Masquerade - Little Lost Soul
5 When Things Go Wrong For You
Notas iniciais
"Gelo tem uma mágica, não pode ser controlada
Mais forte do que um. Mais forte do que dez.
Mais forte do que uma centena de homens!"
Estou olhando para o céu. Já são quase 6h da manhã. A lua já perdeu seu brilho prateado, dando lugar a uma claridade tímida e rosada, que vem colorindo os contornos das nuvens pálidas. Sentada à varanda, não consegui dormir. O dia ontem, fora muito cansativo.
Olho para as costas de minha mão esquerda. O corte parou de sangrar, mas ainda há uma ferida neste lugar. Terei de usar luvas por um tempo. Hesitante, pego um pouco de algodão e limpo mais uma vez, ela ainda arde levemente. Enquanto faço isso, penso em tudo o que aconteceu anteriormente. É normal essa sensação de vazio? Acho que não. Levo à mão ao coração, ainda sinto-o bater. Mas por dentro, é como se fosse oco. As emoções, já não me abalam. Fecho os olhos, levando a mão, às têmporas. Minha cabeça dói pela noite sem dormir. Minha mente vaga, até o momento em que conheci aquele que mudaria tudo: Jack Frost.
O que aconteceu, fora muito errado. Mas por uma razão, não me sinto arrependida. Afinal, de que adianta fazer tudo o que é certo, se meu coração não está feliz? Bom, agora não tenho um coração para arrepender-se. Penso. mas algo, faz-me pensar nele mais do que apenas aquele com quem assinei o contrato, ou entreguei a alma e o coração. O toque dele é frio, sim. Mas me dá aquela segurança, que nunca tive. Toca partes, em meu íntimo, jamais alcançadas. Seu toque, carregado de desejo, me fez sentir que havia um lugar para mim, no mundo. E por todas as vezes, que achei ser só uma peça neste jogo, agora, eu era o centro de todas as atenções. De certa forma, ter um dono, que é a palavra mais correta para meu status atual, me assusta. Mas também, me dá uma sensação estranha, que jamais experimentei em toda minha vida. Por conta de minhas ambições, nunca dei valor ao amor. Nunca senti-me atraída por um homem. Nunca fui desejada, ou desejei tão intensamente. Ele é belo, sobrenatural e encantador.
Anna sempre fora uma garota apaixonada, sonhadora e sensível, e por isso, era facilmente correspondida. Minha pouca experiência e atenção que dava a isso, finalmente afloram, e não sei muito bem o que sentir.
Uma das garotas com quem divido o quarto, começa a se mover na cama. Olho no relógio. são seis em ponto. Corro até minha cama. Em cima dela, deparo-me com um bilhete. Ergo a sobrancelha. Abaixo-me, pego o pequeno papel entre os dedos. Ele é feito de um material desconhecido para mim. Um papel mais sofisticado. É frio, e percebo isso quando ele entra em contato com meus dedos. Tem uma coloração amarelada, como se fosse antigo. Está dobrado pelo menos três vezes. Por cima, há um laço azul escuro, selando-o e mantendo-o fechado. Com a ponta das unhas, puxo o começo do laço, desfazendo-o. Ele se abre, e cai suavemente no chão, sem emitir ruídos. Desdobro um, dois, na terceira, Deparo-me com um texto, escrito em prata, com uma caligrafia caprichada:
"Olá, minha amada.
Espero que tenha tido uma bela noite.
Esteja descansada, pois esta noite,
é muito provável que não durma direito hoje.
Com todo o respeito com a srtª, é claro.
Encontrarei-a antigo camarim.
Um ótimo dia.
Jack Frost."
Meu queixo caiu. Sinto minha testa franzida. Amasso o delicado papel, e guardo-o dentro do decote. Olho para os lados. O gongo do relógio indica o momento de levantar. Abro minha mala e procuro uma muda de roupas, sapatos e acessórios. Pego minha toalha e corro para o banheiro. Tranco a porta. Minha respiração está mais agitada que o normal. Retiro novamente o papel de dentro do sutiã. Percorro os olhos pelo papel, destranco a porta.
– Emília! — Exclamou, assim que ponho a cabeça para fora do banheiro.
– O que houve, Elsa? — Grunhiu sonolenta a bailarina de cabelos castanhos.
– Preciso de seu isqueiro! — A garota, que mal aguentava-se acordada, arregalou os olhos, levantou-se e correu até mim.
