Master of Tides
16 Festival da Lua
Notas iniciais
“Igneel era um homem que mostrava interesse em tudo o que lhe era estranho. Um amante do mar. Um homem que construía seu próprio destino e o último estrangeiro a pisar em Galuna. Um homem divertido, galante e sonhador.
A princesa Cocona o acolheu em nossas terras como um convidado e ele logo se aproximou dela.
Durante os dias em que esteve aqui, Igneel e Cocona se tornaram grandes amigos, para o pesadelo do rei. Corriam pela ilha, exploravam cavernas, compartilhavam sonhos, e ele até serviu para colocar um pouco de juízo na cabeça daquela desmiolada, que ainda tinha tanto o que aprender sobre a vida, até que o fatídico dia chegou.
O dia da coroação da princesa Cocona.
Naquela noite, a Lua brilhava cheia sobre nós, com uma belíssima luz púrpura. O povo estava em festa, e Cocona estava mais bela do que nunca, porém, havia algo de errado com ela. Seu sorriso era incerto.
Na noite anterior, Igneel a levou para um passeio pelas montanhas e Cocona retornou sozinha, sem sua alegria habitual. Acreditávamos que era porque seu grande amigo partiria no dia seguinte, após a coroação, mas havia algo a mais, algo que ela não havia contado para ninguém.
Durante o ritual, diante do passado e do futuro, Mother irradiou seu sinal, presenteando sua descendente com sua presença em espírito, renovando mais uma vez o antigo voto. Porém, assim que o ritual foi consolidado, um castigo celestial caiu sobre a rainha Cocona.
Suas antenas desapareceram e sua alma deixou de ser divina, tornando-se apenas uma mera humana. Cocona fora abandonada pela Lua e pelos espíritos celestiais que a protegiam, pois havia acabado de cometer a mais alta das traições: entregou o tesouro de Galuna para um estrangeiro, que fugiu da Ilha logo em seguida.
Igneel desonrou Galuna, e desde então, nenhum outro estrangeiro fora bem vindo nessas terras.”
Natsu e Lucy ouviam atônitos a narrativa.
Não estavam apenas seguindo os passos da pessoa que desonrou a Ilha, mas estavam diante da realeza, no local mais sagrado de Galuna. Estavam de mãos atadas.
O que vão fazer?
— É bem compreensível que não sejamos bem vindos aqui. – Lucy murmurou.
— Agora que tem essa informação, o que vão fazer? – Charlie indagou ainda séria.
Eles nada responderam de imediato.
Yukino, agora nervosa diante da mudança de rumo, se dirigiu ao capitão.
— Vocês... Estão seguindo os passos de Igneel?
— Sim, princesa.
Ela teve um sobressalto.
— Estamos seguindo o diário de bordo de Igneel e esta ilha está naquelas páginas, por isso estamos aqui. Mas muito de seu conteúdo se perdeu com o tempo, por isso precisava descobrir qual era sua relação com Galuna. Não se preocupe princesa, dou minha palavra de que não faremos mal a nenhum cidadão de Galuna, isso eu garanto. — Dragneel afirmou com firmeza.
A albina, ainda insegura, buscou a sacerdotisa com o olhar, em busca de respostas. Charlie então suspirou e tomou a princesa pelas mãos.
— Alteza, acreditar ou não na palavra deles cabe apenas a você, mas devo lembra-la de que estão em solo sagrado e que não podem mentir aqui.
— Ainda pode confiar em nós, Yukino? – Lucy perguntou incerta.
— ...Sim. Ophiuchus deixou vocês passarem. Ainda acredito que Mother os mandou para cá para salvar nossa ilha.
— Não acho que sejamos tão especiais. – Lucy ponderou. – Mas faremos o possível para ajuda-la. Estamos todos bem graças a você, Yukino.
— Oh, o que está dizendo, eu é que devo minha vida a vocês!
A partir de então, a conversa se tornou mais leve e fluida. Falaram de Galuna, de seus hábitos e também sobre Fiore. Quanto mais ouvia sobre o continente, mais confiante ficava de que esta seria a solução para os problemas da Ilha. A doçura de Lucy também fazia com que se apegasse cada vez mais aos estrangeiros. Natsu e Lucy também estavam mais a vontade e agora conversavam com as albinas como se fossem velhos amigos, e assim se seguiu pelo resto da manhã.
— Charlie, você é impressionante! Gostaria de apresenta-la a meu irmão numa próxima oportunidade, aposto que ele te faria tantas perguntas, que suas orelhas cairiam!
— Seria aquele rapaz moreno que ajudou a cuidar de Yukino e que vive enfurnado na biblioteca de seu navio?
— Ele mesmo!
— Pois traga-o na próxima vez! Vou adorar conhece-lo e a cigana também!
Ela era mesmo impressionante, em nenhum momento haviam mencionado Cana.
— Agora devem ir. Nos veremos em breve.
Conforme desciam a montanha, Yukino portava-se com uma garota normal, sem um título de realeza, apenas uma garota que ria e cantarolava como a muito não fazia. O soldado que os esperou o tempo todo do lado de fora do templo estava impressionado com o comportamento da princesa e se perguntava o que acontecera que a deixara tão feliz. Então chegaram numa encruzilhada.
