queria! – a garotinha sorria com superioridade ao ter o ruivo aos seus pés no topo da colina. – Finalmente você está aos meus pés. Agora beije minha espada, para selar minha vitória!
— Olha só como ela ficou convencida! – o ruivo riu. – Mas não vá se acostumando, foi um golpe de sorte, Lucky.
— Sorte nada! Você baixou a guarda e eu aproveitei! – ela estendeu a mão para ajuda-lo a se levantar, e ele prontamente aceitou.
— Eu deixei você ganhar.
— Deixou nada! Aceite logo sua derrota!
— Apenas desta vez, loirinha. Não vai acontecer de novo.”
Ela cresceu tanto... Tanto que já era claro que não precisava mais que ele a protegesse. Poderia ainda ser útil a ela? Sua querida amiga de infância já não precisava mais dele. Vendo que sua presença não acrescentaria nada naquele treino, Loki voltou ao navio para trabalhar nos reparos.
[...]
— Mais rápido, Lucky!
— Estou me movendo o mais rápido que posso!
— Tem que fazer melhor do que isso – num movimento rápido, a espada de Natsu já estava novamente contra a garganta de Lucy. – Se esta fosse uma luta séria, já estaria morta. De novo!
Lucy se afastou do capitão e respirou fundo, tentando se concentrar nas dicas recebidas durante o treino. Mantenha o foco. Preveja os movimentos do inimigo. Use o ambiente a seu favor. Era uma tarefa difícil, ela até poderia ter bons movimentos e reflexos, mas Natsu era claramente muito mais experiente que ela. Devia ter se metido nas mais diversas dificuldades para saber lutar tão bem assim. Eles tinham apenas dois anos de diferença de idade, por que se sentia como uma criança lutando contra um adulto?
Ela deu alguns passos para trás e sentiu os respingos do mar atingindo seus tornozelos, era tudo que precisava para limpar a mente e continuar com o treino. Lucy girou as pernas rapidamente chutando água salgada na direção dos olhos de Dragneel. Uma brecha. No momento em que Natsu protegeu seus olhos da água, Lucy atacou, e pela primeira vez, era a espada dela que estava contra o pescoço do capitão.
— Muito bem Lucky. Esta é a sua primeira vitória, será que consegue mais uma?
Se posicionaram então para mais um combate, mas este não chegou a acontecer.
— Capitão Dragneel? Lucky? Poderiam vir comigo, por favor? – a segunda princesa apareceu acompanhada de um soldado, interrompendo o treino. – Tem uma pessoa que eu gostaria de apresentar a vocês.
— Claro, princesa.
Por um caminho tortuoso pela montanha, eles subiram até um pequeno templo de mármore e cristal. O ar era ainda mais puro naquele local, em meio ao campo de flores da lua, curiosamente abertas em plena luz do dia. Um lugar realmente sagrado.
— Tirem seus sapatos, por favor.
Adiante, no centro do templo, havia uma garota em oração. Uma menina de aproximadamente 13 anos sussurrava preces que Natsu e Lucy não podiam entender, mas não tiravam os olhos da garota, impressionados. E não era o cabelo completamente albino de realeza que a menina possuía ou a aura celestial que irradiava que os prendia, mas sim as orelhas e o rabo de gato.
Recitando suas últimas palavras, a garota então se vira para os visitantes e se sobressalta.
— Ora ora.
A princesa tomou a frente e fez uma breve reverência à garota, Natsu e Lucy repetiram o gesto. A menina correspondeu o gesto.
— Obrigada por me receber, Charlie. – e se virou para os estrangeiros. – Natsu, Lucky, quero que conheçam a Charlie, a oráculo de Galuna.
Lucky?
— É um prazer, senhorita Charlie. – Natsu se adiantou. – Somos-
— Natsu Dragneel e Lucky Heartphilia, estou certa? – a menina se dirigiu a eles com fascínio. – Eu sei. Sei tudo sobre vocês e a tripulação.
Ela parou diante de Lucy e a observou por um momento, demorando mais em seu colar, que não estava a vista no momento, tocando sua corrente com cuidado.
Conseguiu a benção dela... Você é incrível, Lucy.
Então voltou seu olhar para Natsu, tocando levemente seu rosto e seus cabelos. São tão parecidos... Que nostálgico. – Por favor, sentem-se, e aceitem um chá. Já faz muito tempo desde a última vez que vi um estrangeiro aqui em Galuna, é um prazer conhece-los.
— Fala nossa língua.
— Oh sim. – Yukino interrompeu. – Oficialmente, agora vocês conhecem todos os galunianos que falam sua língua. Foi a própria Charlie que ensinou para mim, Sorano, Invel, Mirajane, Elfman e Lisanna quando éramos crianças.