Antes que percebesse, estava sendo arrastada para dentro do banheiro novamente. Ela me encurralou contra a parede. Forçando o braço contra minha garganta, apertando o suficiente para que eu ficasse tonta, respirando minimamente.
– Do que está falando? — Sibilou. Um brilho maníaco no olhar.
– O... — Não conseguia falar, ou processar direito, sem ar. Ela folgou um pouco. — O isqueiro que você usa para...
– Fumar? — Sussurrou.
Assenti.
– Pra quê? — Perguntou.
– Eliminar provas. — Ela arqueou as sobrancelhas, mas não disse nada.
O aperto em minha garganta, cedeu. Ela virou-se de costas, os cabelos, um embaraço. Saiu do cômodo, seguida por mim de perto. Procurou pela cama, sua mala. Enrolada em uma toalha, havia uma bolsinha. Em um dos bolsos, havia uma carteira de cigarros, acompanhada de um isqueiro vermelho. Tratou de escondê-lo bem nas mãos. E eu sei o porquê: Era menor de idade. Fumar era proibido. Entramos no banheiro:
– Tome. — Passou discretamente o objeto de suas mãos, para as minhas.
Agradeci com a cabeça. Ia me virando para começar a eliminar o bilhete, quando senti dedos fortes fechando-se me volta de meu pulso. Era Emília.
– Se alguém descobrir... — Ameaçou, agitando os dedos com convicção à minha frente.
– Não contarei a ninguém! — Disse, puxando meu braço, fora de alcance. Ela relaxou a expressão e foi para o quarto.
Não fiquei para ver Emília derrotada pelo sono. Peguei o papel outra vez. Segurei-o na mão esquerda, entre o indicador e o polegar, apenas com a ponta. Com a mão direita, ascendi o isqueiro, uma chama se fez. Aproximei do papel, que pegou fogo. Vi este ser consumido. Por fim, larguei na pia. Abri a torneira, e as cinzas se foram, com a água fria. mais calma, virei-me para o box. Peguei uma liga, e prendi uma massa dourada de cabelos em um coque. Meus dedos, decaíram sobre a alça de minha camisola. Esta escapou por meu ombro. Fiz o mesmo com a outra. Logo, não restava um único tecido sobre meu corpo. Ia caminhando para o chuveiro, quando paro na frente do espelho. Resolvo olhar meu reflexo, nua. Eu sabia que não era feia de rosto, pois muitas garotas, inclusive Anna e Alicie, já haviam dito isto a mim. E até mesmo, alguns garotos. Lembro-me, corada. Nunca namorei, mas por decisão minha. Meus olhos percorrem por meu corpo. Eu era magra, meus seios não são exatamente pequenos, mas não tão grandes como os de Gretel. Minhas pernas são longas, e minha pele muito pálida. Enquanto fazia isso, lembrava-me de uma parte do acordo que havia feito com Jack "Dou-te fama e riquezas, em troca, quero teu sangue, corpo, alma e coração." Vendi meu corpo também, a ele?
Sem pensar nisto, entrei no banho. A água, descia por meu corpo, como que eliminando, não só os vestígios de sujeira, mas também de pensamentos ruins. Quando terminei, o sol já brilhava no céu. Voltei para o quarto, troquei de roupa, e fui para a frente do espelho, agora para ver somente meu rosto. Suspirei, passando um pouco de maquiagem, que delimitava-se apenas aos lábios e olhos. Logo, estava pronta. Desci para tomar café. Anna se juntou a mim. Passamos o dia livre, o ensaio seria só a noite.
Assim que terminei o jantar, fui para o salão, onde os bailarinos ensaiavam. Hoje, Gretel iria participar do ensaio. Mal posso esperar por isso. Começo a alongar-me. Olhar para a cara dela, me enchia de náuseas. Anna se juntou a mim, e começamos a ensaiar juntas, o que iríamos fazer na apresentação. Revesávamos, em quem seria o par, em quem faria o homem, que conduzia a dança. Era divertido. Por um momento, me esquecia de todos os problemas que tinha.
– Agora, querida! — Anna dizia, imitando ridiculamente a voz grave de um homem.
– Claro! — Gritei de volta. Corri graciosamente o quanto pude, e pulei, caindo nos braços da garota. Ela perdeu o equilíbrio, e nós duas fomos para o chão, explodindo em risadas. Algumas pessoas em volta, riam-se também. Descontraíamos a tensão do dia.