— Nos separamos aqui. – ela então se voltou para a floresta que beirava o caminho. – Mirajane, pode sair. Sei que está aí.
A albina desceu de um galho alto e pousou com graciosidade no chão de pedra, com um semblante sério e logo fez uma reverência para a princesa.
— Acompanhe Natsu e Lucky de volta até o navio, preciso ver minha irmã agora.
— Sim alteza.
Yukino seguiu seu caminho então junto do soltado ainda cantarolando, deixando os estrangeiros sozinhos com a líder dos irmãos Strauss.
— Mirajane, não é? Conto com você. – Lucy sorriu para a albina, que não esboçou reação nenhuma.
— Como pode ver, não fizemos nada com a princesa, pode relaxar.
— Veremos, Dragneel – ela respondeu gélida. – Vamos logo e não se dirijam a mim.
Eles engoliram seco, mas seguiram a albina em silêncio até o navio. Seu semblante permaneceu irredutível o caminho todo até mudar para uma expressão completamente chocada ao chegar ao navio, se deparando com Elfman bêbado disputando uma queda de braço com um brutamontes coberto de piercings, tão bêbado quanto. E pior, vários galunianos na torcida e fazendo apostas, juntamente com os estrangeiros, como se fossem amigos de longa data.
O que está acontecendo aqui?!
[...]
Os dias iam se passando rapidamente em Galuna e chegara a véspera da coroação da princesa Sorano. Coincidentemente, também era véspera da Purpura Luna. O posicionamento dos galunianos quanto aos piratas ficava cada vez mais claro. Agora, os que eram a favor ou não tinham nada contra a presença dos estrangeiros da ilha interagiam pacificamente com eles, até arriscavam aprender algumas palavras e vice versa, e aqueles que eram contra a presença deles, também faziam questão de demonstrar e manter distância.
Natsu e Lucy treinavam todas as manhãs nas praias, sob vigilância constante dos irmãos Strauss, e à tarde, o capitão voltava ao navio para ajudar nos reparos, enquanto que Lucy voltava para companhia de Yukino, conforme combinado.
O clima estava um pouco tenso entre a tripulação pelo lento avanço de Zeref na tradução do diário, mas não o pressionavam, sabiam que ele estava dando o seu melhor no trabalho, passando dias inteiros pesquisando.
Zeref e Cana foram apresentados oficialmente a Charlie e a reação do moreno foi exatamente a esperada. Zeref tinha tantas perguntas que mal podia se conter, anotava as informações como um aluno que assistia a uma aula incrível. O clima estava bastante agradável no pequeno santuário e isso estava incomodando alguns membros da realeza.
Mira observava a conversa de longe com a ajuda de seus poderes demoníacos, ao lado da primeira princesa, no palácio real.
— Eu não gosto disso, eles estão abusando da liberdade conversando assim de maneira tão leviana com a sacerdotisa. Não é um sacrilégio? Devo interferir?
— Por mais que eu também não esteja feliz com essa situação, ninguém pode impedir Charlie de nada. Apesar de não ter poderes de governança, o desejo dela está acima de mim. Se for da vontade dela interagir com os estrangeiros, então assim ela o fará, sem impedimentos. Não devemos interferir a não ser que os estrangeiros ataquem.
Mira franziu o cenho e se voltou novamente para o santuário, onde Cana colocava diante de Charlie as cartas da roda da fortuna, da justiça e do sumo sacerdote.
[...]
Lucy acabara seu treino com Natsu e agora seguia para o palácio de pedra. Estava cansada, mas satisfeita, já estava vendo os resultados de seus esforços.
Um farfalhar vindo da copa de uma árvore chamou sua atenção.
— Booooa tarde Lucky!
— Lisanna?!
A albina saltou em sua frente e se entrelaçou no pescoço da loira, quase levando as duas ao chão.
— E-EI!
— Ah, desculpe, me empolguei! É que, sabe? Venho observando você faz alguns dias, você é muito interessante, Lucky! Suas habilidades com a espada melhoraram muito desde que chegou aqui. Incrível que sempre que você se machuca, parece se recuperar bem assim que pisa na água. – Lucy não havia percebido até Lisanna mencionar. Ela estava certa. Haveria alguma coisa na água? – Quero lutar com você alguma vez antes de vocês irem embora, aceita?
— Ah, claro. – Começou meio incerta. – Seria bom lutar com alguém que não sei do que é capaz. – Se animou.
— Ótimo! Aliás, você vai ao Festival da Lua amanhã?
— Não sei se deveria... Yukino convidou a mim e toda tripulação, mas também será a coroação da princesa Sorano. É um dia especial para ela e não quero estragar isso. Não somos bem vindos por ela e por parte da população, entendemos o motivo. Você disse que vinha me observando, deve saber que conversei com a sacerdotisa.
— Sim, eu sei. – ela respondeu com um sorriso triste. – É muito bonito da sua parte considerar os sentimentos da princesa Sorano, mas e os da princesa Yukino? Vocês não são amigas?
— É por isso que não sei o que fazer. Não quero magoá-la, mas também é uma situação complicada.
— Entendo.
— Aliás, Lisanna. Por que está sendo legal comigo? Elfman também já fez amigos entre a tripulação e Mirajane deu uma bela bronca nele por isso. Você não vai se encrencar também?
Lisanna riu e convidou Lucy para se sentar junto a ela em um muro de pedras baixo, com vista para o mar.
