Maré Imprevisível
8 Um novo amanhecer
Acordei com uma claridade suave, devido a um céu nublado. Sentei-me com dificuldade. Todo meu corpo doía e, a cada movimento, meus músculos repuxavam, como se eu fosse me partir em mil pedaços. Para minha surpresa, já era de manhã. E, eu estava quase seca. Mas, naquele momento, nada disso tinha importância. Eu não sabia onde Henri estava e isso me preocupava. Ainda mais porque a última vez que o vi, antes de desmaiar, foi no meio da tempestade. Estremeci ao pensar que ele não teve a mesma sorte que eu. Por favor, isso não. Ele também, não. Comecei a olhar em todas as direções a sua procura, com o coração apertado. Quanto mais eu olhava, mais agoniada eu ficava. Não havia nenhum sinal dele. Fosse próximo às rochas ou à Praia do Farol.
Talvez ele esteja na Praia de Fora. Tentei me convencer. Mesmo que as chances fossem poucas. Com cuidado, desci da rocha e comecei a nadar em direção à praia. Depois, comecei a caminhar perto das rochas que a circundavam, procurando-o, indo para o lado esquerdo do Morro das Conchas. As ondas iam para essa direção... Caminhei mais um pouco, acompanhada apenas pelo som das ondas. De resto, o silêncio era total. Quase tangível. Por favor... De repente, um som me chamou a atenção. Parecia algo grande se movendo na areia. Será que.... Acelerei um pouco mais o passo e fiz a curva. Foi então que o vi, sentado, a não muitos metros de mim. Corri em direção a ele.
Henri parecia esgotado. Mas, assim que me viu, ele se levantou e veio em minha direção. Então, quando eu o alcancei, ele me pegou pela cintura, me levantando e girando. Depois me desceu e me abraçou com força, como se temesse me perder novamente. Abracei-o de volta, na mesma intensidade. Depois, quando nossos olhares se encontraram, foi impossível não notar o misto de alívio e alegria em seu rosto... Henri acariciou meu rosto e sorriu. Sorri de volta, feliz por ele estar bem. Então, ele me beijou. Um beijo tão apaixonado quanto da primeira vez. Enlacei os braços em torno de seu pescoço, enquanto ele me abraçava e me deixei levar pelo momento.
Mas, como tudo que é bom dura pouco, o momento logo acabou. O som de passos se aproximando nos deixou em alerta. Pelo som, era só uma pessoa. Ele me olhou e percebi que tínhamos a mesma dúvida, mesmo sem dizer nada. Quem será que está vindo para cá? Não demorou muito para vermos uma silhueta aparecer. As primeiras coisas que conseguimos notar, era de que se tratava de uma pessoa alta e magra. E, ao que parecia, era um homem. Pois usava uma camiseta e uma bermuda largos. Nossa.... Parece o..... Eu não estava acreditando. Comecei a me aproximar devagar, para ver um pouco melhor. Então, incrédula e surpresa, resolvi arriscar:
— Pai...? – Chamei com certa insegurança, até que consegui vê-lo com clareza. – Pai!
Corri, acompanhada por Henri. Então, meu pai também começou a correr em nossa direção, ignorando as esfoliações e ferimentos espalhados por seu corpo. Eu não acredito. Ele está vivo! Meu coração estava disparado e meus olhos ficaram cheios d’água. Como é possível?! Mas, embora estivesse descrente, deixei o pensamento de lado, assim que o alcancei. O importante é que ele está bem. Abracei-o com força, sentindo as lágrimas rolarem por meu rosto. Tiago me abraçou da mesma maneira, tão emocionado quanto eu. Então, as palavras escaparam quase em um sussurro:
— Fiquei com tanto medo. – Ele disse, acariciando meu cabelo. — Achei que tinha te perdido.
— Eu também.
Depois, quando nos soltamos, ele nos encarou. Primeiro eu, e depois Henri. Não com desaprovação. Mas, com gratidão. Então, ele estendeu a mão. Henri não hesitou em fazer o mesmo. Depois, os dois sorriram, como num diálogo mudo. A cena era muito rara. Não pude conter o sorriso de alegria e alívio. Não consigo acreditar. Parece que hoje é o dia dos milagres. Meu pai e Henri estão vivos, e estão se dando bem (pelo menos por enquanto); Ágata e os gêmeos se foram.... Tem como ficar melhor? Então, Tiago disse a Henri:
— Estou em débito com você.
— Era o mínimo que eu podia fazer por ela.
— Entendo... – Ele disse, virando-se para mim. – Sabe? Você fez bem em se arriscar para salvá-lo. Mesmo que me desobedecendo.
Rimos. Isso vai entrar para a história. É a primeira vez em dez anos que ele admite que estava errado. Mais um milagre. Henri ficou meio desnorteado, mas também levou na brincadeira. Afinal, que tipo de pai não proibiria sua filha de arriscar a própria vida? Eu finalmente entendia, agora mais do que nunca, que tudo o que meu pai estava tentando fazer era me proteger. Só que do jeito dele. E que esse podia não ser o melhor jeito. Mas, era o jeito dele. E ele fez o melhor que pôde.
Enquanto caminhávamos pela praia, eu só conseguia pensar no quanto tinha sorte. Pode até parecer estranho, vindo de alguém que foi perseguida, sequestrada e quase morreu. Mas, é a mais pura verdade. Afinal, por pior que tenha sido a tempestade, depois dela veio a calmaria. Do mesmo jeito que a maré trouxe coisas desagradáveis, ela as levou, deixando coisas boas. Então, tudo o que me resta e sempre me restará será mergulhar de cabeça nessa maré imprevisível.
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