Master of Tides
12 Herança da Lua
Notas iniciais
Duas crianças corriam por entre as ruas tomadas por barracas, iluminadas por luminárias coloridas e pessoas trajando suas melhores vestes. Risos, e conversas animadas enchiam a noite que começava a cair em Hargeon. Aquela era uma noite especial para a cidade, o tão esperado festival das cerejeiras arco-íris havia começado e ficar em casa não fazia parte dos planos de ninguém. As duas crianças estavam mais empolgadas do que qualquer pessoa naquela noite, seria o primeiro festival da cerejeira dos dois. Buscavam brechas entre a multidão durante a corrida e o menino estava com a vantagem.
— Loki, não é justo! – a menina gritou, tentando alcançá-lo. – Suas roupas são muito mais leves que as minhas!
— Ah, mas você está tão bonitinha nesse vestido, Lucky.
— Tente correr com uma saia de sete quilos!
Logo chegariam ao mirante onde poderiam ter uma vista privilegiada das cerejeiras que já começavam a se acender em um brilhante arco-íris. O lugar era bastante disputado naquela noite, ainda mais porque a cidade estava cheia de turistas. Só mais um pouco. Mais um pouco e Loki ganharia a corrida.
Até que a garota tropeça na barra de seu vestido.
— Ai! – o garoto reclamou de dor ao ter seu corpo esmagado pela menina, indo ao chão junto dela. Loki havia se lançado em sua frente para que ela não se machucasse, abandonando completamente a aposta. Foi tudo muito rápido, seus reflexos eram muito aguçados e por mais que fosse competitivo, jamais deixaria a segurança da mais nova ser comprometida. Faria de tudo para protegê-la.
— Loki! Você se machucou! – a menina se assustou ao ver os joelhos e braços ralados, além da roupa novinha suja de terra e grama. – Não devia ter feito isso! – falou com a voz embargada e lágrimas nos olhos. Loki havia se machucado por sua culpa.
— Ei Lucy! Não chore! – o ruivo acariciou o rosto da menina. – Eu jamais permitiria que você se machucasse. Isso não é nada, eu sempre vou proteger você.
O ruivo então acordou. Deu uma rápida olhada em volta e suspirou. Ainda era noite. Fazia tempo que não tinha sonhos, ou pelo menos sonhos dos quais pudesse se lembrar, mas isso não foi bem um sonho, e sim uma lembrança. Sorriu com a sensação de nostalgia que lhe ocorreu e virou-se esperando ver a expressão calma da garota dormindo na rede ao lado. Mas a rede estava vazia. Onde será que Lucy estava àquela hora?
[...]
Lucy se encolhia no convés, ainda tentando entender o que estava acontecendo. Por mais que se esforçasse em tentar lembrar, de nada adiantava, nenhuma memória clara vinha à sua mente, apenas aquela sensação de que lhe era familiar. Mas tinha certeza de que tinha alguma coisa a ver com a chave que possuía. Tinha que ter. Por mais que tivessem formatos e tamanhos bem distintos uma da outra, algo lhe dizia que havia alguma ligação entre as duas.
Para piorar sua situação, quase não possuía memórias do naufrágio de sua família, de onde retornou misteriosamente com a chave que nunca havia visto antes. Os médicos disseram que isso era natural, que o cérebro tem um mecanismo de defesa que, para proteger o indivíduo de um trauma, suas lembranças podem ficar trancadas a sete chaves no subconsciente para que a pessoa possa seguir em frente como se nada tivesse acontecido. Seria de alguém que tentou salvá-la naquele dia? Um tripulante de seu navio? Um marinheiro? Suspirou. Era inútil. Não conseguia se lembrar.
Recostou-se em um caixote e passou a observar o céu, mais precisamente as constelações. Pode enfim relaxar um pouco após alguns minutos olhando para as estrelas, trazia-lhe boas memórias com sua mãe. Em noites lindamente estreladas como esta, Layla Heartphilia gostava de levar a menina para o jardim, para observar o céu noturno. Sempre foi uma paixão das duas e era um hobby maravilhoso entre mãe e filha.
— Por que tanto encara a Aquárius?
Só então Lucy percebeu que não estava sozinha e voltou à realidade.
— Gray?
O rapaz estava no timão naquela noite e encarava a loira com um olhar estranho e curioso.
— Você ficou um tempão estranha e só se acalmou quando começou a encarar essa constelação. Não te interrompi antes porque achei que precisasse de um tempo sozinha.
— Estava me observando?!
— Estou aqui a noite toda, querida. – apontou para o timão.
— Ah... Desculpe.