— Não se preocupe com isso. Minha irmã é apenas super protetora, mas não é má pessoa. Ela só que cuidar de nós, seus irmãos e moradores da ilha. Estivemos de olho em vocês desde o começo e não os considero mais uma ameaça, mas como líder dos guardiões do sangue da Lua, ela não pode se dar ao luxo de baixar a guarda.
— É mesmo? Sempre achei ela bastante dedicada aos galunianos, mas não sabia desse lado maternal dela.
— Bom, ela tem sido como uma mãe para mim e para o Elfman desde que éramos crianças. Éramos muito pequenos quando nossos pais saíram para uma expedição e nunca mais voltaram, então Mira deixou de lado seu papel de irmã mais velha para se tornar nossa mãe. Nossa família é responsável pela segurança da família real há gerações, então Mira assumiu o papel de protetora duas vezes.
— Deve ter sido difícil.
— Sim. Eu a admiro muito. Ela é uma grande guerreira, e também uma grande irmã e mãe, por isso, por favor, não pense mal dela quando ela estiver sendo dura demais com vocês. É difícil para ela ceder quando teve de ser forte a vida inteira.
— Nunca pensei mal dela, não se preocupe. Você tem sorte te ter uma irmã como ela.
— Tenho, não é? – Lisanna sorriu amavelmente. Lucy sorriu também. O sorriso de Lisanna era tão quente e aconchegante, lhe lembrava o sorriso de sua prima Michelle. A saudade começou a apertar e antes que as lágrimas chegassem aos olhos, Lucy mudou de assunto.
— Ah, me diz uma coisa. Por que o cabelo de todos da ilha tem um tom meio azulado, amarelado ou até mesmo avermelhado misturado nos fios brancos, e apenas vocês, as princesas e a sacerdotisa tem cabelos inteiramente brancos?
— Porque somos descendentes diretos da linhagem da Mother, é uma característica do sangue real. Já reparou que às vezes a lua está amarelada, azulada ou avermelhada? A maioria dos galunianos é influenciada no nascimento por esses momentos da lua, mas como temos linhagem real, esses momentos não nos influenciam, apenas o mais puro branco. Há também outras pessoas com cabelos inteiramente brancos da ilha, como a Touka e alguns sacerdotes, todos eles estão ligados à família real.
“A princesa Sorano e a princesa Yukino são filhas da Lua e abençoadas pelas estrelas. As constelações as protegem, especialmente a de Gêmeos e Libra, que são suas constelações regentes. Na noite em que nasceram, a lua cheia brilhava como nunca, assim como as constelações. Os espíritos estelares sorriam para nós.
A família Agria é a linhagem da Lua e os Strauss foram incumbidos pela própria Mother de proteger o sangue real, desde a primeira geração, tendo como testemunha a sacerdotisa real, que nos acompanha até hoje.”
— Que lindo! Elas tem mesmo um brilho diferente!
— Sim, é único! Com certeza elas vão estar ainda mais bonitas amanhã no festival!
— Vocês vão se apresentar? A apresentação de vocês na noite do jantar foi espetacular!
— Você achou? Obrigada! E sim, vamos sim! A cerimônia de coroação será após a apresentação, por favor venha assistir! – Lisanna a segurou pelos braços com olhos pidões.
— Ah, não é justo! É difícil dizer não para esse olhar! – Lucy riu e a abraçou de volta.
— Isso! Sempre funciona! – ela riu sapeca, e então sorriu travessa. – Falando em festival... Você precisa de um par! Você e o capitão formam uma bela dupla quando estão treinando... Tem alguma coisa acontecendo entre vocês? – ela perguntou sugestiva.
— Eu e Natsu?! Não, não! Somos só amigos e, ei! Que cara de decepção é essa?!
— Está falando sério?! Não sente nada quando aqueles braços fortes te abraçam sempre que ele vai te ensinar um movimento novo ou quando te pega no ar quando está prestes a cair?!
— LISANNA!
— Ah, que pena. – Lucy começa a gaguejar desculpas, tropeçando nas palavras enquanto seu rosto esquentava cada vez mais. – É por causa daquele ruivo?
— Hã? O que tem o Loki?
— Vi vocês conversando algumas vezes, vocês parecem próximos. Ele te observa muito enquanto você e o capitão treinam, sabia? Ele parece se importar muito com você.
— Somos amigos de infância. Ele sempre cuidou muito de mim, e não mudou nada com o passar do tempo.
— É mesmo? Poxa vida, tantos homens bonitos na sua volta e você só vê todos como amigos! – apertou as bochechas agora rubras de Lucy – Fico me perguntando se alguém já roubou seu coração ou se você é inocente demais.
— Lisanna! – Lucy já não conseguia aguentar mais de vergonha. – Não é nada disso! – Escondeu o rosto entre as mãos. – Minha vida virou de cabeça para baixo nos últimos tempos, não é como se eu tivesse tempo para pensar em romance...
— Ah, Lucky... – A albina a abraçou de novo. – Tudo bem, estou apenas te provocando, não leve tão a sério. Você fica muito fofa quando está com vergonha, sabia?
— Aaah! – Escondeu o rosto novamente de vergonha.
[...]
O dia da coroação chegou.