— Espera um momento! Quando eram crianças?! Mas- Lucy interrompeu e pediu desculpas imediatamente quando se deu conta. – Perdoem-me, mas senhorita Charlie, você parece tão jovem...
— Não se preocupe, estou acostumada com isso. E me chame apenas de Charlie. – ela sorriu. – Como oráculo, escolhida pela própria Mother, com a missão de guiar seu povo com sua luz divina, me foi concedida a vida eterna. Logo, estou aqui desde o começo.
— Nossa, isso é...
— Incrível-
— Solitário. – Natsu e Lucy falaram juntos, Lucy tapando seus lábios logo em seguida. O que está havendo?! Por que estou dizendo essas coisas?!
— Está tudo bem. Os galunianos são minha família, logo, nunca estou sozinha.
— Perdoe-me Charlie! Não sei por que estou agindo assim! Eu-
— Se acalme – a oráculo riu. – Não é sua culpa. Está vendo estes cristais? – ela apontou para os diversos sinos de vento e candelabros espalhados pelo templo. – Este lugar é sagrado. Eles fazem com o que está oculto seja revelado.
A brisa tocou os cristais, revelando seus tons suaves e sonoras notas musicais.
— Perdoe-me a indiscrição, mas quem é Mother? – Natsu indagou.
— Nossa deusa mãe, a Lua. Nossa criadora e protetora.
— Somos seus descendentes, ela merece um nome especial. – Yukino sorriu.
— Como podem ver, não é de nosso feitio receber estrangeiros em Galuna...
“Há muito tempo, num mundo onde o feral e o humano guerreavam em meio a trevas e insanidade, houve uma mulher que desejava um filho. Bela, poderosa, pura e intocável. Lua desejava ser mãe, mas não havia ninguém que a fizesse mulher. Seu desejo era tamanho que realizou um acordo com uma humana e lhe realizou um desejo em troca do primeiro filho que ela viria a ter.
Um menino de carne e osso nasceu. Filho de uma deusa. Uma criança mortal. Uma criatura indefesa e inocente, que não poderia ser embalada pelos braços de sua mãe.
Desesperada pela proteção de seu filho, Lua se projetou no mar e fez um acordo com as criaturas que habitavam a ilha onde seu filho se encontrava. Elas o protegeriam e a Lua faria o mesmo por eles, mandando sua mais fiel escudeira à ilha, oferecendo-lhes uma barreira.
E assim, o pequeno Haru cresceu, sob a proteção das feras, do mar e dos céus. Livre da ganância da humanidade, num mundo onde todos tentavam domar sua faísca, ele manteve seu fogo queimando brilhante, escondido, pegando o brilho de estrelas cadentes quando o céu se escurecia.
Um dia, surgiu nas areias da praia uma garota vinda de outros oceanos. Sua beleza encantou o garoto que nunca havia encontrado um ser semelhante a si. Ela, por sua vez, ficou fascinada por seus cabelos brancos e pele pálida. Ele parecia tão belo e tão frágil que poderia quebrar com um simples toque. Uma raridade. Único.
Acreditando ter conhecido o amor, Haru fez de tudo por ela, porém, suas intenções para com ele não podiam ser mais sujas. Ela era uma comerciante de escravos, e desejava vender o garoto ao continente por um alto preço. Não apenas isso, o usaria como refém e assim, tomaria as criaturas protetoras da ilha como escravas.
Ao descobrir suas intenções, sofrendo pelo perigo que seu filho corria, a Lua chorou e uma única lágrima atingiu a terra.
Seu sofrimento elevou a fúria de Ophiuchus, a serpente protetora dos mares, destruiu o navio pirata onde o garoto estava. As criaturas libertas o guiaram até a terra onde ele estaria a salvo e a barreira se fecharia novamente.
Por anos, houve várias tentativas de invasão do povo do continente à Ilha, e todas fracassaram, pois a serpente lia os corações dos que se aproximavam. Até que um dia, uma jovem a deriva conseguiu passar. Elie não buscava nada menos do que proteção contra os humanos que tentaram escraviza-la e ela foi acolhida pela ilha como uma galuniana. Ela possuía um coração puro e um espírito forte e livre, e tendo a aprovação da Lua, ela se tornaria a primeira rainha de Galuna, ao lado de seu filho.
Com a benção das estrelas, eles tiveram descendentes, sendo eu, a escolhida para guia-los a um futuro de paz.
Em respeito à rainha, a barreira se abriria apenas para pessoas bem intencionadas, e assim, a população de Galuna se formou.”
