Massacre

8 Quem foi Martim MacCoy


Era uma tarde chuvosa, eu me encontrava sentado a pequena mesa de madeira no centro da cabana de Jason, Erick estava de pé olhando pela janela, observava as gotas de água caindo e deslizando sobre o vidro gelado. Foi um dia cinzento, Jason estava sentado a minha frente, sua Magnum brilhava sobre a mesa junto de seu chapéu. Luther estava deitado no chão, drogado, foi a saída que ele encontrou para tudo aquilo, usávamos ternos pretos, Erick havia nos emprestado alguns dentre os milhares que ele possuía.

Erick se virou e perguntou a mim se estávamos prontos, assenti com a cabeça, levantamos, ajudei Luther a se levantar, entramos na pick-up, Jason havia deixado seu chapéu e sua Magnum pela primeira vez, ele dirigia meu carro, fiquei no acento de trás junto de Luther que parecia não estar ali, fomos em direção ao cemitério da cidade, passamos pela escola onde vimos de relance alguns cartazes, velas, flores e fotografias dos alunos que matamos, estava tudo colado na porta, não senti absolutamente nenhum remorso tampouco arrependimento, mas com Martim era diferente, ele era um de nós. Estacionamos o carro um pouco distante do cemitério onde ocorreria o enterro daquilo que restou do corpo carbonizado de Martim, vimos de dentro do carro àqueles que pareciam ser familiares do baixista, estavam todos aos prantos, saímos do carro e seguimos as pessoas, Luther adormeceu completamente na pick-up, deixamos o viciado trancado lá dentro, dividíamos um guarda chuvas preto.

O caixão estava fechado, olhei para o tumulo de Martim e percebi que ao lado dele havia outro escrito “Lisa MacCoy”, os pais estavam chorando, foi então que eu percebi, estavam enterrando um filho pela segunda vez.

—Antes de me despedir completamente, queria dar algumas palavras em memória de Martim –Disse Erick

Os pais de Martim assentiram, ele se aproximou do tumulo e então começou seu discurso.

—Eu e Martim nunca fomos muito próximos, nos conhecemos na detenção da escola e em pouco tempo de conversa já entendia o que se passava em sua mente. Martim me disse que sua irmã mais nova havia morrido há mais ou menos um ano, vitima de um câncer no sangue. Muitos aqui não sabem, mas depois da perda de sua irmã ele passou a vê-la todos os dias, para ele Lisa não estava morta, segundo ele, sua irmã mais nova apenas lhe dava instruções, ele só queria faze-la feliz enquanto obedecia a suas ordens, missões que ele dava para si mesmo inconscientemente, tudo acontecia muito rápido dentro de sua mente, Martim amava sua irmã mais do que qualquer outra coisa nesse mundo e não aceitava o fato de perdê-la, de vez, mas tudo estava melhorando, ajudei Martim a aceitar os fatos aos poucos e mostrei para ele que a morte é algo natural e que mesmo que não aceitemos os fatos, vamos esquecer tudo um dia, Lisa será esquecida, Martim será esquecido e isso é algo que não podemos mudar. Talvez em algum momento nos lembremos de tudo que perdemos e de todos que matamos em nossas mentes com o esquecimento, mas isso somente quando já estivermos velhos e quando nossos queridos netos nos pedirem para contar uma história, são inevitáveis. Martim estava tomando alguns remédios e tudo voltava ao normal, aos poucos, mas... –Erick enxuga seu rosto inundado de lágrimas e continua seu discurso. –Mas na noite passada nós... Nós queríamos nos divertir um pouco, um de nossos colegas de escola dava uma festa, eu e Martim combinamos de ir juntos, apenas nós dois... –A família desabava enquanto Erick falava aquilo que eles queriam ouvir. –Ele estava tocando seu contrabaixo quando um garoto começou o incêndio na cozinha por acidente, o fogo logo se espalhou pela casa e tudo começou a desmoronar, algumas saídas ficaram interditadas e as portas estavam trancadas, Martim me ajudou a sair quebrando a pequena janela do porão, logo depois que eu sai ele disse que voltaria para resgatar mais alguns alunos, mas... mas logo em seguida tudo explodiu e... E o Martim ficou para trás! Eu não me lembro muito bem mas, sei que Martim morreu como um herói! –Erick e todos os familiares desabam em lagrimas e prantos, olhei para o lado e Jason olhava para o caixão friamente, ele segurava um crucifixo pequeno em uma das mãos, não sabia o que ele estava pensando, mas era como eu, não sentia nada por ninguém, olhei para o pai de Martim, era um homem baixo, magro como o finado filho, calvo, barba bem feita e óculos enormes, ele usava um terno preto e se encontrava abraçado com uma mulher ruiva, um pouco mais alta, usava um vestido preto e aparentava ser sua esposa e mãe do baixista esquizofrênico.