Toda a parte urbana da ilha estava decorada para o festival que estava prestes a começar. Tochas e flores decoravam a praça central onde havia barracas com comida, jogos para crianças e um palco estava montado. Os últimos minutos de luz do sol pintavam o céu com tons de vermelho e laranja e quando o sol desaparecesse no oceano completamente, se iniciaria o tão esperado Festival da Lua.
A tripulação do Red Lizard estava reunida na cabine do capitão. Chegara a data pela qual tanto ansiavam: a Purpura Luna. Mas não havia boas notícias.
Zeref não conseguiu decifrar o diário. A página do diário que dizia a importância da Purpura Luna para a jornada estava quase que completamente ilegível. O clima estava bastante pesado na cabine, o moreno não se atrevia a encarar a tripulação.
— Chegou a grande noite, não é? – Natsu começou com um tom pesado.
— Sinto muito, pessoal. Fiz tudo o que estava ao meu alcance, mas isso é impossível. A página que deveria dizer a importância do dia de hoje está praticamente em branco, com as poucas letras que sobraram, completamente borradas. Também não consegui descobrir o que é a Moon Drip. Desculpe decepcionar todos vocês.
— Está tudo bem, Zeref. – Lucy se aproximou dele, colocando sua mão em seu ombro. – Nós encontramos Galuna, isso por si só já não é incrível? Descobrimos que não é apenas uma lenda! Pessoas reais vivem aqui, com sua própria cultura.
Zeref nada disse, apenas continuou com o semblante baixo.
— E também foi divertido! – ela continuou. – Chegar até aqui foi como um sonho! Se não fosse por vocês, eu provavelmente nunca teria saído daquela pequena vila. – e talvez estivesse morta, pensou. – Eu nunca me senti tão viva.
— Obrigado Lucky, mas isso não diminui em nada meu pesar. Sinto muito, eu realmente achei que conseguiria. Sinto muito. Sinto muito.
— Ei ei, calma aí. – Jellal interrompeu. – Sabemos que deu o seu melhor. Desde o início, todos nós sabíamos dos riscos, que era uma viagem quase impossível. Fomos mais longe do que eu realmente acreditava que conseguiríamos chegar. Está tudo bem.
— Jellal está certo. – Gray continuou. – E depois de tantos dias de trabalho duro, temos um festival para aproveitar. Vamos aproveitar nossa última noite, não?
— Sim. – Natsu prosseguiu. – E sabemos que Igneel esteve aqui durante a coroação de uma princesa, assim como nós. Vamos Zeref, não desanime, pode ser que a data esteja relacionada a esse evento, não? Vamos ao festival, nos divertir e ver se descobrimos alguma coisa, tudo bem? Mesmo que não consigamos, foi uma ótima aventura. A gente decide o que fazer depois que tudo acabar, está bem?
Zeref suspirou. Sabia que por trás de palavras reconfortantes, todos estavam decepcionados por chegarem a um beco sem saída. Todos os esforços haviam sido em vão. Todos os riscos por nada. Ele sabia que isso não era bem verdade, mas a frustração o impedia de ver qualquer ponto positivo nessa situação.
— Podem ir na frente, quero ficar sozinho agora. Mais tarde eu apareço.
— Tem certeza?
— Sim, nos vemos mais tarde.
— Muito bem, pessoal. – Natsu se pronunciou. – Esta é nossa última noite em Galuna. Todos se esforçaram bastante nos últimos dias, então vamos aproveitar e nos divertir um pouco antes de irmos embora.
A tripulação deixou a sala com um gosto amargo na garganta. Apesar das palavras gentis, esse era o fim de um sonho, para todos.
[...]
Galuna estava em festa. Ouviam-se conversas, risos e música para todos os lados. As tochas iluminavam a noite, servas do palácio real andavam por todos os lados com bandejas de comida e servindo sucos, água e vinho para a população. Crianças corriam em meio à multidão com brinquedos de corda e madeira. No palco, músicos se apresentavam com canções folclóricas enquanto a população dançava na praça conforme a música, e em pontos estratégicos, alguns homens e mulheres com máscaras animalescas mantinham uma postura firme, observando a população. Era a guarda real.
Em um camarote, preparado especialmente para a ocasião, havia três cadeiras prontas para receber as princesas e a sacerdotisa real, as grandes estrelas da noite, com vista para a praça onde o Festival da Lua acontecia e também para o altar montado para a grande oferenda para Mother, que seria realizada durante o ato da coroação. Tudo estava ocorrendo perfeitamente bem, como o planejado.
Chegando discretamente por um canto, a loira observava o festival com fascínio. Levou o caminho inteiro para digerir que a viagem havia acabado e começava a se recompor e agora já se sentia melhor ao ver todas aquelas pessoas felizes. Sua intenção era ser o mais discreta possível, para não deixar a Primeira Princesa desconfortável, mas seu plano foi por água a baixo completamente quando a população colocou os olhos nela. Estava linda com os trajes tribais que a princesa Yukino emprestou para ela (e para toda a tripulação), com uma grande fenda em sua saia revelando as pernas torneadas e boa parte de sua pele, já que o tecido para a parte de cima cobria apenas os seios, dando a volta em seu pescoço, formando um laço. Os cabelos trançados com uma flor lateral a davam um charme a mais, impossível de desviar os olhos. Lucy não se sentia desconfortável com a roupa que usava, nem com a quantidade de pele exposta, estava uma noite quente, afinal, mas devia admitir que tantos olhares sobre si era embaraçoso. O que tinha de tão chamativo ela estar vestida assim? Todas as mulheres estavam com trajes parecidos!