— Em todos esses anos, pouquíssimos estrangeiros atravessaram a barreira. O último que esteve aqui foi um pouco mais de 200 anos.
— É uma história fascinante. – comentou Lucy.
— Concordo, mas não entendo onde querem chegar.
— Natsu?
— A Princesa Sorano já deixou mais do que claro que nossa presença aqui é indesejada. Há muitos galunianos que também fazem questão de nos lembrar disso. Então, princesa Yukino, por que nos trouxe até aqui e nos contou tudo isso?
A princesa e a oráculo trocaram olhares. A princesa tomou a palavra.
— Galuna sempre foi uma terra pacífica, mas...
A população cresceu muito em pouco tempo. Os recursos de uma ilha são limitados, e nos últimos anos, iniciaram-se disputas por territórios com as criaturas da floresta. A comida está ficando escassa e os pescadores não conseguem trazer uma quantidade de peixes suficiente para todos. Se continuarmos neste ritmo, Galuna estará fadada a destruição.
— O que quer de nós, princesa?
— Quero que convençam minha irmã a firmar um acordo comercial com o continente.
[...]
A fim de conhecer melhor seus alvos, Elfman se aproximou da tripulação que trabalhava nos reparos do casco do navio. Apesar de não falarem o mesmo idioma, conseguiam se entender bem com os galunianos que ajudavam através de gestos e sinais. Estavam fazendo um bom progresso e até então, não havia nada de diferente, até que algo chamou sua atenção.
Um dos homens do continente, em sua pausa, tirou de um barril uma bebida dourada que nunca havia visto, e o homem pareceu bem satisfeito após dar o primeiro gole. Interessante.
— Ei, estrangeiro! – Gajeel parou o que estava fazendo e se virou para o homem com um olhar desafiante. – O que é isso?
— O que? Tá falando da cerveja?
— Parece bom. Me dá um gole disso aí.
Gajeel achou graça ao ver um homem daquele tamanho ficando tão vermelho e empolgado após terminar a primeira caneca.
— Há há! Isso é coisa de homem!
— É mesmo? Não tá parecendo muito estando vermelho desse jeito.
— Está me desafiando, estrangeiro?
— Cai dentro, lunático!
E os dois começaram uma competição de bebidas que perdeu o controle facilmente.
[...]
— Está pedindo algo muito complicado, Yukino. – Lucy começou temerosa. – Não temos influência em Fiore para intermediar negociações – sem falar que seremos presos imediatamente se entrarmos em contato com o governo. Mas isso ela não disse. – E a primeira princesa parece bem decidida a manter o contato conosco o menor possível.
— Por que você mesma não consegue convencer sua irmã? – Natsu perguntou ainda sério. – O que está tornando ela tão irredutível?
— Sorano acredita que a proteção de Mother nos bastará. Faremos uma grande oferenda a ela no festival da Lua que acontecerá em uma semana e rezar para que sejamos agraciados novamente. Diz que os estrangeiros não são dignos de negociar conosco, e o fato de ninguém atravessar a barreira em tantos é a prova disso. Devemos nos manter protegidos dentro da barreira, como Mother sempre quis que seu povo estivesse. Mas ela está errada! – se exaltou. – Vocês estão aqui! Atravessaram a barreira! É um sinal de que há pessoas boas lá fora! Ainda há esperança – Yukino desaba em lágrimas e é amparada por Charlie. – Por que ela não consegue ver bondade nos outros? O que o continente pode ter feito de tão grave para que ela prefira deixar nosso povo morrer a negociar com eles?! Não consigo entender!
— Princesa...
— Eu não sei mais o que fazer para salvar meu povo. – ela suspirou, enxugando suas lágrimas – Vocês são minha última esperança.
“Encontrem a garota que carrega o mundo nos ombros”
— Está bem. Vamos ajuda-la.
— É mesmo?! – Yukino se exaltou novamente. Foi de encontro ao capitão e a garota num abraço forte. Charlie sorriu ao ver sua menina tão feliz. — Oh Natsu, muito obrigada! Eu não sei nem como-
— Mas tenho uma condição.
— Natsu...
— E o que seria?
— Quero que me contem tudo o que sabem sobre Igneel Dragneel.
Yukino se sobressaltou assombrada.
IGNEEL?! Como é possível?! Como sabem disso?! COMO?!
Charlie nada disse em momento nenhum, mas o ar mudou completamente dentro daquele santuário. Estava pesado. Estava denso. E Charlie nunca teve um semblante tão sério.
— Está bem. – ela respondeu. – Afinal, é para isso que está aqui, não é mesmo? Natsu Dragneel.
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