Pus-me de pé, ajudando Anna a levantar-se. Nós rimos, e ela caiu em meus braços, apoiando-se em mim, para tomar fôlego. Quando já estava um pouco melhor, ela endireitou-se, e olhou para mim. Por um momento, sua face estava alegre, e descontraída. Subitamente, encheu-se de azedume e tensão.
– Olha quem vem ali. — Indicou com a cabeça, por sobre meu ombro.
Virei-me, e me deparei com Swarovski, entrando com seu grupo de jovens bailarinas, encantadas com ela, prontas para servir-lhe.
– 'Dia! Exclamou, com um sorriso falso, para aqueles que despreza.
Houveram murmúrios, cumprimentando-a baixo, e alguns sorrisos amarelos, deixando claro o desconforto com a presença da mesma. Ela, porém, pareceu não notar.
Observei-a, desgostosa, locomover-se por entre os bailarinos, Com seu vestido longo, arrastando-se pelo chão. Ela parou diante de todos, assim como nós, esperando madame Russeau aparecer. Na hora marcada, ela chegou, cumprimentando a todos, inclusive Swarovski, educadamente. O ensaio começa, Nós, dançando ao fundo, Gretel cantando na frente, acima do palco, para uma plateia invisível. Algumas vezes, Anna ao meu lado, fazia imitações ridículas dela, ou algum comentário maldoso sobre a mesma, para me divertir. Parecia ter desenvolvido uma antipatia pela mesma, simplesmente por ter assumido um posto que deveria ser meu. Mais uma vez, desejei aninhá-la em meus braços. O ensaio segue.
– Intervalo! — Exclamou madame Russeau. Nos sentamos no chão, descansando os pés.
– Graças a Deus! — Exclamou Swarovski. — Minha voz está cansando. Preciso de água e um pano, para secar o suor. — Ordenou a última parte, ao vira-se para uma bailarina perto dela. A mesma correu, apressada, para atendê-la.
– Graças a Deus, eu digo! — Anna falou, ao meu ouvido. — Se ouvisse esta voz a meu ouvido por mais um minuto, desmaiaria.
Pus a mão à frente da boca, para que ninguém me visse rir. Olhei em volta, e me peguei pensando em Jack. Não sei por quanto tempo, pois quando me deparei, Anna já me puxava, para que eu ficasse de pé e retomasse o ensaio. Ficamos a postos, e começamos a dançar, ao som da voz de Swarovski. Entre as caretas de Anna, ria-me, e estava tão distraída, que nem notei, que todos haviam parado de dançar. Alguns levavam as mãos à boca. Outros riam-se em silêncio. Alguns, olhavam espantados a cena no começo do palco. Só então, percebi que o canto de Gretel havia cessado. Ela encontrava-se nos braços de um dois bailarinos, e tossia, exasperada. Alguns corriam, para abaná-la e socorrê-la.
– Alguém leve a srtª Swarovski para a ala hospitalar! — Ordenou madame Russeau. Bailarinos carregaram-na e e saíram com ela. O tumulto silenciou-se. Pessoas aflitas, olhavam umas as outras. Um monte de cochichos para todos os lados. — Silêncio! — Ordenou ela, e todos se calaram.- Bom, temos de retomar o ensaio. Alguém se candidataria para substituir a srtª Swarovski, apenas neste ensaio?
Todos se entreolharam. Mas ninguém pareceu ter coragem para candidatar-se. Anna olhou para os lados. Sua mão elevou-se no ar, arrancando a atenção de todos. Mas ela não se candidatou.
– A Elsa poderia, madame. — Ela disse, por fim, empurrando-me um passo a frente. Olhei para ela, em desespero, com uma legítima cara, que expressava "O que você está fazendo?"
– Srtª Arendelle, você se candidataria? — Russeau perguntou.
– Hã... Eu... — Hesitei.
– Sim! Ela vai! — Anna manifestou-se, interrompendo-me.
– Mas... — Supliquei.
– Ora, não seja boba, garota. — A senhora agitava as mãos, impaciente. — É apenas para o ensaio.