Gray tirou um pequeno quadrante do bolso e o usou para medir os ângulos entre o horizonte e suas estrelas escolhidas, então moveu o timão em alguns graus. Satisfeito, ele imobilizou o objeto e se juntou à loira.
— Não sabia que entendia de estrelas. – a loira começou.
— O céu é o mapa mais preciso que existe. Não é exatamente a maneira mais fácil de se orientar, mas a navegação por estrelas é fascinante!
— Devo concordar. – ambos ficaram em silêncio por um momento, admirando o céu. – Zeref que te ensinou a ler as estrelas? Natsu também sabe?
— Não. Muito provavelmente ele teria me ensinado se eu tivesse me interessado por isso enquanto ainda vivíamos juntos. Aprendi com minha mestra, Ur, ela me acolheu quando fomos forçados a nos separar pela Invasão de Alvarez.
Lucy se silenciou por um momento. A invasão a Fiore, pelo mar, vinda do Império Alvarez foi um dos episódios mais assustadores de sua vida. Aconteceu quando tinha nove anos de idade, estava morando com tia Spetto e Michelle havia três. Já estava acostumada com a vida em um vilarejo, sem luxos e ostentações, apenas a paz e a simplicidade da vida no campo. No fim de um longo dia de verão, o horizonte foi tomado por navios da marinha de Alvarez e a nação atacou. Os gritos das vítimas ainda ecoam em seus sonhos e todo aquele sangue derramado jamais será esquecido. Lucy ainda desconhece os motivos da invasão e o conflito levou aproximadamente sete dias para ser contido pelo Reino de Fiore, mas foi tarde demais para muitas almas. O litoral de Fiore tem sua história marcada por diversos conflitos ao longo dos tempos. Por isso é tão comum encontrar órfãos vindos destas terras, assim como Natsu, Zeref... E Loki. Lembrou-se então do momento em que conheceu o rapaz, o momento em que sua vida foi salva pelo ruivo pela primeira vez.
— Eu sinto muito, Gray.
— Tudo bem. A invasão nos tirou tanto... Porém, nos deu muitos recomeços.
“Durante a batalha, quando eu estava prestes a ser morto, uma mulher usou o próprio corpo para me salvar. Seu nome era Ur, capitã de um navio mercante. Eu havia me separado de Natsu e dos outros naquela nuvem de fumaça e cinzas e não tinha condições físicas para procura-los, estava quase perdendo a consciência e tinha uma de minhas pernas quebrada. Ur então me carregou até seu navio e zarpou antes que mais alguma coisa acontecesse. Durante meses ela me ensinou como ler mapas, estrelas, cartas de navegação. Ela era uma mulher incrível e uma exímia lutadora também! Me ensinou a lutar e a navegar e foi como uma mãe para mim durante alguns anos. Infelizmente, ela tinha uma saúde frágil e a perdi muito cedo. Natsu e Zeref teriam gostado de conhece-la e ela também teria gostado deles.”
Lucy colocou uma de suas mãos em seu ombro, num gesto de compaixão.
— É uma grande perda, Gray. Mas, acho que ela se orgulharia de você, se o visse hoje. Tem um coração nobre.
— Obrigado Lucky, mas tenho certeza de que levaria uns cascudos por ter me tornado um pirata. – ele riu.
— Sabe do que mais? – ela continuou. – Pelo que eu entendi, você, Natsu e Zeref conviveram juntos por pouco tempo, e ainda assim, se veem como irmãos até hoje, isso é lindo, Gray!
O moreno ruborizou e evitou contato visual com a loira. Isso era um pouco embaraçoso.
— Se os laços são fortes, nem mesmo uma guerra pode destruir um coração.
Os dois ficaram observando as estrelas por algum tempo. Naquela noite, um laço começou a surgir entre os dois.
[...]
Gray se recolheu por volta da meia noite, com Rogue assumindo seu lugar no timão. Lucy pediu para que ele fosse na frente, pois estava sem sono. Também pudera, foi muita informação para ser absorvida em tão pouco tempo, e quanto mais pensava sobre isso, mais perguntas surgiam em sua mente do que respostas.
Então era isso, estavam em busca de um tesouro lendário, com poucas provas da existência, e por algum motivo, sua intuição lhe dava certeza de que tudo aquilo era real e que a chave que carregava consigo desde pequena tinha alguma ligação com isso tudo. Era complicado de aceitar, ainda pela manhã acreditava que contos de fadas não passavam de apenas contos de fadas e agora supostamente estava vivendo um.
Como se não bastasse todas essas mudanças pelas quais passou recentemente.
— Problemas para dormir, Lucky? – Cana se aproximou da loira com uma garrafa e um pandeiro meia lua em mãos.