Erick finalmente terminou e começamos o enterro, a chuva já havia passado, olhei ao redor e só então percebi que metade escola estava sendo enterrada naquele dia, o cemitério estava cheio, todos com o caixão fechado, olhei para fora e vi um homem acompanhado de policiais, ele usava um sobretudo preto e terno por baixo, cabelos escuros para trás e olhos castanhos, aparentava ter uns 40 anos, parecia ser um oficial da policia, eles conversavam muito, o carro preto estava estacionado perto da pick-up onde Luther dormia.

–Vamos embora. –Sussurrei para Jason.

Ele assentiu com a cabeça, Erick nos acompanhou, fomos os primeiros a sair, entramos no carro.

—Quer dizer que Martim foi um herói? –Indagou Jason com um tom sarcástico.

–Apenas disse o que eles precisavam ouvir. –Respondeu Erick

Dei partida e parti em direção à cabana.

Chegando lá ficamos todos chocados, nos deparamos com a cabana em chamas, parei a pick-up rapidamente e descemos do carro, Jason correu para dentro na expectativa de salvar sua Magnum e seu chapéu, ficamos sem saber o que fazer.

–Que merda é essa?! –Erick gritava furioso.

–Me responde você! –Eu disse.

Dois impalas pretos estacionaram logo em seguida, saíram oito homens, todos de terno preto, Erick e eu tínhamos oito canos apontados para nós, não existia escapatória, a cabana estava em chamas, Jason pulou da janela quebrando-a e caindo bem a nossa frente, ele estava com sua Magnum na mão, se levantou e ficou paralisado como nós, ao mesmo tempo Luther saia da pick-up vomitando no chão, ele olhou para nós e olhou para os oito homens que estavam preparados para nos fuzilar.

–Gente, o que tá acontecendo?

–Cala a boca Luther! –Disse Jason.

Um dos homens se aproxima um pouco. –Erick, é agora ou todo mundo morre.

Erick estava com as mãos para cima e assim caminhou lentamente até um dos carros, ele entrou e assim que estava seguro abriram fogo contra nós BANG! BANG! BANG! BANG! Corremos para os fundos o mais rápido possível para os fundos da cabana, eles continuaram disparando, mas dessa vez contra a cabana na expectativa de que os tiros atravessassem as paredes de madeira que se encontravam totalmente destruída, ficamos abaixados, corri para a pequena garagem e peguei a motocicleta e a submetralhadora STEN de Jason.

—Luther, você fica aqui abaixado, Jason, consegue contornar a cabana com a motocicleta e acertar alguns?

—Acho que sim.

—Tudo bem, eu te dou cobertura!

Eles não paravam de atirar e atirar enquanto a cabana em chamas era o que nos dividia, um dos homens entrou no mesmo carro em que Erick se encontrava, dando partida e fugindo, Jason contornava a cabana e acertava aos poucos um por um, eles não faziam ideia de onde vinham os disparos, Jason não entregava sua posição o movimento era a seu favor, mas eles ainda podiam ouvir o ronco do motor ecoando pela floresta a fora, Jason havia deixado seu posto para seguir o carro que levava Erick, eu estava sozinho, Jason já acertara três, todos na cabeça, os outros quatro estavam por minha conta, tomei coragem e arrombei a porta dos fundos, eles usavam pistolas mas estavam em maior numero, a velocidade determinaria o vencedor, corri pelo corredor em chamas e minhas roupas logo estavam sendo consumidas pelo fogo mas o vento apagava as chamas lentamente, as balas passavam por mim mas não me acertavam, sem pensar duas vezes arrombei a porta da frente que se encontrava em chamas, completamente perfurada pelas balas sedentas por meu sangue, isso facilitou para que eu a destruísse, minhas expectativas eram baixas em relação a minha vitória naquele duelo divertido, fechei meus olhos e tudo aconteceu muito rápido, disparei sem pensar para todos os lados, o som dos tiros era ensurdecedor, eu não parei, fui sem hesitar.

Meus olhos estão fechados e a munição já acabou, abro-os lentamente e me surpreendo com os quatro mafiosos caídos no chão, o Impala não ficou em bom estado e a gasolina está vazando.

—Luther!

Ele deu a volta e também ficou surpreso vendo os corpos

—Cara, que merda aconteceu aqui?

Não soube responder no momento, pela primeira vez estava sentindo algo e era bom, uma estranha sensação de vitória e adrenalina, como quando estávamos lutando contra a Ku Klux Klan.

–Pegue sua espada, vamos matar todos... Pelo Martim! –Eu disse.

—Sim! Pelo Martim!

Luther me ajudou a jogar os corpos para dentro da cabana em chamas, todos queimaram.

Notas finais
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