Antes que os rapazes se aproximassem da loira, uma mão se estendeu para ela, a tirando de seus devaneios.
— Está linda como sempre, Lucy.
— Obrigada Loki. – ela aceitou o convite, segurando sua mão.
Ele a guiou até a praça principal, onde aceitaram prontamente alguns petiscos que estavam sendo servidos. Tentavam ser discretos, mas Lucy estava linda demais naquela noite para não chamar atenção, muitas pessoas ainda olhavam para eles, ora com fascínio, ora com desgosto, e vendo que tentar ser discreto não estava adiantando em nada, Loki decidiu deixar esse plano de lado e tirou a garota para dançar. O navio já estava pronto e esta era a última noite na ilha, não teriam seu objetivo de viagem cumprido, mas pelo menos deveriam aproveitar.
Em meio à multidão, ele a rodopiava em sincronia com a música, arrancando risos da loira. Isso lhes traziam lembranças. Era como no primeiro festival das cerejeiras arco-íris que estiveram. Lucy continuava tão encantadora quanto antes, mesmo sem o vestido que a incomodava tanto, ela sempre foi a garota mais bonita da festa aos olhos de Loki. Os dois dançavam juntos como um simples casal se divertindo num festival, sem preocupações, problemas ou julgamentos e nada mais importava para eles no momento.
Ao longe, outra pessoa se juntava ao Festival da Lua. O Capitão Natsu Dragneel exibia todo seu físico com as roupas que lhe foram cedidas pela Segunda Princesa, chamando atenção de muitas garotas da ilha. Sabia que era bonito, já precisou tirar vantagem de sua aparência algumas vezes para conseguir algumas coisas na vida, mas todos aqueles olhares sobre si estavam inflando seu ego. Será que Lucy o olharia assim também quando o encontrasse? Seria interessante de ver.
Ao contrário da loira e do ruivo, Natsu não estava preocupado em não chamar atenção, sabia desde o começo que isso seria impossível, então caminhou confiante até a praça principal, observando atentamente ao redor, mas de maneira discreta, para saber se haveria alguma pista naquele festival sobre a Purpura Luna ou a Moon Drip. Não, ele não havia desistido. Não ainda. Logo ele foi rodeado por garotas coradas querendo ter a honra de ter uma dança com ele. Seu ego não poderia estar mais inflado. Aliás, poderia, faltava um olhar que ele gostaria de ver. Onde está Lucy? A chamaria para dançar quando a visse. Foram dias árduos de treinamento e reparos, mas essa noite gostaria de se divertir com ela. Queria segurá-la em seus braços numa dança em vez de numa luta, a noite estava linda demais para ser desperdiçada.
Mas quando seus olhos a encontraram nos braços de ninguém menos do que Loki, dançando feliz como se apenas os dois existissem no mundo, foi como se mil pedras estivessem dentro de seu estômago. Não é como se tivessem combinado alguma coisa, mas poderia jurar que ela seria sua parceira esta noite, estavam ficando tão próximos ultimamente... Soltou então o ar que não havia percebido que estava segurando. Não devia ter tomado esse pensamento como uma garantia e Loki tem uma história com ela, isso era apenas natural... Então por que esse desconforto não ia embora? Deveria ser apenas o ego ferido mesmo...
Fingindo que não viu nada, voltou-se novamente para as garotas que tanto queriam sua atenção. Era isso, não deixaria sua noite ser arruinada por seu ego ferido, havia dezenas de garotas ali, não precisaria ser necessariamente Lucy-
— E aí capitão! – Sting se pendurou em seu pescoço. – Que noite, não? Olha só quantas garotas lindas, o que me diz de eu te pagar aquela promessa? Quem sabe não melhore as coisas...
Ah, aquela promessa que ele fez no calor do momento enquanto passavam pelos rochedos no mar. Claro, por que não? Estava claro no olhar daquelas garotas que elas o queriam. Mas então olhou novamente de relance na direção de Lucy, vendo o ruivo a girar novamente em seus braços, colando as costas da garota ao seu peito, seu braço esquerdo na cintura dela e o braço direito dela na nuca dele, enquanto sorriam um para o outro. Mais uma pedra em seu estômago. De repente havia perdido qualquer interesse naquelas garotas.
— Quem sabe outra hora.
O capitão se afasta e direção a uma serva que servia vinho a algumas pessoas. Precisava de uma bebida, agora.
[...]
Yukino estava deslumbrante naquela noite. Lisanna estava certa, os membros da família real tinham mesmo um brilho especial. Naquela noite, em especial, Yukino estava mais linda do que nunca, sua pele parecia brilhar sob a luz da lua.
Ainda não era hora da cerimônia, ela tinha algum tempo para aproveitar o festival antes de se posicionar ao lado de sua irmã. Seu acompanhante não era ninguém menos do que o homem que salvou sua vida, Rogue. Não estava sendo fácil para ele estar no meio de todo aquele agito, tinha de admitir, não gostava de multidões e também não era o maior fã de festas, ainda mais depois do que acontecera no navio mais cedo, mas ela estava tão empolgada quando o convidou que era impossível recusar, ainda mais ela estando tão linda e sorridente quanto agora, por isso, deixava ser arrastado por ela para qualquer canto que fosse.