— Oh, boa noite Cana.
— Aceita um gole? Algo me diz que está precisando.
A loira hesitou um pouco, mas acabou aceitando a garrafa da morena. Se o sono não viria de maneira natural, quem sabe alguma bebida ajudasse, estava contando com sua baixa resistência á álcool pra isso.
— Imagino que tenha muita coisa na sua cabeça agora. Quer me contar alguma coisa? — murmurou, se juntando a mais nova.
— Você sabe o motivo desta viagem, não sabe?
A morena apenas acenou em resposta.
— É difícil de acreditar... Ainda hoje eu não acreditava em contos de fadas e de repente estou arriscando minha vida em busca de um tesouro lendário... Isso é loucura, não é? E é mais loucura ainda minha intuição me dizer que é tudo real.
Cana sorriu.
— Lucky, Lucky... Deveria se abrir um pouco mais ao sobrenatural. Há tantas coisas nesse mundo que não podem ser explicadas simplesmente por ciência e regras humanas. Coisas que estão tão acima de nossa existência e fora do nosso controle. Sua própria vida se deve a isso. A arrogância do homem está em acreditar que a natureza está à sua mercê e não o contrário...
— O que quer dizer?
A cigana sorriu mais uma vez, olhando para a lua como se fossem cumplices. Quero dizer que há muitos mistérios neste mundo e que o seu destino está cheio deles.
— A lua está maravilhosa hoje, não?
Lucy se sentiu um pouco desconfortável por ter sua pergunta ignorada, mas decidiu não insistir.
— Sim, está.
— A lua cheia é bela, majestosa, mas a minguante... Ah, esta nos trás uma calmaria tão grande, como a de uma mãe que está sempre a zelar pelo filho.
— Cana... Me desculpe, mas onde quer chegar?
Cana interrompeu Lucy com um leve movimento do pandeiro. Ela se virou então para a loira com um brilho diferente no olhar, que intrigou a mais nova. Ainda era a mesma Cana em sua frente, mas sua aura não era a mesma. Não era como se houvesse uma garota jovem e boêmia em sua frente, mas uma desconhecida.
— Vou contar uma história para você, minha querida.
O chacoalhar leve do pandeiro indicou o ritmo que deu início à melodia.
Como diz a lenda, fique sempre atenta
À luz azul e cinzenta
Numa noite fria, até chegar o dia,
Uma cigana cantou.
Em sua melodia, doce e sofrida,
Por um marido implorou.
“Terás o seu homem pele morena”
Respondeu do céu, a lua cheia.
“E ele em breve virá vê-la”
“Mas em troca eu quero”
“O seu primogênito, que deste amor nascer”
“Faça o sacrifício, pagamento justo”
“Pelo que vou lhe conceder”
De um homem moreno, nasceu um menino,
Branco como a neve, um albino.
Olhos de safira em vez de esmeralda,
Filho legítimo da lua.
Maldita a criança, “ele é um bastardo!”
“E não vou aceita-lo”
Acreditando ter sido desonrado,
Foi à sua mulher, com a faca na mão.
“De quem é esse menino?” Desespero e gritos.
E a morte a levou.
Subiu então o monte, com o menino em braços,
E ali o abandonou.
E nas noites que há lua cheia,
É porque o menino está bem, sereno em paz,
E se o menino chora,
Minguará a lua, num berço de amor e doçura.
Se o menino chora,
Minguará a lua, num berço de amor e doçura.
Cana finalizou a canção com um chacoalhar mais longo de seu pandeiro.
Lucy estava sem palavras, não apenas pela música, uma lenda cruel sobre as fases da lua, mas porque Cana parecia uma pessoa completamente diferente enquanto entoava suas palavras. E assim, que encerrou a melodia, a atmosfera voltou a ser a mesma. Cana voltou a ser a mesma. Mas ela não parecia em transe ou fora de si em algum momento, aquela também era Cana. Bela. Astuta. Misteriosa. Só então se deu conta de que não sabia nada sobre a mulher à sua frente. E ainda assim, sentia que podia confiar nela.
— Por que me contou uma lenda sobre as fases da lua, Cana? – a loira perguntou curiosa.
— Toda lenda tem um fundo de verdade, Lucky.
— O que está me dizendo? O que essa história tem a ver com isso tudo?
— Esta é uma história antiga, mas é real. O filho da lua é real, uma criatura de carne e osso, e ele deixou descendentes...
— E... – falou num fio de voz, completando o raciocínio — Estamos em busca dos descendentes da lua.
— Nosso próximo destino: Ilha Galuna.
Fale com o autor