Relutante, fui para o começo do palco. Olhei, errante para trás. Anna piscava, feliz para mim. Assenti e fiz que sim com a cabeça. Abri a boca, e comecei a recitar a canção. Tinha consciência dos olhares colados às minhas costas. Olhei para trás uma vez. Ninguém parecia caçoar. Dançavam, como se não houvesse mudança alguma. Aquilo aliviou um pouco a tensão. Mais relaxada, cantei, um pouco mais forte, e decidida. Meu coração batia, bem vivo em meu peito. Afinal, era meu! Meu coração! Quando a música acabou, fechei os lábios, em um sorrisinho. Olhei para trás, e as pessoas haviam parado de dançar. Alguns riam e conversavam. Outros, limpavam o suor, e relaxavam os músculos. Mas alguns, olhavam para mim, e sorriam. Pareciam até abismadas. Eu não sentia nenhuma dor sequer. Meu corpo, estava tomado pela adrenalina. Corri para a Anna e a abracei, ela sorriu.
– Elsa, você estava incrível! — Exclamou.
– Obrigada. — Sussurrei.
– Sério, não achei que você era tão boa. Ninguém achava. — Apertei meus braços mais forte em volta de sua cintura.
Continuamos, assim, com ela parabenizando-me em meus ouvidos, até que disparou algo que me puxou para a realidade.
– Sabe que isto vai chegar aos ouvidos de Swarovski, né? — Assenti. — Pronta para entrar na lista negra da vadia? — Após dizer isto, levou as mãos à boca, como uma criança que diz algo errado. Não pude deixar de rir.
– Ela que se dane! — Disse, mais feliz que nunca.
– Minha garota! — Anna praticamente pulou em meu pescoço. Ficou por uns momentos afagando meus cabelos, e disse: — Este ataque de Swarovski veio bem a calhar, não?
– Sim... — Murmurei, distraída. Mas lago me chamou a atenção. Por que justo quando eu estava no ensaio? Por que justo naquele momento? Por que justo no dia anterior ao trato que fiz? Coincidência? Podia até ser, mas coincidência demais... "Frost!" Pensei. Larguei Anna, que me olhou confusa.
– Fique aqui, Anna! — Disse à ela. — Eu... já vou.
Com essas palavras, corri para a ala dos dormitórios. Nos corredores, algumas pessoas paravam-me para me parabenizar. Outras apenas queriam confirmar a verdade, rapidamente, respondia e as dispensava. Subi as escadas, chegando então, ao último lance. A temperatura era menor, e o caminho bifurcava-se a duas portas. Tomei o caminho esquerdo, rumava ao camarim abandonado. Abri a porta, esperando encontrá-lo como da última vez que o vi. Tomei um susto ao encontrá-lo totalmente diferente. Percorri os olhos pelo quarto, confusa, esperando entender o que havia acontecido ali.
Não estava mais escuro, mofado e desorganizado. Tudo estava lindo, limpo e perfeitamente em ordem. As poltronas, juntamente com o divã e a cama de casal, que antes eram sujos, mofados e rasgados, estavam impecáveis. O chão, brilhava, polido. Os espelhos, estavam brilhantes e não havia sinal de que um deles estiveram danificados. Não estava escuro, pois haviam velas, reluzindo em castiçais. A temperatura estava muito baixa ali, então abracei meus próprios braços, afim de me aquecer. Fechei a porta atrás de mim, e olhei para o chão, havia um pouco de neve sobre ele. Assim como a cama, sofá divã e tudo. Havia uma trilha de pétalas de rosas vermelhas, que iam da cama até uma pequena mesa, onde havia um vaso com rosas vermelhas. Ao lado delas, havia um papel, como o do bilhete. E algumas penas e tinteiros. Borrachas e lápis. Alguém havia desenhado algo ali. Cheguei mais perto para ver o que é. Era um belo desenho. Havia uma mulher, sentada na areia, estaria completamente nua, se não fosse por um pano, que caía sensualmente sobre seu corpo. Tinha o rosto voltado para a água da praia a sua frente. Banhava-se ao luar. Deixei que meus dedos roçassem o papel, contornando as linhas sombreadas. Era um belo desenho. Olhei seus traços, observando os detalhes. Deveria ter cabelos loiros, trançados, caindo sobre as costas. Assustei-me ao perceber que era eu. Algo tirou-me a atenção daquilo.
– Elsa Arendelle. — Olhei para o dono da voz. Jack, que abriu os braços, e um vasto sorriso para mim. — Bem vinda!
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