Logo alcançaram Lucy e Loki e imediatamente abraçou a amiga enquanto Rogue suspirou aliviado e estar em meio a conhecidos agora.
— Eu sabia que você ia ficar linda com essa roupa, Lucky, olha só esse corpo!
— Obrigada Yukino! Você está maravilhosa!
— Obrigada! – Yukino sorriu e olhou de relance para o companheiro, corando levemente.
A atenção de todos foi voltada para o palco quando a música se encerrou, uma salva de palmas para os músicos, e então, Mirajane, Lisanna e Touka subiram ao palco. Assim como Yukino, as albinas estavam igualmente lindas. Lucy sorriu ao ver Lisanna no palco e esta retribuiu o sorriso.
Após uma breve reverência ao público, as vozes ressoaram pela praça e novas danças recomeçaram, mas Lucy e Loki não dançaram dessa vez, permanecendo abraçados apreciando o show, ao lado de Yukino e Rogue. Lucy estava muito feliz e orgulhosa de si mesma, ao ter algumas aulas do idioma nativo com Yukino, conseguia compreender muito melhor agora as músicas que as albinas cantavam, não todas as palavras, obviamente, mas tinha uma grande facilidade para aprender, esse talento estava vindo a calhar.
Em noites quentes, quando a lua se elevar e as estrelas brilharem no céu
Dê uma volta pelas margens e deixe a música te guiar
Siga o caminho para ti mostrado e respire fundo,
Pelas ruas, pelas luzes, até o salão de festas!
Plantamos as sementes e preparamos o solo e as redes,
Rezamos por chuva e por sol,
Mas agora chegou a hora de festejar, vida nova ao luar!
Junte-se a dança, escolha um par e deixe os problemas para trás,
Dançaremos até o sol raiar, pegue minha mão para começar!
Yukino riu, e se deixando levar pela música, arrastou Rogue novamente por entre a multidão, acenando para Lucy até perder a garota de vista. Lucy ia se voltar novamente para o palco, mas Loki a puxou para mais uma dança antes da apresentação se encerrar, e esta aceitou prontamente.
Alguns minutos mais tarde, após algumas músicas, as albinas encerraram a apresentação anunciando a chegada da Primeira Princesa.
Todos pararam o que estavam fazendo para se voltar para as escadarias, fazendo uma reverência à princesa que chegava acompanhada de seu conselheiro Invel. Sorano estava esplêndida. O vestido longo azul marinho com plumas a valorizavam tanto a ponto de parecer um anjo. Estava digna de uma rainha.
Logo tomou sua posição na cadeira reservada para ela e o festival continuou. Não estranhou a ausência de Yukino, afinal, sabia o quanto ela gostava desses festivais e deveria estar se divertindo em meio à multidão como sempre fez. Logo ela apareceria e dariam início a cerimônia.
Mirajane e Lisanna desceram do palco e deixaram sua companheira assumir o resto da apresentação, como combinado, Mirajane recolocando sua máscara de demônio de volta no rosto, pronta para reassumir sua posição de guarda real, mas Lisanna não a seguiu de imediato. Antes de recolocar sua máscara de tigre, ela percebeu que o capitão estava sozinho em um canto do festival. Não poderia deixar esta oportunidade passar e se dirigiu ao rapaz.
— Boa noite capitão, aproveitando o festival?
— Lisanna. – ele a cumprimentou com um aceno de cabeça. – Foi uma ótima música.
— Obrigada... Capitão, por acaso você não está acompanhado? Achei que viria com a Lucky, mas ela estava dançando com aquele rapaz ruivo até agora a pouco...
— Não combinamos de vir juntos. Ela pode dançar com quem ela quiser.
Lisanna segurou o sorriso travesso que queria surgir em seu rosto com essa resposta seca do rapaz. Ele poderia não ter percebido, mas havia uma pontinha de ciúmes em sua resposta e isso animou a albina. Era uma romântica incorrigível.
— É mesmo, está certo. E você também, capitão, pode dançar com quem quiser, então por que está parado aqui? Não me diga que-
— O que está querendo dizer?
— Nada não! Olha só, parece que o dever me chama, divirta-se capitão!
— Ei!
Mas a albina já havia se afastado segurando o riso, deixando o rapaz confuso e levemente irritado para trás. Foi então ao encontro de sua irmã, que já se encontrava em posição no camarote das irmãs Agria. A cutucando com um sorriso sapeca, ela se aproximou.
— Ei irmã, pode deixar que eu assumo aqui. Todos já se divertiram pelo menos um pouco, menos você!
— O que está dizendo, Lisanna?! Temos um dever a cumprir!
— Relaxe Mirajane. – Sorano interviu – Vá se divertir um pouco, ainda temos tempo. Não se preocupe, confio no trabalho de Lisanna e temos toda a guarda real em posição esta noite, vá dançar!
— Mas-
— E não começaremos enquanto Yukino não aparecer. Sei que ela deve estar se divertindo em algum lugar deste festival. Até que ela volte, vá se divertir. Tem trabalhado tão duro ultimamente!
Vendo que eram duas contra uma, Mirajane se deu por vencida, deixando sua máscara de demônio de lado e se dirigindo à praça principal, agora se sentindo levemente acanhada. Fazia tempo que não fazia algo do tipo, tudo bem baixar a guarda um pouco? Apenas por alguns minutos? Como é que se fazia isso mesmo?
Ela começou a dançar sozinha, aos poucos se deixando levar pelo ritmo da música, se soltando e mostrando a bela mulher que era, por trás de toda aquela postura inflexível. Seus movimentos eram leves e sedutores, seus cabelos dançando ao redor de si. Logo não havia mais sinal daquela mulher rígida, apenas uma garota dançando com uma expressão serena em seu rosto. Após algum tempo, ela então se deu conta de que estava rodeada de rapazes que a olhavam com expectativa e desejo. A grande Mirajane, bela, dançando livre e desacompanhada? Quando teriam uma oportunidade como essa novamente? De repente se sentiu acanhada e corou levemente com a situação. Isso não era bom. Desconfortável.
— E-EI... Se afastem, por favor.
— Ora, quem diria que a Demônio Mirajane sabia dançar assim.
— E-Eu-
— Dança comigo.
— Não, comigo!
— Ei! – Ela começou a se irritar. – Eu já disse que-
— Ela não quer. Deixem a garota em paz. – Natsu interferiu, segurando com força o braço de um rapaz que estava para agarrar a albina.
— Quem você pensa que é para nos dar ordens, estrangeiro?!
— Parem com isso! – Mirajane não estava feliz com a ideia de estar sendo defendida por Natsu Dragneel, mas foi nobre da parte dele e sentia que neste momento, apenas neste momento, deveria tomar o lado dele. – Os estrangeiros são convidados especiais da Princesa Yukino, devem ser tratados como tais.
Engolindo seco e nada satisfeitos com esta resposta, os rapazes se afastaram.
— O-Obrigada.
— Não há de que. Eu disse não queria o mal para os Galunianos, isso inclui essas situações. Farei isso novamente se vir alguém forçando uma pessoa a fazer algo que não quer.
A albina sentiu seu coração dar um leve salto com a resposta. Talvez o capitão do Red Lizard não seja tão ruim assim.
— Ok. Conto com você.
O rapaz acenou e sorriu para ela, mas seu ânimo se abalou novamente ao ver de relance Lucy e Loki tão próximos no mirante. Natsu se afastou novamente, decidido que a diversão do festival havia acabado e era hora de focar em seu objetivo inicial: procurar pistas sobre a Purpura Luna.
[...]
Loki e Lucy sorriam com a vista a frente. Era tão nostálgico, apenas os dois numa colina, observando um festival acontecer logo abaixo. Tomada pela nostalgia, Lucy apoiou sua cabeça no ombro de Loki.
— O tempo passou tão rápido...
— Sim, você nem parece mais aquela garotinha que se escondia atrás de mim quando alguém te perturbava em Hargeon...
— Não sou mais uma garotinha indefesa. – Ela disse com orgulho, fazendo pose de heroína, mas em vez de arrancar um riso dele, como esperava, arrancou um sorriso triste. Loki?
— Tem razão. Você não é mais uma garotinha que precisa de proteção. – Ele colocou uma mecha de seu cabelo atrás da orelha, acariciando de leve seu rosto, fazendo a garota corar. – Agora já é uma mulher formada, forte, independente. Quando foi que isso tudo aconteceu?
— Loki?
— O que vai fazer depois que sair daqui? Voltar para Hargeon? Começar uma vida nova? Você é incrível, Lucy, tenho certeza de que vai ter sucesso no que escolher...
— Loki, o que-
A lembrança da loira treinando com o capitão lhe veio à mente com um gosto amargo. Ela estava tão forte, tão destemida, tão...
— Ou será que... No fim, você vai escolher o capitão?
— Loki, o que está dizendo?!
O ruivo mergulhou a cabeça no pescoço de Lucy. A loira o recebeu em choque, sem saber como responder a essas perguntas. O que havia dado nele? Como o clima entre eles mudou tão de repente?
— Quando nos conhecemos, — ele recomeçou – você era tão frágil, tão delicada... Eu sempre quis te proteger e jurei fazer isso desde então... Você não sabe o quanto eu fiquei preocupado com você, esses anos todos em que estivemos separados, me perguntando se você estava bem, se estava segura.
Ela começou a acariciar seus cabelos numa tentativa de confortá-lo, ainda sem saber como reagir. Havia tanta dor em sua voz. Loki estava sofrendo assim há tanto tempo? Como ela não havia percebido isso?
— Nós treinamos juntos quando crianças e fiquei orgulhoso de você quando se defendeu no navio. Quando lutou com Gajeel. Quando treinou com Natsu... Você estava incrível, Lucy, tão forte! – ele a abraçou com força, o rosto ainda enterrado em seu pescoço. – Tão forte que não precisa mais de proteção.
— Loki, eu-
— Eu sempre soube que este dia chegaria. O dia em que você não precisaria mais de mim para te proteger. Sempre soube. Eu estou orgulhoso de você, de verdade... Mas por que me sinto tão horrível?
Lucy arregalou os olhos ao sentir lágrimas em seu ombro. O desespero tomou conta.
— LOKI, NÃO É NADA DISSO! EU-
A conversa foi interrompida por gritos vindos da praça principal. Ambos se separaram rapidamente assustados ao sentir uma onda de choque e o céu imediatamente se iluminar em tons de magenta e violeta. A lua havia se tornado púrpura. Mas o que era mais chocante não era a forma da lua, e sim a imagem de Yukino inconsciente nos braços de um soldado, enquanto Rogue estava rendido no chão amordaçado e ferido. Soldados da guarda real apontavam suas armas para a tripulação da Red Lizard, enquanto Invel apontava acusadoramente para Natsu perante Sorano.
O que está acontecendo?!!
[...]
Red Lizard, minutos antes
Zeref não havia ido ao festival. Ainda estava se martirizando por não descobrir o objetivo da ilha na viagem. Sentia que estava tão perto, que lhe faltava tão pouco para descobrir o que precisava, mas o que não estava olhando? O que estava deixando passar?
Já havia lido o diário diversas vezes, era claro que era um destino importante para a viagem e que precisava conseguir alguma coisa nesta ilha, nesta data, mas o que? Já tentara ler de outras maneiras, procurar outros sentidos para as frases, outras traduções, mas sempre se deparava com o beco sem saída que era aquela página praticamente em branco.
O cansaço finalmente estava vencendo, suspirou se apoiando em uma estante, deixando o diário de lado e agora observando o pequeno cristal que Charlie havia lhe dado quando a visitou em seu santuário. Ela disse que lhe seria útil para a viagem, mas no que exatamente isso ajudaria? Já tentou analisa-lo de algumas maneiras, mas lhe parecia apenas um cristal comum. Não ajudou muito perguntar para a sacerdotisa, já que ela apenas lhe sorriu desafiando-o a descobrir por conta própria.
Chega disso tudo, queria apenas recuperar todas as horas de sono perdidas em busca dos significados ocultos do diário, mas antes, ainda precisava resolver uma questão.
— Pode sair, sei que está aí, cigana.
— Não deveria estar no festival, nerd? – ela saiu da sombra de uma estante.
— Digo o mesmo. O que está impedindo uma pessoa tão festiva quanto você de ir a um evento como esse? O que está escondendo?
— Meu destino não está naquele evento, mas aqui. Minhas cartas assim disseram, e elas nunca erram.
— Cartas? – ele desdenhou. – Você pode ter acertado sobre Galuna, mas não acredito em seus métodos. Sou um homem da ciência, faço uso de probabilidades, cálculos, métodos científicos. Adivinhação não é um caminho se não uma fantasia baseada em sorte.
— É mesmo? – agora ela desdenhou. – mas fora os meus métodos que nos trouxe tão longe, diferente dos seus.
Ela se aproximou perigosamente dele, sustentando o olhar desafiador. Com os dedos roçando-lhe o queixo e os lábios quase se tocando, ela sussurrou.
— Precisa abrir sua mente, Zeref. Para seguir com esta viagem, precisa ver além do que considera lógico. Realidades diferentes da sua também são realidades.
Ela deu um passo para trás ao sentir uma lâmina tocar sua barriga. Zeref a ameaçava com um punhal.
— Pare de gracinhas e diga logo o que quer.
Cana então assumiu um semblante sério. Chega de rodeios.
— Tem alguma coisa errada. Quando chegamos nesta ilha, minhas cartas disseram para encontrarmos a garota que carrega o mundo nos ombros. É uma pessoa chave para nosso objetivo aqui. Pelo que o capitão e Lucky disseram após aquele encontro com a sacerdotisa, assumimos que fosse a princesa Yukino.
— Sim, pelo que ela contou a eles, faz sentido.
— Mas não pode ser ela. Tenho certeza de que já encontramos esta pessoa, pois visões mostram um futuro onde continuamos esta viagem, mas quando jogo minhas cartas sobre Yukino, o destino dela não está ligado ao nosso. Não quando se trata desta viagem, pelo menos.
— Então estivemos este tempo todo de olho na pessoa errada?
— Exatamente. Não acho que tenha sido ruim nos aproximarmos dela, mas ela não é a pessoa chave para nosso objetivo aqui.
— E você sabe qual é o nosso objetivo em Galuna?! – ele se exaltou irritado com todo este tempo perdido.
— Não. Como já disse ao capitão, eu não tenho respostas, apenas visões. Uso minhas cartas para indicar caminhos a partir delas, mas apenas meus métodos não são o bastante para esta situação.
— O que está querendo dizer?
— Que eu tenho o abstrato e você a forma. Se queremos que esta viagem dê certo, precisamos trabalhar juntos.
O moreno estava pronto para rebater essa afirmação, mas engoliu as palavras quando a onda de choque abalou o navio e a cor púrpura iluminou a biblioteca pela janela.
Purpura Luna.
O choque derrubou alguns livros da estante, um deles sendo o diário, que caiu no chão iluminado com a luz do luar, aberto com a página quase em branco voltada para eles. Mas havia algo de diferente agora.
— Mas o que é isso?
A página possuía um brilho, mas era possível distinguir o que viam, então um estalo veio à cabeça de Zeref, que olhou imediatamente para o cristal dado por Charlie.
— Seria assim tão simples...?
Ele aproximou o cristal da página e ambos arregalaram os olhos com o que viram.
— Mas o que?!
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